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Sérgio Abranches reflete neste artigo sobre o perturbador Brexit e as eleições espanholas. Que medo, esse mundo.

Absolutamente imperdíveis para quem ambiciona se não entender a contemporaneidade, pelo menos pensá-la com conceitos claros e alguma objetividade, esses artigos do Sérgio dão bem o tom do que será O COMPLEXO DE PROMETEU, seu ensaio seminal a sair no início do próximo ano.

 O voto no Reino Unido e na Espanha, sociedades divididas e perplexas

Sérgio Abranches

O referendo no Reino Unido e as eleições gerais na Espanha além de serem decisões históricas, são indicadores das contradições de nosso tempo. Eleições divididas, que nada resolvem, aumentam a incerteza e a perplexidade. Estão no limite de validade da democracia tal como a conhecemos. O desencanto dos cidadãos com a democracia pela qual não se sentem representados é um dos principais desafios civilizatórios do século XXI. Sem o regime de liberdades, os princípios republicanos da igualdade na lei e da fraternidade/solidariedade, não teremos como atravessar com sucesso essa longa transição que está mudando globalmente paradigmas econômicos, sociais, políticos, científicos e tecnológicos e os padrões comportamentais. Mas a democracia representativa assegura menos liberdade que no passado, já não acredita na igualdade na lei e perdeu a solidariedade. Ficou mais curta que a sociedade que com ela se descontenta.

O voto britânico a favor da saída da União Europeia foi um retrocesso na trajetória do próprio Reino Unido. A partir da Londres mestiça, cosmopolita, aberta, buscando ser inteligente, sustentável e democrática, que acaba de eleger um prefeito muçulmano, o Reino Unido caminhava para ser um país mais integrado às tendências transformadoras da fase avançada da globalização. Com a saída, retorna à trilha do isolamento que o separa do continente e das vanguardas da mudança global. Na Espanha, a divisão revela uma sociedade que ainda dá ligeira maioria para os lados esquerdo e direito de um sistema partidário analógico que perde representação e relevância. Mas, uma parte nada desprezível dos eleitores preferiu os novos da política que nasceram nas ruas mobilizadas pela indignação e pela esperança e se consolidaram nas redes sociais, reunindo a praça física e o espaço digital. Essa nova Espanha, jovem, cosmopolita e digital conquistou um terço das cadeiras.

A escolha dos britânicos foi recebida com um sentimento misto de sobriedade e preocupação. Só depois de apurados os votos incertos, revelando maioria mínima pela Brexit, todos se deram conta da gravidade e do alcance da escolha majoritária. Agora, o sistema político e a sociedade terão que buscar a melhor forma de dar consequência a uma decisão sobre a qual nenhum segmento, exceto os da extrema-direita nacionalista, tem convicções firmes. A opção pela saída da União Europeia já teve consequências. Reabriu o dissídio com a Escócia, que pode rumar para  a secessão. Os escoceses têm toda razão. É muito melhor ser uma nação independente e parte da federação europeia, do que um súdito menor do Reino Unido. A Irlanda do Norte pode seguir na mesma direção. Os dois países votaram majoritariamente pela permanência. As preferências dos dois se mostraram o avesso das preferências da Inglaterra e do País de Gales. Os dois principais perdedores do referendo britânico foram a Londres mestiça, um dos mais avançados exemplos de cidade cosmopolita e transcultural — como Toronto e Vancouver, no Canadá — em sintonia com as tendências do novo tempo; e a City, um dos centros do capital financeiro globalizado,  que exerce a hegemonia do sistema econômico global. O referendo é um flagrante das perturbações e confusões dessa grande transição global, na qual o mundo que conhecemos perde força e capacidade de mobilizar, empregar, representar e o mundo emergente, não está maduro ainda para oferecer respostas eficazes que acomodem os interesses repelidos pelas velhas estruturas, ou que delas se apartam.

