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The Center for Fiction anuncia sua lista de finalistas para o prêmio 2016 de melhor romance de estreia. Entre 25 títulos está THE CASTLE CROSS THE MAGNET CARTER, de Kia Corthron, um épico da história norte-americana narrado a partir de dois pares de irmãos, brancos em Alabama, nascidos sob a égide da Klu-Klux-Klan, negros em Maryland, que carregam o legado de uma avó linchada. A narrativa começa em 1941 e vem até o século 21 cobrindo todo o movimento pelos direitos civis nos EUA.

http://centerforfiction.org/awards/the-first-novel-prize/2016-first-novel-prize-long-list/

Os acontecimentos da última semana – com os protestos em todo o país contra a violência policial contra os negros e a chacina de cinco policiais brancos por um veterano do Afeganistão – dão tragicidade ainda maior ao romance, forte candidato ao título de “great American novel” nestas primeiras décadas do século, que insistem em revelar os EUA como um país partido. As críticas são consagradoras.

VB&M representa a obra para a Seven Stories Press. Kia Corthron é conhecida dramaturga, com 15 peças produzidas nacionalmente e internacionalmente, e roteirista da aclamada série de TV The Wire. Super premiada com seu trabalho nas duas áreas, teatro e TV. THE CASTLE CROSS THE MAGNET CARTER é seu primeiro romance e foi muito aguardado.

Depois de assistir a “Paulina”, no Estação, sábado dia 9 de julho, Anna Luiza foi dar nosso clássico cheque na exposição de livros VB&M na Travessa de Botafogo. Ficou satisfeita com a visibilidade de Martha Batalha, com A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO (Companhia das Letras); de Edney Silvestre, com WELCOME TO COPACABANA (Record);  de Miguel Sanches Neto, com A BÍBLIA DO CHE (Companhia); de Alberto Mussa com OS CONTOS COMPLETOS (Record); de Raphael Montes com DIAS PERFEITOS (Companhia); e de Betty Milan, com A MÃE ETERNA (Record).

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A exposição do Chico Azevedo foi motivo de especial alegria, porque não era só O ARROZ DE PALMA a figurar com destaque. Também muito bem exposto estava DOCE GABITO, um dos romances mais injustiçados da safra recente da literatura brasileira, que somente agora, quatro anos depois de publicado, começa realmente a deslanchar. A essa altura, o ARROZ, de 2008, já se tornou um clássico com mais de 50 mil exemplares vendidos e saindo cada vez mais do estoque da Record.

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De estrangeiros, ela encontrou bem colocados QUANDO FINALMENTE VOLTARÁ A SER COMO NUNCA FOI (Valentina), de Joachin Meyerhoff, a história do filho de um psiquiatra que é criado entre loucos de um hospício, e PAPEL DE PAREDE AMARELO (José Olympio), de Charlotte Perkins Gilman, um clássico da literatura feminista americana, que conta a vida de uma mulher praticamente mantida em cárcere privado pelo marido, no final do século 19.”

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Sérgio Abranches reflete neste artigo sobre o perturbador Brexit e as eleições espanholas. Que medo, esse mundo.

Absolutamente imperdíveis para quem ambiciona se não entender a contemporaneidade, pelo menos pensá-la com conceitos claros e alguma objetividade, esses artigos do Sérgio dão bem o tom do que será O COMPLEXO DE PROMETEU, seu ensaio seminal a sair no início do próximo ano.

 O voto no Reino Unido e na Espanha, sociedades divididas e perplexas

Sérgio Abranches

O referendo no Reino Unido e as eleições gerais na Espanha além de serem decisões históricas, são indicadores das contradições de nosso tempo. Eleições divididas, que nada resolvem, aumentam a incerteza e a perplexidade. Estão no limite de validade da democracia tal como a conhecemos. O desencanto dos cidadãos com a democracia pela qual não se sentem representados é um dos principais desafios civilizatórios do século XXI. Sem o regime de liberdades, os princípios republicanos da igualdade na lei e da fraternidade/solidariedade, não teremos como atravessar com sucesso essa longa transição que está mudando globalmente paradigmas econômicos, sociais, políticos, científicos e tecnológicos e os padrões comportamentais. Mas a democracia representativa assegura menos liberdade que no passado, já não acredita na igualdade na lei e perdeu a solidariedade. Ficou mais curta que a sociedade que com ela se descontenta.

