Categoria: PONTO DE VISTA

Entre as crônicas de Míriam Leitão para o Blog do Matheus, “A saída impossível” dá nó na garanta. Retorna ao cenário de A PERIGOSA VIDA DOS PASSARINHOS PEQUENOS, mas traz uma densa reflexão existencial.

A saída impossível

* Por Miriam Leitão

O beija-flor entrou na casa. Isso aconteceu outras vezes na reserva e eu apenas abro as janelas e o deixo voar para fora. Mas esse resolveu tentar uma saída impossível pelo vidro fixo que fica acima da janela da mesa de trabalho. Tentamos indicar o caminho certo, fui escrever em outro canto para sair de perto da janela, mas nada ajudava. O beija-flor continuava batendo a cabeça no mesmo vidro, ignorando todas as inúmeras possibilidades de ir embora.

Há muito tempo não vínhamos à reserva. Muito trabalho nos prendendo sempre na cidade, muitas viagens. Ao chegar, tomei um susto ao ver como a mata que plantamos ao longo dos anos havia crescido, a ponto de quase não notarmos mais diferença entre ela e o remanescente original. O verde em torno da casa está mais bonito que nunca. Chiquinha voltou a trabalhar conosco. Ela e o marido Sebastião. Eles tinham pedido para ir embora, atrás de um filho que entrara em um descaminho. Tudo resolvido com o rapaz, eles quiseram voltar.

Cheguei na quinta de noite e, na sexta, logo depois do comentário da CBN, fui caminhar com Chiquinha para ver o bosque em torno da casa, as hortas que ela espalhou em alguns pontos, as orquídeas que ela implantou em algumas árvores, as novas mudas que está produzindo.

Estava de volta ao trabalho, quando vi que o beija flor vivia sua prisão bem perto da liberdade:

– Desce um pouco rapaz, que a janela está aberta — repetia Sérgio.

Indiferente à comunicação humana, o passarinho batia a cabeça no vidro perigosamente. Virou o centro das nossas atenções. Chegaram Giovana e Silvana e ficamos os quatro tentando todos os meios possíveis para fazê-lo entender que havia muitas portas, muitas saídas, mas naquele ponto específico em que ele insistia em passar não havia a menor chance.

Olhava angustiada o beija flor. Até quando ele resistiria? Lembrei das vezes em que eu mesma tentei saídas impossíveis, achando que poderia atravessar portas trancadas. Seria simples, vejo agora, recuar um pouco, buscar novo ângulo e tentar outra direção para o mesmo objetivo. Faltava ao passarinho, faltou a mim, ver o ambiente inteiro, o contexto completo, para encontrar a melhor alternativa para o que buscava. Ele ficava fixado naquele ponto. Depois dava uma volta pela sala e voltava ao mesmo lugar. É da natureza de pássaros e de pessoas jogar-se às vezes contra um obstáculo intransponível, indiferentes ao fato de que existem várias formas de se chegar ao mesmo alvo. Ele era persistente, o beija flor, mas estava equivocado. E esse erro poderia ser fatal.

O pé direito da casa é alto. Impossível alcança-lo para direcioná-lo, compulsoriamente, para o ponto que era melhor para ele. Incapaz de resolver o problema, tentei trabalhar. Mas aquele contínuo bater de asas, o confronto entre ele e o vidro, a aflição do passarinho me tiravam a atenção.

– Vou trocar esses vidros fixos por coloridos. Assim nenhum pássaro vai se enganar mais — decidiu Sérgio.

Isso resolvia o problema dos futuros passarinhos que entrassem descuidados em nossa casa, mas e aquele? O que fazer com o beija flor preso em minha casa?

Nada a fazer, mergulhei no texto que escrevia e o Sérgio afundou ainda mais na sua leitura. Giovana e Silvana também voltaram para o trabalho. O pássaro ficou sozinho com o seu erro.

Um tempo depois, Sérgio fez um sinal de que eu ficasse parada e apontou para um canto. Era o beija flor. Caído. Sérgio jogou um pano sobre ele e o pegou delicadamente. Ele fincou suas unhas no tecido, informando, assim, estar vivo. Eu o tirei de lá com jeitinho. Fui para a porta da casa, sentei nos degraus com ele na mão. Vivo e fraco. Jogamos um pouco de água sobre a cabeça dele e depois perto do bico. Dentro das minhas mãos ele começou a se mexer e engoliu um pouco de água. Era gostoso o contato com ele, quase um carinho. Com cuidado fui até uma sombra e o depositei no chão. Ele ficou um tempo quieto. Eu me afastei desgostosa, achando que o pequeno estava condenado. Fora longo o tempo das tentativas fracassadas, demais as cabeçadas no vidro, cansativo o inútil bater de asas. Sérgio ficou vigiando e depois veio me contar:

– Ele já ganhou o mundo.

E assim foi a manhã da sexta. Na minha cabeça ficou a música: “Não se admire se um dia o beija flor invadir a porta da sua casa lhe der um beijo e partir”.

Agora a tarefa é encontrar a melhor forma de que o belo, leve, e alado visitante possa apenas me entregar o beijo e partir pelas portas e janelas abertas da casa que plantei em frente ao verde da Mata Atlântica.

