Tag: literatura brasileira

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O novo romance de Rafael Cardoso, O REMANESCENTE, é estupendo. Perfeitamente definido pelo conceito de nonfiction novel, criado por Truman Capote, é daqueles livros que só se larga, e a muito custo, ao terminar. Conta a história real, porém romanceada, de seu bisavô Hugo Simon, um judeu, banqueiro, socialista e colecionador de arte, figura importantíssima na República de Weimar e grande financiador da resistência ao nazismo, que fugiu da Alemanha para um trágico exílio no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.

A história da família é fascinante e Rafael fez um trabalho de pesquisa e reconstrução históricas espetacular, traduzido em forma de romance com acuidade e profundo talento narrativo. As personagens são densas, seus dramas, vivos; e as transformações por que vão passando ao longo da narrativa nos fazem sentir quase que na pele suas dores, angústias e pequenas alegrias.

O REMANESCENTE será publicado simultaneamente no Brasil e na Alemanha, por Companhia das Letras e Fischer, respectivamente, em outubro próximo, e a campanha pré lançamento da Fischer está a todo vapor. Recebemos ontem o catálogo da temporada da editora, com página dupla dedicada ao livro, que sairá com o título de “Das Vermächtnis der Seidenraupen” (“O legado dos bichos da seda”, em tradução livre). Haverá, também, edição holandesa, pela Niew Amsterdam, mas essa só em meados do ano que vem.

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Consagrador o comentário do super escritor Nelson Motta sobre a ficção de Alberto Mussa no alto da página de Opinião de O Globo de sexta-feira, 15 de julho. Depois de refletir sobre a intensidade maior da fruição literária em comparação com outras formas de arte, Motta revela que leu A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO e O SENHOR DO LADO ESQUERDO de enfiada, completamente imerso nos crimes do Rio de Janeiro criados e recriados pelo Beto.

 

CRIMES CARIOCAS

O mesmo livro não é igual para dois leitores: cada um o complementa com sua imaginação e suas memórias

Quando quero descansar a cabeça do trabalho, sair um pouco das tragédias e vergonhas brasileiras e do pequeno mundo dos problemas cotidianos, é para os livros que viajo. Porque na música, na dança, nas artes plásticas, no teatro e no cinema, o espectador é passivo e só lhe cabe desfrutar e absorver a arte, o que já é muito bom, mas um bom livro só existe com um leitor ativo e participante, criando junto com o escritor as caras e os corpos dos personagens, os cenários, as ações, na tela da cabeça de cada um.

O mesmo livro não é igual para dois leitores: cada um o complementa com sua imaginação, suas memórias, seus medos e desejos pessoais. E isso exige completa concentração e envolvimento, viajar para o universo da narrativa e mergulhar. Ler é um lazer de imersão.

Pode-se assistir a um show, uma peça, um filme, pensando em outras coisas, olhando uma tela paralela, mas lendo um livro não dá, você perde o fio da história se não estiver totalmente conectado. Ainda bem que, nesse caso, o livro permite que você releia o que perdeu.

Passei muitas horas excitantes e relaxantes no Rio de Janeiro de 1567, entre índios, portugueses e escravos, acompanhando a investigação do primeiro crime da cidade, que tinha dois anos, três ruas e 450 habitantes. Crime passional, com vários suspeitos e testemunhas, com o passo a passo da investigação baseado em documentos da época. E na imaginação de Alberto Mussa, sem que se fique sabendo onde uma termina e a outra começa em “A primeira história do mundo”.

Depois, viajei com Mussa para o Rio de Janeiro de 1913, quando um alto político do governo Hermes da Fonseca é assassinado misteriosamente em um bordel clandestino que um médico polonês mantinha no palacete que havia sido da Marquesa de Santos em “O senhor do lado esquerdo”, um romance de mistério eletrizante misturando sexo, poder, mulheres fatais e feitiçarias, com um final assombroso.

São dois dos cinco romances policiais de época em que Mussa mostra que não é a geografia, a arquitetura, os heróis nem as batalhas que definem uma cidade: é a história dos seus crimes.

Nelson Motta é jornalista

http://oglobo.globo.com/opiniao/crimes-cariocas-19717861

Depois de assistir a “Paulina”, no Estação, sábado dia 9 de julho, Anna Luiza foi dar nosso clássico cheque na exposição de livros VB&M na Travessa de Botafogo. Ficou satisfeita com a visibilidade de Martha Batalha, com A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO (Companhia das Letras); de Edney Silvestre, com WELCOME TO COPACABANA (Record);  de Miguel Sanches Neto, com A BÍBLIA DO CHE (Companhia); de Alberto Mussa com OS CONTOS COMPLETOS (Record); de Raphael Montes com DIAS PERFEITOS (Companhia); e de Betty Milan, com A MÃE ETERNA (Record).

