Tag: Sérgio Abranches

Há meses temos chamado A ERA DO IMPREVISTO, de Sergio Abranches, de “fundamental”. Nossa visão se confirma com a inclusão do livro na bibliografia mínima necessária para o concurso de mestrado da ECA-USP. Para acessar o edital, clique aqui:

No final do documento, tem a especificação da bibliografia:

“ÁREA III – INTERFACES SOCIAIS DA COMUNICAÇÃO

ABRANCHES, Sergio. A era do imprevisto: a grande transição do século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

DE CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano. Artes do fazer. Ed. Petrópolis: Vozes. 1998.”

Alberto Mussa conversará com outros três escritores (Heloísa Seixas, Joca Terron e Santiago Nazarian) sobre seu último romance, A HIPÓTESE HUMANA, em sessão intitulada “Grandes Lançamentos”, no Café Literário da Bienal do Livro, que começa dia 31 no RioCentro. Também no Café Literário, na sessão “A Era do Imprevisto”, Miriam Leitão e Sergio Abranches discutirão política, filosofia e a árdua busca de instrumentos e referências para a compreensão do mundo contemporâneo. Edney Silvestre estará com Ruy Castro em um bate-papo sobre 90 anos de Tom Jobim. Raphael Montes estará no grupo “Cronistas”. Na programação do Encontro com Autores, diretamente do Porto, a amada portuguesinha Sofia Silva, cujo romance SORRISOS QUEBRADOS está saindo em grande estilo pela Valentina, terá enfim a oportunidade de travar pessoalmente com suas incontáveis fãs brasileiras.

Muitos clientes da VBM na Bienal do Rio oferecendo a seus leitores a oportunidade de uma conversa presencial. Todos brilhantes, com muitas ideias originais e experiências pessoais a compartilhar; eventos imperdíveis. Vale conferir a programação.

Para conferir a programação da Bienal e outras informações, clique aqui.

A propósito de seu livro recém-lançado A ERA DO IMPREVISTO e do ensaio em processo de escrita PRESIDENCIALISMO DE COALIZÃO, ambos títulos da Companhia das Letras, Sérgio Abranches deu na semana passada uma entrevista que não se pode perder. Já está no youtube.

O teaser é só provocação. Ele alerta que o partido é um tipo de agremiação que só fazia sentido na era analógica e mostra como a reforma política que está sendo arquitetada no Congresso vai piorar ainda mais nosso combalido sistema democrático.

Vale muito ver a íntegra do depoimento, mas é longo, 43 minutos.

Continuam a sair críticas e análises sobre o ensaio de Sérgio Abranches, A ERA DO IMPREVISTO, lançado pela Companhia das Letras. Seguem aqui um artigo publicado na Gazeta de Vitória e outro da Folha de S.Paulo. Para o lançamento amanhã em BH, no quadro do projeto Sempre Um Papo, saiu também matéria no jornal O Tempo.

image1

image2

image3

image4

sergio

No próximo número da Revista de Divulgação Cultural, que está rodando agora, será publicado “Eles estão chegando”, esse conto aterrador e belo de Sérgio Abranches. O medo é um tema eterno na obra do Sérgio, essa paranoia que sofremos todos nos dias de hoje, fundamentada nos sustos reais que a sociedade constantemente nos prega.

A RDC é publicada pela editora da Universidade Regional de Blumenau e dirigida pelo professor e escritor Maicon Tenfen. Com inteligência e bom-gosto, está somando muito no esforço de valorização da literatura contemporânea brasileira.

Clique aqui para ler o conto.

 

65675334_ancelmo_gois_-_livro.

