Tag: Autran Dourado

O grande poeta Lúcio Autran não é diretamente cliente da VBM, mas o pai dele é: um de nossos clássicos mais queridos, Autran Dourado, autor de ÓPERA DOS MORTOS, A BARCA DOS HOMENS e SINOS DA AGONIA, alguns de seus excelentes títulos em vastíssima obra. Do pai, Lúcio herdou o gênio literário, mas não para a prosa _ conto, romance, ensaios, memórias _, e sim para a poesia, que ele define como “pária na sociedade de castas da literatura brasileira”.

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Pois bem: o crítico paulista Alfredo Monte incluiu o livro de poesias publicado por Lúcio em 2017, FRAGMENTOS DE UM EXÍLIO VOLUNTÁRIO, na sua lista de melhores lançamentos do ano que passou no jornal A Tribuna. O autor diz que a lembrança mais confirma sua tese do que os méritos do livro – pura modéstia.

Os melhores lançamentos literários de 2017 - A Tribuna-1

O Estado de Minas fez uma matéria linda sobre a chegada do acervo do escritor mineiro Autran Dourado, obra do catálogo de clássicos brasileiros da VBM, a Belo Horizonte. Obedecendo à vontade do autor, a UFMG tem o privilégio de acolher toda a biblioteca de Autran reproduzindo inclusive o ambiente do gabinete de trabalho do grande autor de A ÓPERA DOS MORTOS, A BARCA DOS HOMENS, SINOS DA AGONIA, UMA VIDA EM SEGREDO, entre muitos outros livros.

Nós temos o privilégio de reproduzir aqui um texto do curador da obra, o filho do autor, Lúcio Autran. É o adeus aos livros do pai, que tanto marcaram sua formação. De dar nó na garganta, pelo amor e pelo desencanto diante da falta de envolvimento dos brasileiros com sua própria literatura, mas também pela gratificação de ver o tão bem cuidado acervo nas mãos de quem saberá respeitar e valorizar a grande obra autraniana.

“E assim, de forma um pouco dolorosa, mas gratificante, foram-se os arquivos e a biblioteca de meu pai no rumo de seu desejo.

Dolorosa, porque foi nesse escritório, que agora se esvazia, que aprendi que o trabalho de um escritor deve ser respeitado, no sagrado silêncio que minha mãe nos impunha durante todas as manhãs, que era quando, religiosamente, ele escrevia. Ali, também descobri que esse ofício é árduo e exige disciplina – Apolo a serviço de Dioniso, como deve ser toda criação – pois, além de ser diário, era comum deparar-me com o plano de seus romances construídos, literalmente, a régua e compasso.

E foi ali também que aprendi a não acreditar no tão exaltado quanto execrado pelo velho Autran mito que ainda insiste nestes trópicos: o mito do “gênio analfabeto”.

Ali adquiri o prazer da leitura, pois se uma imagem ficou de meu passado era a de meus pais lendo e a casa e os corredores repletos de livros.

Quantas vezes o vi levantar-se, pegar um livro nessas estantes, hoje tão quase desertas, para uma consulta, ou mesmo pelo mero prazer do manuseio. Assim também foram inúmeras as vezes que, após conversar comigo sobre algum assunto, estender as mãos como quem dá a comunhão a um filho, mas com um livro, dizendo: “leia isso”. Foi assim com “Procura da Poesia”, do Drummond.

