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Victoria Saramago, professora de Línguas Neolatinas da Universidade de Chicago, fez para O Globo a mais perfeita leitura de A BÍBLIA DO CHE, de Miguel Sanches Neto.  “Antes de tratar do contexto atual do Brasil, ele revira as entranhas desse presente. Um romance que conecta os pontos deixados soltos entre o legado da esquerda revolucionária na produção cultural brasileira da última metade de século, por um lado, e a corrupção endêmica a que qualquer governo pode estar sujeito, por outro”, diz ela, entre muitas observações iluminadores a respeito do livro.

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Crítica: ‘A bíblia do Che’, de Miguel Sanches Neto

Romance endurece a reflexão, mas sem perder a lucidez

RIO — E se Che Guevara tivesse passado por Curitiba antes de seguir a jornada para a Bolívia que culminaria na sua morte? E se tivesse deixado pelo caminho uma bíblia de margens anotadas e paradeiro desconhecido? Ainda que a sua existência não conte com provas, não faltam personagens convictos de que vale a pena procurá-la.

Uma jovem tão obcecada pelo Che e pela revolução quanto disposta a casar por dinheiro. Um ex-professor de literatura cujo exercício ascético de se despir de convicções não podia resistir a uma paixão repentina. Um lobista cujo poder de influência no governo equivalia à convicção de que sua morte para queima de arquivo havia de ser prematura. Envolvido no “esquema de desvio de muitos milhões de algumas empresas estatais, as conexões do lobista com políticos de praticamente todos os partidos” começavam a ser alvo de uma investigação potencialmente explosiva. Soa familiar?

Esses são alguns dos protagonistas do último romance de Miguel Sanches Neto, “A bíblia do Che’’. Antes de tratar do contexto atual do Brasil, ele revira as entranhas desse presente. Um romance que conecta os pontos deixados soltos entre o legado da esquerda revolucionária na produção cultural brasileira da última metade de século, por um lado, e a corrupção endêmica a que qualquer governo pode estar sujeito, por outro.

Sem entrar em meandros da política atual e sem tomar posicionamentos, Sanches Neto constrói uma reflexão engenhosa sobre mitos que permeiam o nosso imaginário cultural, de Che Guevara a Hitler, e diante dos quais a resistência da realidade às vezes se desvanece. O excesso de convicção termina por revelar o seu avesso: que toda convicção está destinada ao próprio desmoronamento.

“Éramos duas mentiras se entrelaçando: o poeta que quer crer em algo que ele sabe inviável; o leitor que se deixa comover com um futuro que só existiu como miragem”, diz o narrador.

Mas “A bíblia do Che’’ não se limita à arena política. A obra simultaneamente navega pela narrativa policial, a história de amor e um drama juvenil. Todos vistos pelo ângulo de um narrador maduro, para quem a chegada a algum desfecho não importa muito mais que encontrar uma bíblia anotada por Che Guevara.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Dono de uma prosa envolvente, Sanches Neto retoma personagens e temas presentes em seus romances anteriores, como é o caso do professor Carlos Eduardo Pessoa, dos conflitos políticos com uma roupagem policial, do nazismo, de um foco no Paraná e de um retrato algo ácido do meio literário.

Enquanto provas e convicções prosseguem na sua dança descompassada e improvável em tantos aspectos da vida política, “A bíblia do Che’’ é um momento de lucidez como só a literatura pode proporcionar quando tantos outros meios falham. Que a geração presente leia e reflita; que as gerações futuras leiam e nos compreendam.

*Victoria Saramago é professora adjunta no Departamento de Línguas e Literaturas Neolatinas da Universidade de Chicago

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/critica-biblia-do-che-de-miguel-sanches-neto-20257775