Por conta de uma entrevista a rádio CBN sobre A ERA DO IMPREVISTO, Sérgio Abranches recebeu do editor da Ilustríssima, o caderno dominical da Folha de S. Paulo, encomenda de ensaio sobre a crise dos sistemas democráticos, que saiu com bom destaque e está repercutindo muito no Face, Twitter e Linkedin:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/04/1877508-sociologo-sergio-abranches-analisa-a-lava-jato-e-a-crise-da-democracia.shtml

O jornalista Luciano Trigo publicou excelente entrevista com Sérgio sobre o livro:

http://g1.globo.com/pop-arte/blog/maquina-de-escrever/post/os-riscos-e-esperancas-de-uma-epoca-de-transicao.html

E no GloboNews Literatura, rolou conversa simpática com a Cristina Aragão:

http://globosatplay.globo.com/globonews/v/5818941/

Míriam Leitão escreveu ontem uma crônica para o Blog do Matheus sobre a natureza do livro, comentando o impacto da chegada dos exemplares em papel à casa do autor. Os livros que, chegando à casa de Míriam no fim de semana, inspiraram a sua crônica não eram dela, mas de Sérgio Abranches, o portentoso ensaio sobre a contemporaneidade A ERA DO IMPREVISTO, publicado pela Companhia das Letras.

A alegria da gente foi hoje. Os livros chegaram à VB&M. Lindos. Imensa alegria e orgulho.

image1 (1)

A ERA DO IMPREVISTO consolidará seu lugar como uma daquelas obras seminais na área da filosofia e das ciências humanas. Será impossível falar dos desafios da globalização nas primeiras décadas do século XXI sem nos referirmos a conceitos lançados por Sérgio ao longo de sua brilhante resenha da melhor produção filosófica, política e sociológica das últimas décadas.
Aos leitores intelectualmente curiosos, que querem afiar uma visão do mundo complexa e o mais possível aproximada da verdade, recomendamos fortemente. Corram às livrarias para comprar _ e ler! _ A ERA DO IMPREVISTO.

A coluna de Ancelmo Góis, no Globo, noticiou o lançamento de A ERA DO IMPREVISTO, do cientista político e romancista Sérgio Abranches, pela Companhia das Letras. Será um grande lançamento, o que não surpreende dada a incrível pertinência do livro para a conjuntura que estamos atravessando. Historicamente, não é comum um livro sair com tanta precisão em sua hora.

Captura de Tela 2017-03-15 às 20.54.50

No dia 30 de março, os exemplares da obra já estarão amplamente distribuídos. A noite de autógrafos carioca, com debate com Eduardo Giannetti e professor Ronaldo Lemos (este entrando online desde a Universidade de Columbia, onde está dando um curso), deve acontecer dia 19 de abril, na Travessa do Leblon. Ainda confirmaremos, mas deve ser isso. Outros debates seguirão em várias praças.

65675334_ancelmo_gois_-_livro.

Para o Blog do Matheus, Sérgio Abranches escreveu um artigo explicando o novo populismo que aflige um grande número de democracias contemporâneas. Os temas do riquíssimo ensaio estão desdobrados em seu livro A ERA DO IMPREVISTO, que vem aí pela Companhia das Letras, em junho.

Sérgio faz uma equação interessante. Mostra que a esquerda tem uma visão distributiva e de justiça social, mas pensa de maneira totalmente anacrônica o desafio econômico, enquanto a direita tem propostas interessantes para a economia mas ainda acredita que a sociedade pode se reger pelo cada um por si. Apoiado na mentira, o populismo nada de braçada no espaço criado pelo conflito entre essas visões. Soluções até existem para muitos dos problemas atuais, mas as lideranças políticas globais não compreendem o desafio colocado pela e para a humanidade.

O novo populismo e o desafio democrático

* Por Sérgio Abranches

A democracia americana e várias democracias europeias estão sob a ameaça dos populistas. Diferentemente do velho e novo populismo latino-americano, a vertente que assalta as democracias mais maduras vem da direita nacionalista. O populismo, sob qualquer de suas formas nasce da insatisfação e do ressentimento. O terreno no qual prosperam as lideranças populistas é marcado pela frustração das oportunidades e pela desigualdade crescente. Elas exploram o sentimento de abandono ou destituição. Não são sentimentos gratuitos. Eles estão ancorados nas falhas sistêmicas dos mercados e das democracias. O mundo vive uma longa e radical transição. Os modelos político-econômicos que impulsionaram o século XX, com raízes nos séculos XVIII e XIX, não funcionam mais como antes.