Me lembro, e quase choro, de uma vez em que eu, na natural prepotência de um pré-adolescente, tive um texto “furtado” por ele, e depois corrigido, carinhoso e divertido, após se “denunciar”: “não use vozerio, meu filho, vozeio é tão mais bonito” (e é), em seguida, meio brincando, meio à vera, pois ele não era dado a estimular precocidades (“quantos gênios não se tornaram perfeitos imbecis por causa dos pais?”, ele gostava de se perguntar, já respondendo), me disse, e mais tarde descobriria, com tristeza, que tinha razão: “não escreva, não, filho, que isso dá muito trabalho e frustração, num país de analfabetos de todas as classes”. Entretanto, na manhã seguinte, lá estava, sobre minha mesa, o livro “Aspectos do Romance”, do Forster, com a singela dedicatória: “para meu filho e amigo. Autran”. Livro que um dia, ah, arrependimento, emprestei para um filho da puta, cujo nome não me recordo, nem quero, e que jamais me foi devolvido. Esse, eternamente arderá no fogo de um ciclo do Inferno que nem Dante imaginou…

Mais tarde, para ficarmos no assunto, ele me deu um livro de entrevistas com vários escritores, entre eles Barthes, chamado: “Escrever… Para quê, para quem?”, mas com a grave advertência: “essa pergunta, filho, é para escritores europeus, nós, brasileiros, se a fizermos, nos matamos antes da resposta”. 

E ali, naquela biblioteca, li escondido – ou nem tanto – alguns romances mais “fesceninos”, e acabo de lembrar, entre o riso e o nó na garganta, foi ali que aprendi meus primeiros palavrões, num daqueles inúmeros… dicionários! Quanta transgressão!

Sim, dói muito, mas é também gratificante saber que seus arquivos, tão zelosamente organizados por sua companheira de vida inteira, amor tão real de quase imaginário, minha mãe, irão para mãos que saberão respeitar sua memória e literatura e valorizá-las, hoje bem menos faladas do que merecem.

Ali estará, junto com um ambiente reproduzindo seu escritório, tudo aquilo que se chama – e como ele gostava do termo – a “genética do texto”, à disposição de estudantes e estudiosos de sua obra.

E, para além de tudo isso, também é gratificante atender um desejo expresso tantas vezes por ele, quando vivo, de que gostaria que tudo fosse entregue aos cuidados da UFMG, talvez a universidade brasileira com mais teses escritas sobre sua vasta obra, e o fez também por testamento, do qual participei na feitura de seus termos, mas que, sinceramente, tem o valor de mera formalidade, o que interessou foi sua vontade manifestada de viva voz, e agora satisfeita por seus filhos. E assim foi feito.

E agradeço especialmente às minhas irmãs Ofélia Autran Dourado e Inês Autran Dourado, que, por morarem no Rio, ajudaram na concretização desse projeto que tanto significa para nós quatro, e puseram a “mão na massa” nessa empreitada.

Também agradeço aos professores Reinaldo Marques, da UFMF, e Henrique Mello, da FUNDEP, que financiou essa produção, pelo cuidado e pelo entusiasmo demonstrados na empreitada, que envolve, naturalmente, grande carga emocional. Também não posso deixar de mencionar o escritor e crítico Silviano Santiago pela amizade e delicadeza que sempre teve com os meus pais, enquanto vivos, e que permanece após as suas mortes, pessoa fundamental para que o desejo de meu pai se concretizasse.

Vai-se, assim, um pedaço de minha vida, mas fica a alegria de ter convivido com o homem, talvez uma personagem de si mesmo, um homem que, como escrevi quando de sua morte, conhecia os riscos, reais e imensos, de “brincar de Deus”, afinal, outro não é o ofício dos prosadores.

Por tudo isso, feita a sua vontade, repito aqui sua antiga dedicatória, embora saiba que você não a ouvirá:

“Mais uma vez, adeus, meu pai”.

E amigo.        

Lúcio Autran”

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Repetimos o convite para o lançamento amanhã de VIBRATIONS BRASIL, coletânea de contos brasileiros unidos pela temática da música, traduzidos para o francês numa edição da Passages. Tem Alberto Mussa, José J. Veiga, Autran Dourado. Tem alguns dos melhores escritores brasileiros. Projeto de Emilie Audigier. Vejam aqui quem é ela.

