Categoria: O AUTOR COMO LEITOR

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O Autor como Leitor – Marco Lucchesi

13 perguntas sobre livros e leituras

“Na leitura, evito o proselitismo”

 

Se acontecesse uma eleição para consagrar o mais erudito intelectual brasileiro, Marco Lucchesi seria eleito com larga margem. Não seria uma eleição polêmica. No meio literário, todos sabem e se admiram dos mais de 20 idiomas que Marco domina e dos quais traduz, desde seus nativos português e italiano até o russo, o árabe, o romeno, o persa, passando pelas banalidades do alemão, inglês, francês, espanhol e tantos outros. Mas, ao contrário do que acontece com muitos eruditos, os saberes de Marco não ficam estéreis, presos dentro do cérebro poderoso desse intelectual, pensador da religião, filósofo, crítico literário, poeta e romancista _  e não só por suas traduções de autores raros como o persa Rúmi, o vanguardista russo Khliebnikov ou o fundamental historiador Gianbattista Vico .

Formado em História pela UFF, mestre e doutor em Literatura pela UFRJ, Marco Lucchesi enfrentou décadas a fio a mediocridade da universidade brasileira entregando-se apaixonadamente a seus alunos e hoje ensinando até a matemática. Uma entrega quase tão apaixonada quanto a seus escritos –  obra maior de mais de 15 títulos, vastamente premiada, que o levou à Academia Brasileira de Letras como o mais jovem entre os imortais e que lhe rendeu prêmios como o Machado de Assis, o Alceu Amoroso Lima, dois Jabuti, o romeno Marin Sarescu, o italiano do Ministero dei Beni Culturali, entre muitos outros. É jornalista, colaborador de O Globo e eventualmente de outras publicações, e editor, hoje como diretor da Revista Brasileira, da ABL, e redator-chefe de Tempos Brasileiros. Foi editor de obras raras e responsável por catálogos e fac-símiles na Biblioteca Nacional e da revistas Poesia Sempre e Mosaico Italiano.

Os últimos livros publicados de Marco Lucchesi foram o romance O bibliotecário do Imperador e a poesia de Clio, que saíram pela Biblioteca Azul, da Globo. Ele acaba de por o ponto final em uma coleção de textos, O carteiro imaterial, à qual tivemos acesso e da qual podemos dizer sem hesitação que se trata da mais perscrutante ensaística sobre a literatura enquanto afeto e sobre as misérias de uma contemporaneidade que não superou sequer as guerras religiosas, quanto mais os impérios.

Nessa entrevista, Marco confirma a centralidade de A divina comédia, de Dante, em sua formação intelectual e sentimental, mas também revela interessantes e inesperados aspectos de sua  personalidade de leitor. Sobre música, recomenda o Beethoven de Walter Riezler, enquanto de  Presto con fuoco, romance de Roberto Cotroneo, publicado no Brasil pela Record, diz ser a ficção que melhor compreendeu uma outra linguagem artística. Diz que lê biografias, sim, e só nesse momento não é modesto: gostaria que Pietro Citati _  biógrafo de Goethe, Proust e Kafka _ escrevesse a história de sua vida. Para ele, a poesia de Paul Celan é o conjunto literário mais difícil de verter para outro idioma. Defende que os brasileiros hoje precisam chegar ao Brasil por meio da obra de Gilberto Freyre e esclarece que, em matéria de leitura, só evita o proselitismo e a literatura que não conta com a inteligência e a sensibilidade do leitor.

O que você está lendo nesses últimos dias?

Nem sei por onde começar, digamos: uma biblioteca sobre filosofia da matemática, os poetas da Índia contemporânea e os clássicos da poesia paquistanesa, etc etc.

Quais são as três mais importantes obras da literatura universal?

A divina comédia, de Dante.  O Dom Quixote, de Cervantes.  Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa _ um andar superior, uma gramática nova, um paradigma fundamental.

Quem são seus escritores favoritos em atividade hoje  _ um poeta, um ensaísta, um ficcionista e um jornalista?

Na poesia, Ferreira Gullar.  No romance, Alberto Mussa e Ana Miranda.  No ensaio, José Murilo de Carvalho. No jornalismo, Arnaldo Bloch.

Que tipo de leitura lhe dá mais prazer _ poesia, ficção, filosofia? E o que você evita?

Mas fazem parte da mesma casa que habito. Preciso das três.  Evito proselitismo, a literatura fácil, para usar um termo abrangente, livros que não contem com a inteligência e sensibilidade do leitor.

Que tipo de leitor foi você quando criança? Quem eram seus personagens preferidos em sua meninice?

Adorava ler. Sabia desde então que a leitura era o encantamento superior. Italianos e brasileiros. Lobato e Collodi, Emilia e Pinocchio. Tistu de O menino do dedo verde. E depois tudo, absolutamente tudo, de Júlio Verne.

Se você tivesse que nomear um livro que fez o leitor e escritor que é hoje Marco Lucchesi, qual seria o título?

A divina comédia. E O Idiota de Dostoievski.

Sabemos que a música é imensamente importante em sua vida. Diga-nos um livro sobre música cuja leitura você considera relevante.

O livro Beethoven, de Walter Riezler.

E qual romance ou qualquer obra de ficção trata a música com maior beleza e compreensão de uma outra linguagem artística?

Presto con Fuoco, de Roberto Cotroneo.

Com que escritor você gostaria de passar uma tarde conversando? Pode ser um escritor já morto.

Machado de Assis.  Jorge de Lima.

Sendo obrigado a apontar a maior literatura nacional entre todas que contribuíram para o cânone, qual você escolheria? Por quê?

Num sentido histórico propriamente dito, a literatura greco-latina e a italiana. Hoje assiste-se a um descentramento,  rumo às literaturas do mundo árabe e do subcontinente indiano.

Qual livro de língua estrangeira, entre todas as suas leituras, você considera o mais difícil de verter para o português? O título não precisa constar da longa lista de livros que você efetivamente traduziu.

A poesia de Paul Celan, em geral.

Você eventualmente lê biografias? Quem você gostaria que escrevesse a sua?

Leio biografias com interesse. E memórias. Pietro Citati.

O Brasil está mergulhado numa imensa, infinita depressão. Qual leitura você recomenda aos brasileiros neste momento?

Livros fundamentais para se chegar ao Brasil. Sobretudo, e sempre, a trilogia de Gilberto Freyre, Casa-grande e senzala, Sobrados e mucambos, Ordem e Progresso.

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O AUTOR COMO LEITOR – MARCIA TIBURI

13 perguntas sobre livros e leituras

“Quem lê, assim como quem escreve, se constrói a si mesmo”

 

A gaúcha de Vacaria Marcia Tiburi, 45 anos revelados nessa entrevista (não que esconda a idade, mas, apesar da longa carreira, pensávamos que era mais jovem), é uma imensa filósofa e romancista. Por critérios meramente quantitativos _ o tempo desde que lançou seu primeiro livro filosófico, em 1995, e a quantidade de trabalhos publicados, mais de uma dezena _, ela é mais filósofa do que romancista. Mas a beleza de seus quatro romances – Magnólia, A mulher de costas, O manto e Era meu esse rosto (todos pelo Grupo Record) – não permite que se faça essa afirmação. Trabalhadora compulsiva e polemista corajosa, Marcia investe contra os conversadorismos da sociedade brasileira sem medo de se machucar. Neste momento, a autora revisa, corta, apara e apura seu próximo romance, O homem do guarda-roupa, a sair ainda em 2015 pela Record, se não for adiado para 2016 a fim de dar lugar a um livro de ensaios mais polêmico, que ela também finaliza com toda atenção ao detalhe, visando a interferir diretamente no debate político que se trava no Brasil.

