OBRA QUE TRANSGRIDE E INTERROGA

Aos 32 anos, Felipe Franco Munhoz já é reconhecido como uma das mais experimentais e consagradas — vozes da literatura brasileira contemporânea. Entre seus admiradores e interlocutores estão Caetano Veloso e o grande dramaturgo britânico Tom Stoppard; e entre suas referências, Roth, Goethe, Púchkin, Beckett, Dickinson… Nesta Conversa Com (A)Gente, ele reflete sobre sua obra, sua trajetória, as referências (muitas e excelentes) que permeiam sua literatura e sua vida e os processos de sua escrita. Um bate-papo profundo e elucidador da mente por trás de obra tão instigante e genial como a de FFM, em suas próprias palavras, “a transliteração da liberdade que existe em tanto carregar quanto projetar mais pontos de interrogação do que de exclamação”.

VB&M: Como você chegou à mescla de teatro, poesia e prosa, tão unicamente sua, para contar suas histórias e construir sua literatura?

FFM: Talvez, pensando em prováveis influências, seja um reflexo de certo interesse contínuo por leituras variadas: sou, por exemplo, um leitor habitual de peças de teatro (gênero tão fascinante e, em contrapartida, tão destinado com frequência a prateleiras praticamente secretas). Talvez, pensando em plano mais amplo e coletivo, seja um dos frutos de pertencer à geração que viveu, durante a adolescência (que é uma fase de transição), a transição do planeta do walkman de fita cassete para o planeta das mensagens imediatas, hiperconectado: uma geração que talvez tenha perdido o objeto bússola e recebido, no lugar, de repente, um gigantesco dédalo invencível – criador de veredas e de becos a cada segundo. Talvez, pensando na proposta literária em si (que tenta arquitetar, no texto, além do arco e da flecha, o alvo, mas permite que a trajetória da flecha ocorra com desvios ou no escuro), um dos componentes estéticos seja a ideia de representar essa bússola extraviada / esse labirinto metamórfico. E talvez seja (reunindo as hipóteses prévias e, ao mesmo tempo, lançando novas e infinitas), a transliteração da liberdade que existe em tanto carregar quanto projetar mais pontos de interrogação do que de exclamação.

VB&M: Seu último livro, LANTERNAS AO NIRVANA, traz de volta o estranho ritmo silencioso da pandemia (perdoe o oximoro). Por que lhe pareceu importante retomar o trauma da Covid para tratar de seus temas de sempre em torno do abismo da vida e da existência?

FFM: Apesar da busca, em minha literatura, pela constante configuração de uma estética radical, bastante focada na forma, procuro construir o palco do texto sobre territórios do mundo contemporâneo, mundo incontrolável, que pulsa, que se altera, que agoniza – e é evidente que o trauma da Covid, para todos nós, foi um acontecimento recente de extrema importância; e, sim, provocador de estranhos ritmos silenciosos: imprimindo partituras repletas de ecos, de vãos, de repetições abafadas, de pausas angustiadas, de sustenidos violentamente assassinados. Provocador de estranhos ritmos silenciosos: enfatizando o choque entre velocidade de informação e incomunicabilidade interpessoal, enfatizando o aspecto efêmero que já pautava determinadas experiências, enfatizando confrontos ideológicos e desigualdades sociais. Desconfio que seria inevitável, portanto, que, cedo ou tarde, a temática pandêmica fosse uma temática abordada.

VB&M: IDENTIDADES é o Fausto de Felipe Franco Munhoz, ambientado no século 21, em São Paulo. O que você quis dizer com esse livro a respeito do tema da identidade, tão caro a tantos grupos sociais nos dias de hoje?

FFM: Em IDENTIDADES, os protagonistas estão passando por transformações físicas e emocionais: Fausto deseja trocar de sexo (o falso pacto, no início, e o possível pacto verídico, ao final, giram em torno de tal desejo – Fausto nasceu homem em corpo de mulher); Suposto Mefistófeles, por sua vez, lida, no corpo, com o crescimento de tumores (derivados de uma doença genética de transmissão hereditária); e Camila, namorada-noiva de Suposto Mefistófeles, engravida (e prova, então, o dilema de ter o filho ou fazer um aborto). Mas, ao escrever, não ponderei acerca da ressonância do tema em qualquer grupo social, nunca pondero: um dos meus objetivos é investigar, dentro da ficção, o ser humano em suas mais diversas possibilidades de apresentar emoções, atitudes, percepções; outro, encontrar a linguagem adequada para cada situação. As identidades do título, portanto, são também – sobretudo? – identidades na expressão da língua portuguesa.

VB&M: MENTIRAS é inspirado pela obra de Philip Roth. Quais outras referências literárias podem ser observadas, talvez menos explicitamente, na obra de Felipe Franco Munhoz?