O voto britânico a favor da saída da União Europeia foi um retrocesso na trajetória do próprio Reino Unido. A partir da Londres mestiça, cosmopolita, aberta, buscando ser inteligente, sustentável e democrática, que acaba de eleger um prefeito muçulmano, o Reino Unido caminhava para ser um país mais integrado às tendências transformadoras da fase avançada da globalização. Com a saída, retorna à trilha do isolamento que o separa do continente e das vanguardas da mudança global. Na Espanha, a divisão revela uma sociedade que ainda dá ligeira maioria para os lados esquerdo e direito de um sistema partidário analógico que perde representação e relevância. Mas, uma parte nada desprezível dos eleitores preferiu os novos da política que nasceram nas ruas mobilizadas pela indignação e pela esperança e se consolidaram nas redes sociais, reunindo a praça física e o espaço digital. Essa nova Espanha, jovem, cosmopolita e digital conquistou um terço das cadeiras.

A escolha dos britânicos foi recebida com um sentimento misto de sobriedade e preocupação. Só depois de apurados os votos incertos, revelando maioria mínima pela Brexit, todos se deram conta da gravidade e do alcance da escolha majoritária. Agora, o sistema político e a sociedade terão que buscar a melhor forma de dar consequência a uma decisão sobre a qual nenhum segmento, exceto os da extrema-direita nacionalista, tem convicções firmes. A opção pela saída da União Europeia já teve consequências. Reabriu o dissídio com a Escócia, que pode rumar para  a secessão. Os escoceses têm toda razão. É muito melhor ser uma nação independente e parte da federação europeia, do que um súdito menor do Reino Unido. A Irlanda do Norte pode seguir na mesma direção. Os dois países votaram majoritariamente pela permanência. As preferências dos dois se mostraram o avesso das preferências da Inglaterra e do País de Gales. Os dois principais perdedores do referendo britânico foram a Londres mestiça, um dos mais avançados exemplos de cidade cosmopolita e transcultural — como Toronto e Vancouver, no Canadá — em sintonia com as tendências do novo tempo; e a City, um dos centros do capital financeiro globalizado,  que exerce a hegemonia do sistema econômico global. O referendo é um flagrante das perturbações e confusões dessa grande transição global, na qual o mundo que conhecemos perde força e capacidade de mobilizar, empregar, representar e o mundo emergente, não está maduro ainda para oferecer respostas eficazes que acomodem os interesses repelidos pelas velhas estruturas, ou que delas se apartam.

A eleição espanhola reproduziu, com ligeiras alterações, a mesma divisão que deixou o país seis meses sem governo. As escolhas do eleitorado também expressam esse entrementes da transição, no qual velho e novo convivem desarmônicos e em trajetórias inversas. Os conservadores do PP, liderados por Mariano Rajoy, fizeram 39% das cadeiras do parlamento. Os socialistas do PSOE, liderados por Pedro Sánchez, conquistaram 24% dos postos parlamentares. Os dois representam a velha estrutura partidária, hegemônica desde que os Pactos de Moncloa, de 1977, estabeleceram as bases para a democracia na Espanha sob a monarquia parlamentarista. Juntos, controlam ainda 63% da representação parlamentar, mas não têm condições de formar uma coalizão de interesses da velha ordem. Sánchez diz, com razão, que a missão do PSOE é evitar um governo com Rajoy no comando. A terceira força, com 20% das cadeiras no parlamento, é o Podemos, vindo direto dos lados esquerdos das ruas indignadas. É liderado por Pablo Iglesias. A quarta força parlamentar é o Ciudadanos, ou Cs, partido liberal-conservador, expressão das novas classes médias, também nascido nas ruas. Fez pouco menos de 10% das cadeiras.

Uma coalizão dos velhos conservadores com os novos, ainda não teria a maioria. Seria necessário trazer para a aliança algumas legendas nanicas. Mas a maioria delas representa segmentos regionais, em grande medida avessos a Rajoy. Uma coalizão da velha esquerda, representada pelo PSOE, com o Podemos ainda precisaria do apoio de duas legendas da esquerda catalã, a ERC (Esquerra Republicana de Catalunya) e a CDC (Convergència Democràtica de Catalunya). Mas elas não confiam em Sánchez, do PSOE. Este, por sua vez, não confia em Iglesias, do Podemos. Por isso, na sua tentativa fracassada de formar um governo, antes dessas últimas eleições gerais, cometeu o erro fatal de preferir o Ciudadanos ao Podemos.