Nessa entrevista à VB&M, Marcia Tiburi revelou claramente suas duas facetas: a filósofa e a romancista. Muitas de suas respostas são tão cheias de conteúdo, revelando sempre uma reflexão original e profunda sobre todas as coisas, na maior despretensão, que fica difícil para o editor pinçar a frase que servirá de título à matéria. Às perguntas mais de brincadeira, como quem seriam os escritores presentes a jantares idealizados, a Marcia-ficcionista  responde soltando a imaginação e, em vez de dizer simplesmente quem seriam os convidados, desenvolve toda uma trama e os diálogos da festa. Assim, entre considerações sobre a natureza da escrita e da leitura, ou sobre o oxímoro da íntima estranheza que torna verdadeiros os personagens da ficção, escolhemos uma frase que sintetiza a literatura, paixão comum de quem segue a VB&M: “Quem lê, assim como quem escreve, se constrói a si mesmo.”

Que livros encontraríamos em sua mesa de cabeceira neste momento?

Neste momento, estou especialmente preocupada com questões políticas. Retomei Massa e poder de Elias Canetti, que li há tempos, mas ainda estou no começo do recomeço. Outro que retomo é A partilha do sensível, de Jacques Rancière. Porque penso que é preciso estudar estética e política ao mesmo tempo. Por isso, também, Dialética negativa, de Theodor Adorno, que foi o livro de minha vida uns 20 anos atrás. Comecei o novo romance de Nei Lopes, Rio Negro, 50. Enquanto isso, A artista do corpo, de Don DeLillo, velha indicação de um amigo, espera por mim, ali, na pilha da cabeceira cujo tamanho me dá um pouco de vergonha, por isso paro por aqui.

Qual é o mais belo romance filosófico de todos os tempos?

Essa é uma pergunta muito difícil. Leio todos os romances como sendo filosóficos em alguma medida. Impossível ler Dostoievski ou Tolstói sem “filosofar”. Impossível ler Machado de Assis ou Clarice Lispector sem começar a refletir. Do que li, destacaria Em busca do tempo perdido. Porque esse romance é uma exposição da própria metateoria do romance.  Proust expõe a experiência do pensamento como busca na memória que é, ao mesmo tempo, um trabalho da imaginação, de construção da memória.  Quem escreve sabe que a experiência da imaginação é toda uma experiência intelectual. Quem escreve, sabe que a ficção é feita do casamento entre palavra e imagem, mas que a aliança está dada pela ideia, pela “grande questão” que um romance se propõe a apresentar, mesmo que não possa resolvê-la. Por isso, a experiência da leitura é uma experiência complexa, ela é pouco direta, não é didática. É infinitamente afetiva. Quem lê, assim como quem escreve, se constrói a si mesmo.

Qual foi o livro mais marcante em sua vida?

Há muitos. Mas um livro que li com extremo prazer, economizando cada capítulo e que não li por nenhuma obrigação, nem apenas por curiosidade, pois não pretendia estudar essa obra, foi Moby Dick. Gosto muito de Melville. Em Moby Dick, fiquei impressionada com o papel do Pequod, o navio. Eu sempre quis ser marinheira, então, viajei no livro. Assim: metonímia e metáfora.

Que leituras foram determinantes para compor a leitora e a escritora que você é hoje?

Não é fácil reconhecer as linhas que compõem o nosso desenho. Essa sua pergunta levou a montar uma imagem em minha cabeça. Montei um Frankenstein literário, um ser com a seguinte configuração:  pilhas de livros de filosofia platônica e aristotélica compondo pés e pernas; braços feitos de filosofia contemporânea, mãos com livros de filosofia feminista, tronco feito de literatura e poesia; na cabeça um livro de areia, como aquele do conto de Borges.

Na infância, quais foram suas leituras e personagens preferidos?

Eu não gostava de livros antes de quebrar o braço e ficar quieta lendo os contos de Grimm. Adorei histórias de fantasmagorias. Eu gostei desde cedo das coisas estranhas, dos livros com títulos gozados. Lembro do Mês de cães danados, de Moacyr Scliar, que eu li aos 10 anos, em 1980. Depois disso, só fui me encantar mesmo pelos livros de filosofia. Lembro de ler O Príncipe, de Maquiavel. Eu devia ter uns 13 anos. Óbvio que não entendi nada. Mas logo encontrei os livros dos filósofos alemães, Schopenhauer, Nietzsche, Marx. Fiquei encantada. Verdadeiramente dominada pela estranheza que senti. Sinto até hoje. Procuro isso nos livros e não é fácil lê-los justamente por isso.

Quem é a maior escritora de todos os tempos?

Outra pergunta dificílima. Penso em muitas escritoras, tais como Charlotte Brontë e seu Jane Eyre, em Virgínia Woolf e seu Orlando, que eu classificaria entre as mais geniais. Penso nas incríveis brasileiras, tais como Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Ana Miranda, Ligia Fagundes Teles, Rosiska de Oliveira, Nélida Piñon, apenas para citar algumas figuras clássicas ou que já têm uma obra consolidada, deixando toda uma nova geração de escritoras maravilhosas. E, de todas, fazendo uma cálculo, digamos assim, meio intuitivo, eu destacaria Simone de Beauvoir. Ela escreveu uma obra filosófica importante historicamente, assim como uma obra literária muito original.

Entre os ficcionistas contemporâneos, quem são seus favoritos?

Li muitos escritores brasileiros nos últimos tempos. Gosto muito de Evandro Affonso Ferreira. E leio Cristovão Tezza, com muito prazer. Gostei muito do que li de Jacques Fux, Carlos de Brito e Mello, Ana Paula Maia. Li vários escritores geniais. Uma escritora que me fascina é Zulmira Ribeiro Tavares. Eu queria escrever como ela.

Quem está produzindo uma obra filosófica relevante nos dias de hoje?

Há algumas figuras internacionais que estão atuando hoje: Judith Butler, Beatriz Preciado, Peter Sloterdijk, Giorgio Agamben, Jacques Rancière. Há muitos outros que são muito citados, mas não citarei os que não costumo ler. No Brasil, eu cito Charles Feitosa escrevendo algo especial porque é ousado, reúne a filosofia clássica com temas contemporâneos. Sempre se pode citar Marilena Chauí que é uma grande professora e tem vários livros na linha da história e da interpretação da filosofia tradicional.

Qual é a sua personagem feminina preferida? E masculina?

A donzela guerreira Diadorim é uma personagem inesquecível, meio homem, meio mulher. Brás Cubas, o escritor melancólico igualmente. E Madame Bovary. São os que primeiro me vem à mente. Cada um tem aquele índice de realidade impossível e, no entanto, totalmente convincente em alguma medida, porque se refere a algo nosso. A algo muito conhecido que se apresenta como muito estranho.

Você vai oferecer um jantar para três filósofos, quem são eles? Pode ser um jantar em alguma outra dimensão, com autores já mortos.

Chamaria Foucault, em primeiro lugar, porque ele foi um defensor dos prazeres. E devia ser um sujeito divertido, como dizem os brasileiros que o conheceram. E convidaria Arthur Schopenhauer e Mary Wollstonecraft. Eles não se conheceram. Foucault merecia estar presente no encontro dessas figuras, um machista como Schopenhauer e uma feminista como Wollstonecraft, dois sujeitos nada encaixados no tempo na virada do século 18 para o 19. Dizem que Schopenhauer era um bon vivant. Ela, infelizmente, morreu de complicações de parto (era a mãe de Mary Shelley). Ser feminista naquela época não devia ser nada fácil. Eu e ela conversaríamos sobre feminismo. Schopenhauer assistiria incomodado. Foucault riria. Parece um sonho.

Você vai oferecer um jantar para três ficcionistas, quem são eles? Com as mesmas amplas possibilidades dimensionais do jantar para os filósofos ;).

Não tenho dúvida que convidaria Thomas Bernhard. Tenho certeza que seríamos amigos. Convidaria também Kafka, apenas para poder olhar para ele. Tenho certeza que ficaria quieto. Eu e Thomas tentaríamos entrevistá-lo, mas ele disfarçaria até o fim, fingindo não entender as nossas perguntas. Quando a situação estivesse difícil, porque estaríamos constrangidos com a falsa surdez de Kafka, chegaria um sujeito atrasado que teria vindo por pura curiosidade. Ele nos contaria muitas histórias e, por fim, pediria que lêssemos alguma coisa nova para ele porque estava cego. Advinha quem era? Borges.

Qual obra filósofica ou ensaística mais influenciou sua visão de mundo?

