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Nasci nos EUA, infelizmente não em Nova York, como meu pai, Raymond Moss, que é do logradouro do Queens, mas no longínquo Missouri. Felizmente, na mais tenra idade fui transferido para Manhattan, mais precisamente para a Lexington Avenue, o que me propiciou, vejam as voltas do destino, acabar no Rio de Janeiro, lugar onde eu adoro viver, apesar do calorão e de o Brasil estar se desmilinguindo. Mas ainda me sinto um pouco americano e, como tal, estou acompanhando as primárias dos partidos Democrata e Republicano com toda atenção, morrendo de medo de que meu segundo país caia nas mãos de Hillary Clinton, do Donald Trump, ou do Ted Cruz.

Não seria um desastre tão espetacular como o Brasil nas mãos de Dilma Roussef, mas ainda assim as proporções do cataclisma poderiam assustar o mundo, considerando que estamos falando de Estados Unidos. Por isso mergulhei de corpo e alma na campanha pela nomeação democrata à candidatura presidencial, leio todo o noticiário e torço loucamente pelo socialista e judeu como eu, Bernie Sanders. Na família, eu e minha irmã Bebel Sader, que me enviou o vídeo da campanha do Bernie, somos os mais engajados, mas ela não tem cidadania americana.

Todo esse nariz de cera para compartilhar com vocês uma notícia do jornalzinho The Forward, que achei bem engraçada e, tendo caráter literário, simpática ao blog da VB&M. É sobre um climão criado em 1983 entre o então prefeito de Burlington, maior cidade do estado de Vermont, Bernie Sanders, e o poeta beat Allen Ginsberg. Doidão, homossexual e socialista (gaúchos apelidariam o poeta de Além, e essa é uma piada para muito poucos, que não vou explicar, a fim de não ser preso pela polícia do Departamento de Politicamente Correto), Ginsberg foi lá manifestar apoio à governança do Sanders e conversar com ele sobre ideais utópicos. Tudo às mil maravilhas, como a foto do Forward demonstra.

À noite, houve um recital do poeta numa grande sala da prefeitura  e, como sempre a partir de 1976, ele foi acompanhado pelo guitarrista Steve Taylor, que é quem conta a história ao Forward. O prefeito fez a apresentação de Allen Ginsberg para o público, todo pimpão e orgulhoso como ficam os políticos em atividades culturais ou perto de artistas famosos. (Eu só fico assim quando saio puxando a Bebel ou a Anna Luiza Cardoso pelas ruas do Leblon; não dou a mínima para artistas famosos.)

Segundo Taylor, naquela época o Ginsberg estava com o costume de toda vez que fazia um recital experimentar junto ao público algum poema que estivesse escrevendo. Ele se animava e tascava o poema em progresso. Só que naquela ocasião o poema em construção era o “What you up to?” (ou “Você está a fim de quê?”), que pode ser lido ao final da edição de sua POESIA REUNIDA e que descreve graficamente o sexo anal. Foi a maior saia justa. O prefeito se levantou de sua cadeira no prédio de sua prefeitura, em meio a seus eleitores intelectuais, e saiu constrangido durante a leitura.

Aqui o relato do Taylor, que  deve ser um boa-gente bem gozado, contando que achou aquilo a maior sacanagem: “Que pesadelo para um político. O cara já é socialista, já deve estar cheio de problemas. E aí entra o Allen para ler sobre sexo anal (em um evento da prefeitura) Era um pouco a militância gay dele, mas também seu gosto de falar pornografia em público. O Ginsberg não deveria ter feito isso.”

Meio sem noção o poeta. Não se pode aprontar assim com os raros políticos do Bem. Mas ainda mais sem noção é o pessoalzinho do Forward. Não é que estão atrás do Bernie para que ele comente sobre o episódio? Querem o quê, criar um clima entre ele e os gays, cujo voto pode ir bem para a lacraia Hillary?

De resto, é interessante observar na foto que o Bernie parece o poeta, e o Ginsberg, o político engravatado. Mas diz o Taylor que ele comprou o terno na lojinha do Exército da Salvação só para visitar o prefeito socialista.

NVB