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O mérito dos artigos de Maicon Tenfen na Veja não está só na luz que ele joga sobre os assuntos quentes da pauta, tal como na semana passada sobre a histeria das denúncias de assédio sexual nos EUA (infelizmente chegando ao Brasil). Muitas vezes Maicon pinça temas sobre os quais ninguém falou.

É o caso desse artigo sobre a patetice dos formandos de hoje em dia. Estamos em plena temporada de formaturas, cerimônias que dão vergonha na gente se não da espécie humana, certamente da nossa condição de brasileiros.

O brasileiro não estuda, mas é louco por cerimônias de formatura

 

Nada se compara à mediocridade dos nossos estudantes, nem o cinismo e a picaretagem de um Brás Cubas

 

Se tem uma coisa que brasileiro detesta é estudar. Perdemos sempre que inventamos de competir com o estrangeiro, e não falo aqui dos nórdicos ou das demais nações europeias, mas das republiquetas africanas e dos países mais pobres da América Latina. Perdemos inclusive quando competimos com nós mesmos, haja vista a queda vergonhosa que os nossos índices de aproveitamento sofreram nos últimos 20 anos.

Mas isso não significa que desprezamos as pompas da educação. Pelo contrário: amamos os diplomas e as honrarias na mesma medida em que odiamos uma prova de linguística ou uma apostila de cálculo diferencial. Está na nossa literatura, em Machado, até agora a melhor radiografia do espírito nacional. “Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade”, diz em 1881 o personagem-narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

“Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim: embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas para as despesas da conversação (…) Colhi de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação, que eram para o meu espírito, vaidoso e nu, o mesmo que, para o peito do selvagem, são as conchas do mar”.

Ah, se em 2017 os estudantes ainda decorassem a casca das matérias para as despesas da conversação! Parece que agora a regra geral é o formando bater no peito e gritar bem alto que passou os quatro ou cinco anos da faculdade sem entrar na biblioteca. Não é de admirar que muitos estejam nas redes sociais afirmando que a terra é quadrada ou que Hitler era um político de esquerda.

Você nunca viu um Brás Cubas ao vivo?

Basta comparecer a uma das cerimônias de formatura do chamado Ensino Superior que abundam nesta época do ano. Eis um retrato fidedigno da educação brasileira: amor pela simbologia e ódio pelo conteúdo. Valendo-se da ritualização medieval que tenta promover os formandos a nobres distintos da plebe, as instituições de ensino, na luta por mais visibilidade no mercado, transformaram as formaturas em showzinhos de marquetagem.

A cena que se repete no palco é de uma clareza assustadora: quanto mais malandro é o Brás Cubas da vez, mais comemora na hora de receber o “canudo”. Pula, grita, rebola, alguns até viram cambalhotas. É como se estivessem tirando um sarro do mundo, como se dissessem “consegui, apesar da minha indolência, mas só consegui porque vocês, professores, são mais medíocres do que eu”!

Os pais vão ao delírio — foi para esse momento que pagaram as caríssimas mensalidades —, mas a verdade é que toda simbologia funciona como uma faca de dois gumes. Geralmente, aquelas latinhas que os formandos recebem em triunfo vêm vazias, o que constitui uma excelente metáfora do nosso sistema de ensino. Estudantes ocos de conhecimento recebem diplomas que, comprados com dinheiro público ou privado, sequer existem no “rito de passagem”.

Nada em troca de nada — um saldo justo, afinal.

O brasileiro não estuda, mas é louco por cerimônias de formatura

 

É a voz de Maicon Tenfen na Veja. Para nós, ele diz, com brilho e graça, o óbvio. Mas nos dias de hoje tudo que é evidente torna-se motivo de gritaria na rede. Infelizmente nunca foi tão necessário repetir o óbvio. Felizmente para o Maicon, que já está entre os colunistas mais lidos da revista. 

Seu último comentário sobre a onda de denúncias de assédio sexual está uma delícia. No final, ele usa o conceito correto: histeria.

Quem tem um mínimo de contato com os EUA sabe que se trata de um país histérico. Pelo menos dois episódios de sua história demonstram a tese cabalmente: as Feiticeiras de Salem, da época colonial, transformado em peça clássica de Arthur Miller, e o macartismo da década de 50. Ambos episódios ancorados no puritanismo hipócrita que fundou a nação. 

Muito despistado quem não perceber a semelhança do momento atual com as acusações infundadas e falsas de crimes religiososo, sexuais ou políticos de épocas passadas. Tragédia é a mania brasileira de só adotar, adquirir, importar os que os EUA têm de pior _ pela esquerda ou pela direita, na cultura, na política e na economia. 

Passamos batido pelos muitos, inegáveis e inequívocos méritos da sociedade americana. Mas o politicamente correto mais histérico e contraprodutivo, os argumentos da luta contra o racismo que só se aplicam à experiência americana e que nada servem para combater a nossa forma de desigualdade e discriminação racial, o feminismo puritano e antierótico voltado contra os homens, que também em nada somam para uma convivência de harmonia e cooperação entre os sexos _ isso tudo, opa, é conosco mesmo junto com bonecas Barbie, McDonald’s e filmes de Hollywood de quinta categoria.

Clique aqui para ler a coluna de Maicon Tenfen na íntegra.

EDNEY

Outro destaque maravilhoso da Revista de Divulgação Cultural é a entrevista que Maicon Tenfen fez com Edney Silvestre. Mostra que Edney é craque como entrevistado, não só como entrevistador. Ele teve a sorte que dá a quem lhe concede entrevistas: encontrou um interlocutor brilhante.

Muito bom para um autor dar entrevista para a RDC. A matéria que segue coordenada ao final, “A biblioteca Silvestre”, com os principais títulos do Edney, ficou uma graça e utilíssima.

Clique aqui para acessar a matéria.

 

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No próximo número da Revista de Divulgação Cultural, que está rodando agora, será publicado “Eles estão chegando”, esse conto aterrador e belo de Sérgio Abranches. O medo é um tema eterno na obra do Sérgio, essa paranoia que sofremos todos nos dias de hoje, fundamentada nos sustos reais que a sociedade constantemente nos prega.

A RDC é publicada pela editora da Universidade Regional de Blumenau e dirigida pelo professor e escritor Maicon Tenfen. Com inteligência e bom-gosto, está somando muito no esforço de valorização da literatura contemporânea brasileira.

Clique aqui para ler o conto.

 

Um conto de Miguel Sanches Neto, “O outro lado de Kafka”, está no número da Revista de Divulgação Cultural que volta à cena depois de uma longa década em que a publicação foi interrompida. A revista, patrocinada pela Fundação Universidade Regional de Blumenau, existiu de 1977 a 2006.

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Retorna agora sob a batuta do escritor e professor Maicon Tenfen. Em formato grande, tipo “Piauí”, a RDC vai trazer um conto inédito de autor brasileiro em atividade a cada edição.

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Quando Maicon, autor do belo romance juvenil QUISSAMA, põe a mão em algum projeto, o resultado fica sempre excelente, tudo dá certo. Confiamos que ele conseguirá despir a revista, que é universitária, de todo ranço de linguagem acadêmica, aumentando sua circulação e impacto e contribuindo para a cultura desse Brasil decente que existe longe do eixo Rio-São Paulo e principalmente do covil brasiliense.

Nosso querido autor da série QUISSAMA, Maicon Tenfen, escreveu um artigo perfeito sobre os riscos de guetificação da sociedade brasileira se esta mergulhar na lógica do politicamente correto e na grita das reparações históricas. Leitura muito enriquecedora.

Clique aqui para ler o PDF. 

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