Eu fiz um doutorado em filosofia sobre Theodor Adorno. Se há um livro que me fez pensar na questão do método em filosofia, esse livro foi a Dialética negativa, que se propõe como um antimétodo.  Não é um livro fácil. Até hoje me faz pensar coisas que nunca pensei antes.

Que livro você recomendaria à população brasileira neste momento? Um livro que todo mundo tem que ler agora. E para a presidente Dilma?

Todo mundo deveria ler e reler Vidas secas. É um livro tão triste e, ao mesmo tempo, tão esclarecedor sobre a miséria em todos os seus níveis. A miséria do sistema político-econômico, em sua versão sertaneja, rural, patriarcal. Mas há uma miséria que ali expõe todas as outras: é a miséria das palavras. Essa inanição que impede tudo, no extremo impede a democracia, na intimidade impede uma simples conversa. A questão do diálogo impossível, mas mais que isso, a conversa impossível porque a inanição é da linguagem. Num tempo de tanta truculência política, precisamos investir na sensibilização da política. Numa ético-política que seja ao mesmo tempo uma ético-poética. Por aí, do eleitor à presidente.

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O AUTOR COM LEITOR – JACQUES FUX

13 perguntas sobre livros e leituras

“Nesse mar de corrupção no Brasil, todos nos sentimos brochas”

Jacques Fux está entre os grandes destaques dessa nova geração de autores brasileiros que vem chamando a atenção de público e crítica. Formado em Matemática com doutorado e pós doutorado em Literatura, foi premiado em quase tudo o que publicou: sua brilhante tese Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO ganhou o prêmio Capes de Melhor Tese de Letras/Linguística em 2010 e Antiterapias, sua estreia na literatura propriamente dita, foi um dos vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013. Seu próximo livro, Brochadas, está para sair pela Rocco e promete arrancar boas risadas dos leitores_ essa é, por sinal, uma das fortes características de Jacques: fazer graça de si mesmo e do mundo no mais fino humor e ironia judaicos. Perguntado sobre a leitura que recomendaria a nossa excelentíssima presidente, não teve dúvidas: Brochadas. Afinal, quem não se sente brocha diante do Brasil_ e da Dilma_ atualmente? Mas além de piadas e gracejos sobre suas venturas e desventuras_ digo suas pois Jacques é sempre o centro de seus próprios personagens_ seus livros são permeados de referências literárias e filosóficas, de questionamentos sobre a estranheza da existência e os modos de construção de si a partir do outro. Entre reflexões existenciais e significações sociológicas, há as “bundinhas”, sempre as “bundinhas”…

Que livros estão atualmente em sua mesa de cabeceira?

Estou relendo os livros do grande Saul Bellow! O cara é bom demais!

Qual foi o último livro que arrancou de você uma boa gargalhada?

Na verdade, foi uma piada que li no último livro de Ruth Wisse, No Joke: Making Jewish Humor: “Estavam no deserto um italiano, um alemão e um judeu. Vagavam, e já sem esperança alguma de serem salvos, certos do iminente fim, começaram a devanear. O italiano disse: ‘eu estou com tanta sede, tanta sede, que daria tudo por uma taça de vinho’. O alemão suspirou e disse: ‘estou com tanta sede, mas tanta sede, que daria tudo por um copo de cerveja’. O judeu então disse: estou com tanta sede, mas tanta sede, que eu devo estar com certeza com diabetes’.” Também me diverti muito com o maravilhoso humor do Alberto Mussa em seu O senhor do lado esquerdo.

Entre os grandes autores judeus da literatura norte-americana, quem explora melhor o humor judaico?

Eu gosto muito do Philip Roth. Difícil não falar dele. A questão da Mãe, dos complexos, das neuras, dos medos, das paranoias… e também das famigeradas brochadas! Diariamente recebo emails de leitores americanos apontando várias referências que Roth faz aos meus textos. Fico mais que agradecido!

Quais são os melhores títulos de ficção e não ficção sobre a questão judaica? E sobre a Shoah?

E será mesmo que existe uma “questão judaica”? Será que a “grande questão” não é a incapacidade humana de conviver e aceitar o diferente? O estranho? O outro e o igual? Talvez A hora da estrela e o texto “Pertencer” (Nota da Edição: de A descoberta do mundo), ambos da Clarice Lispector, tratem delicadamente dessa questão. Eu me emociono profundamente com suas palavras. Sobre a Shoah, os livros do Primo Levi são fundamentais (numa entrevista ao vivo, o apresentador queria saber mais sobre a minha convivência com esse meu querido “primo”, o Levi, que cito várias vezes no Antiterapias. A minha ficha demorou para cair!). Tem um outro livro muito arrogante, ousado, enciclopédico, mas que apresenta um estudo ficcional, polêmico e rigoroso sobre a Shoah: As benevolentes, do Jonathan Littell.

Diga três livros que contribuíram para o escritor que você é hoje.

Grande sertão veredas, para chorar diante da possibilidade da beleza; Crime e castigo, para se admirar diante do encanto com sofrimento; Cartas a um jovem poeta (NE: de R.M. Rilke), para me proteger de escrever sobre temas banais e cair no lugar comum.

Quem são seus autores favoritos?

O Guimarães Rosa é oitavo Dan! Quase um Deus! Hahaha! Meus favoritos são: Marcel Proust, Jorge Luis Borges, Georges Perec, Italo Calvino, Isaac Bashevis Singer, Melville. E tantos outros.

Qual é o mais importante ensaio de sua experiência de leitor?

A terceira margem do Rio” (NE: de Pequenas estórias) do Rosa, “Os precursores de Kafka” (de Outras inquisições), do Borges, “O tradutor cleptomaníaco” (do livro húngaro sob o mesmo título, bravamente publicado no Brasil pela Editora 34), do (Deszo) Kosztolányi.

Quais são seus três personagens judeus prediletos e por quê?

O Alexander Portnoy, do Roth, por viver o tempo todo no banheiro dedicando-se à autoficção (ele claramente me copiou); o Sabbatai Tzvi (que realmente existiu), por sua brilhante loucura, por convencer muitos de que era o verdadeiro Messias e, logo depois, se converter largando mão dessa tarefa complicadíssima que seria mudar o mundo; e o Golem (não o Gollum, do Tolkien, não!), por sua magia cabalística e pelas inúmeras e infinitas histórias que ainda tem nos proporcionado.

Você já parou no meio de um livro? Qual e por quê?

Claro! Ou o livro estava chato demais, ou eu estava de saco cheio, pensando em largar tudo e ser jogador de squash! Lembro-me de ter começado e largado várias vezes O vermelho e o negro, do Stendhal (estava lendo uma tradução antiga bem ruim!).

Que tipo de leitor você foi na infância? Qual era seu livro favorito?

Leitor? Eu gostava mesmo era de jogar futebol, basquete e tênis! “E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil”, adorava ficar admirando as “bundinhas” drummondianas por aí!

Qual o melhor livro sobre matemática para um leigo?

Eu gosto muito de um cara chamado Raymond Smullyan. Alguns de seus livros foram traduzidos: O enigma de Sherazade, Alice no país dos enigmas, A dama ou o tigre?. Também Alice no país das maravilhas, do (Lewis) Carroll, é um livro fundamental, tanto para a matemática e lógica, quanto para as questões sexuais-analíticas –  junto com o Lolita (de Nabokov).

Qual leitura você mais recomendaria para a presidente Dilma Roussef? E para o povo brasileiro, atualmente?

Sem dúvida alguma eu recomendaria o meu próximo livro: Brochadas. Nesse mar surreal, e quase literário, de corrupção, preconceito e desencanto, acho que todos nós nos sentimos, por vezes, impotentes, prostrados e inteiramente brochas! (Mas brochas são esses perversos ladrões!)