As formas tradicionais de produção e circulação de mercadorias foram alteradas pela globalização, pelas mudanças tecnológicas, pelo desenvolvimento no mercado financeiro de novas modalidades de financiamento e pela instantaneidade da economia digitalizada.Tudo isso gera desigualdade e desemprego. Os novos padrões, alguns já emergentes, não são ainda capazes de gerar os empregos, a renda e o bem-estar necessários para atender às demandas da maioria. O que piora o quadro é que as democracias estão dominadas por oligarquias políticas e econômicas que não representam mais amplas parcelas da sociedade. Elas emergiram fora das jurisdições cobertas pelos partidos, sindicatos e grupos de interesses organizados e encontram-se desamparadas. São rejeitadas pelo mercado de trabalho e estão fora do alcance das redes de proteção social do estado.

O populismo, com suas ideias econômicas obsoletas, antiglobalização e protecionistas consegue entregar-lhes apenas momentos fugazes de euforia. Ao insustentável crescimento produzido pelas aventuras macroeconômicas dos populistas, de qualquer matiz, decorrem profundas distorções nos quadros fiscal e distributivo. Desde meados dos anos 1990, temos vivido ciclos econômicos de crescimento-crise recorrentes, associados a ciclos políticos de populismo-austeridade. O resultado dessa oscilação é o aumento das desigualdades, o crescimento do desemprego estrutural, a insatisfação e o ressentimento derivados da frustração das expectativas. A cada ciclo, faixas cada vez maiores da economia se mostram incapazes de recuperação. Foi o que aconteceu, por exemplo, com as atividades do chamado “cinturão da ferrugem”, nos Estados Unidos, área de mineração de carvão e de indústrias metal-mecânicas de baixa produtividade e sem competitividade. Em regiões como essas, não há futuro de retomada das indústrias tradicionais. Capital e trabalho terão que ser reciclados para outras atividades em sintonia com o movimento da transição tecnológica, econômica e social. Nesse interregno, viveremos perigoso quadro de agravamento de desigualdade e desconforto socioeconômico.

O sociólogo Ulrich Beck define esse fenômeno como a sociedade do “indivíduo por contra própria”. A rede de proteção social não consegue atende-lo e tem dificuldade de se ajustar ao novo perfil demográfico e às limitações fiscais do estado. Passa a valer o princípio do indivíduo por contra própria que corresponde, na prática, à dura lei do “sua vida, seu risco”. As crises estruturais, portanto coletivas, passam a constituir risco pessoal, resultando em “sua vida, seu fracasso”. Apenas uma minoria de indivíduos adquire com a rapidez necessária a capacidade de combinar redes, construir alianças, fazer acordos, sempre por conta própria. Eles aprendem a viver e sobreviver numa atmosfera de risco permanente, na qual o conhecimento e as mudanças de vida são de curta duração e se multiplicam no tempo. Suas experiências de vida mudam rapidamente. Há mais liberdade para a experimentação mas, ao mesmo tempo, as pessoas devem enfrentar o desafio sem precedentes de lidar, em tempo praticamente real, com as consequências de suas ações e das ações dos outros. A grande maioria não tem essa desenvoltura e engrossa a massa de despossuídos e ressentidos.

Em todas as sociedades industrializadas contemporâneas, do Brasil a Portugal e Espanha, da Grécia aos Estados Unidos, da França ao Reino Unido, os jovens, com mais qualificação que seus pais, não conseguem entrar no mercado de trabalho. O desemprego entre os que têm entre 17 e 30 anos é, em geral, o dobro da média, às vezes quase o triplo. Na outra ponta, o ajustamento dos modelos previdenciários, desenhados para uma realidade que não existe mais, mesmo quando reformados para adequá-los à nova demografia, continuam a proteger indivíduos de uma estrutura ocupacional e contratual que está em dissolução. O sistema de welfare alemão data do período de Otto Von Bismarck. Foi criado em 1884. O americano nasceu no New Deal, nos anos 1930. O francês é dos anos 1940. O britânico também. Aqueles que circulam pelas formas emergentes ou transicionais de trabalho e vida não são alcançados nem pela rede de proteção social, nem pela previdência. Crescem, além disso, o desemprego e a desproteção na faixa de pessoas entre 50 e 65 anos. Forma-se, deste modo, a base eleitoral do novo populismo entre os mais jovens e os de idade madura. Essa situação precária de vida alimenta a aversão à política e aos políticos e o desencanto com a democracia representativa. Os populistas têm uma concepção instrumental da democracia. Eles a vêm como um meio para chegar ao poder, mas não a aceitam quando oferece um meio legítimo para retirá-los do poder.