Para o Blog do Matheus, Sérgio Abranches escreveu um artigo explicando o novo populismo que aflige um grande número de democracias contemporâneas. Os temas do riquíssimo ensaio estão desdobrados em seu livro A ERA DO IMPREVISTO, que vem aí pela Companhia das Letras, em junho.

Sérgio faz uma equação interessante. Mostra que a esquerda tem uma visão distributiva e de justiça social, mas pensa de maneira totalmente anacrônica o desafio econômico, enquanto a direita tem propostas interessantes para a economia mas ainda acredita que a sociedade pode se reger pelo cada um por si. Apoiado na mentira, o populismo nada de braçada no espaço criado pelo conflito entre essas visões. Soluções até existem para muitos dos problemas atuais, mas as lideranças políticas globais não compreendem o desafio colocado pela e para a humanidade.

O novo populismo e o desafio democrático

* Por Sérgio Abranches

A democracia americana e várias democracias europeias estão sob a ameaça dos populistas. Diferentemente do velho e novo populismo latino-americano, a vertente que assalta as democracias mais maduras vem da direita nacionalista. O populismo, sob qualquer de suas formas nasce da insatisfação e do ressentimento. O terreno no qual prosperam as lideranças populistas é marcado pela frustração das oportunidades e pela desigualdade crescente. Elas exploram o sentimento de abandono ou destituição. Não são sentimentos gratuitos. Eles estão ancorados nas falhas sistêmicas dos mercados e das democracias. O mundo vive uma longa e radical transição. Os modelos político-econômicos que impulsionaram o século XX, com raízes nos séculos XVIII e XIX, não funcionam mais como antes.

As formas tradicionais de produção e circulação de mercadorias foram alteradas pela globalização, pelas mudanças tecnológicas, pelo desenvolvimento no mercado financeiro de novas modalidades de financiamento e pela instantaneidade da economia digitalizada.Tudo isso gera desigualdade e desemprego. Os novos padrões, alguns já emergentes, não são ainda capazes de gerar os empregos, a renda e o bem-estar necessários para atender às demandas da maioria. O que piora o quadro é que as democracias estão dominadas por oligarquias políticas e econômicas que não representam mais amplas parcelas da sociedade. Elas emergiram fora das jurisdições cobertas pelos partidos, sindicatos e grupos de interesses organizados e encontram-se desamparadas. São rejeitadas pelo mercado de trabalho e estão fora do alcance das redes de proteção social do estado.

O populismo, com suas ideias econômicas obsoletas, antiglobalização e protecionistas consegue entregar-lhes apenas momentos fugazes de euforia. Ao insustentável crescimento produzido pelas aventuras macroeconômicas dos populistas, de qualquer matiz, decorrem profundas distorções nos quadros fiscal e distributivo. Desde meados dos anos 1990, temos vivido ciclos econômicos de crescimento-crise recorrentes, associados a ciclos políticos de populismo-austeridade. O resultado dessa oscilação é o aumento das desigualdades, o crescimento do desemprego estrutural, a insatisfação e o ressentimento derivados da frustração das expectativas. A cada ciclo, faixas cada vez maiores da economia se mostram incapazes de recuperação. Foi o que aconteceu, por exemplo, com as atividades do chamado “cinturão da ferrugem”, nos Estados Unidos, área de mineração de carvão e de indústrias metal-mecânicas de baixa produtividade e sem competitividade. Em regiões como essas, não há futuro de retomada das indústrias tradicionais. Capital e trabalho terão que ser reciclados para outras atividades em sintonia com o movimento da transição tecnológica, econômica e social. Nesse interregno, viveremos perigoso quadro de agravamento de desigualdade e desconforto socioeconômico.

O sociólogo Ulrich Beck define esse fenômeno como a sociedade do “indivíduo por contra própria”. A rede de proteção social não consegue atende-lo e tem dificuldade de se ajustar ao novo perfil demográfico e às limitações fiscais do estado. Passa a valer o princípio do indivíduo por contra própria que corresponde, na prática, à dura lei do “sua vida, seu risco”. As crises estruturais, portanto coletivas, passam a constituir risco pessoal, resultando em “sua vida, seu fracasso”. Apenas uma minoria de indivíduos adquire com a rapidez necessária a capacidade de combinar redes, construir alianças, fazer acordos, sempre por conta própria. Eles aprendem a viver e sobreviver numa atmosfera de risco permanente, na qual o conhecimento e as mudanças de vida são de curta duração e se multiplicam no tempo. Suas experiências de vida mudam rapidamente. Há mais liberdade para a experimentação mas, ao mesmo tempo, as pessoas devem enfrentar o desafio sem precedentes de lidar, em tempo praticamente real, com as consequências de suas ações e das ações dos outros. A grande maioria não tem essa desenvoltura e engrossa a massa de despossuídos e ressentidos.