Entrevista por Anna Luiza Cardoso

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O AUTOR COMO LEITOR – MARINA CARVALHO

13 perguntas sobre livros e leituras

“Paula Pimenta foi minha inspiração para me tornar escritora”

Marina Carvalho é uma das expoentes dessa nova geração de escritores brasileiros, que, criando histórias voltadas principalmente para o público jovem, estabelecem pelas mídias sociais uma relação forte e direta com os leitores, sem intermediação da crítica universitária, de colegas autores, de recomendações ao editor. Seus primeiros livros foram publicados pela Novo Conceito –  SIMPLESMENTE, ANA; DE REPENTE, ANA; AZUL DA COR DO MAR e ELA É UMA FERA, releitura de A MEGERA DOMADA, que saiu apenas eletronicamente, mas é o ebook de mais alta vendagem da editora. Agora, Marina está lançando, desde a semana passada em grande turnê pelo Brasil, ELENA, que é a filha de Ana, um livro com o selo Galera Record, já considerado um sucesso dentro da editora.

Nascida na pequena Ponte Nova, Marina é mineira como tantas entre as mais exitosas escritoras do gênero (Laura Conrado, Paula Pimenta, Bruna Vieira) – um fenômeno que dá o que pensar. O que terão as mineirinhas para saberem conversar tão bem com os jovens? O certo é que o talento de Marina para esse diálogo não dispensou uma boa formação como leitora. Ela se graduou em jornalismo e chegou a trabalhar nessa área, mas hoje, além de escritora, é professora de Português e Literatura no ensino médio. Aliás, considera que esse contato diário com a garotada é fundamental para manter atualizado o seu registro linguístico da fala da juventude. Nesta entrevista a Gabrielle Cunha, Marina recorda que os mineiros Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino fizeram parte de seu repertório de criança, põe Érico Veríssim no panteão, mostra que está perfeitamente a par de tudo que suas colegas brasileiras de geração estão escrevendo, revela que sua inspiração para se tornar escritora foi Paula Pimenta e por fim conta de seu orgulho por conseguir que seus filhos sejam também leitores apaixonados.

Quais títulos poderiamos ver agora em sua mesa de cabeceira?

Boa Ventura!, de Lucas Figueiredo, um relato precioso sobre a exploração do ouro brasileiro no período colonial. Além dele, estou lendo um romance gostoso, da autora nacional Bianca Briones, O descompasso infinito do meu coração.

Quais foram seus livros favoritos na infância? Que tipo de leitora você foi?

Sempre gostei muito do Pedro Bandeira. Li todos os livros que ele escreveu para a série Os Karas e, em seguida, fui atrás de seus outros trabalhos. Pedro tem o dom de cativar, com sua linguagem envolvente, crianças e jovens. Mas também devorei toda a coletânea da série Vagalume, motivada especialmente pelo autor Marcos Rey, gênio dos romances policiais juvenis. Além deles, incluo as obras de Ana Maria Machado, os contos de Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, as histórias de Maria José Dupré e, claro, os quadrinhos de Maurício de Sousa. Fui uma criança muito tranquila, que se contentava com a diversão proporcionada pelos livros. E, por perceber esse meu amor pela leitura, minha mãe não media esforços para me disponibilizar obras de gêneros variados e de todas as épocas.

Qual livro provocou em você a vontade de escrever para jovens?

Acredito que foi Pedro Bandeira o responsável por isso, embora, na época, eu não soubesse que chegaria a escrever profissionalmente. Mas, se eu levar em consideração o momento em que concluí que poderia me tornar algo mais que uma escritora de gaveta, assumo que Paula Pimenta, autora mineira, contemporânea, de grande sucesso entre crianças e adolescentes, foi minha grande inspiração, com seu livro Fazendo meu filme. Assisti a uma palestra dela na escola onde trabalho e saí de lá pensando: “Por que não?”

Qual a sua personagem  de ficção chick-lit favorita (para quem não sabe, literatura que agrada às meninas e moças entre 12 e 30 anos)? Por quê?

Gosto muito das personagens criadas pela inglesa Sophie Kinsella, uma especialista em histórias do gênero. Entre elas, aponto a Becky Bloom como a mais engraçada, por ser uma mulher destemperada, mas, ainda assim, muito meiga e imbuída do objetivo de se dar bem na carreira, mesmo tendo que lidar com um vício (quase) incurável: sua compulsão por compras. Já dei muitas gargalhadas com essa personagem e, por causa dela, leio tudo o que a Sophie publica.

Qual livro você gostaria de ter escrito?

Se eu fosse uma mulher do passado, gostaria de ter escrito todas as histórias sobre o detetive mais egocêntrico do mundo, o belga Hercule Poirot, criado pela dama do crime, Agatha Christie. Na adolescência, eu ficava completamente perplexa com a sagacidade daquela mulher, tão genial naquilo que se propunha – escrever fascinantes livros de mistério – e na vida que levava também. Uma pioneira, sem dúvida. Também muito me agradaria ser a mente por trás da saga O tempo e o ventode Érico Veríssimo. Sou fã de histórias épicas, que envolvem questões familiares complexas e atrelam elementos da História, unindo ficção e conhecimentos gerais.

Que livro você leu, gostou, mas tem vergonha de admitir, porque não é considerado boa literatura?

Ah (risos)! Sério? Se tenho vergonha de admitir (e tenho mesmo!), como vou revelar? Mas, está certo, darei uma dica: o título une palavras e um numeral inteiro.

Você se lembra de alguma adaptação cinematográfica de obra literária que, como filme, tenha resultado tão bom quanto o romance que lhe deu origem como literatura?

Eu simplesmente adoro a versão cinematográfica produzida em 1959 do romance épico Ben-Hur. Para mim, é uma das poucas adaptações para o cinema consideradas tão fantásticas quanto o livro de origem. Por isso estou com medo do que Hollywood aprontará na nova filmagem, que estreará no ano que vem.

Qual o seu autor brasileiro preferido?

São vários, mas vou apontar apenas um: Érico Veríssimo.

Qual o seu romance histórico preferido?

A saga O tempo e o vento.

Com qual escritora contemporânea você gostaria de ficar conversando e tomando um chá de fim de tarde?

Eu diria que gostaria de fazer isso com várias, pois admiro o trabalho de tantas! Mas como ainda não a conheço pessoalmente e sou muito fã do trabalho dela, adoraria passar um tempo com a Carina Rissi, grande nome do chick-lit nacional.

Diga um livro cuja leitura você parou no meio, porque era aborrecidíssimo. Ou por qualquer outra razão (violentíssimo, por exemplo).

Recentemente eu comecei a ler A bibliotecária de Auschwitz, mas fui obrigada a interromper a leitura, porque fiquei extremamente deprimida ao revisitar o horror dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. Já li tanto a respeito, mas sempre me choca pensar no sofrimento das pessoas naquela época.

Sua paixão pela leitura foi transmitida a seus filhos? Quais são os autores preferidos deles?

Sim, eles gostam de ler. Isso me faz uma mãe muito orgulhosa. O João, meu filho de sete anos, adora as histórias da Ana Maria Machado. Ele pega os livros dela na biblioteca da escola. Acho essa atitude a coisa mais linda do mundo. Já o Hugo, de 11 anos, é fanático por aventuras e mistérios. Já leu toda a série Percy Jackson, todos os livros da coleção Diário do Banana e, mais recentemente, tornou-se fã incondicional de Star Wars.

Você tem uma dica de leitura para a presidente Dilma Roussef?

Opa! Isso é bem difícil, não? Bom, sugeriria o próprio Boa Ventura!, do Lucas Figueiredo. Nunca é demais conhecer melhor a nossa história para que possamos entender nossas atuais condições, não é mesmo? E, a partir daí, tentar modificá-las.

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O AUTOR COM LEITOR – MARCELO BACKES

13 perguntas sobre livros e leituras

 

Pelo tema do pacto com o diabo, Dilma deveria ler Doutor Fausto”

 

Marcelo Backes é um viajante. No momento em que postamos este blog, ele está embarcando para Istambul. Entre inúmeras atividades, Marcelo guia por vários países do mundo grupos de alunos _ que fazem com ele oficinas de imersão na obra de diversos autores clássicos _, em um projeto de viagens literárias desenvolvido com a Casa do Saber. Mas a vocação de viajante começou quando ele deixou para trás sua Campina das Missões, no interior do Rio Grande, para estudar Jornalismo e Literatura em Porto Alegre. Logo viu-se na Alemanha, tirando um doutorado sobre a poesia de Heine na Universidade de Friburgo (Freiburg). Ficou por lá oito anos, período em que veio a conhecer toda a Europa e que lhe rendeu a criação de Estilhaços Maisquememória, publicados pela Record. Depois de voltar ao Brasil, passou a dar palestras em universidades da Alemanha e da Áustria quase anualmente, parando em Berlim para residências literárias.

