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Consagrador o comentário do super escritor Nelson Motta sobre a ficção de Alberto Mussa no alto da página de Opinião de O Globo de sexta-feira, 15 de julho. Depois de refletir sobre a intensidade maior da fruição literária em comparação com outras formas de arte, Motta revela que leu A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO e O SENHOR DO LADO ESQUERDO de enfiada, completamente imerso nos crimes do Rio de Janeiro criados e recriados pelo Beto.

 

CRIMES CARIOCAS

O mesmo livro não é igual para dois leitores: cada um o complementa com sua imaginação e suas memórias

Quando quero descansar a cabeça do trabalho, sair um pouco das tragédias e vergonhas brasileiras e do pequeno mundo dos problemas cotidianos, é para os livros que viajo. Porque na música, na dança, nas artes plásticas, no teatro e no cinema, o espectador é passivo e só lhe cabe desfrutar e absorver a arte, o que já é muito bom, mas um bom livro só existe com um leitor ativo e participante, criando junto com o escritor as caras e os corpos dos personagens, os cenários, as ações, na tela da cabeça de cada um.

O mesmo livro não é igual para dois leitores: cada um o complementa com sua imaginação, suas memórias, seus medos e desejos pessoais. E isso exige completa concentração e envolvimento, viajar para o universo da narrativa e mergulhar. Ler é um lazer de imersão.

Pode-se assistir a um show, uma peça, um filme, pensando em outras coisas, olhando uma tela paralela, mas lendo um livro não dá, você perde o fio da história se não estiver totalmente conectado. Ainda bem que, nesse caso, o livro permite que você releia o que perdeu.

Passei muitas horas excitantes e relaxantes no Rio de Janeiro de 1567, entre índios, portugueses e escravos, acompanhando a investigação do primeiro crime da cidade, que tinha dois anos, três ruas e 450 habitantes. Crime passional, com vários suspeitos e testemunhas, com o passo a passo da investigação baseado em documentos da época. E na imaginação de Alberto Mussa, sem que se fique sabendo onde uma termina e a outra começa em “A primeira história do mundo”.

Depois, viajei com Mussa para o Rio de Janeiro de 1913, quando um alto político do governo Hermes da Fonseca é assassinado misteriosamente em um bordel clandestino que um médico polonês mantinha no palacete que havia sido da Marquesa de Santos em “O senhor do lado esquerdo”, um romance de mistério eletrizante misturando sexo, poder, mulheres fatais e feitiçarias, com um final assombroso.

São dois dos cinco romances policiais de época em que Mussa mostra que não é a geografia, a arquitetura, os heróis nem as batalhas que definem uma cidade: é a história dos seus crimes.

Nelson Motta é jornalista

http://oglobo.globo.com/opiniao/crimes-cariocas-19717861