Em todas as sociedades industrializadas contemporâneas, do Brasil a Portugal e Espanha, da Grécia aos Estados Unidos, da França ao Reino Unido, os jovens, com mais qualificação que seus pais, não conseguem entrar no mercado de trabalho. O desemprego entre os que têm entre 17 e 30 anos é, em geral, o dobro da média, às vezes quase o triplo. Na outra ponta, o ajustamento dos modelos previdenciários, desenhados para uma realidade que não existe mais, mesmo quando reformados para adequá-los à nova demografia, continuam a proteger indivíduos de uma estrutura ocupacional e contratual que está em dissolução. O sistema de welfare alemão data do período de Otto Von Bismarck. Foi criado em 1884. O americano nasceu no New Deal, nos anos 1930. O francês é dos anos 1940. O britânico também. Aqueles que circulam pelas formas emergentes ou transicionais de trabalho e vida não são alcançados nem pela rede de proteção social, nem pela previdência. Crescem, além disso, o desemprego e a desproteção na faixa de pessoas entre 50 e 65 anos. Forma-se, deste modo, a base eleitoral do novo populismo entre os mais jovens e os de idade madura. Essa situação precária de vida alimenta a aversão à política e aos políticos e o desencanto com a democracia representativa. Os populistas têm uma concepção instrumental da democracia. Eles a vêm como um meio para chegar ao poder, mas não a aceitam quando oferece um meio legítimo para retirá-los do poder.

O desafio democrático há muito deixou de ser uma questão apenas política. Não há como revigorar a crença na democracia sem desenhar novas políticas de redistribuição e proteção social, compatíveis com as demandas e limitações dessa transição. Os partidos de esquerda, socialistas, social-democratas, trabalhistas, têm a vocação redistributivista, mas sua visão econômica é ultrapassada. Os conservadores, liberais e neoliberais, têm perspectiva econômica atualizada, mas são avessos ao redistributivismo. Preferem o princípio “sua vida, seu risco”. O modelo da sociedade do indivíduo por conta própria é perfeitamente legítimo e moralmente justificável para eles. Portanto, o desafio democrático global é ainda mais complexo. Não pode ser resolvido com reformas. Ele requer um novo paradigma redistributivo, compatível com a nova realidade econômica e fiscal e com as novas demandas da sociedade da transição. Mas não há, hoje, no espectro político, lideranças capazes de entender esse desafio e propor novos modos para resolve-lo.

A morte de Tzvetan Todorov provocou outro obituário antológico de Sérgio Abranches para o blog do Matheus Leitão. Realmente, o ensaísmo e o pensamento sócio-político contemporâneo já levaram duas pancadas monumentais este ano. Há poucas semanas republicamos o obituário que Sérgio fez de Zygmund Bauman.

3369407

Sérgio lembra que Todorov se definia “depaysé”. Mais que expatriados, eram, Bauman e Todorov, dois despatriados.

http://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/todorov-o-intelectual-insubmisso.html

 

Domingo, 12/02/2017, às 11:07,

Todorov, o intelectual insubmisso

* Por Sérgio Abranches

A humanidade perdeu neste início de ano dois grandes pensadores, ambos expatriados, ou depaysés, como escreveu Todorov, inconformados e avessos aos formalismos e formalidades que tendem a tolher o pensamento. Zygmunt Bauman, nasceu na Polônia e abrigou-se em Leeds, e Tzvetan Todorov nasceu na Bulgária, e fixou-se em Paris. Os dois conheceram a perseguição nazista e o peso da tirania soviética. Na celebração das vidas desses dois homens de ideias, eles foram identificados de maneiras muito distintas: filósofo, sociólogo, pensador, crítico social. Continuo a pensar que a melhor forma de identificar o papel social que os dois desempenharam de forma exemplar é chamá-los de intelectuais. Um termo fora de moda, gasto pelo mau uso, mas que continua a significar para mim, o pensador independente, crítico, comprometido e em sintonia com seu tempo. Os dois foram assim e estão entre aqueles que nos ajudaram de forma única e insubstituível a pensar a grande transição que vivemos. Escrevi sobre Bauman, quando morreu, ele viveu intensamente essa transição, com o corpo e com a mente.

Todorov era um homem cordial, compassivo, e seu pensamento refletia essa condição. Mas o que me atraiu mais nele foi o seu compromisso com a rebeldia. Seu último livro, Insoumis, é uma homenagem à insubmissão e renúncia de personalidades que fizeram história com sua oposição a distintos tipos de tirania. Outra afinidade para mim significativa era a proximidade de Todorov com o pensamento de Rousseau, sobretudo na sua defesa da liberdade e da vida coletiva solidária entre indivíduos em uma sociedade com igualdade de condições e espaço para as diferenças e as diversidades. É essa visão que o fazia ver no Iluminismo ainda a fonte de inspiração para navegarmos as águas tumultuosas dessa transição. Os valores do iluminismo para ele não morrem nem com o esgotamento dos modelos que ele inspirou nos séculos XIX e XX, nem com suas falhas, Valores como a exigência de autonomia individual, de igualdade social e respeito pela diversidade cultural, de aptidões e de desejos e sentido de finalidade das ações humanas. Em outras palavras a crítica permanente das formas de alienação do indivíduo. Também vejo como ele, na radicalização do iluminismo, um caminho profícuo para uma sociedade futura de liberdade, igualdade e diversidade. Afinidades podem ocorrer, mesmo quando há diferenças e divergências de interpretação. A crítica de Rousseau era às desigualdades socialmente determinadas, não às diferenças individuais que levam a modos de vida distintos.

Todorov, como Bauman, olhava o mundo atual de modo muito crítico. Cada um a seu modo. Nos dois, encontramos arguta crítica da economia financista e consumista dos dias de hoje. Nenhum dos dois vislumbrava futuro para esse modelo de especulação e consumo desmedidos. Todorov dizia que nós nos esquecemos de que a economia deve estar a serviço da sociedade e esta era uma das fontes de sua indignação. Ele era, acima de tudo, um humanista. E um otimista. Acreditava na agitação intelectual e no poder do povo de promover a mudança. Por isso era defensor intransigente da democracia, que alertava estar em perigo por toda parte, ameaçada principalmente por seus inimigos íntimos.