No últimos tempos, escreveu O último minuto e A casa cai, publicados pela Companhia das Letras, mais fincados no Brasil. O último minuto saiu ainda pela Del Vecchio na Itália, onde vem sendo aclamado pela crítica _ um forte romance sobre a crise existencial de um ex-técnico de futebol, e uma reflexão sobre o sentido das mudanças na sociedade brasileira. A casa cai traz à cena um personagem que já surgira em O último minuto, ex-seminarista que se apaixona pela viúva do pai e monta para ela uma cobertura no complexo da Selva de Pedra, no Leblon, um dos muitos imóveis do espólio paterno. A narrativa _ sobre pecado, culpa e expiação _ reflete esses temas também no plano do desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro, uma cidade cujas áreas para o investimento imobiliário foram abertas a ferro e fogo não contra o mato e a floresta, mas contra inteiras populações.

Backes é também tradutor. Já traduziu mais de 30 autores austríacos e alemães, incluindo aí Goethe, Schiller, Heine, Nietzche, Kafka e Arthur Schnitzler para várias edições premiadas. De Schnitizerl, está organizando toda a obra em um monumental projeto com a Record. Com tanto envolvimento com a Alemanha, só poderia sair dela a dica de leitura para a presidente Dilma Roussef: O Doutor Fausto, de Thomas Mann, pelo tema do pacto com o diabo.

Que livros se encontram agora sobre sua mesa de cabeceira?

Neste momento, o Corão em três línguas, a poesia de Hafez, um dos maiores poetas de todos os tempos, grandioso, genial, autor de algumas das mais belas metáforas da literatura universal;de Rumi, de Firdusi, e oRubaiya de Omar Khayyam. Tudo por conta de uma viagem de Istambul a Teerã que farei em breve.

Quais são seus romances urbanos favoritos? Romances em que a cidade onde se passa a história seja quase um personagem.

São tantos! Acho maravilhoso conhecer o Rio de Janeiro de novo pelas páginas de Dom Casmurro, passeio pelas ruas de Viena através das obras de Arthur Schnitzler, pelas de São Petersburgo nas páginas de Dostoiévski. Mas não sou exatamente fascinado pelos assim chamados romances de metrópole; John dos Passos e Joyce não estão entre meus escritores preferidos. Sou mais Proust e seu mundo anímico ou Guimarães Rosa e seu sertão, ou então Nabokov e seu interior americano. E prefiro (Robert) Musil a (Alfred) Döblin, embora reconheça a maravilha que é Berlim Alexanderplat.

Qual a cidade mais literária de todos os tempos?

No Brasil, indiscutivelmente é o Rio de Janeiro, que eu aliás homenageio no meu romance A casa cai. Na Europa são tantas: a Londres de Dickens, a Paris de Balzac, a São Petersburgo de Tolstói e Dostoiévski, a Dublin de Joyce

Há algum romance que, tendo o esporte como pano de fundo, o tenha apaixonado? Fora O último minuto, é claro.

Sinceramente, não; sou mais vinculado às coisas da alma aqui dentro do que do mundo lá fora (e o esporte é bem do mundo lá fora), o que aliás também pode ser percebido em O último minuto.

Qual o melhor texto de ficção sobre o futebol _ brasileiro ou não?

Gosto muito, por exemplo, de um conto, bem breve, chamado “Meia encarnada, dura de sangue” de Lourenço Cazarré.

Você conhece algum romance ou texto ficcional cuja tradução _ de e para qualquer idioma _ tenha se igualado ou superado o original?

Se eu tivesse lido Paulo Coelho em português ou em qualquer outra língua do mundo, a resposta seria fácil. Mas já li algumas de suas páginas em português e em alemão e garanto que traduzido ele é um pouco melhor. É muito difícil dizer isso acerca de uma obra de arte, de uma peça literária bem acabada. Às vezes há sonatas compostas para piano que ficam muito bem na flauta, mas o que mais acontece são emendas piores do que os sonetos.

Qual a mais importante obra literária do cânone mundial?

Eu acho que, no século XX, é Em busca do tempo perdido, de (Marcel) Proust, ou então O homem sem qualidades de Robert Musil, cujo título eu talvez traduzisse como “O homem sem propriedades”, ou então “O homem sem atributos”. Na tradição clássica, A divina comédia de Dante e o Fausto de Goethe; são obras de alcance insuperável, inclusive pela abrangência.

Quais são seus romances mais queridos? Não mais que três, por favor.

”  Em busca do tempo perdido, de Proust; Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa; e Doutor Fausto, de Thomas Mann.

Quais são os livros da literatura alemã mais importantes de serem conhecidos pelo leitor brasileiro?

O homem sem qualidades, de Robert Musil, e Doutor Fausto, de Thomas Mann _ se quiseres que eu cite algo volumoso. Michael Kohlhaas, de (Heinrich von) Kleist, e O tenente Gustl, de Arthur Schnitzler, se quiseres duas novelas breves e geniais.

Vão oferecer-lhe um jantar e dizem para você levar três escritores. Quem seriam e por quê?

Autores vivos? Para um jantar eu convidaria amigos e por serem amigos. Meus amigos escritores são quase todos alemães: eu convidaria Ingo Schulze, eu convidaria Sasa Stanisic, e aqui no Brasil eu convidaria Sérgio Faraco, de quem aliás sinto muita saudade. E teria a certeza de que não falaríamos de literatura durante o jantar.

Com qual escritor contemporâneo você gostaria de passar uma tarde conversando?

Com a escritora holandesa Franca Treuer; quem já a viu, não perguntaria por quê.

Qual escritor em atividade vem surpreendendo-o positivamente com seus últimos trabalhos?

E  Eu sempre me surpreendo com o que Ingo Schulze faz, com o que Sasa Stanisic faz.

Que livro a presidente Dilma Roussef precisa ler urgentemente?

Acho que o Doutor Fausto, de Thomas Mann, também pelo tema do pacto com o diabo, seria uma boa.

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O AUTOR COMO LEITOR – Miguel Sanches Neto

13 Perguntas sobre livros e leituras

“Até a obra de Roberto Bolaño ganharia com uma boa edição”

 

“Tudo que não é literatura me irrita”, diz a sério Miguel Sanches Neto, parafraseando Kafka, para explicar sua grande, diversificada e brilhante produção literária. O tempo para essa produção é devido não a morar distante do eixo Rio-São Paulo, mas principalmente ao fato de toda sua libido, toda sua paixão, estar dirigida à escrita, à leitura e à família. Miguel acaba de lançar pela Intrínseca A segunda pátria, que está conquistando estrepitosa aclamação crítica. O romance narra uma história de amor entre um negro e uma descendente de alemães tendo como pano de fundo o Brasil de Getúlio Vargas, que no final dos anos 30 teria feito um pacto com Hitler, entregando-lhe as colônias germânicas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Uma distopia histórica magnificamente escrita, de aguda originalidade e muito assustadora, que toca no fundo da psique brasileira e, por isso mesmo, está despertando interesse em toda parte; seus direitos para cinema acabam de ser negociados pela VB&M.

A versatilidade de Miguel não se limita a sua capacidade de transitar entre romances (seis publicados, um pronto para ser apresentado aos editores), contos (três volumes publicados, um no prelo da Companhia das Letras, outro sendo finalizado por ele), crônicas (oito livros publicados), histórias para crianças e jovens (sete publicadas, uma no prelo da Bertrand), poesia (cinco), memórias, diário, aforismas. No romances e nos contos, ele brinca e experimenta com a autoficção, com o histórico, com o policial.

