UM CORPO A CORPO COM A VIDA

Márcio Paschoal é autor plural e de obra extensa – romances como SOFÁ BRANCO e ODARA, contos, biografias e reportagens. Uma obra permeada e marcada por característica um tanto escassa na literatura brasileira dos últimos 30 anos: o humor. Márcio, que foi foca na redação do lendário “Pasquim”, Conversa Com (A) Gente sobre humor, claro, mas também sobre suas referências, sua trajetória na literatura e no jornalismo e sobre suas relações com as personagens dos últimos livros, a biografia ROGÉRIA (Sextante, 2016) e o romance biográfico ainda inédito JOÃO ANTÔNIO E OS BEE GEES, homenagem ao grande autor paulistano do clássico do conto brasileiro, “Malagueta, Perus e Bacanaço”, que inventou a “escrita corpo-a-corpo com a vida”. A relação de mestre e aprendiz estabelecida entre os dois escritores nos últimos anos de vida de João Antônio é recriada sob a ótica ficcional do alter-ego de Márcio, um jovem desregrado, atormentado e viciado em sexo, num romance de formação pulsante, ao final bastante dramático, mas afetuoso e muito engraçado ao longo do caminho.

VB&M: Por que João Antônio? Conte-nos sobre a origem de seu novo romance, sobre sua relação com o escritor e como você chegou ao título com a referência dos Bee Gees.

MP: Conheci João Antônio no início dos anos 1990, apresentado por um amigo, funcionário do Banco do Brasil, antiga agência da rua Figueiredo Magalhães, em Copacabana. Havia lido seu livro de contos, “Malagueta, Perus e Bacanaço” e tinha me impressionado: uma literatura nova para mim, original e marginal. Me lembro que na época me identificava com seus personagens, sinuqueiros e geniais malandros. Ao ser apresentado a ele, disse do meu sonho em ser escritor e levei-lhe alguns textos para avaliação. Desde aquele dia, permanecemos em contato e, sempre que ele podia, nos encontrávamos. Era como se João tivesse me escolhido. Pouca gente sabia desses nossos encontros e conversas. O aprendiz e seu mestre. Talvez quisesse ter me adiantado uns segredos ou advertido para o inevitável, embora soubesse que só o tempo daria vazão àquele aprendizado. Foram quase seis anos de uma relação de cuja importância eu só iria me dar conta bem depois de sua trágica morte. João foi fundamental para minha carreira. Escreveu uma resenha do meu primeiro livro de humor na “Tribuna da Imprensa”, em 1995, e pouco antes de morrer, em 1996, preparava o prefácio para meu romance de estreia. No início da pandemia, pensei em homenageá-lo com uma biografia, mas preferi um romance biográfico. Sob a ótica ficcional do meu alter ego – um adicto em sexo, desregrado e atormentado aprendiz – procurei retratar os atos finais do escritor João Antônio, seus projetos inacabados e principais queixas e anseios na pele do melhor feiticeiro que conheci, na literatura e na vida. Quanto ao título do livro, a ideia surgiu de um encontro que tive na casa dele, vendo seus discos e me espantando de encontrar no meio da sua sofisticada coleção musical, um disco dos Bee Gees, com o Travolta na capa. Surpreso de ele gostar desse estilo discoteque, perguntei, e ele me explicou ser presente de admiradora, que nunca ouvira o disco e tinha a certeza de já detestar…rs. A partir daí a ligação do meu protagonista e os Bee Gees, que remetem às coincidências ficcionais na narrativa do romance, entrelaçadas com as histórias divertidas do João Antônio.

VB&M: Como você situa João Antônio no quadro da literatura brasileira?

MP: João teve sucesso logo de cara, no melhor estilo conto-reportagem, focalizando gente humilde, trabalhadores das periferias, mequetrefes e demais marginais de uma sociedade desigual. Em 1963, quando publicou seu primeiro livro, obteve um imediato resultado positivo de vendas. E, raro, também foi igualmente muitíssimo bem recebido pela crítica. Logo na estreia recebeu uma dupla premiação do Jabuti, como Autor Revelação e Melhor Livro de Contos. Abordar o universo da criminalidade, da violência, o submundo das drogas e da miséria urbana não era tarefa simples. Escritor de uma literatura que não quer ser enquadrada, defendeu o que ele chamou de escrita corpo-a-corpo com a vida. Se estivesse vivo, João Antônio iria sentir-se menos sozinho e abandonado com o espelho de sua gente sem beira nem eira. A periferia da cidade, que sempre sofreu com a segregação cultural em diversos níveis, ganhou mais representatividade atualmente. A literatura marginal está mais valorizada. Agora grupos de identidade periférica não são relacionados somente à pobreza ou violência. Saraus, feiras, oficinas e festivais de literatura reforçam o movimento. Nesse contexto, a importância da obra de João Antônio torna-se evidente, e surpreende que seu nome ainda permaneça tão negligenciado.

