Categoria: PONTO DE VISTA

Já deveríamos ter festejado a entrada de A MÃE ETERNA, de Betty Milan, na lista de mais vendidos da Folha de S.Paulo, no sábado, dia 14 de maio. Na semana passada, chegamos a falar do livro na lista de nacionais da Livraria da Travessa e em 12º lugar no PublishNews. Mas na Folha A MÃE ETERNA comparece nos 10 +. Acima do título de Betty, nove livros de ficção estrangeira. Festejamos por se tratar de uma obra representada pela VB&M, mas também por outras razões mais largas, que podem ter repercussão no mercado editorial.

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Há quanto tempo não se vê um romance literário brasileiro na lista de mais vendidos? Que eu (Luciana) me lembre, o último foi FIM, de Fernanda Torres, em 2013, sem dúvida uma narrativa eficaz, mas cujas vendas foram obviamente arrastadas pela fama poderosa da autora como atriz. À exceção de FIM, há três anos, qual outro? Chocante, mas no Brasil é um feito chegar às listas um bom romance adulto (não se trata aqui de lançamentos para o público adolescente e jovem) de autor brasileiro sem outro reconhecimento que não pela atividade literária.

Quais as razões do sucesso? Obviamente, a própria extraordinária escrita de Betty e o tema da obra, um desafio existencial extremamente comum na vida real mas raro na ficção – a relação entre mãe e filha diante da velhice e da morte. Mas há algo mais para a popularidade de A MÃE ETERNA, se pararmos para lembrar dos livros lindos e impactantes, às vezes detentores de prêmios reluzentes, Jabutis, Oceanos e outros, que não alcançaram posição nem nas listas ampliadas das livrarias.

Para o romance de Betty, contou a aposta. O editor Carlos Andreazza, da Record, reconheceu o potencial do livro, fez uma tiragem de 8.000 exemplares, alta somente para títulos nacionais, mas já ambiciosa para amargos tempos dilmescos e pós-dilmescos, e ouviu e aceitou a proposta de plano de marketing da autora explorando o lançamento para o Dia das Mães. Mal se esgotou a primeira rodada, já nova tiragem estava engatilhada. A própria autora, sabedora da obra que havia criado, contratou uma assessoria de comunicação privada para se somar à da Record. Foi o suficiente.

Houvesse Andreazza ponderado as dificuldades do mercado e “a moderna facilidade de reimpressão e reposição de hoje em dia” para justificar uma tiragem de 5.000 em vez de 8.000, como acontecera com a mesma Betty em 2013 no lançamento de CARTA AO FILHO, um livro que ainda gera bons royalties autorais, a situação de  A MÃE ETERNA hoje seria outra. No caso de CARTA AO FILHO, a primeira tiragem esgotou-se rapidamente, e o pequeno hiato de abastecimento das livrarias foi bastante para diminuir muito a visibilidade do lançamento. Acontece com frequência em todas as editoras com a tiragem de 5.000.

A ficção brasileira padece da mesma crise que o Brasil: de confiança. Pior que o país, a falta de confiança da qual sofre é mais antiga. Se a credibilidade do Brasil começou a avacalhar-se mais profundamente há cerca de três anos, a ficção do autor brasileiro não é digna da fé dos editores há bem três décadas.

Que o exemplo de A MÃE ETERNA sirva para divulgar e ampliar a ideia de que o grande romance brasileiro, quando bem editado e lançado, tem tanto potencial de agradar ao leitor quanto a ficção de língua inglesa. Retomado o crescimento do país, minimamente recuperados o emprego e a renda, o leitor brasileiro poderá descobrir que a literatura criada em seu idioma fatalmente fala de suas descobertas e angústias, preocupações e alegrias, de maneira muito mais próxima, mais íntima, do que a ficção de outros países. Obviamente, nada contra o romance estrangeiro, não precisamos de um patamar norte-americano de provincianismo: somente a ideia de que o brasileiro, entre tantos desafios gigantescos, para ser plenamente feliz tem que resgatar do esquecimento sua própria literatura. Uma tarefa para os leitores e editores do Brasil.

A vertiginosa política brasileira está destrinchada em mais esse lúcido e clarividente artigo de Sérgio Abranches.

“A decisão liminar do ministro Teori Zavascki afastando o deputado Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados e do exercício do cargo eletivo é constitucional e lógica. Surgiu como surpresa na madrugada, embora a decisão fosse previsível, porque já havia pedido no mesmo sentido, embora com distinto fundamento, na pauta do dia. O ministro obteve confirmação unânime da medida cautelar. Outros fatos previsíveis, trazendo consequências irreversíveis, estão amadurecendo. Mas a previsibilidade do conhecido não afasta a possibilidade do inesperado.

A linha sucessória da Presidência da República é definida pela Constituição e condicionada pelo princípio da harmonia e independência dos poderes. O sucessor é o vice e os substitutos eventuais os presidentes da Câmara e do Senado. A decisão do ministro Zavascki respeita, com coerência, essa definição constitucional e estabelece isonomia nas decisões que o Supremo Tribunal Federal tem tomado ao longo dessa crise política. É mais um ato no processo de judicialização, provocado pela mediação do Judiciário na crise entre Executivo e Legislativo, que é a mãe das crises internas no Congresso. A decisão, apoiada por unanimidade, foi moderada. A obstrução da justiça, razão principal do afastamento de Cunha, no campo penal justifica a prisão preventiva, como lembrou o ministro Edson Fachin em seu voto. Não pode ser considerada uma intervenção indevida do Poder Judiciário no Poder Legislativo. Ela ficou na fronteira última da independência entre os poderes. Daí o relator defini-la como “excepcional, pontual e individualizada”. Ponto que também foi ressaltado pelo ministro Dias Toffoli, exatamente para deixar claro que não se trata de invasão de poder, de “empoderamento” do Judiciário em detrimento do Legislativo. O STF respeitou a reserva de poder constitucional do Legislativo ao apenas suspender o deputado de seu mandato como deputado e do cargo de presidente da Mesa. A cassação só pode ser decidida pela Câmara dos Deputados, a partir de manifestação da Comissão de Ética. A comissão fica agora sob forte pressão política e moral para aprovar o parecer pela cassação. Mas ela foi composta por Eduardo Cunha para evitar isso. Contudo, a política é dinâmica, move-se na direção dos ventos e eles sopram para longe de Cunha.”

