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biblio do che

O editor André Conti, da Companhia das Letras, preparou uma capa espetacular para A BÍBLIA DO CHE, de Miguel Sanches Neto, aguardado lançamento de maio. O próprio André disse ao autor que amou o livro _ “forte, triste, engraçado e muito imprevisível”.

O foco da narrativa de Miguel é uma Bíblia que teria sido carregada e lida por Ernesto Che Guevara em suas andanças pelo Paraná, disfarçado de padre, em meados da década de 60, antes de seguir para a Bolívia. Uma assessora da Assembleia Legislativa, formada em Sociologia, gostosa e maluquinha, fixada na figura do Che, quer porque quer a Bíblia anotada e desaparecida, e os homens correm para atendê-la. Suposta viúva de um operador de propinas que teria morrido na explosão de um automóvel, moça de origem humilde, Francelina Paes, a Fran, acaba arrastando o protagonista, Carlos Eduardo Pessoa, nosso velho conhecido desde A PRIMEIRA MULHER, até a Bolívia, e o livro torna-se uma mistura de mistério político com “road novel”.

Difícil dizer no que Miguel revela maior excelência: se na composição de personagens densos e complexos, na originalidade da trama, nos diálogos verdadeiros, ou na linguagem perfeita para a história. Entre tantos aspectos patéticos da existência, o autor explora com habilidade e perspicácia o doentio caldeirão ideológico brasileiro.

O novo romance do Miguel é aguardado não só no Brasil. Na VB&M, temos sido assediadas por editoras que querem avaliar a obra a partir de alguma amostra de tradução. Estamos à espera do texto editado pelo André para prepará-la. O tema e o entrecho de A BÍBLIA DO CHE instiga internacionalmente.

Fosse no Rio essa paisagem de fim de tarde invernal, haveria sempre um americano, um paulista ou um brasileiro de qualquer outro lugar do país para perguntar: Não se trabalha nessa cidade? Como se as complexas cidades do século XXI _ e não vamos comparar os tamanhos do Rio de Janeiro e de New Port Beach _ não tivessem gente suficiente trabalhando e estudando nos mais variados turnos para encher as praias em seus momentos de lazer a qualquer hora do dia ou da noite. Sem falar nos turistas. Mas em New Port Beach, Califórnia, essa pergunta não ocorre, e talvez haja outras razões além do preconceito para as reações diferentes diante da vida praieira numa cidade e em outra.

O resultado do trabalho humano é visível em cada mínimo recorte da paisagem da Califórnia. É tudo muito rico. Para mim, até demais. Não gosto do jeito manicurado das cidadezinhas turísticas dos EUA. Me enjoa. Tive a mesma reação quando visitei Vail, nas montanhas do Colorado, ainda em 1986, ou quando fui a Carmel, em 1988. Mas todo mundo gosta e é claro que, para quem mora, mais ainda do que para quem visita, uma boa infraestrutura facilita muito a vida.
Em Orange County, o aeroporto é tão grande e tecnológico que pensamos ter aterrissado em Los Angeles, não em um distrito menor do estado da Califórnia. Dirigir é uma beleza, o asfalto perfeito. Excepcionalmente nos EUA, andar a pé também é ótimo em New Port Beach, cidade de calçadas, “walking city”, e o sistema de sinais de trânsito é tão avançado que, para um pedestre atravessar uma rua de mão dupla, primeiro param os carros de um sentido e depois do outro, de maneira a agilizar o tráfego e evitar engarrafamentos. Para onde se olha, é tudo tão limpo e escovado, ecologicamente correto, que dá até nervoso.