Então, é assim: Sánchez não confia em Rajoy, nem em Iglesias. Iglesias rejeita Rajoy e não confia no líder do Ciudadanos, Albert Rivera, que também não confia nele. As legendas menores, por sua vez, desconfiam de Rajoy e de Sánchez.

Esse confronto entre forças poentes e forças emergentes, de todos os matizes, tende mesmo ao impasse, dificultando o jogo político. A saída “óbvia” seria a grande coalizão, reunindo os dois partidos analógicos, até recentemente hegemônicos. Mas a desconfiança que nutrem pelos novos não supera as rivalidades que se cristalizaram ao longo de quase quatro décadas de adversariedade bipartidária. Eles continuam representando interesses antagônicos, todos incrustados na velha ordem. Os “novos” partidos digitais, que têm existência na ciberesfera, nas redes sociais, tão intensa quanto na sociedade, ainda representam interesses difusos e heterogêneos, de segmentos que estão sendo expulsos da economia em retração estrutural e de setores emergentes, que ainda não têm espaço próprio nas novas estruturas socioeconômicas em formação. Representam a mescla entrevista por Manuel Castells, quando fala nas redes de indignação e esperança. A indignação dos que estão sendo deslocados dos mercados e das posições que detinham na sociedade e na economia em ocaso. A esperança daqueles que nasceram digitais e que, embora vivendo as angústias do desemprego e o desconforto do desencaixe no mundo que se desarticula, esperam o amadurecimento da nova economia e que os novos partidos, de fato, sejam capazes de interpretar e representar seus interesses.

Dúvida britânica e dúvida espanhola. Dúvida global. Os cidadãos dessa transição não têm outra coisa a fazer, se não aprender a conviver com a incerteza e com o risco. Vivemos tempos incertos, de muita mudança, sinais contraditórios, risco de eventos inesperados e não-antecipáveis. Toda decisão coletiva, nesse intervalo entre uma era e outra, terá sempre mais consequências não-antecipadas do que resultados previsíveis. Daí ter muita razão o sociólogo Ulrich Beck ao caracterizar como sociedade de risco esse mundo globalizado, em transição, no qual o indivíduo confronta o cidadão e as ondas difusas de descontentamento varrem as praças intermitentemente para manifestar seu desconforto e desencanto, mas sempre apostando que é possível mudar, avançar e superar.

Anunciamos a entrada do publicitário e pesquisador José Roberto Walker para nossa lista VB&M de clientes revelando desde logo quem será o editor de seu sensacional romance NEVE NA MANHÃ DE S. PAULO, sobre o belo e trágico caso de amor entre Oswald de Andrade e a jovem Daisy, Miss Cyclone, uma normalista de 17 anos, única mulher a frequentar a notória garçonnière de reuniões intelectuais da grande geração modernista. O pano de fundo é o momento em que a aldeia paulistana transformava-se com a mirada para a grande metrópole de hoje.

Desde a cobertura da Ilustríssima da Folha de S.Paulo, em dezembro passado, sobre a descoberta que Walker fez do endereço preciso da garçonnière, o brilhante Flávio Moura, da Companhia das Letras, ficou de olho no livro. Sua leitura confirmou a joia rara de um romance de não-ficção especialíssimo, capaz de oferecer uma densa recriação da subjetividade da época, final da segunda década do século XX, descrevendo como o machismo e a discriminação sexual eram sentidos e sofridos por homens e mulheres. Embora o romance conte uma história rigorosamente factual, apenas com tratamento literário, não queremos aqui entrar em detalhes do entrecho, que não é assim tão conhecido do público leigo. Não queremos correr o risco de estragar qualquer surpresa.

Além da palpável textura amorosa do caso de Oswald e Miss Cyclone, com o preciso traçado psicológico dos personagens, NEVE NA MANHÃ DE S. PAULO faz uma recriação de época absolutamente extraordinária. Sou grata pela leitura porque, quando vou agora a São Paulo, vejo a cidade com um olhar muito diverso, mais nuançado, generoso, amoroso e histórico.