Continua…

Acesse o link para ler mais: http://www.ecopolitica.com.br/2016/05/06/o-inexoravel-e-o-inesperado-no-momento-politico-brasileiro/

Do Blog da Companhia das Letras

por Martha Batalha

Foram duas semanas de extremos, com o perfil da bela e recatada Marcela Temer, e da voluptuosa e luxuriante miss Bumbum. E ainda teve Erundina gritando “É golpe”, depois de Cunha manobrar uma eleição na Câmara contra os direitos das mulheres. O deputado Flavinho do PSB dizendo que mulher “de verdade” não quer poder, quer é ser amada. O cancelamento de uma palestra sobre direitos das mulheres no colégio Salesiano, em Niterói, porque grupos religiosos associaram o tema à pauta de esquerda.

Nos meses anteriores teve Câmara aprovando projeto que dificulta o aborto legal. E a mulherada indo pra rua, com muita raiva do autor da proposta, Eduardo Cunha (ele, de novo, como sempre). Enquanto isso, editoras do mundo inteiro negociavam a publicação dos livros esgotados ou não traduzidos de Svetlana Aleksiévitch, como o que traz depoimentos de mulheres russas no front da Segunda Guerra. A desconhecida Elena Ferrante, com sua escrita universal, lançava best-sellers que contêm o ponto de vista feminino (uma literatura sobre mulheres, e não para mulheres). E Chimamanda Ngozi Adichie vendia centenas de milhares de exemplares de seu preciso e precioso manifesto feminista (onde diz, simplesmente, que feminismo é tratar os outros com respeito).

Que época para ser mulher, escrever, e tentar entender o Brasil e o mundo. É o que penso o tempo todo, foi o que pensei ontem, depois de terminar a releitura de 1968, o ano que não terminou, de Zuenir Ventura. Olha, Zuenir, a gente está com um 1968 por mês, quero ver quem será o gênio capaz de escrever 2016, o ano que englobou uma década.

No meio de tanta coisa eu me pergunto qual a missão do escritor (eu sei, missão é uma coisa meio 1960, mas acho mesmo que o escritor tem um papel a cumprir, principalmente em tempos conturbados como este). E acredito que este papel, esta missão, seja desconstruir estereótipos.

Marcela Temer, por exemplo. No fundo não importa se ela é bela, recatada e do lar. Que goste de cores claras, saias na altura do joelho e cabelos com luzes fininhas. Para mim ela poderia passar o resto de seus dias fazendo bolinhos de chuva para o filho Michelzinho, que eu não ligaria. O importante, no caso, é que uma reportagem escrita por uma mulher escolhe os termos “bela”, “recatada” e “do lar” como principal forma de definir — e elogiar — outra mulher. Não é Marcela que está errada, mas as escolhas da jornalista, e o espaço dado na imprensa para esse tipo de perfil.

Ou Milena Santos, a miss Bumbum e primeira-dama do turismo brasileiro. Esta nem precisa ser definida por jornalistas, porque se tornou um estereótipo de si mesma. Abandonada pela mãe, cresceu numa favela e usou o corpo como moeda de troca. E o corpo como moeda não é, neste caso, um problema em si. O problema é que Milena deve ter crescido tão influenciada por estereótipos (das novelas, das músicas, das revistas femininas), e acreditado tanto nas imagens pré-fabricadas, que se tornou, ela própria, uma imagem pré-fabricada.

Marcela Temer e Milena Santos me fizeram refletir sobre meu primeiro romance. Sem perceber (e acredito profundamente no subconsciente na hora da escrita) eu fiz das duas protagonistas, Eurídice e Guida, lutadoras contra estereótipos. Eurídice é tida como bela, recatada e do lar. Guida é vista como deslumbrante, efusiva e da rua. Durante toda a trama elas tentam se desfazer destes estereótipos. Isso em 1940.

Estamos em 2016, e as questões continuam as mesmas. A mudança da mulher na sociedade — e da percepção da mulher na sociedade — passa primeiro pela mudança da construção da imagem desta mulher. E isso é com a gente — escritores, editores, designers, roteiristas, músicos, pintores, desenhistas, jornalistas.

Outro dia li um quadrinho de uma desenhista de Brasília, a Lovelove6. Em poucas linhas ela deu um recado fundamental para quem faz arte hoje no Brasil:

“Autores costumam considerar suas tramas apenas quando a mulher tem função sexual no roteiro, ou quando o foco da sua representação é estereotipado — a mãe, a filha, a esposa, a mulher, a prostituta.” No caso da protagonista, a mulher é “jovem, branca, magra, atraente e heterossexual, de traços finos e cabelos lisos”.

Para Lovelove6 (e para mim), não tem que ser assim. E esta é a parte mais linda:

“Sério, caras, as mulheres não precisam despertar o seu tesão e vocês não têm que querer comer todas. Na maior parte das vezes as mulheres estão por aí, existindo de boa, como as pessoas fazem. Se virando, trabalhando, querendo ter pensamentos complexos e profundos, querendo vencer e crescer, como você.”