Uma ponta de inveja também deve estar no fundo da minha rejeição a essa perfeição toda. Na condição de brasileira, meu complexo de vira-lata pessoal anda aguçado. Não dá mais para responder sobre zika. É humilhante. O Brasil em 13 anos andou 30 para trás, e o governo Dilma nos cobriu com um manto de desgraças que, por mais racionais que tentemos ser, é impossível não pensar que, além de estúpida e envolvida com a maior organização criminosa já formada no país, essa mulher é um pé frio extraordinário e histórico. Tudo que ela toca vira merda, Copa, Olimpíada, o que for. Merda séria, grande.
Olhando o vôlei das meninas em um fim de tarde de inverno na praia de New Port Beach, não consigo acompanhar as jogadas porque estou sempre imersa nos problemas do meu país, mas faço força para pensar mais positivamente, e me vem à mente que a independência e a competência da Lava-Jato, dos procuradores brasileiros, de tantos delegados e investigadores da Polícia Federal e também de boa parte da imprensa são motivo de orgulho nacional. Trabalho extraordinário, luta hercúlea.

Não dá para entender como a mesma sociedade que formou gente tão boa, corajosa e competente como Sergio Moro, Deltan Dallagnol, delegado Marlon Cajado; analistas políticos como Fernando Gabeira, Elio Gaspari e os editorialistas de O Estado de São Paulo; que essa mesma sociedade haja sido capaz de por e deixar no poder por 13 anos e meio uma gangue de estúpidos, grosseiros e irresponsáveis dispostos a destruir o país inteiro, a indústria, os hospitais, as escolas, as cidades, agora cobertas de lama, até o povo, deformado e paralisado pelo mosquito. Muita contradição. Mas enfim há esse lado sofisticado da sociedade brasileira, setores da Justiça e da imprensa independentes, empenhados e hábeis, que são a esperança. Dou as costas para a praia limpa da Califórnia acreditando que ainda vamos por a bandidagem para correr e pavimentar a nossa estrada para o futuro.

Sergio Abranches publica novo artigo no blog de Matheus Leitão tocando em temas importantes de seu próximo livro, O COMPLEXO DE PROMETEU, que ele promete finalizar até a virada do mês: “Refugiados, imigrantes, casais transculturais: o lado mais complexo da globalização”. No artigo, Sergio fala de um jantar em Toronto em que ele e Míriam formavam o único casal unicultural, oriundos não só do mesmo país, mas até do mesmo estado, Minas Gerais; todos os outros misturavam nacionalidades.

Unida a um americano, eu (Luciana) conheço bem essa situação. Quando estamos na Europa, Raymond e eu dificilmente convivemos com casais de idêntica origem nacional. Em um jantar que Ray ofereceu a amigos em Crans, na Suíça, estavam nosso vizinho muito querido, o suíço-francês Phillipe, casado com a ugandense Jane; um sociólogo e professor kwaitiano casado com uma russa; um músico sul-africano judeu, dono de uma escola de idiomas numa cidade vizinha, casado com uma americana. Eu cheguei em casa para a sobremesa com nossa nova cliente Silvia Boadella, suíça-alemã casada com inglês, autora de um romance magnífico, A PELE DA ALMA, do qual espero poder falar e dar boas notícias em breve.

Nos EUA e no Brasil, países continentais, esse fenômeno é um pouco menos evidente, mas na Europa é quase a regra. O irmão de Phillipe, Daniel Bonvin, primeiro trombonista da Filarmônica de Munique, casou-se com a macedônia Valentina. A misturada trouxe um bônus inesperado: numa cidade pequenina como Crans, onde boa parte da população é muito feia devido às uniões endogâmicas de tantas gerações, os filhos de Jane/Phillipe e Valentina/Dany são estonteantemente bonitos. Valeu a pena ir buscar um pool genético lá longe.

Enfim, um aspecto positivo da globalização. Por enquanto, vamos curtindo essa provinha de O COMPLEXO DE PROMETEU, que vem aí para explicar tudo. (LVB)

A newsletter Publishers Marketplace, na sua coluna Publishers Lunch de hoje, traz algumas notícias que sinalizam positivamente para o livro em papel. Como o digital tem suficientes defensores na mídia, é prazeroso para quem gosta de livro em geral, em qualquer formato, papel ou eletrônico, partilhar as boas novas.