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A exposição do Chico Azevedo foi motivo de especial alegria, porque não era só O ARROZ DE PALMA a figurar com destaque. Também muito bem exposto estava DOCE GABITO, um dos romances mais injustiçados da safra recente da literatura brasileira, que somente agora, quatro anos depois de publicado, começa realmente a deslanchar. A essa altura, o ARROZ, de 2008, já se tornou um clássico com mais de 50 mil exemplares vendidos e saindo cada vez mais do estoque da Record.

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De estrangeiros, ela encontrou bem colocados QUANDO FINALMENTE VOLTARÁ A SER COMO NUNCA FOI (Valentina), de Joachin Meyerhoff, a história do filho de um psiquiatra que é criado entre loucos de um hospício, e PAPEL DE PAREDE AMARELO (José Olympio), de Charlotte Perkins Gilman, um clássico da literatura feminista americana, que conta a vida de uma mulher praticamente mantida em cárcere privado pelo marido, no final do século 19.”

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Compartilhamos com os amigos da VBM um presente que recebemos da cliente alemã Kiwi. Três links (em alemão, com legendas em inglês ou espanhol, e em francês) levando a um documentário para a TV sobre a nova literatura de mistério tendo como pano de fundo o III Reich. Dominique Manotti, Philip Kerr (grande autor inglês bastante publicado pela Record na virada do século) e Volker Kutscher (de quem representamos a magnífica série Berlim Noir) contam como lhes veio a ideia de escrever literatura policial ambientada na Alemanha nazista e por que são fascinados pela temática.

Como leitora, só aprecio de verdade a literatura policial quando tem um fundo político. Neste momento, aguardamos com expectativa o lançamento em maio de A BÍBLIA DO CHE, de Miguel Sanches Neto, que explora as ambiguidades morais da esquerda no poder. Vamos cultivar a esperança de que os crimes de corrupção (mas não só, pois é preciso voltar ao assassinato de Celso Daniel, entre outros delitos) que atualmente traumatizam a vida brasileira  sirvam ao menos para desenvolver entre nós um gênero de ficção.

Como disse Raphael Montes outro dia no fb, a realidade brasileira está criando dificuldades para os ficcionistas. Como superá-la? Mas o nazismo – um horror impossível de se conceber como ideia – como recorte da história factualmente passada talvez seja o maior tema da literatura e da filmografia contemporâneas. Que o thriller literário do Miguel seja o aperitivo de um grande gênero da ficção brasileira.

(Não me cobrem uma indevida comparação sobre o momento brasileiro e a experiência nazista. Quem gosta da comparação indigna e espúria são Dilma Roussef e Lula da Silva. Estou apenas tratando de matéria para a literatura.)

 

LVB

 

(http://www.arte.tv/guide/fr/053937-000-A/les-romans-policiers-et-le-troisieme-reich)  

(http://www.arte.tv/guide/en/053937-000-A/crime-novels-and-nazi-germany?country=DE)

(http://www.arte.tv/guide/es/053937-000-A/la-novela-policiaca-y-la-alemania-nazi?country=DE)

Estamos inaugurando hoje o Blog da VBM com um artigo que escrevi originalmente para a edição 17 da revista do Observatório Itaú Cultural, que foi distribuída em Paraty. O título é “Ser ou Não Ser Brasileiro” e trata da literatura que autores brasileiros estão tentando emplacar no mercado internacional. Nosso blog será um espaço para nós nos manifestarmos a respeito de temas literários, editoriais ou relativos a nossos autores e estará aberto para todo mundo ligado à agência – profissionais ou clientes.

SER OU NÃO SER BRASILEIRO

Brasileiro tem pavor de ser exótico. É compreensível. Algumas de nossas melhores contribuições ao acervo artístico da humanidade poderiam ser enquadradas no exotismo, mas essas manifestações nos remetem a um tempo de nenhuma autonomia cultural e política, de subserviência aos ditames coloniais e imperialistas do que cabia a cada um criar e produzir; conduzem-nos à recente memória de nossa condição de quintal norte-americano, brasileiro compondo, escrevendo, pintando, para Tio Sam e o Velho Continente aprovarem a nossa batucada.