É isso, companheiros artistas. A marquinha de catapora no queixo de uma mulher não tem que ser sexy. Pode ser a lembrança de uma noite de muita febre na infância, em que foi gostoso dormir na cama dos pais. A gente usa minissaia não para despertar instintos, mas porque aqui faz quarenta graus. Mulher também faz os cálculos para ver quando vai se aposentar, sonha com aquela casinha de campo, já pensou em estudar violão ou tocar tambor. Acorda suada depois de um pesadelo, cheira o garfo com comida, corta as unhas perto do sabugo e depois se arrepende. Já cogitou largar tudo e recomeçar muito longe. Consegue — ou não — fazer as palavras cruzadas sem olhar para as dicas da última página. Tem medo — ou não — de espíritos. Jogou no bicho, quase acertou a quina, perdeu tempo numa fila, se irritou com a porta giratória do banco. E até mesmo Marcela Temer com todo o seu recato, e Milena Santos com todo o seu silicone, ou as duas com todos os seus estereótipos, já pensaram, sentiram ou viveram algumas das coisas descritas acima.

Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em abril, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

 

 

Crise, fuga e déficit de liderança: mistura explosiva no presidencialismo de coalizão

por Sérgio Abranches

O presidencialismo de coalizão requer habilidade na formação e na gestão das coalizões. Mas o problema enfrentado por nosso modelo político hoje, não se resume à má gestão da coalizão ou à incapacidade gestora da presidente. Há algumas condições funcionais subjacentes à crise política atual, que contextualizam a capacidade de gestão da coalizão. Destaco três dessas condições, entre várias outras: fragilidade da liderança presidencial; ausência de lideranças capazes de articular a coalizão e estabelecer uma relação cooperativa com o centro gestor que persiste sendo a presidência e ausência de lideranças agregadoras na oposição; hiperfragmentação da representação partidária. Nesse contexto, a gestão se torna impossível na prática, independentemente do custo que ela teria. Agregue-se a impopularidade da presidente, a crise econômica, associando inflação alta e desemprego crescente e se tem um quadro de crises gêmeas, econômico-política, que levam ao ciclo de fuga do centro político ocupado pela presidência.

A fragilidade da posição da presidente é notória. Essa fuga do centro, explica a debandada dos partidos da coalizão que se está assistindo. Há poucos meses fechados no apoio à presidente, agora abandonam o governo e declaram-se favoráveis ao impeachment. O que provocou a aceleração dessa fuga, tipo efeito manada, foi a proximidade do momento de decisão sobre o impeachment e o fato de que o vento do poder já não sopra na direção da presidência. O cálculo que se faz é que a presidente, mesmo livrando-se do impeachment será uma lame duck, uma carta desvalorizada no baralho do poder. A expectativa de que esse esvaziamento da presidente seria suprido, com vantagem, por Lula no Gabinete Civil, se desfez pela probabilidade de que ele não possa assumir e, se assumisse, teria sua capacidade de aglutinação e gestão política prejudicada pelos processos na Lava Jato. Nos eventos que a presidente vem promovendo no palácio do Planalto e naqueles promovidos por Lula nas praças e ruas, pode-se ver, nitidamente, que o PT está reduzido à sua militância e seus aliados de origem, até com algumas defecções. Está do tamanho que tinha quando não era capaz de chegar à presidência pelo voto. Perdeu as classes médias, sobretudo boa parte das novas classes médias, nascidas no último ciclo de crescimento da renda de base. Perdeu parte dos setores trabalhadores e parte dos beneficiários dos programas sociais. As pesquisas e as ruas têm indicado isso.

A política brasileira — e grande número das democracias do mundo — ressente-se da falta de líderes que reúnam legitimidade pessoal, capacidade de atração de lealdades, habilidade de negociação e persuasão. Esse déficit de liderança diminui drasticamente a possibilidade de moderação negociada dos conflitos e deságua no impasse. No caso do Brasil é mais grave, abre espaço para a polarização radicalizada, transformando o jogo político em um confronto fortemente emocional. Queimam-se pontes como se não fosse haver amanhã. O governo adotou uma atitude belicosa, criando incompatibilidades que se projetam para além do episódio do impeachment, dificultando o que chamam refundação do governo, se o impeachment não prosperar. A oferta da presidente de um pacto, sem vencidos e vencedores para o dia depois da última votação do Senado, soa como uma insincera inserção de marketing em completa desarmonia com o inteiro teor de seu discurso. A mesma atitude se vê na oposição, de fechamento de portas não só no presente, mas também no futuro, no dia depois.

A hiperfragmentação partidária agrava esse quadro. Há agentes de veto em demasia, tornando muito mais complexa e muito mais onerosa para o orçamento fiscal a gestão de uma coalizão. Ainda mais que o nosso sistema de apelo recorrente à constitucionalização das disputas acaba por requerer grandes coalizão. Tudo seria mais fácil com coalizões formatadas para ter a maioria simples ou a maioria qualificada para apreciação de leis complementares. Mas a necessidade de garantir a possibilidade de emendar a Constituição e de bloquear tentativas de emendas que desagradem ao governo, leva à grande coalizão. Portanto a coalizões heterogêneas, com escassa afinidade política e baixa comunalidade de princípios e valores entre os partidos da coalizão. No quadro de hiperfragmentação todas essas dificuldades e distorções são potencializadas.