Um tanto de sua literatura conta sua trajetória de leitor e escritor (ver principalmente o romance autobiográfico Chove sobre minha infância, os contos de Então você quer ser escritor? e as crônicas de Herdando uma biblioteca), mas felizmente Miguel Sanches Neto, também professor universitário, 50 anos em julho, encontrou tempo para responder às perguntas da VB&M (“trabalhosas mas divertidas”), descortinando como sempre sua excepcional experiência de leitura e uma imensa sensibilidade literária. Uma entrevista com dicas preciosas para leitores e escritores, como sua sugestão para a presidente Dilma Roussef, as memórias de Autran Dourado, A gaiola aberta; e a observação de que toda obra pode se beneficiar de uma boa edição e um enxugamento, até clássicos contemporâneos como Roberto Bolaño.

O que você está lendo?

Mantenho um leque de leituras, tentando abarcar os meus vários interesses. Leio A ilha de Sacalina, de Tchékhov, uma reportagem em forma de diário. Os romances O Todomeu, de Andrea Camilleri, e Submissão, de Michel Houellebecq. O volume de poemas póstumos de Bukowski (As pessoas parecem flores finalmente). Os novos contos de Rubem Fonseca – Histórias curtas. E o monumental O idiota da família, os textos de Sartre sobre Flaubert.

Qual é o romance histórico de mais alta qualidade literária na ficção brasileira?

O tempo e o vento, o painel transgeracional de Érico Veríssimo. É tão bom que nem lemos como romance histórico, apenas como uma grande narrativa.

E na ficção internacional?

Gosto muito de Memorial do convento, do José Saramago. Portugal tem uma tradição de romance histórico. Dos mais recentes, gostei de Equador, de Miguel Sousa Tavares.

Diga uma narrativa de autoficção que você aprecie.

No Brasil, o grande romance de autoficção é Quase romance – quase memória, de Carlos Heitor Cony, um marco primoroso desta vertente. Fora do Brasil, A história de uma viúva, de Joyce Carol Oates.

Aponte três livros que tenham contribuído para formar o escritor que você é hoje.

A Bíblia, na tradução literária de João Ferreira d’Almeida. Os contos completos de Julio Cortázar. Infância, as memórias de Graciliano Ramos.

Com qual escritor, contemporâneo ou não, você gostaria de passar uma tarde conversando?

Com Lima Barreto, tomando parati em algum boteco do Rio. Sempre gostei dos encrenqueiros.

Quem é o seu poeta preferido?

Fernando Pessoa, que é quem mais releio quando estou triste.

E o contista?

Dalton Trevisan, o maior contista da língua portuguesa.

Existe alguma obra do cânone que você considere supervalorizada?

Toda obra canônica é supervalorizada, isso está na essência do cânone. Respeito o valor e a contribuição para a mudança do código narrativo, mas não sou um bom leitor de Ulisses, do Joyce.

Qual título da literatura brasileira ou internacional poderia se beneficiar de um bom trabalho de edição?

Quase todo livro se beneficiaria de um bom trabalho de enxugamento. Gostei bastante de Detetives selvagens, de Roberto Bolaño, mas ele ganharia com uma boa edição.

Quais foram seus livros preferidos na infância? Que tipo de leitor você era?

Nunca tive infância. Vindo de uma família de agricultores pobres, só me fiz leitor a partir dos 12/13 anos, já dentro da literatura adulta. E aí o impacto muito grande que sofri foi da obra de Graciliano Ramos.

Diga um livro pelo qual você não dava muito ao começar a leitura mas que acabou surpreendendo-o positivamente.

1Q84, do Haruki Murakami, o livro é muito inverossímil e no entanto não consegui me desprender dos 3 volumes. Taí outro livro que ganharia com um trabalho de edição.

Agora a dica de leitura para a presidente Dilma Roussef.

Gaiola aberta, as memórias de Autran Dourado sobre sua passagem pela assessoria de imprensa do presidente JK. O livro tem passagens deliciosas como esta: “Logo no início do governo JK, o [Augusto Frederico] Schmidt aconselhou-o a conviver com gente mais culta e inteligente. Cafajeste é para campanha, para carregar nos ombros, disse ele. Já tenho os meus escritores, que não me dão problemas, disse JK. Mas você não convive com eles, não os convida para almoçar e jantar, não lhes dá importância, disse o poeta”.

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João Almino – O AUTOR COMO LEITOR

13 perguntas sobre livros e leituras

A obra inteira de Graciliano é cinematográfica”

João Almino está se desfazendo de mais uma de suas preciosas bibliotecas, pois deixa seu posto diplomático em Madri para voltar por um período a Brasília, enquanto prepara o lançamento de seu último romance, Enigmas da primavera. João Almino notabilizou-se como o escritor de Brasília, produziu um quinteto de romances passado na cidade _ Ideias para onde passar o fim do mundo, Samba enredo, As cinco estações do amor, O livro das emoções e Cidade Livre.

Só o gênio do João para fazer do Distrito Federal uma cidade literária tão intensa. Mas seu novo livro não se resume nem de longe a Brasília. A história se constroi em torno de um jovem brasileiro de ascendência árabe, família tipicamente disfuncional, criado pelos avós, que vive todo o tempo na realidade virtual das mídias sociais e se encanta com sites islâmicos fundamentalistas.

O incrível é que João Almino escreveu esse livro não no ano passado, quando explodiram as notícias sobre os recrutamentos do Estado Islâmico na Europa e nos EUA, mas ao longo da primeira metade de 2013, cujos protestos também são eixo do romance.

É um livro sobre o vazio da contemporaneidade e a possibilidade da esperança para a humanidade, um tour de force, que será colocado nas livrarias na virada de abril para maio pela editora Record. Além de romancista e amante da obra de Proust e Graciliano Ramos, João Almino, casado com a artista plástica Bia Wouk, é um imenso conhecedor e crítico de cinema, também tema literário para ele. Tudo que João conhece, ele conhece muito, como se pode ver na entrevista a seguir sobre suas leituras, jogando luz sobre tantos autores, livros e visões nada óbvios.

Qual livro ou quais livros você está lendo neste momento?

Five Women, de Robert Musil.

Quem é o romancista que você mais admira na literatura universal?

Marcel Proust.

Quem são os melhores escritores em atividade hoje?

São tantos os bons escritores… Sem citar brasileiros, que são os que mais leio, eis alguns que me que vêm à mente agora: Edward St Aubyn, Ian McEwan, Ricardo Piglia, Haruki Murakami e John Ashbery.

Quais são as cidades brasileiras mais bem retratadas na literatura e em quais romances?

O Rio de Janeiro, de maneira oblíqua, nos cinco romances da fase madura de Machado de Assis.

Quais são as cidades estrangeiras mais bem retratadas e em quais romances?

A cidade imaginária de Combray, em Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, baseada na Illiers de sua infância.

Qual romance dos últimos 30 anos refletiu mais profundamente o mal-estar da civilização na virada dos séculos XX para o XXI até os dias de hoje?

Les désorientés, de Amin Maalouf. (Nota da entrevistadora: Saiu em português pela Bertrand Brasil, Os desorientados.)

Quais foram os livros mais interessantes ou importantes que tenham saído recentemente sobre o mundo islâmico? Ficção ou não-ficção, pode citar dois ou três títulos.

Nem todos são tão recentes, mas eis uma lista um pouco maior: de Mohamad Arkoun, Comment lire le Koran?; de Massimo Campanini, The Qur´an, The Basics; de Abdelwahab Meddeb, A enfermidade do Islã; de Mohamad Charfi, Islã e liberdade; de Paolo Dall´Oglio, Amoureux de L´Islam, croyant en Jésus.Na ficção, alguns dos contos de Beirut 39, New writing from the Arab world, editado por Samuel Shimon.

Qual livro conquistou a melhor e mais fidedigna adaptação cinematográfica?

Le temps retrouvé, de Raoul Ruiz, sobre o livro de mesmo título (último de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust).

Qual livro foi mais injustiçado pelo cinema?

O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, livro várias vezes injustiçado no cinema

Qual o romance mais cinematográfico que ainda não foi filmado?

Que eu saiba, dos romances de Graciliano Ramos, Caetés ainda não foi filmado. São todos muito cinematográficos.

Qual livro você gostaria que outro escritor produzisse _ um grande tema sobre o qual gostaria de ler, mas que não o empolga para escrever?

Se eu gostaria muito de ler e ainda não foi escrito, tomaria notas para tentar escrevê-lo em algum momento.