O desafio democrático há muito deixou de ser uma questão apenas política. Não há como revigorar a crença na democracia sem desenhar novas políticas de redistribuição e proteção social, compatíveis com as demandas e limitações dessa transição. Os partidos de esquerda, socialistas, social-democratas, trabalhistas, têm a vocação redistributivista, mas sua visão econômica é ultrapassada. Os conservadores, liberais e neoliberais, têm perspectiva econômica atualizada, mas são avessos ao redistributivismo. Preferem o princípio “sua vida, seu risco”. O modelo da sociedade do indivíduo por conta própria é perfeitamente legítimo e moralmente justificável para eles. Portanto, o desafio democrático global é ainda mais complexo. Não pode ser resolvido com reformas. Ele requer um novo paradigma redistributivo, compatível com a nova realidade econômica e fiscal e com as novas demandas da sociedade da transição. Mas não há, hoje, no espectro político, lideranças capazes de entender esse desafio e propor novos modos para resolve-lo.

A morte de Tzvetan Todorov provocou outro obituário antológico de Sérgio Abranches para o blog do Matheus Leitão. Realmente, o ensaísmo e o pensamento sócio-político contemporâneo já levaram duas pancadas monumentais este ano. Há poucas semanas republicamos o obituário que Sérgio fez de Zygmund Bauman.

3369407

Sérgio lembra que Todorov se definia “depaysé”. Mais que expatriados, eram, Bauman e Todorov, dois despatriados.

http://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/todorov-o-intelectual-insubmisso.html

 

Domingo, 12/02/2017, às 11:07,

Todorov, o intelectual insubmisso

* Por Sérgio Abranches

A humanidade perdeu neste início de ano dois grandes pensadores, ambos expatriados, ou depaysés, como escreveu Todorov, inconformados e avessos aos formalismos e formalidades que tendem a tolher o pensamento. Zygmunt Bauman, nasceu na Polônia e abrigou-se em Leeds, e Tzvetan Todorov nasceu na Bulgária, e fixou-se em Paris. Os dois conheceram a perseguição nazista e o peso da tirania soviética. Na celebração das vidas desses dois homens de ideias, eles foram identificados de maneiras muito distintas: filósofo, sociólogo, pensador, crítico social. Continuo a pensar que a melhor forma de identificar o papel social que os dois desempenharam de forma exemplar é chamá-los de intelectuais. Um termo fora de moda, gasto pelo mau uso, mas que continua a significar para mim, o pensador independente, crítico, comprometido e em sintonia com seu tempo. Os dois foram assim e estão entre aqueles que nos ajudaram de forma única e insubstituível a pensar a grande transição que vivemos. Escrevi sobre Bauman, quando morreu, ele viveu intensamente essa transição, com o corpo e com a mente.

Todorov era um homem cordial, compassivo, e seu pensamento refletia essa condição. Mas o que me atraiu mais nele foi o seu compromisso com a rebeldia. Seu último livro, Insoumis, é uma homenagem à insubmissão e renúncia de personalidades que fizeram história com sua oposição a distintos tipos de tirania. Outra afinidade para mim significativa era a proximidade de Todorov com o pensamento de Rousseau, sobretudo na sua defesa da liberdade e da vida coletiva solidária entre indivíduos em uma sociedade com igualdade de condições e espaço para as diferenças e as diversidades. É essa visão que o fazia ver no Iluminismo ainda a fonte de inspiração para navegarmos as águas tumultuosas dessa transição. Os valores do iluminismo para ele não morrem nem com o esgotamento dos modelos que ele inspirou nos séculos XIX e XX, nem com suas falhas, Valores como a exigência de autonomia individual, de igualdade social e respeito pela diversidade cultural, de aptidões e de desejos e sentido de finalidade das ações humanas. Em outras palavras a crítica permanente das formas de alienação do indivíduo. Também vejo como ele, na radicalização do iluminismo, um caminho profícuo para uma sociedade futura de liberdade, igualdade e diversidade. Afinidades podem ocorrer, mesmo quando há diferenças e divergências de interpretação. A crítica de Rousseau era às desigualdades socialmente determinadas, não às diferenças individuais que levam a modos de vida distintos.

