RACHEL BASSAN LÊ AYELET GUNDAR-GOSHEN

Rachel Bassan, a autora do comovente BELA DE ODESSA (Editora dos Editores), acabou de terminar em seu clube do livro “Despertar os leões”, de Ayelet Gundar-Goshen, escritora israelense bem publicada pela todavia. Amou e fez uma resenha para o blog da VB&M.

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Não levei mais de cinco dias para terminar “Despertar os Leões” (Todavia, 2020, 366 págs.), novo livro de Ayelet Gundar-Goshen, escritora israelense, 40 anos, roteirista e psicóloga, mestre em Psicologia Clínica pela Universidade de Tel Aviv, ganhadora de inúmeros prêmios internacionais. “Uma noite, Markovitch” (Todavia, 2018), seu primeiro romance, recebeu o prêmio Sapir de literatura israelense para melhor estreia.

A escrita de Ayelet é originalíssima. Um amigo escritor, que teve a oportunidade de ouvi-la no Museu Judaico de São Paulo mês passado, me disse ter constatado que ela escreve como fala, de forma clara, suave e abundante. Ela contou à plateia como se inspira para escrever seus romances: ”Penso com paciência, devoro poemas e presto muita atenção a tudo ao redor.” Concordo que a escrita de Ayelet muitas vezes seja abundante mesmo. Extensa, detalhada.

“Despertar os Leões” conta a história de Eitan Green, promissor neurocirurgião de um hospital de Tel Aviv. Por ameaçar denunciar seu mentor e ídolo pela prática de suborno, é sumariamente transferido para um hospital no interior, à beira do deserto. É casado com Liat, detetive da polícia, e tem dois filhos.

Uma noite, depois de longo plantão, Eitan decide relaxar antes de ir para casa. Pilotando o jipe recém comprado, dirige-se para uma trilha rural, naquela hora, completamente vazia. Eitan acelera, na estrada iluminada apenas pela lua, perdido em seus pensamentos. Pisa no freio bruscamente quando se dá conta que colidiu com algo surgido do nada à sua frente. Desce do carro e constata que atropelou um imigrante africano. Logo constata que não há salvação.

Com medo de relatar o incidente e enfrentar consequências criminais, temeroso por sua reputação e sustento, Eitan decide não olhar para trás, voltar para casa e fingir que o acidente nunca aconteceu. Mas a mulher que aparece no dia seguinte à porta de sua casa, entregando-lhe a carteira que não se dera conta de ter perdido, não deixará que ele se esqueça. Mais que testemunha do acidente, a mulher eritreia é esposa do morto. Eitan em pânico, a mulher tranquila. Ela está disposta a ficar em silêncio, mas por um preço. Não é dinheiro o que ela quer. O suborno é muito maior: ele deve prestar atendimento aos refugiados ilegais.

Eitan Green se defrontará com um pesadelo sem fim. O processo policial do refugiado atropelado acaba ficando nas mãos de Liat Green, sua esposa. Começa a ser tecida a teia de mentiras na qual ele se enreda.

Contar mais do que isso é spoiler. O final me desapontou – embora seja bem coerente com o que vemos na vida. Mas, sem dúvida, um romance sofisticado e palpitante. Um livrão!