VB&M: JOÃO ANTÔNIO E OS BEE GEES, com toda sua imensa densidade dramática, tem passagens de rolar de rir, o que não é novidade na sua obra. Nos últimos 30 anos, o humor deixou de ser um traço forte da literatura brasileira. Como você analisa esse fenômeno?

MP: Na verdade, o humor levado a sério na literatura sempre sofreu um disfarçado preconceito. Clássicos como Quixote, Decamerão ou Megera Domada, para citar alguns, têm na linguagem do humor e da sátira sua base de crítica social. Na literatura nacional, o Brás Cubas de Machado, os contos de aprendiz do Drummond, O homem que sabia javanês do Lima Barreto ou os ensaios humorísticos de Campos de Carvalho são referências óbvias da força do nosso humor literário e o seu não proporcional reconhecimento. Talvez a explicação, que não se justifica ou se compreende, ainda resida no viés de menosprezo que comumente atinge esse tipo de narrativa. Os casos de Sérgio Porto e Aparício Torelly são mais que emblemáticos.

VB&M: Quais são suas grandes referências humorísticas na literatura universal?

MP: A fonte é inesgotável e pode ser encontrada em sutilezas ou em pequenas doses. Por exemplo, na peça que li recentemente “A gaivota”, de Tchekhov, autor reconhecido por sua dramaticidade, há as situações verossímeis e por vezes trágicas, mas que não nos impedem de reconhecer o humor presente e fluindo. Os personagens de Tchekhov sempre criam sua própria miséria, e aí se esconde o humor, por mais sombrio ou amargo que possa sugerir. As minhas referências na literatura de humor vão de Bukowski, Henry Miller e Oscar Wilde a Jean-Louis Fournier, Maupassant, Vargas Llosa, e tantos outros, sem esquecer o humor negro de Poe ou Michael Ende, o feminino e alterado de Maitena Burundarena, e também dos textos de cinema de Woody Allen, Mel Brooks ou do grupo inglês Monty Phyton.

VB&M: Sua vivência pessoal e seu aprendizado profissional no Pasquim – ainda tão jovem ao lado das feras Millôr Fernandes, Jaguar, Henfil e outros – estão presentes de alguma maneira no humor de sua atividade literária e sua obra.

MP: A escrita de textos de humor é pessoal e não costuma ser forjada ou ensinada. No entanto, a convivência com uma turma desse peso sempre vai gerar alguma forma de influência. No caso do Jaguar, ainda mais. Além de ter desenhado a capa e as ilustrações do meu livro de estreia (Cada Louco com a sua Mania), ele foi grande incentivador e conselheiro. E claro, companhia de copo e piadas. Mas tem o Caulos, o Nani, o Amorim, o Luís Pimentel…

VB&M: Mudando para o Márcio Paschoal biógrafo e autor de não-ficção, como você decide quem vai biografar? Quem são seus biografados?

MP: Minha primeira tentativa de escrever uma biografia foi com o Lobão. Na época ele andava afastado da mídia, eu o procurei e nos reunimos algumas vezes para discutir o tratamento do livro. Passado um tempo, ele optou por voltar a investir na música e achou que seria prematuro uma biografia, como se isso significasse o fim de sua carreira. Desistimos, de comum acordo. Já o meu primeiro biografado, o compositor e cantor maranhense João do Vale, foi mais por acaso. Seu filho, o produtor Riva do Vale, foi ao lançamento do meu romance. SOFÁ BRANCO (Record) e à noite sonhou que eu seria o autor da biografia do pai. Acho que a escolha sobre quem escrever depende de uma conjunção de fatores. Primeiramente, empatia com a obra e o autor. Depois, acesso a documentos, conhecimento e grau de relacionamento, possibilidade de investimento, entre outros. No caso da minha segunda biografia, da atriz, cantora e travesti Rogéria, aconteceu porque éramos amigos e vizinhos, ela me conhecia como escritor e resolveu se abrir e contar para mim a sua vida em depoimento.

VB&M: Qual foi o maior desafio da escrita de ROGÉRIA?

MP: O que quase ninguém sabe foi que combinamos, eu e Rogéria, que ela só teria acesso ao material escrito após sua publicação. Isso para evitar que o trabalho se transformasse apenas numa entrevista dirigida e uma biografia “chapa branca”, como dizem. A maior dificuldade foi tentar separar e identificar realidade e fantasia. Assim, além do depoimento dela, procurei pessoas-chave para darem seu testemunho. Outra particularidade foi o combinado de se evitar nomes de terceiros em algumas histórias mais íntimas. Se fosse colocar tudo e dar nomes… rs… Enfim, seguimos juntos, pois o que mais permeou nosso projeto e amizade foi a confiança recíproca. Acho que valeu a pena.