Depois do caderno da Ilustríssima sobre a garçonnière da Rua Líbero Badaró, a Folha voltou a falar do livro em deliciosa matéria publicada nessa quarta-feira, 22 de junho, na parte de Cotidiano, a propósito do frio intenso no inverno paulistano de 1918. Muita bem-vinda a chegada de José Roberto Walker à VB&M. Companhia lançará NEVE NA MANHÃ DE SÃO PAULO em março de 2017, ano de muitas efemérides ligadas ao romance, centenário da principal parte da narrativa.

Links para a matéria: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/06/1783228-sp-teve-neve-de-mentira-em-manha-fria-de-1918-caso-virou-folclore-local.shtml

PARIS-BREST é uma delícia. Misto de memórias de viagem, romance e livro de gastronomia, é, acima de tudo, um mergulho de seu autor, o jornalista Alexandre Staut, em suas paixões: gastronomia, literatura, encontros. Verdadeira ode ao bem viver, ao deliciar-se com os pequenos prazeres da vida e ao encontro consigo mesmo a partir das sensações e aprendizados propiciados pelo novo, PARIS-BREST nos transporta para um mundo quase paralelo de sabores, aromas e texturas, numa paisagem de aquarela à beira mar apetitosamente descrita a partir de seu ambience gastronômico.

A capa de PARIS-BREST aberta.

A capa de PARIS-BREST aberta.

De sua chegada a L’Aber Wrach, pequenina cidade na costa bretã, sem dominar o francês e tendo por conhecido apenas o amigo e a partir de então sócio Yann Danjou, ao momento em que decide retornar ao Brasil, deixando para trás as diversas cozinhas de restaurantes e casas francesas nas quais viveu um par de anos de encontros e aprendizados – que nós, leitores, percebemos absorvidos na voz do narrador que anos depois nos conta suas memórias –, Alexandre deixa de ser menino para se tornar adulto, aprende a lidar com a vida como particular e intransferível e a fazer escolhas que só a maturidade pode permitir. Verdadeiro romance de formação, como bem escreveu Humberto Weneck no texto de orelha do livro, a narrativa cresce com o autor desvendando o descobrimento de um homem e o surgimento de um grande cozinheiro. Um cozinheiro, não um chef, porque este é profissão e aquele, aptidão; e a profissão de Alexandre – gratos somos nós pelo que descoberto foi em L’Aber Wrach – é escrever.

Mas não é só de tudo isso de que é feito o livro. Todo salpicado de receitas recriadas e aprendidas na Bretanha, Normandia e Loire, várias vezes dá vontade de fechá-lo e correr para a cozinha. E se muitas vezes a preguiça prevalece, o que não falta é água na boca e um desejo profundo de se transportar para o momento idílico e saboroso em que o livro se encontra. Os pratos são tão recheados de aroma e sabor que – quase – nos saciamos com sua descrição. Os personagens são tão vivos e delineados que às vezes dubitamos serem reais ou fruto da mais fina imaginação. E as cozinhas e os restaurantes, as dificuldades e as conquistas de se construir algo seu são tão sensorialmente descritos que nos parece estarmos lá. Quando nos damos conta, estamos vivendo um pedaço de uma história que parece nosso e de que não sabemos em que ponto deixa de ser história para se tornar ficção.

Ainda bem que na arte da literatura isso não importa. O que importa é a experiência ofertada pelo livro. E esta, em PARIS-BREST, é nada menos do que uma delícia.

Goia Mujalli não é escritora ou cliente da VB&M, mas artista, grande pintora, e amiga. Por isso, a vontade de compartilhar o texto de apresentação de sua obra assinado por Mario Gioia, curador da exposição que abre amanhã, 21 de junho, na Galeria Marcus Soska, no Shopping dos Antiquários, em Copacabana.

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Resíduos de um ritmo

Nas telas de Resíduos de um ritmo, sua primeira individual na cidade, a carioca Goia Mujalli oferece ao observador uma série de embates contínuos da pintura contemporânea. Há o permanente e o transitório, o sedimentado e o índice, o certeiro e o ambíguo, o manual e o digital, o figurativo e o abstrato, entre variados duos que provocam fricções produtivas por meio do fazer artístico. Assim, a artista radicada em Londres habilmente lida com tensões próprias de um autor do presente e devolve para o mundo algo complexo, mas sem deixar de ser profundamente poético e com espaço para guardar enigmas.