Na política brasileira, sempre foi possível identificar, até visualmente, quando uma liderança está crescendo ou no ocaso, entrando no ostracismo, em datas-chave, como comemorações aniversárias, momentos de decisão, períodos de negociação e aconselhamento mais intensos. Nessas ocasiões identifica-se a direção para a qual se move o novo centro de atração da política. No momento, o afluxo crescente de políticos e lideranças ao palácio do Jaburu, sede da vicepresidência, mostra o crescimento da força de atração do vice Michel Temer. Essas romarias típicas da nossa política, desde o Império, porém mais acentuadamente na 1ª e na 2ª repúblicas, continuam sendo um bom sensor para identificar a direção da atração na política. Isso significa que a maioria dos políticos prevê a aprovação do impeachment em todas as suas etapas, um cenário provável, dado que cada etapa em que o processo é aprovado, detona um efeito manada para a etapa seguinte, na mesma direção. Basta observar como após a decisão da Comissão Especial, decidindo recomendar ao plenário a admissão da denúncia de crime de responsabilidade contra a presidente, cresceu quase instantaneamente o número de partidos e parlamentares manifestando-se favoráveis ao impeachment. Todavia, continua a haver muito jogo de cena e jogo duplo, como expliquei em artigo recente.

Mas não é apenas esse efeito de indução de decisões em sequência que explica a debandada e a decorrente adesão à tese do impeachment. Ela é estimulada pelos impulsos centrífugos decorrentes da proximidade das decisões para compor as chapas para as eleições municipais e do aumento da força de atração do vice-presidente, ao aumentar a probabilidade de que venha a exercer o mandato pelo período restante. As eleições municipais são o momento de maior proximidade entre os parlamentares e sua base eleitoral. Mais até que as eleições para a Câmara e o Senado. Nessas últimas, eles estabelecem proximidade artificial, de campanha, controlada por estratégias e mensagens cuidadosamente formatadas para convencer e vencer. Aproveitam-se da pouca memória eleitoral e reapresentam-se como o eleitor os quer ver. Mas, nas eleições municipais, a memória eleitoral é muito mais forte. O interesse local está muito mais diretamente ligado à vida cotidiana dos eleitores. Suas convicções pessoais e seu humor presente, além das necessidades locais ligadas às deficiências percebidas em seus municípios é que orientam suas escolhas eleitorais. E por que essas eleições são críticas para os parlamentares? Porque sua reeleição dois anos depois, dependerá da força obtida nas urnas pelas lideranças políticas locais que os apóiam, dos seus cabos eleitorais e dos eleitores-ponteiros, aqueles cuja opinião influencia os votos de sua cidade ou de seu grupo de vizinhança ou de trabalho. O que essas pessoas chave nos esquemas político-eleitorais de deputados e senadores estão dizendo, na sua maioria, é que não desejam a continuidade do governo. Os políticos ouvem com atenção essa voz dos eleitores. Vivemos, no período de preparação para a sucessão municipal e ao longo da campanha, o momento de maior aproximação entre parlamentares e o eleitorado. É quando se dá a maior representatividade do sistema de representação, cujo déficit de representatividade é notório. É essa proximidade com os eleitores que está levando os parlamentares a se afastarem da presidente, a votar pelo seu impeachment e a se aproximar do vice-presidente.

Mantidas as condições socioeconômicas deterioradas e o mau humor dos eleitores com o governo, a aprovação do impeachment é muito provável. O desfecho tende a ser desfavorável à presidente Dilma Rousseff. O ciclo de fuga, em aceleração, tende a fazer com que cada estágio de deliberação condicione fortemente o próximo, tornando pouco provável que o estágio seguinte reverta a decisão do anterior.

Restaria o recurso à judicialização. Este é o ponto mais delicado e menos previsível. Na votação do mandado de segurança impetrado pela presidente pedindo a sustação do procedimento de impeachment na Câmara, a maioria do plenário do STF optou pela cautela e pelo que denominam “reverência ao Poder Legislativo”. Isto é, a maioria preferiu o mínimo de intervenção sobre os procedimentos internos do Legislativo, cuidando apenas de que não descumpram a lei ou violem princípios constitucionais. Mas não foi uma decisão unânime. O presidente do STF, Ricardo Lewandowski, ficou vencido em duas decisões importantes e deu vários recados, mostrando disposição mais intervencionista, que pode se refletir no modo como conduzirá a presidência do Senado durante o processo. Menciono, em particular, duas frases dele bastante eloquentes a este respeito. “Situações excepcionais requerem medidas excepcionais”, disse ele ao convocar a sessão extraordinária para examinar especificamente os pedidos relativos ao processo de impeachment na Comissão Especial da Câmara. Mas é uma frase suficientemente geral, para servir de sinal sobre o seu posicionamento na presidência do processo no Senado. A segunda, é mais direta e incisiva. Ao justificar seu voto dissidente favorável a intervir na decisão do presidente da Câmara sobre a chamada nominal intercalada entre Norte e Sul na votação no plenário, disse ele que o impeachment “é um ato político sim”. “E quem é que disse que um ato político não é sindicável por parte do Judiciário? Não tenho nenhum problema. Como juiz da Suprema Corte do país, eu tenho legitimidade para rever os atos do Poder Legislativo.”

Como presidente do Senado, na condução do processo de impeachment, ele estará em um contexto político-organizacional muito distinto do plenário do Supremo Tribunal Federal. O padrão comportamental é distinto, muito menos reverencial, e o contexto está intoxicado pela polarização radicalizada. Essa polarização que está levando à ruptura da governança, à ruptura política e alimentando a progressão do processo de impeachment. Uma atitude mais intervencionista, cerceadora, na presidência do Senado, nesse ambiente radicalmente polarizado, tenderá a alimentar sérios conflitos, tornando imprevisível o clima para a decisão do plenário. O tumulto conflituado pode inspirar o recurso recorrente ao poder moderador do Judiciário, envolvendo-o seguidamente em um conflito político exacerbado. Estamos assistindo a um duro teste para a institucionalidade democrática e, até agora, ela tem resistido bastante bem, diante das circunstâncias. Mas estão ficando evidentes disfuncionalidades e insuficiências em nosso modelo político que estão a pedir reflexão ponderada para orientar uma reforma política mais bem focada e profunda.