O exotismo seria a negação de uma sofrida e dolorosa urbanização e (incompleta) industrialização. Na literatura, não produzimos mais ficção que possa ser considerada exótica, embora sigamos atormentados com a aprovação do “Primeiro Mundo”. Minha experiência pessoal diz que, no Brasil, a pergunta mais frequentemente dirigida a um agente literário é: “o que espera o editor estrangeiro da literatura brasileira?”. Com olhar ansioso, repetem escritores, produtores culturais e jornalistas: “o editor estrangeiro ainda quer de nós uma literatura exótica?”. Há quase cinquenta anos não desembarcam nas livrarias americanas e europeias mulatas tão lindas e sensuais, tão contraditórias e divertidas, quanto Florípedes e Gabriela. Os editores que primeiro traduziram a obra de Jorge Amado estão aposentados ou já morreram. Para leitores e editores internacionais de hoje, a referência amadiana é desbotada, sem nitidez. Posso garantir: o editor estrangeiro não tem qualquer expectativa de que o autor brasileiro entregue uma ficção de caráter exótico para publicação internacional. O editor estrangeiro ignora nossos problemas com o exotismo, bem como nossas cólicas narcísicas em relação à nossa autoimagem e àquela que projetamos. O que talvez o editor estrangeiro espere de nós é que não tenhamos tanto problema em ser brasileiros. Será assim tão absurdo que se espere do Brasil uma literatura brasileira? Os EUA podem fazer uma literatura americana, a Itália, italiana, a Índia, definitivamente indiana, assim como os países latino-americanos apresentam sua produção nacional. No entanto, do Brasil não se pode querer, segundo cartilha que não se sabe quem entre nós determinou, uma ficção brasileira que, por meio de personagens densos, de uma voz própria, de uma linguagem inovadora, reflita dramas de nossa história e cultura naquilo que têm de local e universal. Para escapar à pecha do exotismo, novos autores brasileiros parecem se dedicar a suprimir de suas obras qualquer mínima marca nacional.

Mas logo que abri a agência VB&M, em 2012, ouvi, a esse respeito, um questionamento interessante por parte da scout Carmen Pinilla, que busca títulos em língua espanhola ou portuguesa para uma carteira que tem, entre seus clientes, algumas das mais importantes editoras do mundo:

“O Brasil é tão imenso, tem uma história tão intensa e diferente, com a influência africana, com tantos imigrantes da Europa, do Japão, com tantos cenários possíveis; por que sua literatura não reflete isso? Por que há tantos protagonistas que são autores autores com bloqueio criativo, em relações homo ou heterossexuais, mas sempre frustradas e bizarras, em metrópoles que se supõe que sejam São Paulo ou Rio, ou até fora do Brasil, mas nada muito delineado?”

Respondi que não era só isso que tínhamos a oferecer, mas a scout insistiu que era essa a ficção que dava o tom à literatura brasileira de hoje. Em seguida, recomendou enfaticamente a seus clientes O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo, que apresenta uma história de família e imigração portuguesa, atravessando várias gerações, cujos direitos de tradução foram comprados em doze países, por editoras como Simon & Schuster, Planeta e Mondadori. Há muitas outras obras que exalam Brasil a cada parágrafo, como a ficção de Alberto Mussa, Edney Silvestre, Miguel Sanches Neto, Luiz Ruffato; ou ainda Tempos Extremos, de Míriam Leitão, Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, Eufrásia, de Claudia Lage; e outras cujos protagonistas nada têm a ver com aquele descrito por Carmen. No entanto, talvez façam parte mesmo de uma minoria. A escravidão e a ditadura estão espocando nos entrechos do romance brasileiro, mas há que se acatar as razões de Carmen para afirmar que o Brasil contemporâneo está estranhamente ausente de sua literatura.

Quando se olha para a produção literária norte-americana, a comparação causa ainda maior estranheza. Nos EUA, cada acontecimento histórico provoca tamanha profusão literária, que se criam quase subgêneros. Os ataques terroristas de setembro de 2001 propiciaram romances magistrais como Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, Ao Pé da Escada, de Lorrie Moore, e Deixe o Grande Mundo Girar, do irlandês residente em Nova York, Colum McCann, para citar os de minha preferência. Recentemente, a crise financeira gerou, entre múltiplos títulos, pelo menos um rigorosamente impactante, Union Atlantic, de Adam Haslett, sobre titânico conflito entre um banqueiro poderoso e uma professora de História aposentada. Muito além do thriller e do policial, há desde o romance de beisebol até o romance universitário (campus novel) e a ficção sulista, afro-americana ou americano-nativa. São tantos gêneros e subgêneros que cada aspecto da realidade dos EUA parece refletido literariamente. Cada subgênero tem exemplos do mais descartável até a alta literatura. O que dizer dos romances de beisebol de Richard Ford? São memoráveis. Claro que não é uma comparação justa. O Brasil jamais cumpriu um básico compromisso burguês: a rede escolar universal e eficiente. Ainda assim é difícil entender por que não comparecem um pouco mais em nossa criação temas tão palpitantes como a humilhação que nossos políticos infligem à sociedade, com entrechos nos corredores do Congresso; ou o terremoto ideológico e existencial provocado por 12 anos de um partido supostamente socialista no poder. Não temos romances passados em plataformas de petróleo, bancos, laboratórios, universidades, casernas, redações, na selva amazônica violada pelas motosserras. O campo em guerra parece não ser da conta dos escritores.