A primeira notícia tem a ver com uma gigante entre as cadeias de livrarias do Canadá, a Indigo. No último trimestre fiscal, que fechou dia 26 de dezembro, a cadeia mostrou crescimento de 12.9% em relação ao mesmo período no ano anterior, $ 52.8 milhões de lucro líquido contra $ 33 milhões em 2014. É verdade que o crescimento teve a ver com _ argh _ livros de colorir, mas para provar que estes não são totalmente do mal, o aumento de circulação nas lojas provocou a subida das vendas de livros em geral. As vendas nas megalivrarias cresceram 15.5% e online, 17.9%. Espetacular.

A outra notícia interessantíssima é que o proprietário de uma cadeia gigante de shopping centers nos EUA, a General Growth Properties, diz que a Amazon está procurando centenas de lojas tijolo-cimento para abrir em todo o país. A notícia não foi confirmada pela própria Amazon, mas tampouco negada, e nem mesmo o porta-voz oficial da General Growth comentou. Mas tudo indica que é verdade.

Fortes sinais de que o livro em papel resiste bravamente a todos presságios e apostas em sua morte, que circulam há mais de 20 anos. Eu, Luciana, ouço falar do fim do livro desde que entrei nesse negócio, em 1995, na época por causa do CD-Rom. Quando saí do suplemento Ideias do Jornal do Brasil para a Editora Record, muita gente me cumprimentou dizendo que era legal a mudança, uma pena apenas que um pouco tardia, porque o livro não duraria muito.

Lembro-me de um debate na Casa Laura Klabin com o bibliófilo José Mindlin e o empresário Jack London, provavelmente em 1996, talvez 1997, em que o fim do livro já estava na pauta. Pobre Mindlin, o velhinho ficou assustadíssimo, triste mesmo, com os augúrios do London. Em privado com ele, ao fim da mesa, levei um bom tempo consolando-o e garantindo que não seria exatamente como o London profetizara. Também estava na mesa o Affonso Romano de Sant’Anna, me recordo. Os outros nomes já não me vêm.

Esperemos que a intenção da Amazon não seja abrir lojas físicas apostando na destruição de todas as cadeias já existentes. Seria um intento verdadeiramente do Mal, mas não totalmente impossível. Teria a ver com a referência de Rui Campos aos aventureiros monopolistas em sua coluna de estreia no PublishNews. Vamos acreditar que se trata tão somente do reconhecimento da parte do gigante digital de que a leitura e a vida podem ser mais múltiplas e divertidas do que a mera experiência eletrônica. (LVB)

Veja os links das notícias:

http://lunch.publishersmarketplace.com/2016/02/indigo-celebrates-big-holiday-quarter/ 

https://static.indigoimages.ca/2016/corporate/Indigo-Q3-PressRelease_February-2-2016.pdf

 

http://lunch.publishersmarketplace.com/2016/02/71060/

http://gizmodo.com/amazon-will-open-over-300-physical-bookstores-because-l-1756692355

http://www.nytimes.com/2016/02/03/technology/amazon-is-said-to-be-planning-an-expansion-into-retail-bookstores.html?_r=0

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Ficou pronta a instigante capa da edição da Valentina de Quando finalmente voltará a ser como nunca foi?, de Joachim Meyerhoff, prestes a chegar às livrarias. Meyerhoff figura entre os mais respeitados e populares autores alemães da contemporaneidade. Esse livro, lançado originalmente em 2013 pela Kiepenheur & Witsch, cliente espetacular da VB&M, já foi lido por cerca de 300 mil leitores na Alemanha e traduzido em dez países.

Todos os livros de Meyerhoff são um sucesso, mas esse, baseado em sua própria vida, talvez seja o título mais querido. Romance de formação, conta a história de um menino que é filho de psiquiatra, a família toda residindo em um manicômico. Crescendo cercado de loucos, ele acha que aqueles comportamentos são o normal. Daí a frase que o editor Rafael Goldkorn aplicou na capa: “A loucura está do lado de dentro ou de fora?” Muito tocante, engraçado e profundo, até filosófico.