Essa foi outra afinidade que me ligou intelectualmente a Todorov. O diagnóstico comum de que a democracia está oligarquizada e as corporações e os grupos de interesses passaram a ter poder demais e a sociedade poder de menos. Via, com toda razão, ameaças nas oligarquias, econômicas, sociais e políticas, no populismo, no ultraliberalismo e no ultranacionalismo. Os governos estão cada vez menos tolerantes à contestação e, como ele dizia, se não há maneira de se opor à opinião do governo do momento, não há democracia. Falava da necessidade e da eficácia da resistência, mas não imaginava que a polarização radicalizada promovesse a democracia ou boas saídas para os impasses civilizatórios que enfrentamos. Imaginava ser preciso haver um terreno comum, valores básicos compartilhados, para que do dissenso pudessem nascer novas ideias e rotas para avançar nessa travessia.

Toda vez que perguntam se, realmente, concordo com alguém a quem faço uma referência elogiosa, penso que não importa concordar. O que importa é se as ideias respeitam a dignidade humana, o livre-arbítrio, mostram um mínimo de solidariedade com os outros e aceitam o diferente. Cada indivíduo, escreveu, é multicultural, as culturas não são ilhas monolíticas. Em O medo dos bárbaros, ele mostrou que o medo é, também, uma forma de tirania e inspira as piores ações possíveis. Ele intuiu, com precisão, que esse medo dos imigrantes, do outro, dos “bárbaros”, será um dos primeiros grandes conflitos da transição do século XXI. Todos os bárbaros não são idênticos, escreveu, em seu último livro. Bárbaros são os que negam a humanidade dos outros. Se temos medo dos bárbaros, nos arriscamos a nos tornarmos os bárbaros. Sua preocupação com a diversidade, com a aceitação e o respeito ao outro tem uma importância capital para os dias que correm.

Tzvetan Todorov foi um autor prolixo, morreu muito mais jovem que Zygmunt Bauman, mas nos legou também uma obra esplêndida. Seus livros passam pela literatura, pela crítica aos formalismos e por todas as questões contemporâneas relevantes que definirão os rumos que a humanidade tomará nas próximas décadas. Para ele é possível se comportar com dignidade moral, mesmo em situações extremas. Não deixou de apontar para os perigos desses tempos de ira e instabilidade crônica, mas procurou sempre mostrar a efetiva possibilidade da esperança.

A morte de um intelectual é uma interrupção dolorosa no fluxo de criação e pensamento. É uma perda. Não teremos mais as luzes de Todorov, nem a fluidez do pensamento de Bauman. A melhor forma de valorizar esse patrimônio de ideias que nos deixaram é refletir, criticamente por certo, sobre o que escreveram e disseram. Aceitar, sem transformar em dogma, discordar sem rejeitar ou desqualificar. Foi isso que fizeram toda a vida.

* Sérgio Abranches é cientista político, escritor e comentarista da CBN. É colaborador do blog com análises do cenário político internacional

Entra no ar amanhã o blog semanal de Betty Milan, O ABC DA VIDA. Ela está compartilhando a seguinte apresentação:

O blog O ABC DA VIDA vida vai sair enfim. Foram dois anos para conceber  e viabilizar tecnicamente este blog que visa difundir os valores essenciais à vida. Nele,  eu focalizo os sentimentos e os comportamentos humanos. Por um lado, escrevendo sobre uma frase tirada de algum livro meu, como por exemplo, TENHO VOCAÇÃO PARA A TRISTEZA, MAS GOSTO DEMAIS DA ALEGRIA ou A PALAVRA É UM ABRA-TE SESAMO.

Por outro lado, escrevendo sobre uma experiência do cotidiano ou da arte, sintetizando-a em algumas linhas que configuram os nadinhas.

Trata-se de um blog semanal destinado aos que desejem refletir sobre a sua existência e mudar hábitos porque todos os hábitos são ruins, como dizia Clarice Lispector.

amostraBlog

Sérgio Abranches

baumanZygmunt Bauman, nos deixou hoje. Ele foi o sociólogo e filósofo que melhor compreendeu os tempos que vivemos desde a dissolução da União Soviética. Tempos líquidos, como ele os caracterizou, com alguma dose de doçura e poesia. Mas a expressão poética, que se tornou viral, não empanou a visão crítica, muitas vezes ácida, desses tempos instáveis por natureza. Ele costumava agregar a essa fluidez dos tempos, sua característica essencial, de uma longa transição. Um interregno, ele dizia, seguindo os passos de Antonio Gramsci, para definir uma situação na qual os velhos modos de fazer as coisas já não funcionam, mas as formas de resolver os problemas de uma nova maneira efetiva ainda não existem ou não as conhecemos. Bauman mostrava que as organizações, as regras, o conhecimento tornam-se instáveis, liquefazem nesse interregno entre uma era histórica e outra. Nada está dado. A crise da ordem estabelecida é plenamente visível, a saída não está clara, as sementes em germinação da nova ordem são, muitas vezes, vistas com desconfiança e medo. São tempos de medo, ele disse.  E tempos de revoluções.