A crise tem representado um custo para muitos autores. COMPLEXO DE PROMETEU, de Sergio Abranches, está atrasado. Pudera. Seus leitores da política o têm solicitado, e nos próximos 40 dias ele dará três seminários sobre o inviável presidencialismo de coalizão, um deles internacional. A próxima palestra será na Academia Brasileira de Letras. Seus ensaios no academa.edu:

Quem no mundo já venceu a corrupção? 20 de março de 2013 Sérgio Abranches
O centro do dilema político brasileiro não é o presidencialismo, é a coalizão
Clientelismo, petróleo e corrupção no presidencialismo de coalizão
Crises políticas no presidencialismo de coalizão
colocam-no entre os 0,5% mais lidos do site. A leitura vale muito. Nos artigos mais antigos, a presciência de Sergio é impressionante.

A política é um jogo de aparências que tem consequências concretas
Sérgio Abranches

A política é um jogo de aparências que tem consequências concretas Sérgio Abranches As aparências não enganam apenas, elas têm consequências concretas. Principalmente quando o jogo de aparências ocorre na política e na economia. Dou um exemplo do mercado financeiro. O noticiário parece — grifem mentalmente o verbo parecer — indicar, num determinado momento, que a maré está mais pró-impeachment. A bolsa sobe, o dólar cai. Em outro momento, a onda aponta na direção oposta, parece que não vai ter impeachment. A bolsa cai e o dólar sobe. Esses movimentos em direções opostas foram provocados por aparências, mas a queda ou subida da bolsa e do dólar produzem ganhos e perdas concretas e repercutem por toda a economia.

O mercado chama a isso de expectativas. Ou seja, uma estimativa do que pode vir a acontecer. Se o ambiente é de muita volatilidade, são muitas as ondas e as expectativas se alteram ao sabor de cada uma delas. Um jogo de aparências entre “comprados e vendidos”. A política assenta-se também em um jogo de aparências. São muitos jogadores com apostas diferentes. No caso do impeachment, há parlamentares com a cabeça feita. Provavelmente são mais numerosos entre os governistas — PT e PCdoB — do que na oposição. A maioria, porém, não sabe ainda como votará. Espera ter mais certeza sobre a direção do o vento das decisões. Mas esse jogo tem consequências concretas. Esconder o jogo, num teatro de dissimulações, em que nem mesmo os atores sabem o que é para valer e o que não é, faz parte de estratégias políticas em busca do maior ganho possível. O pacote de vantagens combina promessas de benefícios futuros a benefícios imediatos. O jogo é de aparências, mas é jogo e envolve ganhos e perdas concretos, tanto para os políticos que o estão jogando, quanto para a sociedade.

Tudo aparências. Lembro um verso do Eclesiastes, na transcriação de Haroldo de Campos: névoa de nadas, tudo névoa-nada. Essa névoa que esconde o verdadeiro jogo de cada um, até mesmo para o próprio jogador, é um recurso poderoso, seja na especulação financeira, seja no processo político. Não só o governo, nem somente os líderes pró-impeachment (e todos nós) desconhecem a probabilidade real do resultado da decisão na Câmara e no Senado. Deputados e senadores também não sabem como os outros votarão. A incerteza, mais que a virtude, está no meio ou no centro. O ambiente é tão volátil que um político que diz para si mesmo, diante do espelho, que votará de um jeito num dia, pode dizer para sua outra imagem no espelho, dias depois, que votará de outro jeito. Por isso, a ordem dos fatores altera o produto. Se a chamada nominal der a aparência de que a tendência é numa determinada direção, muitos parlamentares, ao votarem em seguida, mudarão seu voto para acompanhar essa tendência. E o que era aparência pode virar consequência, resultado final, confirmando a tendência.

Acompanho o comportamento do Legislativo brasileiro há décadas. Escrevi minha tese de mestrado sobre o processo legislativo, analisando padrões de voto e suas diferentes dimensões. Para entender o que se passava no Congresso, assisti a grande número de sessões, pelo menos duas por semana, durante seis meses. Vi de tudo. Votações importantíssimas, votações irrelevantes, brigas, sopapos. Fui descobrindo que quase nada do que acontecia às claras, no plenário, era verdade. Esse jogo de aparências sempre existiu. Como precisava saber o que, de fato, dividia os parlamentares em cada votação, li a ata de todos os debates sobre as medidas que constavam de minha amostra. Páginas e páginas de discursos, entremeados de apartes, apartes a apartes, apartes a apartes a apartes, insultos. Só não havia clareza sobre o que estava por trás de muitas votações. Quando a divisão era governo vs oposição, era mais fácil. Mas quando as divisões não se davam nessa fronteira mais bem marcada, só entrevistas com parlamentares e com a assessoria técnica, permitia detectar, em parte, o motivo real dos votos. E o Brasil ainda nem vivia a democracia reinstaurada pela Constituição de 1988. Quem já assistiu a uma sessão da Câmara é testemunha do tumulto que se forma em torno do microfone de pé, que fica em frente à mesa do presidente. Não é que os deputados não tenham microfone em suas mesas. Aquele burburinho é proposital, é parte do jogo. Mas, também, ali, a maioria do que acontece é jogo de cena, diante das câmeras.

