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Essa página na revista mensal da segunda maior cadeia britânica de supermercados é imbatível. “Insegura sobre o que sugerir a seu clube do livro? Todo mês o editor literário da publicação Kerry Fowler seleciona um romance que, com certeza, vai fazer você ler, pensar e conversar.” E aí, já viram, dá-lhe THE INVISIBLE LIFE OF EURIDICE GUSMÃO, de Martha Batalha, o livro de outubro.

A super editora de Martha na OneWorld, Juliet Mabey, está mandando pessoalmente essa página da revista para os livreiros chave na Grã-Bretanha. É de cair de paixão.

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Mais uma linda resenha para A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO, de Martha Batalha, em sua edição italiana. Agora na seção de livros da F.

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O trabalho de Martha continua a nos propiciar imensas alegrias. Sua editora francesa, a Denoël, vai lançá-lo com grande festa no Favela-Chic, em Paris, em janeiro de 2017, e está tão confiante no sucesso que já nos apresentou oferta pelo novo livro de Martha, AREIA BRANCA: Um romance de Ipanema, que a autora ainda está escrevendo e só talvez venha a por ponto final em dezembro.

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A capa da edição francesa.

A resenha da F diz tudo sobre EURÍDICE QUE SONHAVA A REVOLUÇÃO, que é como ficou o título em italiano:

“É um romance de estreia, esse de Martha Batalha, mas riquíssimo: em torno das duas protagonistas, a autora desenha, na melhor tradição da literatura sul-americana, um mar de personagens menores (o marido Antenor, a prostituta Filomena, o comerciante Antonio), cada um com uma vida particular, que se encaixa perfeitamente no retrato de um país e de uma época.”

Que Edney Silvestre é um grande autor, não há dúvidas. Mas o que a belíssima resenha de Daniel Moutinho Souza, mestre em Literatura Comparada pela UFRJ, sobre BOA NOITE A TODOS deixa muito claro é a excelência de uma produção literária simples, no sentido de ser boa de ler, e ao mesmo tempo exímia em sua construção e versatilidade. Com uma obra que a cada ano se torna mais robusta, Edney tem grandes chances de ser alçado ao panteão da crítica universitária. E não sou eu que estou dizendo…

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RESENHA DO LIVRO BOA NOITE A TODOS,

de Daniel Moutinho Souza, Mestre em Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro

O quarto livro de ficção de Edney Silvestre, Boa noite a todos (2014), confirma o autor como exímio criador e desenvolvedor de personagens e sua versatilidade no emprego de técnicas narrativas.

O romance de estreia de Silvestre, Se eu fechar os olhos agora (2009), era um thriller meio aventura, meio policial, em que dois meninos investigavam um assassinato na cidade em que viviam no interior do estado do Rio de Janeiro. Tendo como ponto de partida o dia em que o cosmonauta soviético Yuri Gagarin foi ao espaço, o tema central era a perda da inocência num momento símbolo da história da humanidade. No livro seguinte, A felicidade é fácil (2011), o fundo político emoldurava a ação – neste caso, as negociatas de agências de publicidade no financiamento de campanhas eleitorais na Era Collor. O sequestro por engano de uma criança era apenas pretexto para um projeto literário mais ousado: o crime é narrado de diversos pontos de vista, cada qual iluminando um personagem ou conjunto de personagens que se formam vivamente na imaginação do leitor. O terceiro romance, Vidas provisórias (2013), mais uma vez inovava na abordagem da ação. O enredo retoma um personagem de cada um dos livros anteriores, os quais têm em comum a experiência do exílio: Paulo, um dos protagonistas de Se eu fechar os Olhos agora, e Bárbara, coadjuvante em A felicidade é fácil. Suas histórias são continuadas em capítulos alternados, até um encontro surpreendente na sequência final, que então integra os universos das primeiras obras em um só.

Boa noite a todos é um passo à frente nessa trajetória em todos os aspectos: narrativo, linguístico, estrutural. Ele começa como uma novela, com apenas uma personagem: Maggie, que, após uma vida de intensa atividade social, casamentos com três homens de nacionalidades diferentes, se vê envelhecida, empobrecida, abandonada, e entra num hotel de luxo carioca disposta a suicidar-se. A narração se dá com interrupções do fluxo de memória da personagem, em discurso indireto livre. Porém, devido a uma sequência de derrames cerebrais sofridos por Maggie, as lembranças se confundem, são incoerentes e incompletas, dando à novela o tom angustiado de quem tenta organizar os pensamentos, reconstituir sem sucesso sua própria biografia:

Diga que está bem, que o tempo está ótimo, que a temporada na Côte está mais febricitante do que nunca, diga que Monte Carlo ferve com o beautiful people de toda a Europa, diga, escreva, bastam duas linhas ou três, conte que havia muito tempo que Courchevel não via tanta gente linda e interessante e que… Courchevel? Côte d’Azur? Ninguém mais vai a esses lugares. Que coisa mais démodé. Tanto quanto a própria palavra démodé. Você não vai mais, Maggie. Porque não pode. Não tem como.
(SILVESTRE, 2014, p.11)

Em recordações que vão e voltam, incertas como se levadas pelas ondas do mar, conhecemos os maridos dela: o “dourado” Harry, seu grande amor, herdeiro de uma rede de lojas nos Estados Unidos, que a trocou por um rapaz; Henri, diretor de filmes western baratos, ruins e muito lucrativos na Europa; e PR, brasileiro arrivista cujos hábitos Maggie refinou e que terminou por lhe extrair a maior parte dos bens e o que lhe restava de autoestima.

A narrativa caótica de Maggie, conduzida discretamente – mas com firmeza – por um narrador em terceira pessoa, é recheada de citações a árias, filmes, canções populares e celebridades da segunda metade do século XX, principalmente Jackie Kennedy, com quem Maggie teria semelhanças físicas e de estilo. A maioria dessas imagens tematiza a proximidade da morte, como a referência constante a Beim Schlafenghen, poema de Hermann Hesse, musicado por Richard Strauss, e a presença de livros das poetisas suicidas Sylvia Plath e Florbela Espanca na mala da protagonista.

Trata-se de um verdadeiro quebra-cabeças: quanto mais perto do fim, mais nitidez adquire o desenho formado. À medida que o leitor (re)constrói os fragmentos da personagem, o suicídio de Maggie torna-se não apenas inevitável, como desejável, uma libertação para uma vida que conheceu grandes momentos, frequentou a alta sociedade e se encontra sem rumo e sem esperanças. Um retrato de uma aristocracia decadente moral e economicamente, como no Leite derramado de Chico Buarque, mas com resultado ainda mais contundente.

Ao final, Edney Silvestre explica, em ligeiro ensaio sobre “A construção dupla” de seu livro, que “antes mesmo de se completar como prosa, Boa noite a todos começou também a brotar como texto teatral” (Ibid., p.179). Com efeito, é difícil ler a novela e não a imaginar como um monólogo teatral: um único cenário e uma única personagem, cujo discurso se desenrola aos olhos do leitor. Apesar disso, Silvestre conta que não pensou no texto “como monólogo, mas, sim, como uma peça de uma única personagem” (Ibid., p.179); por outro lado, não explica o que considera como a diferença entre eles.

O autor demonstra versatilidade em um terreno no qual ainda não se aventurara: o drama. Repórter de televisão experiente, Edney Silvestre está ciente dos diferentes tratamentos à linguagem escrita e a que visa à oralidade. “A peça originada da novela, que acabou por levar a transformações do texto em prosa”, oferece um interessante complemento à novela. Por exemplo, a canção Beim Schlafenghen, que pontua a narração, intensifica o potencial dramático da despedida de Maggie ao funcionar como trilha sonora. Apesar da inevitável redundância entre os dois textos – em prosa e dramático –, Silvestre alcança um resultado original e interessante, assim como a criação do discurso errático de Maggie.

A “construção dupla” de Boa noite a todos é, na verdade, tripla: novela, peça em um ato e o ensaio que o encerra e explica a estratégia de composição da obra. Ele reflete sobre diferenças entre os textos em prosa e dramático contextualizando algumas referências intertextuais da novela. Apesar de pouco profundo, é um acréscimo interessante, na medida em que permite que o leitor desbrave o propósito do autor, como um making-of.

Em vista disso, apenas seria dispensável, nas páginas finais do volume, o “mosaico de Maggie”, seção que volta a explorar diversas referências culturais e intertextuais presentes ao longo do texto. Uma narração em forma de quebra-cabeças, caracterizada por idas e vindas de uma mente debilitada e caótica, poderia deixar essa tarefa a cargo do leitor, como peças adicionais do jogo. Mas não é nada que ameace os méritos da obra, em especial o de lançar um olhar generoso e piedoso sobre uma personalidade destroçada, abstendo-se de julgá-la quando opta por interromper sua história.

Como retrato da decadência econômica e moral de uma pretensa aristocracia carioca, a obra de Silvestre alcança momentos de excelência. Boa noite a todos, em suma, torna mais próximo o momento em que a crítica universitária se verá diante da obra de Edney Silvestre.
Dados da obra resenhada: SILVESTRE, Edney. Se eu fechar os olhos agora. Rio
de Janeiro: Record, 2009.

http://www.revlet.com.br/artigos/326.pdf