Em entrevista relativamente recente, de 2014, a Justo Barranco do Magazine Digital, Bauman explicou com argúcia e lucidez:

“As mudanças vão e vêm. Muita gente está convencida hoje de que já há alternativas, mas que são invisíveis porque ainda estão muito dispersas. […] E as mudanças podem já estar aqui. Minha tese, quando estudava, foi sobre os movimentos operários na Grã-Bretanha. Pesquisei nos arquivos do século xix e nos diários. Para minha surpresa, descobri que até 1875 não havia menção de que uma revolução industrial estava acontecendo, havia só informações dispersas. Que alguém havia construído uma fábrica, que o teto de uma fábrica desmoronou… Para nós era óbvio que estavam no coração de uma revolução, para eles não. É possível que quando entrevistes alguém dentro de vinte anos diga-lhe: quando entrevistei Bauman em Leeds estavam no meio de uma revolução e tu perguntavas a ele sobre a mudança.”

Em entrevista a Marcelo Lins, no programa Milênio, na Globonews, Bauman caracterizou de forma impecável o século XXI:

Este século é muito diferente do século 20. […] No “interregno”, não somos uma coisa nem outra. No estado de interregno, as formas como aprendemos a lidar com os desafios da realidade não funcionam mais. As instituições de ação coletiva, nosso sistema político, nosso sistema partidário, a forma de organizar a própria vida, as relações com as outras pessoas, todas essas formas aprendidas de sobrevivência no mundo não funcionam direito mais. Mas as novas formas, que substituiriam as antigas, ainda estão engatinhando. Não temos ainda uma visão de longo prazo e nossas ações consistem principalmente em reagir às crises mais recentes, mas as crises também estão mudando. Elas também são líquidas, vêm e vão […]

Bauman viveu intensamente essa transição, com o corpo e com a mente. Ele viu e viveu a ocupação nazista de sua Polônia natal, a formação da União Soviética, para onde escapou com a família da perseguição nazista aos judeus. Lutou contra eles, como instrutor para educação política do Primeiro Exército Polonês, sob controle dos soviéticos. Viu e viveu o auge e a dissolução da URSS. Viu e viveu as idas e vindas das sociedades da Europa Central em busca da recomposição e atualização de suas identidades societárias e políticas. Foi perseguido pelo Partido Comunista polonês, expulso da cátedra na universidade de Varsóvia, forçado a abrir mão de sua nacionalidade. Encontrou um novo lar acadêmico na universidade de Leeds. Hoje a Escola de sociologia e política social da universidade abriga o Bauman Institute, criado em 2010 em reconhecimento ao trabalho de seu professor emérito. O instituto tenta emular o espírito sociológico de Bauman em seus alunos, estimulando a conversação através das fronteiras entre do conhecimento, desconsiderando as divisões departamentais, com visão crítica e pluralista.

Bauman esteve entre os que perceberam com maior precisão as características da fase madura da Era Moderna. Seu livro Modernity and Ambivalence transformou-se em leitura obrigatória para se entender o apogeu e os sinais de declínio da modernidade. Nos anos 1990, dedicou-se a estudar a natureza fluida do interregno pós-moderno e suas manifestações extremadas, como o consumismo. Foi nesse processo que concebeu Tempos Líquidos, essa nossa época do efêmero e dos extremos, como a solidão do indivíduo, o terrorismo, o desemprego e o consumismo.

O que Bauman identificou como modernidade líquida foi essa fluidez das situações disruptivas que tanto nos angustia. Ele percebia que vivemos um tempo mutante no qual o que antes era concreto e dominado vai se desmanchando no ar, sem que as novas formas do concreto tenham amadurecido. Nessas situações de fluidez, experimentamos ainda mais fortemente a limitação da visão e a dificuldade de tomar consciência de que estamos sendo afetados pela história que se desenrola como um presente particular. Ainda estamos muito influenciados por ideias tradicionais e conceitos preconcebidos, imersos na situação vivida e com os olhos longe do horizonte do futuro.

Bauman poucos dias antes de morrer mostrava que mantinha essa lucidez premonitória sobre esse nosso presente e sobre nosso presente-futuro. Deixou-nos aos 91 anos, após viver o que se pode chamar de vida completa, ativa e cívica. Bauman não morreu antes de seu tempo. Morreu em sintonia com seu tempo e com a vida na plenitude de uma existência bem vivida. Ficamos tristes, mas que ventura e que privilégio termos tido entre nós mente tão brilhante.

http://www.ecopolitica.com.br/2017/01/09/zygmunt-bauman-e-seu-legado-impecavel/

OneWorld, a editora britânica quente do momento, ganhou matéria do excelente jornal digital português Observador. O gancho é o segundo prêmio Booker da OneWorld, com o livro do americano Paul Beatty, THE SELLOUT, que veio seguido ao do ano passado, do jamaicano Marlon James, A BRIEF HISTORY OF SEVEN KILLINGS. Como aponta o Observador, esse é um feito raríssimo na história do Booker, mais importante premiação literária de língua inglesa, embora ainda não muito influente no mercado brasileiro. Antes da OneWorld, somente a Faber & Faber conseguiu conquistar dois Booker seguidos.

