Rogério Alves

Rogério Alves

ROGÉRIO ALVES

Rogério Alves sempre quis trabalhar com as palavras. Apesar de ser administrador de empresas, logo abandonou o emprego de consultor para trabalhar na redação de um jornal. Enquanto escrevia sobre literatura, completava o mestrado e depois o doutorado em Teoria Literária. Foi assim que conseguiu mergulhar de cabeça na literatura e passou a levar a sério os textos, inclusive os que fazia escondido desde os 10 anos de idade.

Aqueles originais normalmente acabavam no lixo, assim como muitos de agora. Só que agora é um profissional que respira livros o dia inteiro. Pela manhã, como escritor e, no resto do dia, como editor. As ideias não param de surgir, e o escritor aos poucos as organiza para transformá-las em histórias que quer deixar para as crianças sorrirem e pensarem.

MEU PAI TEM UM QUARTO SECRETO

A porta fechada sempre chamou a atenção da menina. O que será que o pai guardava naquele quarto? Não adiantava perguntar. Ele nunca respondia. Ela já tinha tentado de tudo, palavras mágicas, ataque de super-heróis, roubar a chave… nada dava certo. Escondida atrás do sofá, esperava o dia em que o pai a levaria para dentro. Encontraria homenzinhos? Bichos mágicos? Projetos ultra-secretos? Rabiscava todas as ideias em seu diário, que só compartilhava com a Leka sua cachorrinha, que, claro, vivia estufada com tantos segredos.

Numa noite como todas as outras, o pai a chamou. Tirou-a de seu esconderijo e a levou para o quarto. Para sua decepção, não existiam seres de outro mundo. O quarto secreto do pai era escuro e atulhado de caixas coloridas. Cada uma delas guardava uma lembrança do pai menino. Dividiu com ele as sensações mais alegres, as mais tristes, as frustrações, as dores… descobriu, enfim, que o pai uma vez tinha sido como ela. E que crescer é guardar momentos bons e ruins em caixas coloridas que nunca nos deixarão. Mesmo que as escondamos a sete chaves num quarto escuro.

Status/Publicação: Inédito.

QUANTAS PESSOAS EXISTEM NO MUNDO?

A menina acordou com um enorme ponto de interrogação na cabeça. Afinal, quantas pessoas existiam no mundo? Pensou. Pensou. E resolveu procurar seu avô, que certamente saberia a resposta. Encontrou o velhinho falando com os passarinhos, sua principal diversão. Para surpresa da menina, o avô não tinha a resposta, assim, de bate-pronto. Mas propôs um desafio: por que não saía para contar? Começou ali mesmo no prédio. Com riscos e rabiscos, a menina foi de andar em andar contando. Um dia inteiro indo e voltando, perdendo a conta e contando as pessoas mais de uma vez. Ufa. Aquilo era impossível. Ia desistir quando o avô lhe propôs algo diferente.

No meio da noite, acordou a menina e a levou para uma viagem. Do alto, no céu, conseguia contar melhor as pessoas lá embaixo. Todas acordando para ir ao trabalho, à escola… o papel parecia pequeno. O ponto de interrogação foi se acalmando e cada pontinho colorido foi ganhando um espaço no caderno da menina. Quando então foi contar, descobriu que não existia um número, mas um infinito de números. O que parecia complicado, não precisava ser. O ar fresco e o passeio tinham mostrado para ela que, no fundo, o número de pessoas no mundo dependia apenas de quantas ela conseguia contar. Ou, melhor, de quantas ela queria colocar no seu próprio mundo.

Status/Publicação: Inédito.