Pode-se ter ideia do labor de Goia por meio, por exemplo, do maior trabalho presente na exposição. Ensaio de Balé (2015), com 200 cm x 190 cm, é uma impressão serigráfica sobre linho em que dois principais elementos dominam a composição. O da direita é o que mais instiga: é serial como um carimbo, possui um tom monocromático e atrita elementos dos campos digital e manual no seu ‘andamento’. A aproximação musical vem a calhar, pois a artista enfatiza com frequência esse caminho sinestésico, como ela afirma sobre Água-Viva (2016), outro de seus quadros apresentados hoje: “Em todo o meu trabalho tenho a vontade de criar repetições de uma mesma forma, sempre com um ritmo diferente em cada tela”. A composição de Ensaio de Balé ganha ainda mais interesse quando sabe-se que a forma algo circular que se repete vem da apropriação da imagem de uma bailarina, vista de cima. E esse movimento leva a forma a se desmanchar em algo mais gestual, informe, que predomina, então, no lado esquerdo da obra.

A qualidade vestigial da figura também transparece nos títulos de Resíduos de um ritmo. Há CabelosCéuNuvemPianoJanela. Em alguns deles, a imagem originária se esboça com mais reforço (como em JanelaPiano, por exemplo), mas as relações que se fundem e criam um outro corpo, a partir da mescla de procedimentos e materiais da serigrafia e da pintura (e, por que não, do desenho e da colagem), terminam por ostentar apenas fiapos e volumes tíbios do que poderia ser um figurativo mais estruturado. Goia, portanto, segue por uma vertente expandida do pictórico, que, apesar de tudo, fundamentalmente é pintura. “Vejo essas pinturas como espaços imersivos onde a essência de certos objetos podem existir. Pinturas com resíduos de gestos criando um ritmo através de outro espaço (onde serão expostas)”, relata a artista, a respeito de Nuvem (2016).

Nesse sentido, cabem alguns dados que ajudam a entender mais sobre o processo de Goia. Com mestrado fora do país em andamento sobre a linguagem – no Royal College of Art, em Londres – , ela traz referências importantes do pictórico internacional – podemos citar Laura Owens e Jacqueline Humphries – , porém a herança neoconcreta nacional ainda é patente em sua produção. E o legado de nomes como Lygia Pape (1927-2004) e Hélio Oiticica (1937-1980) vem menos de aproximações formais e mais de pensamentos e abordagens –  a imersão pretendida por Goia em suas obras, nesse ponto, é paradigmática. “A cor é a revelação primeira do mundo. Ela existe como luz, diluída nas aparências. (…) A cor passa, pois, a construir mundo, vontade suprema do artista, aspiração altamente humana” 1, diz Oiticica, no ano de 1960.

Na corporeidade da pintura, amálgama entre a escala generosa, a conferir fisicalidade e atestar o caráter fenomenológico do meio, e a especificidade de cada material, Goia esculpe em processos permeáveis a sua produção, não deixando de construir por vezes peças surpreendentes. É o caso de Cabelos (2015), óleo sobre tela de 167 cm x 167 cm. Com diagonais em vermelho, que rimam em pulsão com os ‘tufos’ alaranjados que pontuam marcadamente a superfície da tela, o conjunto reforça a temporalidade mais densa do óleo. Contudo, não deixa de criar novas relações profícuas com a agilidade sintética da acrílica e o dado mais gráfico da serigrafia. “Cada material proporciona uma duração diferente no processo”, frisa a artista.

Em Resíduos de um ritmo, Goia Mujalli desata amarras que fixam definições rijas nos escaninhos de cada suporte. Constrói um trajeto que se move por entre o visível e o apagado, o íntegro e o fragmentado, forjando atributos matéricos a partir do abstrato. Parece, então, criar em tintas vivas e não lineares uma sentença sobre questão do teórico Rudolf Arnheim (1904-2007), formulada em 1989: “O que tornou-se a abstração?” 2. Certamente a resposta da artista não vem de modo uno nem planificado.

Mario Gioia, junho de 2016

1. FAVARETTO, Celso; BRAGA, Paula. Hélio Oiticica – Estrutura Corpo Cor. São Paulo, Base 7/Fundação Edson Queiroz, 2016, p. 27

2. ARNHEIM, Rudolf. Ensayos para rescatar el arte. Madri, Cátedra, 1992, p. 29

“Por que você não se sente mais cidadã do mundo do que brasileira? Seria inclusive uma visão mais próxima da realidade”, me pergunta Raymond, na tentativa de me levantar de mais uma depressão em que sou jogada por notícias do Brasil. Não concordo e não consigo. Sou brasileira, serei sempre, com muita vergonha e muita dor.