15220074_1177638658972386_1461146867891665500_n

Dois fatos objetivos ligam a VB&M à OneWorld, além de uma empatia subjetiva. O primeiro fato é que representamos a lista da editora para o Brasil. Acabamos de vender para a Harper Collins Brasil os direitos de publicação de JIHADI JOHN, de Robert Verkaik, impressionante reportagem sobre o jovem britânico que atuou como carrasco do Estado Islâmico, aparecendo encapuzado em terríveis vídeos da organização. O segundo fato objetivo é nosso orgulho por ser a OneWorld a editora de A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO, de Martha Batalha, mencionado na matéria do Observador como uma das 30 traduções para a língua inglesa atualmente em processo na editora.

9781780749433_11

O fato subjetivo que nos une são nossa concordância e admiração pela visão literária e editorial de Juliet Mabey, fundadora com o marido, Novin Doostdar, da OneWorld. Na matéria do Observador, ela diz, falando de suas preferências quando recentemente decidiu publicar romances, depois que se firmou como estupenda editora de não-ficção: “Adoro livros brilhantemente escritos com voz e história fortes. Mas procuro sempre aqueles que também dizem alguma coisa importante, que fazem as pessoas pensar e discutir.” Foi o que Juliet e nós da VB&M vimos em EURÍDICE e no trabalho de Martha Batalha.

O que é que a Oneworld tem que as outras editoras não têm?

(LVB)

A implacável e contundente denúncia do ex-ministro da Cultura Marcelo Calero contra o desprezível comportamento do ministro Geddel Vieira Lima não foi suficiente para fazer o presidente Michel Temer tirá-lo do cargo. Pelo jeito, o que melhor ficará desse episódio será uma nova luz sobre a biografia do músico Renato Russo escrita por Carlos Marcelo, O FILHO DA REVOLUÇÃO, que ganhou espaço em matéria coordenada do noticiário de O Globo repercutindo mais esse capítulo de baixaria peemedebista.
A matéria ficou divertida porque os trechos da biografia abordando Geddel são divertidíssimos. A biografia é toda incrivelmente boa de ler e quanto mais divulgação, melhor.

renato-russo-filho-da-revoluc%cc%a7a%cc%83o-216x300

Renato Russo considerava o futuro ministro de Temer absolutamente “in-su-por-tá-vel”. Bloqueava sua entrada nos grupos de trabalho da escola.

Carlos Marcelo revela no livro, relançado em agosto pela Planeta, que o apelido de Geddel entre os colegas do Colégio Marista de Brasília era Suíno, um pateta gorducho que chegava para as aulas dirigindo um Opala na maior exibição, tirava péssimas notas, mas que já sabia então que seria político quando crescesse. Os brasileiros também sabem que a classe política brasileira só vem recrutando esse tipo de gente.

Na VB&M, não aprovamos usar outras espécies para agredir humanos repulsivos e de baixo nível. Não dá para chamar figuras como Dilma ou Geddel de vaca ou porco sem ofender profundamente esses animais, que, convenhamos, não merecem isso. Feita essa ressalva, Renato Russo era um gênio; além do talento musical, identificava de longe um chato oportunista, aproveitador e deslumbrado, do tipo que, adulto, será capaz de usar seu poder em cargo público para pressionar e obter vantagens privadas.

De resto, VB&M pergunta se além de manter Geddel no cargo o presidente Temer vai liberar o gabarito do edifício La Vue para agradar seu querido ministro, que comprou apartamento no 27º andar de um prédio em área autorizada a ter edificações de no máximo treze pisos, com a disposição de avacalhar de vez o centro histórico de Salvador para ter seu panorama oceânico. Caso positivo, podemos concluir que Geddel sabe muito mais a respeito de Temer do que sonha a nossa filosofia.

RR: O Brasil deveria ter levado em consideração até suas visões e ideias dos tempos de menino.

Carlos Marcelo: obrigada por essa biografia estupenda.

 

Pivô da demissão de Calero do MinC, Geddel era desafeto de Renato Russo no colégio
Passagem da biografia ‘O filho da revolução’ entrega desavença entre os dois

http://oglobo.globo.com/cultura/pivo-da-demissao-de-calero-do-minc-geddel-era-desafeto-de-renato-russo-no-colegio-20509509

 

 

 

 

O blog do Matheus Leitão tem revelado uma das maiores cronistas brasileiras da contemporaneidade: Míriam Leitão. Além de analista de política e economia, romancista, poeta e autora de livros infantis, Míriam toca os leitores profundamente com suas crônicas do cotidiano publicadas no blog do Matheus. A mais recente, “Furto no aeroporto”, é preciosa.

Roubaram a mochila de Míriam em Congonhas, onde estava guardado seu iPad 4, que de alguns meses para cá se tornara seu principal instrumento de trabalho, de lazer e de operar a realidade. A maneira como ela descreve o desalento que sentimos nessas situações é preciso. Eu (Luciana), que já fiz tantos BOs, é que sei.

 

O furto no aeroporto* Por Miriam Leitão

– Fui roubada.

Falei e me sentei na cadeira em frente à primeira mesa do posto da Polícia Civil do aeroporto de Congonhas, ainda confusa, tentando entender o fato e com uma sensação de ausência. A policial se levantou, chamou a chefe do posto.

Mulheres elegantes eram a maioria dos policiais. A chefe seria tomada por uma executiva em viagem. Maquiada, salto alto, blusa de seda, ela me perguntou:

– Onde foi?

