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No Facebook, João Carlos Rodrigues disse tudo e mais um pouco sobre ROGÉRIA, a biografia do “travesti da família brasileira”, escrita por Marcio Paschoal e lançada pela Sextante.

 

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Dica de livro: “Rogéria – uma mulher e mais um pouco”
Marcio Paschoal
Estação Brasil, RJ, 2016

Biografia de Astolfo Barroso Pinto, a Rogéria, o mais bem sucedido travesti brasileiro. Texto (bom e fluente) do escritor e jornalista Márcio Paschoal, também biógrafo de um artista antípoda: o primitivo e rascante maranhense João do Vale, um dos pilares da música nordestina, autor dos famosos “Pisa na fulô” e “Carcará”. Um dos lados mais interessantes deste novo livro é a descrição da vida de um travesti não-operado, documento sincero e esclarecedor para quem não sabe nada ou imagina coisas do arco da velha.
O livro flui em duas correntes paralelas. Na primeira o autor, auxiliado pelo amplo e excelente material fotográfico, narra na terceira pessoa a vida privada e profissional de Rogéria, as peças que fez, os países onde se exibiu, a amizade com a mãe e o meio irmão, alguns amores. Sim, alguns amores. Queriam o que? A vida sexual de alguma freira, alguma vestal? Entre eles o policial delinquente Mariel Mariscott, um astro do Esquadrão da Morte, assassinado em plena rua a mando de um famoso bicheiro. Um símbolo sexual carioca, pai de um dos filhos da atriz Darlene Glória. Criatura pouco recomendável, porém interessante.
Simultaneamente a esse lado digamos documental da biografia temos entremeados comentários na primeira pessoa feitos pela biografada, impressos em letras de cor violeta. Aqui estamos longe da compostura e mesmo do decoro a que Astolfo/Rogéria acostumou seu respeitável público, a ponto de ostentar o título surpreendente para alguém vindo do bas-fond de “o travesti da família brasileira”. Merda no ventilador.
Ela não delata propriamente ninguém mas dá boas pistas para exegetas da phophoca (com ph mesmo) e pesquisadores com talento para arqueologia. Quem será o jovem jogador do Santos que no Cairo em fevereiro de 1973, apesar de bem dotado, preferiu apenas o sexo passivo? Ou o tricampeão taradão da Copa de 70 que quase a estuprou no camarim do Canecão? Ou o ator, na época noivo de uma miss lindíssima que acabava de madrugada na casa da nossa estrela, fazendo sexo oral e outras sacanagens? Ou outro ator bem conhecido do cinema pornô que posava de machão mas na hora H pediu para ser passivo?
Adivinhe se puder. Também temos descrições de outras modalidades sexuais bastante heterodoxas mesmo para um travesti. Há quem sussurre no breu das tocas que Rogéria como grande comedora tem ou teve também uma boa lista de amantes do sexo feminino, mas nesse ponto imperou a discrição. Como convém a uma lady, porra. E mais não digo.
Como a curiosidade matou o gato, meu amigo leitor, compre o livro e verifique você mesmo. Fui.

https://www.facebook.com/joaocarlos.rodrigues.18/posts/1233789206660408?comment_id=1233863536652975

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Na foto, Luciana Villas-Boas entre ROGÉRIA e Marcio Paschoal, autor da biografia do “travesti da família brasileira”. Como era de se esperar, a Travessa do Leblon ficou pequena para os fãs de Rogéria, fila quilométrica para comprar o livro e pegar o autógrafo da estrela.

A editora Virginie Leite, da Sextante, que também estava lá para o autógrafo, fez um livro lindo de morrer aproveitando todo o incrível material iconográfico posto à disposição pelos autores. ROGÉRIA: Uma história das artes cênicas no Brasil na segunda metade do século passado, um posicionamento político sobre a questão trans e… muito sexo e fofoca.

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capa_blogPronto, Sextante anunciou a biografia de Rogéria, assinada por Márcio Paschoal, para outubro, saindo pelo selo Estação Brasil, de Pascoal Soto. Agora podemos falar do livro, ROGÉRIA: MULHER E MAIS UM POUCO, um dos orgulhos da agência. A capa, que a equipe de Virginie Leite preparou, ficou deslumbrante. Uma das capas mais bonitas e impactantes que vimos este ano. Rogéria ajuda.

A narrativa é divertidíssima, repleta de fofocas envolvendo centenas de nomes do showbiz e da alta sociedade internacional e com um vivo panorama das artes cênicas brasileiras da década de 60 até hoje – o que era ser artista sob a ditadura militar. Artista e travesti, já imaginou? Mas o livro não é só isso.

Márcio e Rogéria contribuem com uma visão originalíssima e profundamente honesta da questão trans. Fica evidente que Rogéria nunca foi misógina, não tem inveja de mulher, não tem bronca com palavras como útero e vagina, a la transgêneros norte-americanos. (Acreditem que nos EUA os trans não apoiam o movimento pelo aborto Free Womb pela referência ao útero em seu nome.)

ROGÉRIA é uma visão brasileira do travestismo. Basta pensar que, com todo o preconceito do brasileiro, ela conquistou o Prêmio Mambembe em 1979 como melhor atriz. Sem nunca ter se submetido a mudança de sexo. Até hoje isso não aconteceria nos Estados Unidos.

Vender não-ficção para tradução não é fácil mas, dada a urgência e o interesse que a temática transgênero vem despertando, estamos apostando em ROGÉRIA no exterior e trataremos o livro como destaque em nosso catálogo para Frankfurt. Acreditamos que essa grande personagem da cultura brasileira dá uma contribuição fundamental ao debate e envidaremos esforços pela divulgação da obra. Raymond Moss deu o título de trabalho em inglês: ROGERIA: MORE THAN A WOMAN.

http://www.publishnews.com.br/materias/2016/09/08/augusto-cury-volta-a-lancar-livro-pela-editora