Se tudo o que ocorre diante dos olhos da audiência é encenação, onde é que se dá o processo real de negociação, barganha, troca-troca, que definirá os votos? Ele se dá nos gabinetes, dentro e fora do Congresso, continua na reunião do “colégio de líderes”, estende-se pelos corredores da Câmara e do Senado, transborda no cafezinho e, na maioria das vezes, recebe os retoques finais, que alteram votos em escala ou na margem pelos cantos do plenário, longe das lentes da TV. Enquanto os parlamentares se engalfinham na comissão do impeachment e no plenário, o verdadeiro jogo está acontecendo fora. O governo oferece ministérios e cargos de segundo e terceiro escalão, negocia-se, conversa-se, especula-se, o governo retira a oferta. No dia seguinte, os balões de ensaio aparecem na imprensa: “governo só dará ministérios depois do voto”; “lideranças partidárias dizem que só aceitarão cargos depois do voto”. Qual a verdade, qual a aparência? Névoa de nadas, tudo névoa-nada. Ninguém sabe ao certo. Nem governo, nem oposição. Não há elementos para calcular probabilidades ou apontar tendências. Pesquisas de opinião? Quem garante que o que o parlamentar respondeu, corresponde ao voto que dará no dia? Ora parece uma coisa, ora outra. Todo mundo joga, não só os políticos. Os analistas também. Aprendi, desde o primeiro dia de faculdade, que análise de processos sociais e políticos sempre tem uma carga de subjetividade. Weber dizia que ela é compensada no entrejogo das intersubjetividades. Quanto numa determinada interpretação ou previsão sobre o momento político é análise, quanto é desejo? Quanto de dúvida ficou de fora, sem ser explicitada? Quanto há de incerteza. Névoa de nadas, tudo névoa-nada.

“Por que você não se sente mais cidadã do mundo do que brasileira? Seria inclusive uma visão mais próxima da realidade”, me pergunta Raymond, na tentativa de me levantar de mais uma depressão em que sou jogada por notícias do Brasil. Não concordo e não consigo. Sou brasileira, serei sempre, com muita vergonha e muita dor.

Casar/viver com estrangeiro tem esse preço. A nacionalidade pesa. Como uma pessoa direita cujo pai é ladrão sente vergonha da família de origem diante do cônjuge, a nacionalidade pesa de igual maneira na relação de um casal. Dá muita vergonha.

No meu caso, venho de um país onde os eleitores elegem uma Câmara em que 60% dos deputados são objeto de investigação por crimes variados (dado sempre repetido nos jornais dos EUA que estarrece, como devido, os americanos). De um país onde ingenuamente é posto no poder um bando que para ali se perpetuar está pronto a cometer qualquer ordem de crime, desde a destruição da maior empresa brasileira por meio da corrupção até assassinato. De um país em que boa parte da intelectualidade, para segurar suas prebendas, bolsinhas e financiamentos de filmecos e outras obras sem público (sempre sangrando o bolso do contribuinte), sobe a palanques para defender a máfia. Dá vergonha.

Uma gente tão tolinha que ainda vê “esquerda”, um conceito já inadequado, em um regime que em 14 anos não ofereceu educação da mais mínima qualidade para o povo, menos ainda serviços de saúde e saneamento; e que aprofundou o conluio entre o capital mais espúrio e a máquina do Estado criando um esquema de corrupção inédito até na história do Brasil. Dá muita vergonha de tanta estupidez, ainda mais quando são “intelectuais” que a proferem.

Dor maior é constatar e não poder camuflar que o brasileiro ainda não conseguiu entender o conceito de “império da lei” _ marco civilizatório mínimo. No Brasil, não se percebe que um brutamontes não pode conclamar as pessoas à desordem e à violência pela TV. No Brasil, gravações reveladoras dos mais tremendos crimes são motivo de repreensão aos investigadores que bravamente as obtiveram em vez de conduzirem à prisão dos criminosos. No Brasil, juízes da Suprema Corte mudam sem qualquer motivo a jurisdição da investigação de atos que, nos Estados Unidos, seriam entendidos como de lesa-pátria.

Outro conceito profundamente entranhado na psique do americano e que, vergonhosamente, passa longe da gente é “responsabilidade” _ individual e coletiva. Como fomos nós que concedemos o poder à Orcrim, o americano acredita que temos o que merecemos. Como quem não se beneficia da roubalheira e se opõe ao regime não se organiza para derrubá-lo _ nos EUA, ninguém tem dúvida de que um governante que traiu seu eleitor tem que ser removido do poder _, o americano diz que paremos de reclamar e aguentemos o peso de nossas escolhas.

Daí este texto. Meu marido americano disse que não ouviria mais uma lamentação a respeito do Brasil se eu não fizesse algo para mudar. Se nada mais houvesse a fazer, que escrevesse um artigo. Que seria hipocrisia da pior espécie se, por receio da condenação de pessoas do meu meio, eu, no estado de desalento em que me encontro, me calasse. Escrevi. Preciso do ouvido americano do marido para minha vergonha e minha dor.

lvb

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Luciana com a filha, Bebel Sader, em NY.

Compartilhamos com os amigos da VBM um presente que recebemos da cliente alemã Kiwi. Três links (em alemão, com legendas em inglês ou espanhol, e em francês) levando a um documentário para a TV sobre a nova literatura de mistério tendo como pano de fundo o III Reich. Dominique Manotti, Philip Kerr (grande autor inglês bastante publicado pela Record na virada do século) e Volker Kutscher (de quem representamos a magnífica série Berlim Noir) contam como lhes veio a ideia de escrever literatura policial ambientada na Alemanha nazista e por que são fascinados pela temática.

Como leitora, só aprecio de verdade a literatura policial quando tem um fundo político. Neste momento, aguardamos com expectativa o lançamento em maio de A BÍBLIA DO CHE, de Miguel Sanches Neto, que explora as ambiguidades morais da esquerda no poder. Vamos cultivar a esperança de que os crimes de corrupção (mas não só, pois é preciso voltar ao assassinato de Celso Daniel, entre outros delitos) que atualmente traumatizam a vida brasileira  sirvam ao menos para desenvolver entre nós um gênero de ficção.