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O Espaço Cultural A MAISON organiza o ciclo Quintas da Maison, voltado para assuntos da atualidade, gastronomia, fotografia, imagem e música.

A 2a quinta-feira do mês é dedicada a temática “Olhares cruzados” : o olhar de um Francês sobre o Brasil ou de um Brasileiro sobre a França.

Dia 11 de maio, o Espaço cultural A Maison recebe Emilie Audigier, Paulo da Costa de Oliveira e Márcio MM de Meirelles para uma noite de literatura e música, com o lançamento da antologia “Vibrations Brasil”, antologia de textos literários sobre música.

SOBRE O COLETIVO “VIBRATIONS BRASIL”

O coletivo “VIBRATIONS BRASIL” reune 12 textos curtos de grandes escritores brasileiros sobre a música : Paulo Lins, Alberto Mussa, Machado de Assis, Milton Hatoum, Nei Lopes, Lima Barreto, João do Rio, José J. Veiga, Autran Dourado, João Antonio, Ronaldo Correia de Brito, Beatriz Bracher.

Coletivo traduzido em francês por Emilie Audigier pela editora Passages.
SOBRE EMILIE AUDIGIER

Depois de uma formação em Letras e Profissões do Livro (Université de Provence) e experiências em diversas editoras na França (L’Aube, Chandeigne e Hoёbeke), ela coordena o Escritório do Livro da Embaixada da França em 2005.
Doutora em Letras (Universidade Federal do Rio de Janeiro e Université de Provence) em 2010, suas pesquisas focam na literatura brasileira traduzida para o francês, publicadas nos livros Traduire le même, l’autre et le soi (PUP), O trabalho da tradução (Contracapa), Retraduire en littérature de jeunesse (Peter Lang), Bestiaire fantastique des voyageurs (Arthaud), Traduire les littératures migrantes (PUP), Histoire des Traducteurs en Langue française, 20e s (Verdier), La poésie du Brésil (Chandeigne). Traduziu na França escritores lusófonos como Ronaldo Correia de Brito, Ondjaki, Daniel Galera, Valter Hugo Mãe, entre outros.
Ela mora no Brasil onde ensina e coordena uma coleção de ficção curta na Editora Passage(s).
Quintas da Maison – Olhares cruzados – Lançamento da antologia “Vibrations Brasil” (ed. Passage(s))

Entrada franca, evento em português, sujeito a lotação.
Espaço cultural A Maison – Avenida Presidente Antônio Carlos, 58 – 11 andar.

Na sexta-feira, fim de tarde, VB&M recebeu a visita de Emilie Audigier, que colabora com a Passage(s). Emilie trouxe seu bebê Ruben, um lindo franco-brasileiro de oito meses, e nosso exemplar de VIBRATIONS BRASIL, reunião de contos e crônicas brasileiros sobre música ou nos quais o elemento musical tem parte importante, por ela reunidos e traduzidos para a editora francesa.

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VIBRATIONS BRASIL é uma joia, doze textos pegando desde Machado de Assis, João do Rio e Lima Barreto, passando por Autran Dourado e José J.Veiga, “Os cavalinhos de Platiplanto” e “O triste destino de Emílio Amorim”, estes da VB&M, e chegando até autores contemporâneos como Milton Hatoum e Alberto Mussa, com “A vingança inesperada de Maria do Pote”, este também cliente, como se sabe. O volume traz uma apresentação de Emilie com sua concepção da obra, “Sobre a música antes de tudo!”, um posfácio da professora Fernanda Coutinho, “E a literatura do Brasil se apaixonou pela música”, notas bio-bibliográficas sobre os autores e uma rica lista com “referências e orientações bibliográficas” indicando antologias de literatura brasileira publicadas na França e no Brasil, além dos títulos dos quais se extraíram as histórias do livro. VIBRATIONS BRASIL precisa sair no Brasil com os textos originais das histórias e crônicas selecionadas por Emilie Audigier.

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