Bia e você vão oferecer um jantar. Quem são os cinco escritores convidados?

Convidaríamos alguns velhos amigos de nossa geração que por acaso são também escritores: Ana Miranda, Reinaldo Moraes, Laura Restrepo, Milton Hatoum e Lorrie Moore.

Agora, a dica de leitura para a presidente Dilma Roussef, neste momento de crise aguda da sociedade brasileira.

O Livro do Príncipe Shang (ou Shang Yang), um tratado político chinês do quarto século A.C. sobre a natureza do poder do Estado.

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O Autor como Leitor – Raphael Montes

15 Perguntas sobre livros e leituras

Conan Doyle é o culpado da minha literatura”

 

Nosso menino prodígio, Raphael Montes, 24 anos, autor de dois romances publicados por grandes editoras, Suicidas com a Saraiva e Dias perfeitos com a Companhia das Letras, tem uma biblioteca de 4 mil títulos policiais, de mistério, horror, suspense psicológico e de tribunal. Hiperativo, ele agora finaliza seu novo grande thriller,  Jantar, a sair pela Companhia no início de 2016, tendo acabado de entregar um volume de contos de fantasia e horror, visando ao público masculino jovem, à Suma das Letras, para estar na livraria em agosto, para sua participação na feira literária de Passo Fundo. Enquanto isso, continua a intensa divulgação eletrônica e presencial de sua obra e prepara malas e ideias para uma viagem no fim do mês a Lisboa, onde dará uma conferência sobre a difusão da literatura de língua portuguesa e lançará a edição de Dias perfeitos pela Objectiva de Portugal. Diga-se que a VB&M, com suas parceiras e co-agentes, já vendeu Dias Perfeitos em onze territórios e está com uma oferta pendente em Taiwan. Cérebro e coração embebidos de ficção policial, Raphael acaba de se dar uma nova cachorrinha, uma bassert linda, a quem batizou de … Agatha. Prestando todas as homenagens nesta entrevista a sua querida Agatha Christie, ele, no entanto, diz aqui que Conan Doyle é o responsável por sua decisão de viver de e para a literatura de mistério.

 

Que livro você está lendo?

Leio vários ao mesmo tempo, cerca de cinco, ou seis. Atualmente, leio Zero zero zero, do Saviano; Um plano simples, de Scott Smith; e livros de pesquisa para o que estou escrevendo: De caçador a gourmet, de Ariovaldo Franco; Diário, de Chuck Palahniuk e Meu destino é ser onça, do queridaço Alberto Mussa.

Algum livro já lhe meteu medo de não conseguir dormir à noite?

Quando eu era adolescente, acontecia com frequência. Hoje em dia, não acontece – e lamento por isso. Alguns que me amedrontaram: O caso dos dez negrinhos, da Agatha Christie, é claro, O Colecionador de Ossos, de Jeffery Deaver, e Brincadeira Mortal, de Pedro Bandeira.

Que autor despertou em você a vontade de escrever histórias de mistério?

Comecei lendo Conan Doyle e foi ali que decidi escrever histórias policiais. Então, acho que ele é o culpado pela minha literatura.

Qual é seu livro favorito de Agatha Christie? O que o fascina particularmente?

Dentre os mais famosos, fico com O caso dos dez negrinhos. Na verdade, meu romance Suicidas é uma homenagem a esse livro dela. O jogo em que os personagens vão morrendo um a um, a existência de um assassino entre eles… É uma tensão permanente que me atrai ali. Dentre os menos conhecidos, fico com Treze à mesa. Um romance policial simples, com enigma proposto ao leitor. Errei feio na solução e amei.

E de Conan Doyle?

Gosto muito de Um estudo em vermelho. Foi o primeiro romance policial que li. Tenho um carinho especial por esse livro.

E de Edgar Allan Poe? Por quê?

Em três contos protagonizados por Auguste Dupin, Poe fixou as características do gênero policial e apresentou à literatura o detetive moderno; a máquina de pensar que, através de rigorosa lógica, desvenda crimes e pune culpados. Tanto em Os crimes darua Morgue como em O mistério de Marie Roget e A carta roubada, estão presentes os três elementos básicos do romance policial: (I) o crime; (II) o investigador — leigo ou profissional —; e (III) o criminoso.

Dos autores contemporâneos de suspense psicológico, quem você considera imbatível?

Fico com Dennis Lehane. Ele faz um suspense psicológico violento, visceral. No Brasil, o posto é da Patricia Melo.

E na área do policial clássico – polícia contra ladrão -, qual o título contemporâneo que mais o pegou?

Amo os livros da francesa Fred Vargas e da norueguesa Karin Fossum. No Brasil, Tony Bellotto e Garcia-Roza são os mestres nesse estilo.

A literatura brasileira nessas áreas ainda é pequena, mas começa a engatinhar. O legal thriller, ou “suspense legal”, porém, não existe no Brasil. Entre os estrangeiros, quem é o melhor?

Sou fã de dois: Scott Turow e John Grisham. Não me peça para escolher entre eles.

Quem é o detetive mais interessante da literatura? E quem é a vítima mais patética da literatura?

O detetive é Hercule Poirot. A vítima é leitor de romances ruins.

 Além de policiais, suspense, mistério e thrillers, qual é outro título memorável em sua bibibliografia?

Se um viajante numa noite de inverno, do Italo Calvino. Acho incrível.

Vão oferecer um jantar em sua homenagem e lhe dizem para levar três escritores como convidados seus. Quem seriam eles?

Acho que um jantar com Agatha Christie, Patricia Highsmith e Alfred Hitchcock na mesa me deixaria satisfeito.

Que livro você recomendaria à presidente Dilma Roussef?

Crime e castigo.

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O Autor como Leitor – Ronaldo Wrobel

13 perguntas sobre livros e leituras

“Ler Philip Roth é como estar numa reunião de família”

Com Traduzindo Hannah, Ronaldo Wrobel já se impôs como um dos mais importantes nomes da ficção nacional contemporânea e, particularmente, da nova e impressionante literatura de inspiração judaica que começa a se consolidar no Brasil. Obsessivo e perfeccionista, Ronaldo está debruçado há mais de três anos em seu segundo livro de ficção longa, O romance inacabado de Sofia Stein, que deverá estar finalizado até setembro deste ano e, como Hannah, sairá pela Record. As questões da identidade, tema caro ao autor, reaparecem no novo livro, que tem pautado muito das leituras de Ronaldo. A O Autor como Leitor, ele discorre com clareza, sinceridade e brilho sobre suas preferências literárias, literatura judaica nos Estados Unidos e no Brasil, romance histórico-literário, suas fontes de pesquisa e a produção sobre o Holocausto.

1 Quais livros encontram-se agora em sua mesa de cabeceira?

Tenho feito pesquisas históricas para o próximo romance, que terá trechos passados na Alemanha nazista. O historiador britânico Richard Evans fez uma trilogia fantástica sobre o período: A chegada do Terceiro Reich, O Terceiro Reich no poder e O Terceiro Reich em guerra. Os três livros não saem da minha mesa de cabeceira. O último romance que passou por lá foi A balada de Adam Henry, de Ian McEwan.

2 Qual é seu romancista preferido de todos os tempos? E qual é seu romance favorito?

Tenho romances preferidos, não romancistas. Consider Equador, de Miguel Sousa Tavares, uma obra-prima. Leio e releio Tia Júlia e o Escrevinhador, de Mário Vargas Llosa. Também leio e releio tudo o que o italiano Primo Levi escreveu sobre campos de concentração.

3 Quem são os melhores escritores em atividade hoje? De três a cinco nomes, por favor.

Miguel Sousa Tavares, Richard Zimmler, Eduardo Gianetti (por seus ensaios sobre temas profundamente humanos como felicidade, imediatismo e auto-engano)

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4 No grande arco da literatura judaica norte-americana, quem é seu escritor preferido?

Philip Roth. Tudo o que ele escreve é essencialmente judaico, mesmo quando explica como se fabricam luvas de pelica. Ler Philip Roth é como estar numa reunião de família.