Como disse Raphael Montes outro dia no fb, a realidade brasileira está criando dificuldades para os ficcionistas. Como superá-la? Mas o nazismo – um horror impossível de se conceber como ideia – como recorte da história factualmente passada talvez seja o maior tema da literatura e da filmografia contemporâneas. Que o thriller literário do Miguel seja o aperitivo de um grande gênero da ficção brasileira.

(Não me cobrem uma indevida comparação sobre o momento brasileiro e a experiência nazista. Quem gosta da comparação indigna e espúria são Dilma Roussef e Lula da Silva. Estou apenas tratando de matéria para a literatura.)

 

LVB

 

(http://www.arte.tv/guide/fr/053937-000-A/les-romans-policiers-et-le-troisieme-reich)  

(http://www.arte.tv/guide/en/053937-000-A/crime-novels-and-nazi-germany?country=DE)

(http://www.arte.tv/guide/es/053937-000-A/la-novela-policiaca-y-la-alemania-nazi?country=DE)

Ray - Blog

Raymond Moss, sócio da VB&M, escreveu e publicou artigo na Folha de S.Paulo, assinado com o advogado brasileiro Fernando Costa Netto, sobre a lei americana em torno da figura do “whistleblower” _ o “tocador de apito”, a testemunha de um crime financeiro que o denuncia às autoridades _, e como essa legislação pode beneficiar os brasileiros . É uma das especialidades do Raymond, que recentemente teve uma vitória esplendorosa sobre uma empresa de atendimento médico para crianças, que superfaturava as contas que apresentava ao governo. A empresa teve de pagar perto de US$ 7 milhões a vários estados americanos e ao governo federal, e uma porcentagem dessa soma ficou com o (no caso “a”) “whistleblower”. A história teve ampla cobertura, principalmente no estado da Georgia, onde ocorreu o crime, como se pode ver na primeira página do Atlanta Journal-Constitution, mas também foi matéria da Bloomberg, Reuters e outros veículos.

Uma legislação como essa seria muito positiva para o Brasil, um estímulo na luta contra a corrupção. Infelizmente, temos baixa consciência do que significa um crime contra a Nação, contra o conjunto dos cidadãos pagadores de impostos. (Ou seja, todos, porque cada brasileiro, mesmo que não tenha renda, paga impostos altíssimos ao comprar o mais básico produto.) Lesou o Estado? Tem que devolver a grana com juros e multas, porque sua empresa cometeu um crime contra centenas de milhões de pessoas.

Se tivéssemos essa consciência, não assistiríamos ao ridículo debate sobre a correção ou não da “delação premiada” e das prisões preventivas da Lava-Jato. Nesses momentos, o que está em jogo é a Nação e _ dentro da legislação vigente e agindo com base em fortes e inequívocos indícios, como tem acontecido _ a lei tem que ser aplicada com toda dureza. Com a “delação premiada”, supostamente uma traição entre cupinchas do crime, entre pixulequeiros, para usar o novo vocabulário brasileiro, o delator está se redimindo diante da Nação, que deve ter um lugar superior no ordenamento ético do país.

Volta e meia surpreendo-me com gente, velhos amigos de alguma maneira ligados ao petismo (como eu, aliás, já fui) querendo que esses gângsteres sejam tratados com todo cavalheirismo. Não dá, não pode ser assim, porque não é assim que se trata com gângsteres. Com seus amigos nas mais altas esferas da política e da economia, eles logo estariam rindo da cara da gente, e temos que agradecer a Sergio Moro e à nova geração de procuradores que essa ordem das coisas esteja sendo finalmente alterada.

Enfim, três parágrafos que nada têm a ver com agenciamento literário ou mesmo com o Raymond Moss. Mas no fundo têm a ver com todos que trabalham honestamente e têm uma atividade produtiva no Brasil. Acompanhando diariamente a atividade advocatícia dele nos EUA, sou (Luciana) levada a essas reflexões e aproveito este espaço para expressá-las. (LVB)

 

http://app.folha.uol.com.br/#noticia/586410

http://www.myajc.com/news/news/local/whistleblower-turns-to-obamacare-to-win-688-millio/nnCJ4/

viviane

Já comentamos aqui como o romance de Míriam Leitão, TEMPOS EXTREMOS, e o novo livro de Miguel Sanches Neto, A BÍBLIA DO CHE, “previram”, anteciparam, fatos da vida real. No caso de Míriam, o assassinato de um ex-torturador do regime militar, que vinha confessando crimes e delatando cúmplices em depoimentos à Comissão da Verdade, exatamente quando a Intrínseca estava para lançar TE, que traz personagem e episódio rigorosamente idênticos ao que veio de fato acontecer. No caso de Miguel, há meu testemunho (LVB) de que li uma parte do livro sobre um operador de propinas em Curitiba que forja a própria morte antes de surgirem os rumores sobre o corrupto deputado paranaense José Janene, que acreditávamos defunto, estar possivelmente vivinho da silva. Agora é a vez de comentar MISSÃO PRÉ-SAL 2025, de Vivianne Geber.