Todorov, como Bauman, olhava o mundo atual de modo muito crítico. Cada um a seu modo. Nos dois, encontramos arguta crítica da economia financista e consumista dos dias de hoje. Nenhum dos dois vislumbrava futuro para esse modelo de especulação e consumo desmedidos. Todorov dizia que nós nos esquecemos de que a economia deve estar a serviço da sociedade e esta era uma das fontes de sua indignação. Ele era, acima de tudo, um humanista. E um otimista. Acreditava na agitação intelectual e no poder do povo de promover a mudança. Por isso era defensor intransigente da democracia, que alertava estar em perigo por toda parte, ameaçada principalmente por seus inimigos íntimos.

Essa foi outra afinidade que me ligou intelectualmente a Todorov. O diagnóstico comum de que a democracia está oligarquizada e as corporações e os grupos de interesses passaram a ter poder demais e a sociedade poder de menos. Via, com toda razão, ameaças nas oligarquias, econômicas, sociais e políticas, no populismo, no ultraliberalismo e no ultranacionalismo. Os governos estão cada vez menos tolerantes à contestação e, como ele dizia, se não há maneira de se opor à opinião do governo do momento, não há democracia. Falava da necessidade e da eficácia da resistência, mas não imaginava que a polarização radicalizada promovesse a democracia ou boas saídas para os impasses civilizatórios que enfrentamos. Imaginava ser preciso haver um terreno comum, valores básicos compartilhados, para que do dissenso pudessem nascer novas ideias e rotas para avançar nessa travessia.

Toda vez que perguntam se, realmente, concordo com alguém a quem faço uma referência elogiosa, penso que não importa concordar. O que importa é se as ideias respeitam a dignidade humana, o livre-arbítrio, mostram um mínimo de solidariedade com os outros e aceitam o diferente. Cada indivíduo, escreveu, é multicultural, as culturas não são ilhas monolíticas. Em O medo dos bárbaros, ele mostrou que o medo é, também, uma forma de tirania e inspira as piores ações possíveis. Ele intuiu, com precisão, que esse medo dos imigrantes, do outro, dos “bárbaros”, será um dos primeiros grandes conflitos da transição do século XXI. Todos os bárbaros não são idênticos, escreveu, em seu último livro. Bárbaros são os que negam a humanidade dos outros. Se temos medo dos bárbaros, nos arriscamos a nos tornarmos os bárbaros. Sua preocupação com a diversidade, com a aceitação e o respeito ao outro tem uma importância capital para os dias que correm.

Tzvetan Todorov foi um autor prolixo, morreu muito mais jovem que Zygmunt Bauman, mas nos legou também uma obra esplêndida. Seus livros passam pela literatura, pela crítica aos formalismos e por todas as questões contemporâneas relevantes que definirão os rumos que a humanidade tomará nas próximas décadas. Para ele é possível se comportar com dignidade moral, mesmo em situações extremas. Não deixou de apontar para os perigos desses tempos de ira e instabilidade crônica, mas procurou sempre mostrar a efetiva possibilidade da esperança.

A morte de um intelectual é uma interrupção dolorosa no fluxo de criação e pensamento. É uma perda. Não teremos mais as luzes de Todorov, nem a fluidez do pensamento de Bauman. A melhor forma de valorizar esse patrimônio de ideias que nos deixaram é refletir, criticamente por certo, sobre o que escreveram e disseram. Aceitar, sem transformar em dogma, discordar sem rejeitar ou desqualificar. Foi isso que fizeram toda a vida.

* Sérgio Abranches é cientista político, escritor e comentarista da CBN. É colaborador do blog com análises do cenário político internacional