Casar/viver com estrangeiro tem esse preço. A nacionalidade pesa. Como uma pessoa direita cujo pai é ladrão sente vergonha da família de origem diante do cônjuge, a nacionalidade pesa de igual maneira na relação de um casal. Dá muita vergonha.

No meu caso, venho de um país onde os eleitores elegem uma Câmara em que 60% dos deputados são objeto de investigação por crimes variados (dado sempre repetido nos jornais dos EUA que estarrece, como devido, os americanos). De um país onde ingenuamente é posto no poder um bando que para ali se perpetuar está pronto a cometer qualquer ordem de crime, desde a destruição da maior empresa brasileira por meio da corrupção até assassinato. De um país em que boa parte da intelectualidade, para segurar suas prebendas, bolsinhas e financiamentos de filmecos e outras obras sem público (sempre sangrando o bolso do contribuinte), sobe a palanques para defender a máfia. Dá vergonha.

Uma gente tão tolinha que ainda vê “esquerda”, um conceito já inadequado, em um regime que em 14 anos não ofereceu educação da mais mínima qualidade para o povo, menos ainda serviços de saúde e saneamento; e que aprofundou o conluio entre o capital mais espúrio e a máquina do Estado criando um esquema de corrupção inédito até na história do Brasil. Dá muita vergonha de tanta estupidez, ainda mais quando são “intelectuais” que a proferem.

Dor maior é constatar e não poder camuflar que o brasileiro ainda não conseguiu entender o conceito de “império da lei” _ marco civilizatório mínimo. No Brasil, não se percebe que um brutamontes não pode conclamar as pessoas à desordem e à violência pela TV. No Brasil, gravações reveladoras dos mais tremendos crimes são motivo de repreensão aos investigadores que bravamente as obtiveram em vez de conduzirem à prisão dos criminosos. No Brasil, juízes da Suprema Corte mudam sem qualquer motivo a jurisdição da investigação de atos que, nos Estados Unidos, seriam entendidos como de lesa-pátria.

Outro conceito profundamente entranhado na psique do americano e que, vergonhosamente, passa longe da gente é “responsabilidade” _ individual e coletiva. Como fomos nós que concedemos o poder à Orcrim, o americano acredita que temos o que merecemos. Como quem não se beneficia da roubalheira e se opõe ao regime não se organiza para derrubá-lo _ nos EUA, ninguém tem dúvida de que um governante que traiu seu eleitor tem que ser removido do poder _, o americano diz que paremos de reclamar e aguentemos o peso de nossas escolhas.

Daí este texto. Meu marido americano disse que não ouviria mais uma lamentação a respeito do Brasil se eu não fizesse algo para mudar. Se nada mais houvesse a fazer, que escrevesse um artigo. Que seria hipocrisia da pior espécie se, por receio da condenação de pessoas do meu meio, eu, no estado de desalento em que me encontro, me calasse. Escrevi. Preciso do ouvido americano do marido para minha vergonha e minha dor.

lvb

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Luciana com a filha, Bebel Sader, em NY.

Compartilhamos com os amigos da VBM um presente que recebemos da cliente alemã Kiwi. Três links (em alemão, com legendas em inglês ou espanhol, e em francês) levando a um documentário para a TV sobre a nova literatura de mistério tendo como pano de fundo o III Reich. Dominique Manotti, Philip Kerr (grande autor inglês bastante publicado pela Record na virada do século) e Volker Kutscher (de quem representamos a magnífica série Berlim Noir) contam como lhes veio a ideia de escrever literatura policial ambientada na Alemanha nazista e por que são fascinados pela temática.

Como leitora, só aprecio de verdade a literatura policial quando tem um fundo político. Neste momento, aguardamos com expectativa o lançamento em maio de A BÍBLIA DO CHE, de Miguel Sanches Neto, que explora as ambiguidades morais da esquerda no poder. Vamos cultivar a esperança de que os crimes de corrupção (mas não só, pois é preciso voltar ao assassinato de Celso Daniel, entre outros delitos) que atualmente traumatizam a vida brasileira  sirvam ao menos para desenvolver entre nós um gênero de ficção.

