Tag: Tzvetan Todorov

A morte de Tzvetan Todorov provocou outro obituário antológico de Sérgio Abranches para o blog do Matheus Leitão. Realmente, o ensaísmo e o pensamento sócio-político contemporâneo já levaram duas pancadas monumentais este ano. Há poucas semanas republicamos o obituário que Sérgio fez de Zygmund Bauman.

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Sérgio lembra que Todorov se definia “depaysé”. Mais que expatriados, eram, Bauman e Todorov, dois despatriados.

http://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/todorov-o-intelectual-insubmisso.html

 

Domingo, 12/02/2017, às 11:07,

Todorov, o intelectual insubmisso

* Por Sérgio Abranches

A humanidade perdeu neste início de ano dois grandes pensadores, ambos expatriados, ou depaysés, como escreveu Todorov, inconformados e avessos aos formalismos e formalidades que tendem a tolher o pensamento. Zygmunt Bauman, nasceu na Polônia e abrigou-se em Leeds, e Tzvetan Todorov nasceu na Bulgária, e fixou-se em Paris. Os dois conheceram a perseguição nazista e o peso da tirania soviética. Na celebração das vidas desses dois homens de ideias, eles foram identificados de maneiras muito distintas: filósofo, sociólogo, pensador, crítico social. Continuo a pensar que a melhor forma de identificar o papel social que os dois desempenharam de forma exemplar é chamá-los de intelectuais. Um termo fora de moda, gasto pelo mau uso, mas que continua a significar para mim, o pensador independente, crítico, comprometido e em sintonia com seu tempo. Os dois foram assim e estão entre aqueles que nos ajudaram de forma única e insubstituível a pensar a grande transição que vivemos. Escrevi sobre Bauman, quando morreu, ele viveu intensamente essa transição, com o corpo e com a mente.

Todorov era um homem cordial, compassivo, e seu pensamento refletia essa condição. Mas o que me atraiu mais nele foi o seu compromisso com a rebeldia. Seu último livro, Insoumis, é uma homenagem à insubmissão e renúncia de personalidades que fizeram história com sua oposição a distintos tipos de tirania. Outra afinidade para mim significativa era a proximidade de Todorov com o pensamento de Rousseau, sobretudo na sua defesa da liberdade e da vida coletiva solidária entre indivíduos em uma sociedade com igualdade de condições e espaço para as diferenças e as diversidades. É essa visão que o fazia ver no Iluminismo ainda a fonte de inspiração para navegarmos as águas tumultuosas dessa transição. Os valores do iluminismo para ele não morrem nem com o esgotamento dos modelos que ele inspirou nos séculos XIX e XX, nem com suas falhas, Valores como a exigência de autonomia individual, de igualdade social e respeito pela diversidade cultural, de aptidões e de desejos e sentido de finalidade das ações humanas. Em outras palavras a crítica permanente das formas de alienação do indivíduo. Também vejo como ele, na radicalização do iluminismo, um caminho profícuo para uma sociedade futura de liberdade, igualdade e diversidade. Afinidades podem ocorrer, mesmo quando há diferenças e divergências de interpretação. A crítica de Rousseau era às desigualdades socialmente determinadas, não às diferenças individuais que levam a modos de vida distintos.

Todorov, como Bauman, olhava o mundo atual de modo muito crítico. Cada um a seu modo. Nos dois, encontramos arguta crítica da economia financista e consumista dos dias de hoje. Nenhum dos dois vislumbrava futuro para esse modelo de especulação e consumo desmedidos. Todorov dizia que nós nos esquecemos de que a economia deve estar a serviço da sociedade e esta era uma das fontes de sua indignação. Ele era, acima de tudo, um humanista. E um otimista. Acreditava na agitação intelectual e no poder do povo de promover a mudança. Por isso era defensor intransigente da democracia, que alertava estar em perigo por toda parte, ameaçada principalmente por seus inimigos íntimos.

Essa foi outra afinidade que me ligou intelectualmente a Todorov. O diagnóstico comum de que a democracia está oligarquizada e as corporações e os grupos de interesses passaram a ter poder demais e a sociedade poder de menos. Via, com toda razão, ameaças nas oligarquias, econômicas, sociais e políticas, no populismo, no ultraliberalismo e no ultranacionalismo. Os governos estão cada vez menos tolerantes à contestação e, como ele dizia, se não há maneira de se opor à opinião do governo do momento, não há democracia. Falava da necessidade e da eficácia da resistência, mas não imaginava que a polarização radicalizada promovesse a democracia ou boas saídas para os impasses civilizatórios que enfrentamos. Imaginava ser preciso haver um terreno comum, valores básicos compartilhados, para que do dissenso pudessem nascer novas ideias e rotas para avançar nessa travessia.

Toda vez que perguntam se, realmente, concordo com alguém a quem faço uma referência elogiosa, penso que não importa concordar. O que importa é se as ideias respeitam a dignidade humana, o livre-arbítrio, mostram um mínimo de solidariedade com os outros e aceitam o diferente. Cada indivíduo, escreveu, é multicultural, as culturas não são ilhas monolíticas. Em O medo dos bárbaros, ele mostrou que o medo é, também, uma forma de tirania e inspira as piores ações possíveis. Ele intuiu, com precisão, que esse medo dos imigrantes, do outro, dos “bárbaros”, será um dos primeiros grandes conflitos da transição do século XXI. Todos os bárbaros não são idênticos, escreveu, em seu último livro. Bárbaros são os que negam a humanidade dos outros. Se temos medo dos bárbaros, nos arriscamos a nos tornarmos os bárbaros. Sua preocupação com a diversidade, com a aceitação e o respeito ao outro tem uma importância capital para os dias que correm.

Tzvetan Todorov foi um autor prolixo, morreu muito mais jovem que Zygmunt Bauman, mas nos legou também uma obra esplêndida. Seus livros passam pela literatura, pela crítica aos formalismos e por todas as questões contemporâneas relevantes que definirão os rumos que a humanidade tomará nas próximas décadas. Para ele é possível se comportar com dignidade moral, mesmo em situações extremas. Não deixou de apontar para os perigos desses tempos de ira e instabilidade crônica, mas procurou sempre mostrar a efetiva possibilidade da esperança.

A morte de um intelectual é uma interrupção dolorosa no fluxo de criação e pensamento. É uma perda. Não teremos mais as luzes de Todorov, nem a fluidez do pensamento de Bauman. A melhor forma de valorizar esse patrimônio de ideias que nos deixaram é refletir, criticamente por certo, sobre o que escreveram e disseram. Aceitar, sem transformar em dogma, discordar sem rejeitar ou desqualificar. Foi isso que fizeram toda a vida.

* Sérgio Abranches é cientista político, escritor e comentarista da CBN. É colaborador do blog com análises do cenário político internacional