PORQUE A VIDA NÃO SEGUE ROTEIRO

Pode-se dizer de Bia Nunes de Sousa, recém-contratada para dirigir o selo Vestígio, do Grupo Autêntica, que seja uma autoridade em literatura de não-ficção mais popularmente conhecida como de “autoajuda”. Com longa carreira na indústria editorial como tradutora, preparadora, revisora e mais de dez anos de experiência como editora de não ficção, com ênfase em autoconhecimento e alimentação, Bia já assinou a edição de mais de 150 livros. Formada em Direito pela PUC-SP e especializada em Língua Portuguesa e Literatura, depois em Gastronomia, História e Cultura, Bia CONVERSA COM (A) GENTE sobre seus projetos para a Vestígio e os novos ares que a literatura de desenvolvimento pessoal está ganhando no Brasil, lista os livros que a formaram como leitora e editora e define o que faz um bom livro de autoajuda: “É aquele que nos deixa com mais perguntas do que respostas quando terminamos a leitura; que nos estimula a buscar mais autoconhecimento, a mergulhar em quem somos e emergir em direção a uma existência plena, equilibrada, com prazer e dor na mesma medida. Porque a vida não segue roteiro. É tiro, porrada e bomba, mas também alegria e riso, e essa é a beleza da coisa toda, não é?”

VB&M: Há dez anos trabalhando com o que se convencionou chamar de “autoajuda”, quais principais tendências você vê para esse gênero atualmente?

BNS: Percebo que pessoas mais jovens, na faixa dos 25-30 anos, estão se abrindo mais para esse tipo de leitura, então, para atraí-los, é preciso ficar de olho em livros que ofereçam uma abordagem moderna para questões tradicionais. Elas querem ler sobre relacionamentos pessoais e profissionais, por exemplo, mas de um jeito que abrace as múltiplas formas de amar e trabalhar; querem discutir questões de saúde mental para além da teoria, sempre com acolhimento e empatia.

Na outra ponta, temos pessoas que estão lidando com uma longevidade inédita e buscam leituras que estejam em sintonia com esse momento, para o qual elas não foram preparadas, pois as gerações anteriores não viviam tanto – ou pelo menos não viviam com a qualidade e o bem-estar possíveis hoje.

VB&M: Você concorda que exista um movimento consciente ou inconsciente de revalorização da literatura ensaística de aperfeiçoamento pessoal?

BNS: Sim, e a palavra-chave aí é “ensaística”. Tem muita gente pensando e estudando a sério formas de viver melhor física e emocionalmente. Muitas vezes, esses pensamentos se tornam relatos de experiências pessoais e profissionais que aproximam o autor de seus leitores, humanizam o livro, mostram que quem escreve é gente como a gente, alguém com abordagens diferentes para angústias parecidas com as nossas. Outras vezes, se tornam livros que ensinam a aplicar na prática, no dia a dia, uma teoria científica. Seja como for, a diferença crucial dessa abordagem da literatura de autoconhecimento é não ser prescritiva, e sim informativa. Tem que gerar debate de qualidade.

VB&M: Assumindo agora o selo Vestígio, o que tem em mente para esse catálogo? Quais os principais planos?

BNS: Quero publicar livros que ajudem o nosso público a compreender melhor a si mesmo, os outros e os constantes movimentos do mundo à nossa volta. Nessa seara, já contamos com o best-seller TALVEZ VOCÊ DEVA CONVERSAR COM ALGUÉM, um livro excelente que adquirimos através da VB&M, e estou em busca de mais.

Nosso foco são os livros que tragam o conhecimento acadêmico e científico para o dia a dia, que expliquem as nossas dores com embasamento e empatia, que apontem caminhos possíveis para nós, meros mortais que não temos a vida perfeita das redes sociais. Quero que as leitoras e os leitores usem filosofia, psicologia, neurociência, sociologia, antropologia e outras áreas do conhecimento para lidar com seus desafios pessoais e profissionais. É nessa linha que vou caminhar. As demais linhas editoriais da Vestígio continuam nas boas mãos do meu colega Eduardo Soares. Nossa equipe ainda conta com Alex Gruba, e estamos todos sob a batuta de Arnaud Vin e Rejane Dias, nossos publishers.

VB&M: O que define um bom livro de autoajuda?