Quando, em 2013, fomos juntas pela primeira vez, Luciana e Anna, visitar as editoras alemãs em várias cidades, na temporada pré-Frankfurt, ficamos impressionadas com o sucesso do livro. Muitas colegas profissionais nas mais diferentes casas _ não na Kiwi _ nos disseram que Quando finalmente voltará a ser como nunca foi? era o melhor romance que haviam lido naquele ano. Afinal, um livro da concorrência delas.

Parabéns a todo mundo envolvido na publicação desse autor. Sorte para a Valentina e o Rafael. Que o leitor brasileiro saiba apreciar a fina ficção de Meyerhoff.

Ibraima Dafonte Tavares, a querida Ibra, uma das editoras que mais admiramos em toda a indústria do livro, partilhou hoje conosco um texto muito enriquecedor de Matthieu Ricard sobre o lugar comum que se tornou falar de “desenvolvimento pessoal”. Estranha coincidência, o texto simplesmente apareceu na timeline dela hoje de manhã. Excepcional, vale a pena ler.

Ibra contratou com a VB&M um livro que representamos para a 2-Seas Agency, de Marleen Seegers, que por sua vez tem a excelente editora Allary, na França, como cliente. A tradução literal do título da obra é TRÊS AMIGOS EM BUSCA DE SABEDORIA, um trabalho conjunto do monge Ricard com dois companheiros de longa data, o psiquiatra Christophe André e o filósofo Alexandre Jollien. Muito conhecidos na França, são gente verdadeiramente sábia, não essas contrafações que vêm dos EUA.

Allary lançou o livro dia 13 com uma tiragem de 110 mil exemplares. Esta semana, imprimiu mais 30 mil. TROIS AMIS está em primeiro lugar na maioria das listas de mais vendidos da França. O lançamento foi monumental, e Ibraima partilhou conosco também o fb com as imagens do evento.

No texto do Buda Virtual que Ibra nos enviou, mestre Ricard com toda sua suavidade destroi essa cultura narcísica e de auto-ajuda que fica de lero-lero sobre desenvolvimento pessoal.  Lembra que desenvolvimento pessoal é a gente melhorar, se aperfeiçoar, para ajudar mais ao outro, servir ao próximo. O resto é o egoismo reinante de sempre.

Tão bom quando gente boa e decente vai para o topo das listas com livros verdadeiramente importantes. Tomara que o sucesso francês de TROIS AMIS EN QUETE DE SAGESSE se repita no Brasil para a Alaúde. O livro é a cara da Ibra.

http://www.budavirtual.com.br/desenvolvimento-pessoal-a-quem-beneficia/

 https://www.facebook.com/RencontresPerspectives/photos/pcb.950686605025815/950684088359400/?type=3&theater

A edição 54 do Cândido, o excelente jornal literário mensal da Biblioteca Pública do Paraná, dedicado ao novo papel das bibliotecas na era da alta teconologia digital, traz na seção de inéditos trechos de dois romances de autores da VB&M. São um trecho de A BÍBLIA DO CHE, de Miguel Sanches Neto, a sair ainda neste primeiro semestre do ano pela Companhia das Letras, e outro de ANITA,  de Thales Guaracy, programado para o segundo semestre, pela Planeta.

Dois romances magníficos. O do Miguel é uma história de mistério muito atual em torno de um operador de propinas paranaense e explora com brilho as turvas águas ideológicas dos brasileiros, voltando até a mítica passagem de Che Guevara pelo Paraná, em meados da década de 60, antes de seguir para a guerrilha na Bolívia. O do Thales conta a vida de Anita Garibaldi pelos olhos de Giuseppe, o herói de dois continentes, que recorda suas batalhas e seu grande amor deitado em seu leito de morte.

Por suas temáticas, os dois livros despertam muito interesse dos editores estrangeiros, mas é praticamente impossível vender direitos de obras brasileiras antes da publicação entre nós. Mais ainda sem dispor de um texto final pós-revisão da editora no Brasil. (Há exceções, mas são quase milagre, e para a VB&M já aconteceu recentemente, em breve trombetearemos.) Por isso, estamos contando os dias para receber do super editor André Conti, da Companhia, o texto do Miguel, logo em seguida ao Carnaval, de maneira que Anna Luiza Cardoso possa divulgá-lo na Feira de Londres, em abril. (Eu, Luciana, não irei a Londres este ano.)