– Perto do check-in da ponte aérea da Tam.

– O que foi que levaram?

– A mochila com meu iPad Pro. Aquele grande, modelo mais novo.

– Você viu quem foi?

– Não vi nada.

A delegada saiu correndo e me deu ordens para preencher o BO Fiquei respondendo as perguntas da burocracia feitas por um rapaz. Eu me sentia um autômato. O rapaz precisava repetir as perguntas.

Voltou logo depois, a delegada.

–Vamos rastrear. E analisem as imagens.

Entraram no serviço de busca, mas meus celulares apareciam no radar também.

– Desligue seus outros equipamentos — disse a delegada.

Em seguida no visor do aparelho da delegacia apareceu o sinal.

– Está por perto — disse.

E deu ordens para que policiais corressem.

O localizador mostrava o bairro, próximo ao aeroporto, onde estava meu aparelho.

Meu voo ia sair. Resolvi continuar preenchendo o BO, mesmo com o risco de perder a viagem.

– Como foi?

– Eu fiz o check-in antecipando meu voo e me sentei na fila de cadeiras que tem perto dos balcões, porque precisava fazer meu comentário na CBN.

– A que horas?

– Eu me sentei ao meio dia e vinte e seis minutos. Lembro porque decidi ficar ali mesmo. Estava quase na hora do comentário.

– Quanto tempo você ficou?

– A CBN ligou ao meio dia e trinta e seis. Fiz o comentário e, quando me levantei para embarcar, a mochila não estava.

– Onde você havia deixado a mochila?

– No chão, porque uma moça chegou e se sentou com tanta bagagem, que eu tirei minha mochila da cadeira para dar espaço.

– Como era a moça? Perguntou a delegada.

– Jovem, meio loura.

– Estava com uma mochila bem alta?

– Sim.

– Ela permaneceu lá. O normal, quando é cúmplice, é sair assim que acontece o furto — disse a delegada.

– RG? — perguntou o rapaz que digitava o boletim.

Eu disse o número, enquanto bebia a água que alguém trouxe para mim.

– Estranho.

– O que é estranho?

– Você nunca fez um BO

Pensei na minha sorte. Meu primeiro roubo.

Tudo preenchido, policiais na rua com rastreador, meu voo quase saindo. Me despedi, agradecendo a gentileza do tratamento.

– Mantenha o celular desligado — disse a delegada.

Corri para o embarque. Última chamada.

Me dei conta que dera ao meu marido a informação de que havia sido roubada e estava indo para a polícia. E não fiz novo contato. Agora tinha que manter o celular desligado para não confundir o rastreador, porque todos os meus equipamentos estavam na mesma identidade eletrônica.

Precisava de uma pessoa conhecida para pedir um favor. Vi uma que me cumprimentou educadamente. Era uma atriz. Não tive coragem de fazer o pedido. Entrei no ônibus e um homem me reconheceu e eu criei coragem.

– Posso te pedir um favor estranho?

– Qualquer um.

– Dá para você fazer uma ligação para o meu escritório. Não posso usar meu celular.

– Pois não, use-o — e me entregou o aparelho.

Liguei e falei com a minha secretária.

– Vou falar rápido. Estou usando o aparelho de um passageiro. Meus celulares ficarão desligados por ordem da polícia. Estou indo no voo marcado. Avise ao Sérgio que está tudo bem.

O voo me pareceu longo. Pensava apenas no furto. Refazendo as cenas mentalmente, para tentar ver se havia gravado alguma imagem esquecida. Eu me sentei, coloquei bolsa e mochila na cadeira ao lado, porque tinha duas cadeiras vazias. Chegou uma moça com uma mochila grande e uma pequena. Colocou tudo na cadeira e se sentou de forma bem desconfortável, na pontinha. Eu tirei minha bolsa de cima da cadeira ao lado, e puxei minha mochila para mais perto de mim e disse:

– Vamos dividir esse espaço. Ponha aqui uma de suas bagagens.

Ela fez diferente. Deixou as bagagens dela confortavelmente na cadeira, e se sentou ao lado da minha mochila, mas de novo, na ponta da cadeira. Parecia desconfortável. Para ser delicada, tirei a minha mochila e pus no chão. Ela ficou então dona das duas cadeiras e passou a digitar furiosamente o celular.

Tocou o meu celular e era a CBN. No começo do comentário a ligação caiu. Voltaram a ligar. Estava concentrada nisso. A mala de rodinha estava encostada na minha perna, a mochila encostada na mala. Assim que falei “até amanhã Sardenberg” me levantei para pegar as bagagens.

Vi o vazio. A mala estava lá, mas não a mochila. Até agora vejo o vazio. No primeiro momento, não acreditei. No segundo também não.

– Minha mochila desapareceu — disse para a moça das muitas bagagens. Ela me olhou com indiferença.

– É mesmo? Mochila?

Não se levantou, não demonstrou solidariedade. Parecia estar sendo informada de um fato banal.

Pensava nela, no voo para o Rio, arrependida de não ter falado direito sobre esse episódio.

A ida para São Paulo na véspera tinha sido tumultuada. O avião deu problema, chamaram a manutenção, que não conseguiu consertar a aeronave. Desembarcamos, voltamos ao saguão, entramos em outro avião. Muito tempo depois que havíamos embarcado, as portas permaneciam abertas e nada de decolar. Chamei o comissário.