BNS: Para mim, é aquele que nos deixa com mais perguntas do que respostas quando terminamos a leitura; aquele que nos estimula a buscar mais autoconhecimento, a mergulhar em quem nós somos e emergir em direção a uma existência plena, equilibrada, com prazer e dor na mesma medida. Porque a vida não segue roteiro. É tiro, porrada e bomba, mas também alegria e riso, e essa é a beleza da coisa toda, não é? Não posso prometer aos leitores e às leitoras uma manual para lidar com as surpresas e os imprevistos, porque isso não existe; não tem resposta pronta nem fórmula mágica. Mas posso garantir: cada livro que eu publicar vai ser mais um tijolinho nessa estrada de autoconhecimento, que pode ser um caminho árduo, mas é sempre muito recompensador.

VB&M: Quais são, para você, os cinco melhores livros de desenvolvimento pessoal e bem-estar publicados no Brasil?

BNS: Tenho um carinho especial por TALVEZ VOCÊ DEVA CONVERSAR COM ALGUÉM, da terapeuta Lori Gottlieb, um livro transformador. Gosto muito também de “Faça acontecer” (Companhia das Letras), da COO da Meta (antiga Facebook) Sheryl Sandberg, sobre os desafios que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho. Tem um livro muito simpático que tive a oportunidade de editar chamado “Mindfulness para o dia a dia” (Alaúde), de Jan Chozen Bays, que ensina a estar mais presente e atenta no cotidiano. Mais antigos, “O livro do significado da vida” (Gente), de Daniel Klein, e “Como ser existencialista” (Alaúde), de Gary Cox, são dois bons exemplos de aplicação prática de uma filosofia que pode parecer complicada, mas não é, e explica muita coisa. Não sei se são os melhores do Brasil, mas são os que daria de presente para uma amiga.

VB&M: Conte-nos sobre sua leitura de THE ZEN OF THERAPY. Quando a Vestígio lançará esse grande livro de Mark Epstein?

BNS: Muito em breve! Estamos preparando uma edição bem caprichada desse livro para o público brasileiro. Mark Epstein é um excelente terapeuta, que aplica seus estudos do budismo no tratamento dos pacientes. É uma abordagem diferente, vai além dos manuais de psicologia e traz uma luz diferente para nossas ansiedades.

VB&M: O que a levou a se especializar nesse tipo de literatura?

BNS: Nem todo mundo sabe, mas sou advogada de formação. Na prática do Direito, que exerci por quase sete anos, o que eu mais gostava era a área de família e sucessões (inventários, testamentos, separações, divórcios) porque sentia que ali eu podia fazer a diferença, podia ajudar as pessoas a resolverem questões materiais enquanto passam por severos desgastes emocionais. Acho que vem daí minha vontade de difundir conteúdos que contribuam para ampliar o diálogo e minimizar atritos.

VB&M: Que outra literatura você gosta de ler?

BNS: Sou fascinada pelo tema da alimentação. Durante muitos anos, além dos livros de autoconhecimento, editei culinária e gastronomia e aprendi que a comida é uma lente para olharmos o mundo. Comer é um fenômeno social que atravessa todas as instâncias da nossa vida, tem a ver com identidade, cultura, política, economia, diz muito sobre quem somos tanto individualmente quanto em sociedade. Mas também gosto de romances, em especial se for uma história de gente comum com dilemas parecidos com os meus.

VB&M: Quais os livros mais relevantes para sua formação pessoal e profissional?

BNS: Mais do que os livros, o que mais contribui para a minha formação é o convívio com profissionais experientes, essa gente generosa que compartilha comigo o que aprendeu em anos e anos de atuação. Mas vou citar três livros de que gosto muito.

Me lembro de ter lido “O negócio do livro” (Record) logo no começo da carreira e ter ficado admirada com a descrição que Jason Epstein faz do cenário editorial estadunidense. Gostaria que nosso mercado pudesse se profissionalizar a esse ponto, movimentar valores da mesma ordem de grandeza.

Já o volume sobre Jacó Guinsburg, da coleção “Editando o editor”, me mostrou os bastidores da criação da Perspectiva, uma editora pela qual tenho o maior respeito.

Por fim, recentemente, li “Impresso no Brasil” (Unesp), que reúne ensaios sobre diversos momentos da produção editorial brasileira. Acho importante conhecer a história do nosso mercado e entender sua evolução para pensarmos o futuro.

Do lado pessoal, destaco algumas leituras da infância e adolescência: os livros da Stella Carr, “O menino do espelho” e “Encontro marcado” (Record), de Fernando Sabino, assim como “Outsiders: Vidas sem rumo”, de Susan E. Hinton, que li na edição da Brasiliense, e os contos de Lygia Fagundes Telles. Foi com eles e por causa deles que me tornei leitora.