A eleição espanhola reproduziu, com ligeiras alterações, a mesma divisão que deixou o país seis meses sem governo. As escolhas do eleitorado também expressam esse entrementes da transição, no qual velho e novo convivem desarmônicos e em trajetórias inversas. Os conservadores do PP, liderados por Mariano Rajoy, fizeram 39% das cadeiras do parlamento. Os socialistas do PSOE, liderados por Pedro Sánchez, conquistaram 24% dos postos parlamentares. Os dois representam a velha estrutura partidária, hegemônica desde que os Pactos de Moncloa, de 1977, estabeleceram as bases para a democracia na Espanha sob a monarquia parlamentarista. Juntos, controlam ainda 63% da representação parlamentar, mas não têm condições de formar uma coalizão de interesses da velha ordem. Sánchez diz, com razão, que a missão do PSOE é evitar um governo com Rajoy no comando. A terceira força, com 20% das cadeiras no parlamento, é o Podemos, vindo direto dos lados esquerdos das ruas indignadas. É liderado por Pablo Iglesias. A quarta força parlamentar é o Ciudadanos, ou Cs, partido liberal-conservador, expressão das novas classes médias, também nascido nas ruas. Fez pouco menos de 10% das cadeiras.

Uma coalizão dos velhos conservadores com os novos, ainda não teria a maioria. Seria necessário trazer para a aliança algumas legendas nanicas. Mas a maioria delas representa segmentos regionais, em grande medida avessos a Rajoy. Uma coalizão da velha esquerda, representada pelo PSOE, com o Podemos ainda precisaria do apoio de duas legendas da esquerda catalã, a ERC (Esquerra Republicana de Catalunya) e a CDC (Convergència Democràtica de Catalunya). Mas elas não confiam em Sánchez, do PSOE. Este, por sua vez, não confia em Iglesias, do Podemos. Por isso, na sua tentativa fracassada de formar um governo, antes dessas últimas eleições gerais, cometeu o erro fatal de preferir o Ciudadanos ao Podemos.

Então, é assim: Sánchez não confia em Rajoy, nem em Iglesias. Iglesias rejeita Rajoy e não confia no líder do Ciudadanos, Albert Rivera, que também não confia nele. As legendas menores, por sua vez, desconfiam de Rajoy e de Sánchez.

Esse confronto entre forças poentes e forças emergentes, de todos os matizes, tende mesmo ao impasse, dificultando o jogo político. A saída “óbvia” seria a grande coalizão, reunindo os dois partidos analógicos, até recentemente hegemônicos. Mas a desconfiança que nutrem pelos novos não supera as rivalidades que se cristalizaram ao longo de quase quatro décadas de adversariedade bipartidária. Eles continuam representando interesses antagônicos, todos incrustados na velha ordem. Os “novos” partidos digitais, que têm existência na ciberesfera, nas redes sociais, tão intensa quanto na sociedade, ainda representam interesses difusos e heterogêneos, de segmentos que estão sendo expulsos da economia em retração estrutural e de setores emergentes, que ainda não têm espaço próprio nas novas estruturas socioeconômicas em formação. Representam a mescla entrevista por Manuel Castells, quando fala nas redes de indignação e esperança. A indignação dos que estão sendo deslocados dos mercados e das posições que detinham na sociedade e na economia em ocaso. A esperança daqueles que nasceram digitais e que, embora vivendo as angústias do desemprego e o desconforto do desencaixe no mundo que se desarticula, esperam o amadurecimento da nova economia e que os novos partidos, de fato, sejam capazes de interpretar e representar seus interesses.

Dúvida britânica e dúvida espanhola. Dúvida global. Os cidadãos dessa transição não têm outra coisa a fazer, se não aprender a conviver com a incerteza e com o risco. Vivemos tempos incertos, de muita mudança, sinais contraditórios, risco de eventos inesperados e não-antecipáveis. Toda decisão coletiva, nesse intervalo entre uma era e outra, terá sempre mais consequências não-antecipadas do que resultados previsíveis. Daí ter muita razão o sociólogo Ulrich Beck ao caracterizar como sociedade de risco esse mundo globalizado, em transição, no qual o indivíduo confronta o cidadão e as ondas difusas de descontentamento varrem as praças intermitentemente para manifestar seu desconforto e desencanto, mas sempre apostando que é possível mudar, avançar e superar.