Como disse Raphael Montes outro dia no fb, a realidade brasileira está criando dificuldades para os ficcionistas. Como superá-la? Mas o nazismo – um horror impossível de se conceber como ideia – como recorte da história factualmente passada talvez seja o maior tema da literatura e da filmografia contemporâneas. Que o thriller literário do Miguel seja o aperitivo de um grande gênero da ficção brasileira.

(Não me cobrem uma indevida comparação sobre o momento brasileiro e a experiência nazista. Quem gosta da comparação indigna e espúria são Dilma Roussef e Lula da Silva. Estou apenas tratando de matéria para a literatura.)

 

LVB

 

(http://www.arte.tv/guide/fr/053937-000-A/les-romans-policiers-et-le-troisieme-reich)  

(http://www.arte.tv/guide/en/053937-000-A/crime-novels-and-nazi-germany?country=DE)

(http://www.arte.tv/guide/es/053937-000-A/la-novela-policiaca-y-la-alemania-nazi?country=DE)

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A prestigiada publicação School Library Journal Review, que resenha lançamentos literários do mercado americano visando às bibliotecas de escola, instituições munidas de verbas próprias para seu abastecimento e atualização, comenta SNOWDEN, de Ted Rall, publicado por nossa cliente Seven Stories Press. Com total independência, recomenda fortemente a novela gráfica sobre um personagem que não causou poucos problemas ao governo Obama expondo a ganância por informação da NSA, a agência nacional de segurança dos EUA.

Foi seguinte o veredicto: “Escrito para adultos mas acessível para adolescentes e pré-adolescentes sofisticados, esse trabalho tem lugar em todas as bibliotecas e oferecerá foco e contexto – se não unanimidade – a todos interessados em temas sobre equívocos do governo.”

No Brasil, SNOWDEN saiu em ótima edição pela WMF, de Alexandre Martins Fontes, sob os cuidados de Luciana Veit. Agora o que falta são escolas públicas com bibliotecas munidas de verbas próprias para se abastecerem com os bons lançamentos do mercado editorial. O Ministério da Educação da Pátria Educadora se habilita?

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Rall, Ted (text & illus.). Snowden. Seven Stories. 2015. 224p. notes. ISBN 9781609806354. pap. $16.95; ebk. ISBN 9781609806361. GRAPHIC NOVELS

Supertechie hero, or supertechie villain? The life and work of 32-year-old Edward Snowden command attention, whether one supports his mission to expose the U.S. National Security Agency’s omnivorous appetite for data or whether one considers him traitorous for doing so. Cartoonist/reporter Rall (To Afghanistan and Back) is clearly in the first camp, while providing background about both sides and posing questions of universal interest: How much espionage is too much? What groups should be targeted? What kinds of checks and balances should be imposed? And how should dissent about such things be managed? Rall crunches a large amount of information into his narrative, documented in 14 pages of source notes in a presentation that is easy to follow and fascinating. Cartoony, full-color art supports the text-heavy account partly with illustrations and partly with examples, diagrams, attributed quotations, screen images, document excerpts, photos, and headlines. Seven Stories plans a discussion guide. ­VERDICT Written for adults but accessible to teens and sophisticated tweens, this work belongs in all libraries and will supply focus and background—if not unanimity—to everyone interested in government oversight issues.—M.C.

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Antonin Scalia morreu, e Nelsinho Villas-Boas Moss, como todos os americanos de bem e do bem, estão festejando. Nelsinho não é hipócrita e, quando morre algum malvado, ele festeja e explica por quê. Segundo Nelson, não há contradição em festejar a morte de um sujeito que era a favor da pena de morte. Luciana Villas-Boas concorda plenamente. A palavra fica com Nelsinho, que pode desenvolver melhor as posições de ambos, mãe e filho, e destrinchar no detalhe por que as contradições são de Scalia, chegando até o tema da morte desejável de malvados brasileiros.

“O juiz Antonin Scalia morreu aos 79 anos depois de completar quase três décadas na Suprema Corte dos EUA, tendo sido nomeado pelo presidente Ronald Reagan, em 1986. Eu, Nelsinho Villas-Boas, nem sonhava em nascer, mas não precisamos viver a história para conhecê-la, basta ler e ouvir nossos pais. Raymond acabara de se formar advogado e ralava em um escritório de Manhattan, sendo ele originalmente do Queens, que nem o juiz, e por isso conhecendo bem a mentalidade da figura. Minha mãe cobriu as primeiras decisões do Scalia para a Internacional do Jornal do Brasil, onde ela era subeditora.