– O que está acontecendo?

– Estamos esperando documentação.

– Que documentação?

– O plano de voo.

– Ah, bom, melhor ter mesmo — ri.

Agora, estava ali no voo de volta, me sentindo sem um plano de voo. Meu iPad Pro, novinho, com teclado na capa, tinha substituído com vantagens o notebook. Enquanto estive no avião da véspera com a porta aberta, tinha escrito a coluna e enviado para o jornal por 4G. Com ele fazia palestras, lia jornal, tinha uma coleção de livros, arquivos com dados econômicos. Sem ele, era silêncio, espera e ausência.

Em casa liguei para a delegacia. Eles haviam perdido o contato com o buscador e pediram para eu religar o meu celular, rastrear e informá-los.

Conseguimos localizar a rua e o quarteirão onde estava o iPad.

A polícia foi até lá.

– É um quarteirão cheio de prédios. Trezentos apartamentos — informou a delegada.

– Vão desistir?

– Não, continuamos investigando.

Eu desisti. Dei o comando de apagar minhas informações no aparelho: “Erase iPad”.

* Miriam Leitão é jornalista e escritora.

http://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/o-furto-no-aeroporto.html

Victoria Saramago, professora de Línguas Neolatinas da Universidade de Chicago, fez para O Globo a mais perfeita leitura de A BÍBLIA DO CHE, de Miguel Sanches Neto.  “Antes de tratar do contexto atual do Brasil, ele revira as entranhas desse presente. Um romance que conecta os pontos deixados soltos entre o legado da esquerda revolucionária na produção cultural brasileira da última metade de século, por um lado, e a corrupção endêmica a que qualquer governo pode estar sujeito, por outro”, diz ela, entre muitas observações iluminadores a respeito do livro.

1339073-250x250

Crítica: ‘A bíblia do Che’, de Miguel Sanches Neto

Romance endurece a reflexão, mas sem perder a lucidez

RIO — E se Che Guevara tivesse passado por Curitiba antes de seguir a jornada para a Bolívia que culminaria na sua morte? E se tivesse deixado pelo caminho uma bíblia de margens anotadas e paradeiro desconhecido? Ainda que a sua existência não conte com provas, não faltam personagens convictos de que vale a pena procurá-la.

Uma jovem tão obcecada pelo Che e pela revolução quanto disposta a casar por dinheiro. Um ex-professor de literatura cujo exercício ascético de se despir de convicções não podia resistir a uma paixão repentina. Um lobista cujo poder de influência no governo equivalia à convicção de que sua morte para queima de arquivo havia de ser prematura. Envolvido no “esquema de desvio de muitos milhões de algumas empresas estatais, as conexões do lobista com políticos de praticamente todos os partidos” começavam a ser alvo de uma investigação potencialmente explosiva. Soa familiar?

Esses são alguns dos protagonistas do último romance de Miguel Sanches Neto, “A bíblia do Che’’. Antes de tratar do contexto atual do Brasil, ele revira as entranhas desse presente. Um romance que conecta os pontos deixados soltos entre o legado da esquerda revolucionária na produção cultural brasileira da última metade de século, por um lado, e a corrupção endêmica a que qualquer governo pode estar sujeito, por outro.

Sem entrar em meandros da política atual e sem tomar posicionamentos, Sanches Neto constrói uma reflexão engenhosa sobre mitos que permeiam o nosso imaginário cultural, de Che Guevara a Hitler, e diante dos quais a resistência da realidade às vezes se desvanece. O excesso de convicção termina por revelar o seu avesso: que toda convicção está destinada ao próprio desmoronamento.

“Éramos duas mentiras se entrelaçando: o poeta que quer crer em algo que ele sabe inviável; o leitor que se deixa comover com um futuro que só existiu como miragem”, diz o narrador.

Mas “A bíblia do Che’’ não se limita à arena política. A obra simultaneamente navega pela narrativa policial, a história de amor e um drama juvenil. Todos vistos pelo ângulo de um narrador maduro, para quem a chegada a algum desfecho não importa muito mais que encontrar uma bíblia anotada por Che Guevara.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Dono de uma prosa envolvente, Sanches Neto retoma personagens e temas presentes em seus romances anteriores, como é o caso do professor Carlos Eduardo Pessoa, dos conflitos políticos com uma roupagem policial, do nazismo, de um foco no Paraná e de um retrato algo ácido do meio literário.

Enquanto provas e convicções prosseguem na sua dança descompassada e improvável em tantos aspectos da vida política, “A bíblia do Che’’ é um momento de lucidez como só a literatura pode proporcionar quando tantos outros meios falham. Que a geração presente leia e reflita; que as gerações futuras leiam e nos compreendam.

*Victoria Saramago é professora adjunta no Departamento de Línguas e Literaturas Neolatinas da Universidade de Chicago

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/critica-biblia-do-che-de-miguel-sanches-neto-20257775

Nosso querido autor da série QUISSAMA, Maicon Tenfen, escreveu um artigo perfeito sobre os riscos de guetificação da sociedade brasileira se esta mergulhar na lógica do politicamente correto e na grita das reparações históricas. Leitura muito enriquecedora.

Clique aqui para ler o PDF. 

de-currais-e-caricaturas