Segue  o link para o Cândido www.candido.bpp.pr.gov.br.

Aqui diretamente para o trecho do livro do Miguel dentro do jornal http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1027

E aqui para o de Thales: http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1028

capas - mussa 3      os contos completo - mussa - capacapas - mussa 2

Ficou espetacular a capa dos CONTOS COMPLETOS de Alberto Mussa, que Carlos Andreazza lançará em breve pela Record. Todo o projeto gráfico da obra do Beto, assinado pela super designer Regina Ferraz, está, como se pode ver aqui, impressionantemente lindo.

Neste momento, Alberto Mussa está na reta final do próximo romance da pentalogia do Rio de Janeiro, um crime seminal ocorrido no Catumbi, em meados do século XIX, com o incrível título A HIPÓTESE HUMANA. Como se sabe, Beto desenvolveu a teoria de que não é a paisagem ou o temperamento das gentes o que define o caráter de uma cidade, mas seus crimes históricos ao longo dos séculos.

Compondo a pentalogia ficcional dos crimes fundamentais do Rio, ele já lançou O TRONO DA RAINHA JINGA (XVII), O SENHOR DO LADO ESQUERDO (XX) e A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO (XV), mas A HIPÓTESE HUMANA conseguirá superá-los todos. Podemos afirmar porque se há alguma vantagem em ser agente literário é ter olhos privilegiados para ler com antecipação as grandes criações de nossos clientes.

No lançamento de A HIPÓTESE HUMANA, talvez valha a pena uma marca gráfica da pentalogia dentro do projeto para a obra de Alberto Mussa. De resto, torcer para que também o romance saia em 2016. Para fechar a série, faltará somente o século XVIII, que, sabemos, contará uma história da Inquisição brasileira. A HIPÓTESE HUMANA vai sacudir o ambiente literário.

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Recebemos na agência o belo catálogo da holandesa Athenaeum para a primavera (do Hemisfério Norte, bem entendido) de 2016. Para nosso orgulho, ONHEIL OVER TAITARA, “Catástrofe sobre Taitara” , título que deram a SOMBRAS DE REIS BARBUDOS, de José J. Veiga, logo em seguida a VÊNUS E ADONIS, um dos três poemas longos de Shakespeare, e na página anterior VESÚVIO EM CHAMAS, as cartas de Plínio a Tácito, sobre a destruição de Pompeia, datadas de mais ou menos 1.900 anos atrás. No catálogo, figuram ainda Erasmo, Rilke, Jane Austen, Horácio, Goethe, entre outras obras seminais, em moderníssimas edições, com novos aparatos e estudos.

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Athenaeum é uma sólida editora na Holanda, renomada pela publicação de clássicos. Diga-se que o mercado do livro holandês está longe de plenamente recuperado da crise que se abateu por lá em 2009. Publicam menos, oferecem adiantamentos significativamente mais baixos do que na época de ouro do mercado editorial. Mas como cada sociedade reage de maneira diferente às crises econômicas…

No Brasil, o editor enfrenta a crise publicando menos ficção e buscando bobagens da internet para lançar de maneira a ter algum retorno certo e rapidamente. Na Holanda, o retorno mais certo numa época de vacas magras vem da publicação de literatura realmente fundamental.

Não se trata de culpar o editor brasileiro. Ele publica para a sociedade em que atua. Editoras são empresas, não um hobby, como se tratava a Cosac & Naif. Se não atuam como empresas, as consequências podem ser devastadoras, vimos há pouco no processo de agonia e morte da Cosac. A vantagem do editor holandês reside em atuar numa sociedade em que a burguesia cumpriu sua missão de proporcionar educação universal de qualidade.

