SOBRE O BRASIL QUE PODERIA TER SIDO FRANCÊS

O historiador Marco Morel é o mais novo cliente da VB&M e chega para a gente com um projeto fascinante sobre Napoleão Bonaparte e o Brasil, mais precisamente sobre os 16 planos de invasão do território brasileiro por suas forças militares entre 1796 e 1808. A coluna Narrativas e Depoimentos oferece em primeiríssima mão o que na verdade é ainda um esboço de Introdução dessa obra, referida na agência pelo seguinte título de trabalho: O DIA EM QUE NAPOLEÃO QUIS INVADIR O BRASIL: O APETITE FRANCÊS DE CONQUISTA ENTRE FINS DO SÉCULO XVIII E COMEÇO DO XIX. Autor de grande e variada obra de não-ficção, Marco Morel está munido de vasta documentação inédita de arquivos franceses militares e civis para compor um livro que será um banquete de História narrando episódios romanescos rigorosamente factuais como batalhas navais, conspirações impenetráveis e paixões diversas da condição humana. Ademais da contribuição historiográfica, seu texto como sempre envolvente de quem atua também como jornalista, além de professor universitário, não afugentará o leitor leigo. Uma obra de 14 livros sobre diferentes momentos brasileiros, de “O período das Regências” (Zahar) até “Corrupção, mostra a sua cara” (Casa da Palavra), cacifa Marco Morel para a escrita de uma narrativa com potencial de best-seller. No mercado editorial, Napoleão é tido como “velho vendedor de livros”, personagem caro e quase pop para o leitor brasileiro. Os 16 planos napoleônicos de invadir o Brasil e as especulações sobre o que esse país poderia ser caso um único dos projetos tivesse dado certo há de encontrar imenso público ávido dessa crônica surpreendente.

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Uma possível Introdução

Napoleão Bonaparte volta seu olhar de águia sobre o Brasil. No período de 12 anos (1796 a 1808) entre a fase final da Revolução Francesa e o desembarque da Corte portuguesa no Rio de Janeiro surgiram, pelo menos, 16 planos de invasão de território brasileiro. Miravam várias regiões no continente brasileiro, como então se dizia, da Amazônia ao Rio Grande do Sul, passando por Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Mato Grosso. Nenhum deles vingou. Iniciativas que partiam do aparato militar, político e empresarial expansionista francês. Algumas acompanhadas e estimuladas diretamente pelo chefe da Grande Armada e por dirigentes de seu Alto Comando.

Pouco se conhece desse apetite da conquista gaulesa sobre as terras brasílicas nos tempos de Napoleão I. Tais gestos, ganâncias e palavras, adormecidos há mais de dois séculos no Arquivo Nacional da França (Archives Nationales de France) e no Arquivo Histórico do Ministério da Defesa francês (Service de Documentation Historique du Ministère de la Défense), na maioria inéditos, emergem. Com eles, aparecem personagens curiosos e quase anônimos, pinçados no turbilhão da Era das Revoluções, com suas luzes e obscuridades. Como Madame d’Entremeuse (a sedutora contrabandista Joana Francesa), o capitão Antoine-René Larcher lutando pela Independência brasileira em 1797 ou o espião Joseph Marinier, que viajava a pé pelo litoral e enviava informações a Paris.O que dizer de um grupo de 600 jacobinos que pretendia tomar o Brasil de assalto? E, ainda, o poderoso almirante e chefe de esquadra Willaumez, homem de confiança de Bonaparte, insistindo para ocupar Pernambuco? As tentativas frustradas fazem pensar num Brasil que poderia ter sido, mas nunca foi. Cópula interrompida. A batalha que não houve.

Projetos napoleônicos de “expedição”, na aveludada linguagem oficial. Todos faziam parte do mesmo contexto de guerras que gerou (e foi gerado por) Bonaparte. Tênue limite com a pirataria dos mares, tráfico atlântico de escravos e conflitos em terra firme. Napoleão não estava sozinho. Universo e microuniversos. Sol, planetas e satélites. Bonaparte, com aura de Libertador e do alto de seu cavalo branco, tornou-se escravocrata e colonialista – o que aguçava sua voracidade brasiliana.