Há quem diga que é contradição eu festejar a morte de um sujeito porque ele era a favor de pena de morte. Só que o juiz tinha uma lista de posições do Mal que não se esgotava no tema da cadeira elétrica. Catolicão e contraditório era ele: como alguém pode ser contra o aborto e apoiar a pena de morte? Outra, não menos importante: o cara caçava, assassinava patos e búfalos, espécies inocentes de qualquer crime. Quando morreu, ele estava em um resort do Texas para uma expedição de caça. Era contra o aborto, mas achava uma curtição atirar em seres vivos.

São essas incoerências que me dão vontade de partir para cima de conservadores hipócritas que nem eu tenho feito, para constrangimento da minha mãe, contra todo homem sozinho andando na rua e falando no celular. Já disse que isso não é maneira de se portar em público, e nas meninas eu até aturo, mas marmanjo, não me passe pela frente com um celular no ouvido.

Esse Scalia bancava tanto de maluco radical que, ao ficar em minoria no julgamento do casamento gay, uma votação de 5 a 4, invocou-se com o juiz Anthony Kennedy e saiu gritando que iria “esconder a cabeça em um saco” se seu nome fosse um dia associado àquela decisão da Suprema Corte. Sim, porque eu não gosto de marmanjo falando no celular, mas não tenho nada de homofóbico e, embora ache esse papo de casamento de papel passado uma bobagem para todo mundo, o gay que quiser dar o mal passo tem todo o meu apoio; cada um sabe de si.

Menos ainda do que de gay, o Scalia gostava de mulher, não as deixava entrar em lugar nenhum, vetava todas as leis para lhes dar acesso a escolas, academias, clubes militares, o que fosse.  Eu, Nelsinho, tinha essa diferença fundamental com ele: gosto muito mais de mulher do que de homem. Por isso aprecio tanto meu emprego, gerencio um espaço em que funcionam a VB&M e a Bossa, sete moças lindas, mais a Maria José e a minha mãe.

Voltando ao saco onde o Scalia escondia ou não a cabeça: era cheio de malvadezas até a borda. Além de ter lutado contra a legalização do aborto, foi contra o Obamacare, que tentou muito melhorar a saúde nos EUA, cujo sistema é péssimo, como se sabe. Se você não souber, veja o filme do Michael Moore porque, apesar da reforma do Obama, o sistema continua uma bosta. A Bebel Sader, minha irmã, acabou de ver e só fala disso.

Sabe o que o Scalia respondeu quando lhe perguntaram sobre a garfada que o George Bush deu no Al Gore, na Flórida, nas eleições de 2000? “Sai dessa” (“Get over it”), disse o cínico.

Por isso tudo, podemos festejar a morte do sujeito, tipo de ausência que supre uma lacuna de equilíbrio e bom-senso. Não quero mal a ninguém, não desejo metástases ou sofrimentos de qualquer ordem a quem quer que seja. A morte é um fato da vida e, do jeito que vai o mundo, uma notícia até boa para muita gente. Só sou contra a pena de morte porque não acredito que caiba a um humano definir quando o outro vai morrer. Mas posso muito bem achar que tanto melhor quanto mais cedo morram aquelas pessoas que vieram ao mundo exclusivamente para causar males e sofrimentos.

Nesse sentido, depois de longa discussão com minha mãe sobre o efeito benéfico da morte do Lula, passei a fazer caninas orações diárias pela morte dele. Dele e da Dilma. Seria muito bom para o Brasil, que logo se arranjaria e retomaria o crescimento. O PT já não consegue mais fazer de Lula um mártir em hipótese alguma, seria mesmo a última pá de cal nessa Orcrim. Além do mais, a morte do Lula tem sentido diferente daquela, por exemplo, de um terrorista, que abatido aqui, acolá estão nascendo mais mil iguais a ele. Não, para o mal e nada para o bem, Lula é insubstituível, e o Brasil sem ele ficará muito melhor. Sem a burrice da Dilma nem se fala, dificilmente surgirá outra igual. Vejam: não desejo metástases, só que sumam, desapareçam, nos deixem em paz, que nem o Scalia está fazendo com os americanos, parando de idear maldades contra os seres comuns, pessoas ou outros animais.”