No Brasil, depois de 13 anos de governo supostamente socialista, a escola encontra-se mais vilipendiada de que em qualquer outra época. Até temos um pouco mais de leitores do que há 20 anos em termos absolutos e relativos à população como um todo. O que não temos são bons leitores, um mercado minimamente significativo para a grande literatura, gente capaz de fruir a expeirência literária em número suficiente para sustentar editoras com uma proposta sofisticada.

Talvez só o período da ditadura militar tenha dado contribuição equivalente à do PT ao rebaixamento literário e cultural do brasileiro. Por isso, a gente que se dê por muito satisfeito que a Companhia das Letras, com grande empenho, também esteja conseguindo republicar José J. Veiga em grande estilo, sem contar com compras governamentais.

Voltando a Veiga na Athenaeum, na página do catálogo, a editora situa-o com Kafka e Saramago. Está certo, é isso mesmo. Nosso consolo é que esperamos em breve ter notícia de tradução desse clássico maior da literatura brasileira em mais um território. Que nossa produção literária mais magnífica seja lida ao menos no exterior, se a Pátria Educadora não quer mesmo que cresçam e se desenvolvam seus leitores brasileiros.

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A agente Virginia Lopez-Ballesteros, cuja maravilhosa lista de autores de língua espanhola nós representamos para o Brasil, manda a notícia de que o filme EL REY DE LA HABANA, em processo de produção pela batuta do diretor maiorquino (de Maiorca) Agustí Villaronga, está quase pronto. Com Maykol Tortolo e Yordanka Salgado nos papeis principais, o filme será exibido nos festivais de Toronto e San Sebastian e estreia na Espanha no dia 25 de setembro. Depois seguirá para os festivais de Londres, Berlim e outros. Cuba fez de tudo para boicotar esse filme, baseado, como se sabe, no livro homônimo do escritor cubano Pedro Juan Gutierrez, mas em vão.

No Brasil, a notícia do filme há de alegrar especialmente o editor Marcelo Ferroni e sua equipe na Alfaguara. Há poucos meses, Marcelo contratou com a VB&M o novo romance de Pedro Juan Gutierrez, FABIÁN Y EL CAOS, uma de minhas mais comoventes leituras este ano, e aproveitou para renovar os dreitos de vários títulos do fundo de catálogo do autor já na Alfaguara e/ou Companhia das Letras, como O REI DE HAVANA.

O boicote de Cuba à produção do filme se deu sob várias formas mas a principal foi a proibição de filmar em Havana. Para o diretor, a proibição pareceu de início insuperável, porque a ambientação seria fundamental para o filme, e não se encontrava cenário em outro país que pudesse passar por Havana Velha. Como fazer fora de Havana um filme em que Havana é personagem, mais do que cenário? Finalmente, a equipe descobriu na República Dominicana um conjunto urbano bastante verossimilhante como ruas havanesas.

Estranho é que Cuba, tendo sido vítima por tantas décadas de um boicote americano, não soubesse que essa é uma tática que só funciona quando carrega algum elemento de justiça ou correção ética. Temer a arte é desprezível, querer punir um artista porque ele projeta uma visão crítica do regime é patético. Pronto, bem-feito, o filme está saindo da mesma maneira.

FABIÁN E O CAOS, o novo livro de PJG, é como toda sua obra duríssimo com a ditadura dos irmãos Castro. Pega os primeiros anos da revolução, que deveriam ter sido os melhores, e desvenda como o autoritarismo só funciona premiando os medícores; como o poder da mediocridade aplasta as personalidades mais frágeis, sensíveis, artísticas. No caso, Fabián, um jovem pianista que não consegue fazer carreira ou se mover pelos meandros burocráticos do mundo da música na Cuba revolucionária.

Como em todo seu trabalho autoficcional, PJG é personagem, mas secundário. Apesar de todas as diferenças de origem social e visão de mundo, Fabián e Pedro Juan são amigos, mas o segundo não consegue ajudar o primeiro a superar o caos objetivo e subjetivo que aniquila a todos, mas principalmente um talento como o do pianista. O título do livro é lindo, porque se trata da mais perfeita narrativa do caos.

(LVB)