5 Qual é a grande obra ficcional do judaísmo literário brasileiro, que agora parece finalmente se consolidar?

Gosto muito de A guerra no Bom Fim, um clássico de Moacyr Scliar. Suas memórias refletem a vivência do imigrante nos anos 1940. Convivi com avós e tios russos e poloneses. Conheci de perto o misto de estranheza e maravilhamento com o qual enxergavam o Brasil. Assim como Philip Roth, Moacyr Scliar tem um modo essencialmente judaico de falar sobre qualquer coisa. Mesmo a biografia de Oswaldo Cruz – o excelente Sonhos tropicais, que relata a Revolta da Vacina, em 1904 – contém divagações existenciais típicas do judaísmo do Leste Europeu. Uma vez judeu, sempre judeu.

6 Qual romance histórico-literário considera mais marcante e importante?

Equador – já citado acima – é um retrato fiel do fim da monarquia portuguesa. A pretexto de contar a história de um diplomata, Miguel Sousa Travares retrata o declínio de uma era. Outro livro que me marcou foi Na fogueira: memórias, do jornalista Joel Silveira. Trata-se de uma autobiografia romanceada que descreve em detalhes o Rio de Janeiro da Era Vargas.

7 Qual romance você já abandonou no meio porque achou aborrecido?

A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa, sobre a Guerra de Canudos. Gostei muito do início, mas o livro foi perdendo o ritmo e caiu no marasmo.

8 Qual a obra de ficção sobre o Holocausto mais pungente e/ou elucidativa sobre o horror que o ser humano é capaz de disseminar?

Não chega a ser ficção, mas tem uma estrutura ficcional. Trata-se de A trégua, de Primo Levi, que narra o calvário dos prisioneiros dos campos nazistas depois da libertação. Muitos não tinham para onde ir e ficaram vagando de trem pela Europa (inclusive pela Rússia). O mundo simplesmente não sabia o que fazer com eles. Trata-se de um aspecto pouco conhecido da Segunda Guerra.

9 Qual é seu personagem literário favorito?

Um personagem que sempre me inspira é Larry Darnell, protagonista do romance O fio da navalha, de Somerset Maughan. Trata-se de um rapaz norte americano, rico e bem nascido, que sai pelo mundo em busca de um sentido para a vida depois de experimentar os horrores da Primeira Guerra. Sua jornada solitária ao Himalaia ainda me impressiona, vinte anos depois da primeira leitura.

10 Que título estranho pode ser visto em sua estante? Um ou mais. Algo que não tenha a ver com seus gostos, mas está lá – e por quê?

Livros técnicos sobre Hanseníase. Há alguns anos eu descrevia um personagem leproso e precisava de dados técnicos. Também tenho ótimos de livros de doutrina jurídica porque sou advogado, inclusive códigos comentados com uma série de ponderações interessantes. São leituras maravilhosas.

11 Você vai dar um pequeno jantar e quer convidar um poeta, um contista, um romancista, um ensaísta e um jornalista. Quem seriam eles? Podem ser brasileiros ou estrangeiros.

Seria um jantar mediúnico porque os quatro já morreram. Poeta: Fernando Pessoa. Contista: Josué Montello. Romancista: Isaac Bashevis Singer. Jornalista: Joel Silveira.

12 Com qual autor ou autora da literatura universal você gostaria de passar uma tarde conversando? Do que vocês falariam?

Gostaria de conhecer Mario Vargas Llosa. Admiro seu discurso político e os romances mais antigos como Conversas no Catedral. Trata-se de um homem lúcido, liberal, com uma percepção apurada sobre a política latino-americana e mundial.

13 Qual a dica de leitura para a presidente Dilma neste momento?

Auto-engano, excelente ensaio do economista Eduardo Gianetti. O livro estuda os truques mentais que inventamos para crer naquilo que nos convém, muitas vezes em detrimento da realidade.

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O AUTOR COMO LEITOR – Noemi Jaffe

13 Perguntas sobre livros e leituras

Narizinho é uma personagem feminina favorita”

O primeiro romance de Noemi Jaffe tem um título intrigante e é um diamante puro, perfeito e lapidado. Irisz: As orquídeas  conta a história de uma jovem botânica húngara, que em 1956 deixa Budapeste, fugindo da contra-revolução, para trabalhar no Jardim Botânico de São Paulo com uma pesquisa sobre flores capazes de adaptação a ambientes adversos.

Lá Irisz conhece Martim, diretor do Jardim Botânico, bem mais velho, um comunista sofrendo as primeiras desilusões ideológicas que o comunismo infligiu a seus adeptos ao longo do século XX. Ele se apaixona por ela, e a pergunta que conduz o leitor até o final é: Irisz permanecerá em São Paulo, ou preferirá voltar e resistir em sua terra à dominação soviética? O certo é que Irisz ficará como uma das personagens femininas mais ricas, multidimensionais e deliciosas da literatura brasileira; o leitor poderá conferir a partir da segunda metade de maio, quando o romance será publicado pela Companhia das Letras.

Outro livro de Noemi foi escrito a seis mãos, as dela, as de sua mãe e de sua filha, um testemunho trigeracional do Holocausto. O que os cegos estão sonhando?, da Editora 34, parte do diário que Lili Jaffe escreveu desde que deixou a Sérvia levada por soldados nazistas para Auschwitz, os meses que passou no campo e o período de quarentena na Suécia depois da libertação; direitos de tradução acabam de ser vendidos à editora Deep Vellum, nos EUA, pela VB&M em parceria com a 2-Seas Agency. Noemi Jaffe é ainda magnífica contista – A verdadeira história do alfabeto, da Companhia, conquistou o prêmio Brasília, além de ter sido finalista de várias outras premiações; poeta e crítica, colabora com a Folha de S.Paulo regularmente; e uma grande leitora, como se pode ver nessa entrevista.

 

1 Quais livros estão agora sobre sua mesa de cabeceira?

O teatro de Sabbath, de Philip Roth; Por escrito, de Elvira Vigna; Ser judeu, de Vilem Flusser.

2 Cite três livros fundamentais para a sua formação, obras fundamentais para a construção da escritora e da mulher que você é hoje.

José e seus irmãos, de Thomas Mann; Rumo ao farol, de Virginia Woolf; O arco e a lira, de Octavio Paz.

3 Quais são as três cidades mais literárias de todos os tempos e quais obras lhes prestam maiores homenagens?

Rio de Janeiro, nos contos de Machado de Assis, São Petersburgo, nos contos de Anton Tchekhov, Paris, na obra de Flaubert.

4 Quem são os três maiores romancistas em atividade?

Não acho que estes sejam os três maiores, porque há muitos outros comparáveis, mas estão entre os meus preferidos: Philip Roth, David Grossman e Cristovão Tezza.

5 Quem são seus poetas preferidos? Não mais que três, por favor.

Emily Dickinson, William Carlos Williams e Manuel Bandeira.

6 Cite três personagens femininas favoritas da literatura mundial.

Felicité, de Flaubert; A protagonista do conto Amor, de Clarice Lispector; Narizinho, de Monteiro Lobato.

7 E os três personagens masculinos mais queridos, quem são?

Austerlitz, do romance de mesmo nome, de Sebald; Jó, do Antigo Testamento; José, de José e seus irmãos, de Thomas Mann (desculpe a redundância).

8 Qual a obra de crítica literária mais importante para sua formação nessa atividade?

A preparação do romance, de Roland Barthes.

9 Quem são seus contistas preferidos?

Anton Tchekhov, Julio Cortázar e Machado de Assis.

10 Quais os mais belos contos da literatura brasileira?

A causa secreta, de Machado de Assis; Tentação, de Clarice Lispector; No tempo da camisolinha, de Mario de Andrade

11 Se você pudesse viver dentro do universo de uma obra literária, que obra seria essa?

O jogo de amarelinha, de Julio Cortázar.

12 Qual será sua próxima leitura?

Os livros da coleção Pequenos Exílios, organizada pela Paloma Vidal.

13 Que livro seria importante que a presidente Dilma lesse neste momento?

A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, porque acredito que ela precise passar, como a personagem, por um processo profundo de autoconhecimento e de transformação daquilo que está recalcado, em algo mais produtivo e solar.