FFM: MENTIRAS abrange, além da obra do próprio Philip Roth, todo um universo rothiano: Bellow, Conrad, Kafka etc. IDENTIDADES está vinculado ao mito fáustico: li, como pesquisa (e citei, implicitamente, no livro), os Faustos de Goethe, Marlowe, Thomas Mann etc. LANTERNAS AO NIRVANA é menos preestabelecido, mas, no desenho mental que visualizo, as maiores referências são Tchékhov, Beckett, Emily Dickinson; e Púchkin, poeta que eu estava traduzindo na época – e deixei que sua proposta métrica (alternando sílabas fracas e fortes, alternando terminações paroxítonas e oxítonas) invadisse um pouco aquela produção. Em todo caso, utilizo referências sem qualquer receio. O personagem Felipe, de MENTIRAS, diz para Thaís (e era mentira) que teria vivido um romance em Praga com Alice, personagem da peça Rock ’n’ Roll, de Tom Stoppard. O poema Herança, de IDENTIDADES, é uma variação de [i carry your heart with me(i carry it in], de e. e. cummings. Estão inscritas, no poema No aguardo, de LANTERNAS AO NIRVANA, uma epígrafe de Montaigne e uma de Billy Joe Shaver. Inúmeras passagens assim, dos três trabalhos, poderiam ser mencionadas. O mais importante para mim, de qualquer modo, é que se há referência em determinado contexto, essa referência deve auxiliar na composição da atmosfera planejada. E isso é sempre raciocinado; há, porém, o que não se consegue, de maneira alguma, captar, que são as influências não convertidas em referências: que se teletransportam da prosa de Herta Müller aos poemas de João Cabral, das letras de canções de Jason Isbell aos fragmentos sáficos.

VB&M: Quais leituras da infância à vida adulta o levaram à escrita?

FFM: Fui uma criança viciada em leituras várias, mas o que me conduziu à escrita, mesmo, foi a vontade de, na adolescência, escrever letras de canções. É claro que o envolvimento precoce com a literatura fez com que na adolescência eu estivesse mais à vontade para primeiras incursões, por exemplo, em textos de Marx e Nietzsche, fazendo com que, na sequência, eu mergulhasse, curioso, em Borges e García Márquez (e acabasse me apaixonando pela ficção). Arrisco afirmar, no entanto, que as letras de Chico, de Caetano, Cálice, Sampa, foram o verdadeiro anzol da língua portuguesa, que me fisgou. É curioso: eu tinha doze, treze anos e já passava as tardes, nos contraturnos da escola, escrevendo canções (escrevi dezenas e dezenas de canções), jogando palavras para lá e para cá o dia todo – vinte anos depois, jogar palavras para lá e para cá o dia todo, em processo de elaboração e reescrita, consolidou-se como minha profissão: como se quase nada tivesse mudado; na verdade, é muito esforço: desde muito cedo.

VB&M: Apreciado e publicamente elogiado por nomes canônicos da criação como Caetano Veloso e o grande dramaturgo britânico Tom Stoppard, qual balanço você, aos 32 anos, faz de sua carreira literária e quais novos rumos gostaria de lhe imprimir?

FFM: Ter leitores tão qualificados para o meu trabalho – e, muitas vezes, alguma interlocução – é um privilégio: uma alegria. Acredito que esse trabalho segue em trajetória ascendente, crescendo livro a livro, explorando mais e mais a linguagem e as estruturas narrativas. Junto com Marx, Chico, Nietzsche e Caetano (desde sempre, as referências entrelaçando-se ecléticas e aleatórias), o universo underground, punk, foi também fundamental em minha formação; e não duvido que venha desse universo algum impulso de agir, na arte, contra o convencional. Mas o principal balanço que posso fazer é que meu terceiro livro, LANTERNAS AO NIRVANA, rotulado como transgressor, de vanguarda, complexo etc., com um quadrado preto de Malevich em uma página, com trechos em idiomas estrangeiros, com caracteres chineses flutuantes, foi publicado por uma grande editora, comercial, sem que nada em seu conteúdo precisasse ser modificado para que isso acontecesse. É uma pena que eu não posso regressar ao pretérito e mostrar o LANTERNAS AO NIRVANA para o adolescente punk de vinte anos atrás. E é igualmente uma pena que o Felipe do futuro não pode regressar ao pretérito e dizer, aqui, quais rumos serão impressos – porque este não sabe responder.

VB&M: Você está trabalhando em algum novo projeto literário no momento?

FFM: Sempre. 25 horas por dia. Estou, por enquanto, burilando um pouco mais o relacionamento de dois personagens que já apareceram em livros anteriores: Suposto Mefistófeles e Alma. Ainda muito inicial e indeterminado, entretanto.