Durante mais de uma década, resmunguei não entender como a experiência social, violenta e traumática, do confisco do dinheiro das pessoas na era Collor não tivesse espelho na literatura. Minha irritação foi aplacada quando recebi para publicar A Felicidade É Fácil, de Edney Silvestre. Mas deveria haver muitos outros livros com esse pano de fundo. Talvez os autores não abordem esses temas por recear serem desancados pela crítica universitária, tão poderosa na mídia. É certo que se escritores brasileiros assinassem romances equivalentes aos de Updike, Roth ou Cormac McCarthy, seria dito, aqui, que “escrevem para o mercado”, ainda que não se saiba onde há mercado para literatura brasileira no Brasil. Mas a razão mais provável para o que já me foi apontado como “mesmice”, “sameness”, na ficção brasileira, talvez seja o poço pequeno e homogêneo de peixes da mesma espécie, no qual os editores pescam os originais. Se a mirada editorial fosse mais larga, abrangendo o vasto território nacional e escritores das mais variadas formações, é possível que a denunciada mesmice fosse atenuada.

Seria bom também que houvesse um grande corpo de agentes, com gosto literário variado, e nos quais os editores pudessem confiar, uma vez que o trabalho de analisar originais não solicitados é insano demais para quem tem que, além de ler, produzir os livros. Em um sistema literário maduro, a grande contribuição do agente é “despatotizar” a literatura. Infelizmente, devo confessar que, como agente, eu mesma já cometi o pecado que denuncio. Dentre as centenas de solicitações de representação que a VB&M recebe todo mês, eventualmente, pesco textos de valor escritos por cientistas, militares, profissionais liberais diversos, residentes em vários pontos do país, que hesito em agenciar por receio da reação do meio a um nome sem conexões, no quase inexpugnável bloco de poder cultural que funciona entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Como apresentar a um editor um autor novo que não seja conhecido nos grandes diários e/ou nas instituições culturais dessas duas cidades, ou sem cartas de recomendação de outros escritores do mesmo eixo?

No entanto, para usar a inesgotável metáfora de Edmar Bacha, cada região brasileira é Belíndia e, apesar de pouco acesso à educação para a maioria, em toda cidade brasileira há uma elite intelectual, bastante expressiva em números absolutos, que está produzindo e criando obras de interesse artístico e cultural. No Brasil, o poder cultural é ainda mais concentrado do que o financeiro. A concentração tem contornos não só de classe, como também geográficos. Os Estados Unidos, além de terem uma classe média instruída muito maior do que a nossa, no seio da qual podem surgir muito mais talentos, contam, em seu sistema literário, com milhares de agentes. E ninguém nesse sistema tem que ser mais profissional do que o agente literário, porque ele jamais vai se dar ao luxo de representar um escritor por amizade. O agente só pode representar a obra na qual acredita, porque será remunerado apenas quando fechar um contrato editorial. Se o livro apresentado não for considerado interessante para publicação, seu tempo de trabalho terá remuneração negativa, e ele pode se prejudicar. É por isso que o agente literário deveria ser muito bem-vindo no sistema editorial brasileiro. Se disserem que advogo em causa própria, vejam também que incentivo minha própria competição.

O editor brasileiro, aliás, acolhe o agente. O problema é o baixo número desses profissionais. No entanto, isso está mudando, e a riqueza e variedade da ficção, que a médio prazo estará em oferta, apontarão o novo grande romance nacional a representar o Brasil, tão galhardamente quanto o faz Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, lançado em 1984. Teremos então o livro que os editores estrangeiros esperam. E, mais importante que isso, esse livro será, exótico ou não, o romance que também leitores brasileiros estão aguardando para voltarem a ler a literatura do Brasil.

Luciana Villas-Boas