Como teria sido o Brasil napoleônico? Frango a marengo acompanhando galinha a cabidela sobre a mesa? Surgiria uma mistura entre feijoada e cassoulet? Entre cozido e pot-au-feu? Combinação de crêpe e tapioca? Rubro vinho Bordeaux ao lado da cristalina aguardente de engenho na hora do brinde? Açúcar de beterraba ou da cana? Bacalhau salgado substituído pela morue fresca? O churrasco na brasa cederia lugar à vitela à moda da Córsega? Tapeçarias de Gobelins tecidas pelas mulheres rendeiras? Predadores como águia imperial e carcará sertanejo saberiam partilhar o território? Ou quem sabe o Sena desaguando no rio São Francisco?… Num primeiro momento, a nova aquisição colonial continuaria escravista, exportadora e submetida a um regime liberal, modernizante e militarizado. Mas as transformações que poderiam decorrer de tal situação são incontáveis. Talvez nem viesse a existir o maior país da América do Sul.

Napoleão quis enviar uma parte de suas tropas para ocupar o Norte do Brasil, quando tentou reconquistar a ilha de São Domingos (Haiti), no Caribe, em 1802. Em 1806, um ano antes de invadir Portugal, o Imperador dos Franceses pensou em atacar primeiro o Brasil, de surpresa, indo direto ao Rio de Janeiro. Sonhou mesmo em ser um novo Conquistador das Américas, à maneira dos antigos navegadores portugueses e espanhóis. Mas os tempos e tempestades não ajudaram. O longínquo território brasileiro, exuberantes riquezas naturais, era peça crucial no jogo de xadrez entre as potências europeias, Grã-Bretanha e França. O mar nem sempre estava para peixe. O que não impedia o contrabando de valiosos produtos brasileiros chegar a Paris por caminhos sinuosos. Em revanche, o Brasil português invadiu a Guiana Francesa em 1809.

A França bonapartista foi se achegando: expulsou a Corte de Lisboa, guerreou pela Guiana (fronteira amazônica) e pelas colônias no Caribe, onde plantações ardiam queimadas por escravizados em rebelião. A Revolução do Haiti. Queimadas. A metrópole francesa possuía a Louisiana nos Estados Unidos e chegou perto do Canadá. Fez incursões em Buenos Aires. Os tentáculos de Bonaparte se avizinhavam da Terra Brasilis. Seus navios de guerra ziguezagueavam próximos ao litoral do gigante adormecido. Faltou dar o bote. Se dominasse o Brasil, Napoleão estaria mais perto de controlar o mundo. Vontade não faltou. Mas a Royal Navy, Rainha britânica dos Mares, também andava por ali. Isso tornava as coisas um pouco mais complicadas.

Trata-se de captar esse momento fugaz, mas intenso, do longo e incompleto dia em que Napoleão Bonaparte quis invadir o Brasil – onde a Independência não fora proclamada, nem a Corte portuguesa chegara. Logo depois desse período, surgiram outros projetos de invasão parcial pelos franceses, como a tentativa de libertar o ex-Imperador, prisioneiro na ilha de Santa Helena e levá-lo ao Brasil em 1817. No “sonho americano”, sempre acalentado e parcialmente realizado pelo César Moderno, haveria um grande império francês do Rio da Prata (Argentina) ao Canadá, incluindo Caribe, Golfo do México e uma fatia dos Estados Unidos. E com o Brasil no centro.

Alguns desses planos de invasão podem parecer extravagantes ou inviáveis para o leitor atual. Mas não se iludam, o mundo passava por mudanças até então impensáveis. Napoleão conquistou o Egito e foi até Moscou. Quem sabe avançaria no Brasil? Esse era o motor da máquina napoleônica: alcançar o impossível chão.

Desde o século XVI a França fez ocupações e ataques no território da América que se tornaria portuguesa, quando a gula europeia se deparou inicialmente com os índios antropófagos. “Aí vem nossa comida pulando!”, exclamavam os tupinambás. E ainda no século XVIII piratas oficiosos, como Duguay-Troin, deram bons sustos nos luso-brasileiros.  

Passado o fervor revolucionário e tendo falecido Buonaparte (como chamavam seus adversários, assinalando sua origem da Córsega e da Itália), alguns franceses continuaram de olho na Amazônia ou no Rio de Janeiro, tocados pela saga expansionista de conquistas de riquezas. E vieram outros projetos de invasão nos anos 1820-1830. Se oceanos e terras não foram presa fácil, quem sabe florestas e rios?…

Não bastava à França ter alcançado a eficácia de Pátria das Luzes, vitoriosa referência cultural e civilizatória. Mas, no final das contas, teve que se contentar com esse papel mesmo. Ou seja, conquistar corações e mentes. O que, convenhamos, não era pouca coisa. E se divertir com a peça teatral Jocko, le singe du Brésil (Jocko, o macaco do Brasil), sucesso da temporada parisiense em 1825. Talvez por coincidência, ano em que a França reconheceu oficialmente a Independência brasileira.