Há três anos li o original de Vivianne e decidi assumir a representação literária dessa talentosa assessora jurídica da Marinha. Não tive dúvidas de estar diante de uma futura escritora. Fiquei feliz de ler um livro de espionagem internacional com personagens brasileiros sobre fraudes e roubo de tecnologia bélica _ submarinos movidos tanto a diesel como a energia nuclear _ made in Brazil. O que eu não poderia imaginar é que o livro viria a ser publicado pela Record em julho de 2015 coincidindo precisamente com a prisão do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, até poucas semanas atrás presidente da Eletronuclear, acusado de fraudes bilionárias tanto na construção de Angra 3 como na construção de potentes submarinos nucleares e a diesel. Do thriller de Vivianne, não se pode pinçar uma passagem que seja perfeito espelho de alguma etapa do Petrolão _ ou melhor, Eletrolão, Atomicão, como queiram _, mas todo astral, ambientação, temática e personagens secundários são incrivelmente correlatos.

(LVB)

missao-pre-sal

Evangelia Avloniti

Nossa brilhante co-agente na Grécia, Evangelia Avloniti, divide conosco o artigo que escreveu para o Publishing Perspectives

http://publishingperspectives.com/2015/08/greek-publishings-summer-of-discontent/

sobre a situação do mercado editorial grego. “Greek Publishing’s Summer of Discontent”, algo como “o verão da desesperança do mercado editorial na Grécia”, é de certa maneira uma explicação e uma justificativa para os editores do país não estarem fazendo as remessas ao exterior dos royalties devidos, mas também descreve com grande nitidez um quadro terrível de desolação social.

Certamente, a situação grega é infinitamente pior do que a brasileira, e não só pela fragilidade estrutural da Grécia, se comparada com o potencial sócio-econômico do Brasil. Certamente, também os gregos são responsáveis e cavaram o próprio buraco financeiro, como fizemos os brasileiros _ mas só até certo ponto! Enquanto no Brasil não se pode apontar o dedo para ninguém de fora pela situação lamentável em que nos encontramos (a presidente Dilma insiste nessa atitude, mas há tempos ninguém dá crédito a suas explanações da crise em dilmês indecifrável), a Grécia foi em parte, mas de fato, vitimada pelo modo como se deu sua inserção na União Europeia _ e, aliás, continua sendo, pois sua derrocada tem sido muito benéfica para as potências regionais, principalmente a Alemanha. Certamente, o mercado editorial grego está muito mais desestruturado do que o brasileiro. Ainda assim, ou por isso mesmo, é relevante identificar os pontos em comum entre esse verão grego e o nosso inverno, além do calor excepcional para a estação nos dois países.

Desde o controle dos movimentos de capitais estabelecido em junho pelo Syriza, o partido de esquerda no poder, as cadeias produtivas de diversos setores foram implacavelmente quebradas na Grécia. No caso do mercado editorial, não se imprime mais nada porque não há papel nem maneira de comprá-lo, já que as contas bancárias foram bloqueadas, e as vendas das livrarias caíram entre 50% e 80%. Nem que quisessem, editores poderiam pagar royalties ao exterior, porque as remessas estão virtualmente proibidas pelo governo. Naturalmente, já começou o quebra-quebra das editoras, com a prestigiosa Script anunciando falência em pleno feriado bancário imposto pelo governo para impedir os saques de divisa.

No Brasil, a crise apanhou as editoras depois de um período de relativa bonança. Até o ano passado, compras governamentais garantiam bons resultados para a maioria das editoras. Se algumas delas, digamos, se viciaram nessa receita, o corte abrupto das compras não atingiu o mercado homogeneamente. Altamente capitalizadas, editoras como a Intrínseca e a Sextante, que nunca se dedicaram ao “canal governo”, não estão sentindo a crise de maneira aguda. Mesmo com a recessão já perfeitamente identificada, o setor livreiro ainda teve o maná dos livros de colorir no primeiro semestre.

Claro que a retração de movimento nas livrarias menos bem pensadas afeta e preocupa a todos, assim como juros altos doem no bolso de quem tem alguma dívida pendurada no banco. Por isso, a diminuição significativa do número de lançamentos, o esforço de redução de custos com dolorosas demissões em muitas casas e a restrição das contratações a livros de auto-ajuda; a títulos diretamente relacionados à crise, tanto de análise séria como de sátira; ou a obras de autores já colocados que a editora não queira perder de maneira alguma. Mesmo sem necessidade premente mas com desculpa para isso, algumas (poucas) editoras estão aderindo ao péssimo hábito de adiar ao máximo os pagamentos, ou simplesmente não cumprir seus compromissos, contribuindo para o ambiente de desconfiança, que só acentua a crise e deprime os agentes econômicos, piorando viciosamente o astral de todo mundo.

O que mais se aplica ao mercado brasileiro de tudo que traz de informação o artigo de nossa amiga Evangelia? É no mínimo curiosa, pelo que reflete de Brasil, a declaração da editora Chrysa Georgakopoulou diagnosticando a doença e morte de sua querida Scripta: “Livros nunca foram uma prioridade para os gregos. Sempre foram uns poucos que sustentaram o meio editorial grego em seu estado semi-comatoso.” Também a solução que a popular dublê de autora-editora, Soti Triantafillou, da Patakis, propõe: “estabilidade, uma moldura social que seja simpática aos negócios e alguma paz de espírito coletiva (para a sobrevivência).”  Nossa, Soti, a gente também quer!

Enquanto o Brasil decide se vale a pena ou não impedir Dilma, considerando a bandidagem política generalizada que há de permanecer até 2018, esperemos que não seja o intento da presidente e do PT conduzir a nau brasileira a um porto grego. Já entrou água demais em nosso barco, considerando o potencial e a riqueza de recursos de que dispomos. Quantas Grécias dão no Brasil, quantos ioles em nosso transatlântico? Mas, lembrem-se PT e Dilma, políticos em geral, quando naufraga, o transatlântico sofre muito mais do que o pequeno veleiro, e se vai embora primeiro o pessoal do porão, passageiros da primeira classe também não são poupados.

(LVB)