Categoria: CRÔNICA

800foto-corte

Acaba de ser postado no site do Instituto Moreira Salles esse conto lindo de Silviano Santiago sobre família e a passagem do tempo. Silviano atendeu a uma provocação de Manya Millen que lhe apresentou uma foto do grande fotógrafo mineiro Chichico Alkmin para dela extrair uma história.

Família

0
0

ficcao-edney

Quem pensa que a ficção é descoberta tardia na vida de Edney Silvestre está muito enganado e vai se surpreender com a historinha desta postagem. Talvez por estar dedicado a reorganizar seus pertences, tendo se mudado de apartamento, talvez motivado por sua volta ao conto em 2016, com o maravilhoso (sem um pingo de exagero) WELCOME TO COPACABANA, que Carlos Andreazza vai lançar pela Record em abril, ontem Edney partilhou conosco essa capa da revista “Ficção: histórias para o prazer da leitura”, de julho de 1976, número no qual ele comparece em incrível companhia: Dalton Trevisan, José Louzeiro, Carlos Heitor Cony, João Silvério Trevisan, Ignácio de Loyola Brandão, Juan Rulfo e Pirandello. Para quem desconhece a revista, foi uma publicação marcante que durou de janeiro de 1976 a setembro de 1979, editada por outro time de sonhos: Cícero Sandroni, Eglê Malheiros, Fausto Cunha, Laura Sandroni e Salim Miguel. Tão importante naquela época para a produção brasileira de contos, que parecia então ser o gênero de vocação nacional, que em 2007 Miguel Sanches Neto antologizou-a para a Editora Leitura, de Belo Horizonte.

Diz Miguel: “com um projeto descentralizador, (a revista) uniu província e metrópole, fazendo um mapeamento da produção do país.” Misturava autores jovenzíssimos, como Edney, com gente já consagrada, como Cony, ou clássicos como Machado de Assis, ou ainda estrangeiros, como o mexicano Rulfo. O critério era o conto ser excepcional. Para o Miguel, deve ter sido uma luta compor a antologia.

Lástima o conto ter perdido no Brasil tanto espaço como manifestação literária da década de 70 para cá. Esperemos que o novo livro de Edney Silvestre possa contribuir um pouquinho para ultrapassar essa tendência, que não é só brasileira, mas internacional. Menos ainda que contos nacionais lemos a narrativa curta estrangeira, que tampouco é popular na Europa e nos Estados Unidos.

Em WELCOME TO COPACABANA, Edney evidencia mais claramente um talento seu quase único na literatura brasileira: a capacidade de recriar as vozes e as subjetividades de gente de todas as camadas sociais, do proletário ao burguês, do lumpen-proletariado à nossa tão característica lumpen-burguesia (conceito meu, Luciana), que de 2002 para cá passou a ocupar todos os recantos do poder no Brasil.

Temos grandes escritores que expressam a subjetividade do explorado e do trabalhador, como Luís Ruffato. Outros comunicam prioritariamente a crise do intelectual psicanalizado, ou da mulher oprimida pelo patriarcado. Edney transita por todas as almas, héteros e homos, homens e mulheres, velhos e crianças, ricos e pobres, marginais e bem-situados. No novo livro, tem o conto de um operador de propina em lua-de-mel com sua nova mulher personal trainer, na Itália, que a gente jura que conhece do noticiário, um cara entre Fernando Baiano e André Esteves, tão real que provoca o mesmo tipo de ânsia de vômito. Depois vem uma criança abandonada, seguida de um tipo já clássico dele, o imigrante brasileiro em situações insólitas nos EUA, a estrangeira em Copacabana _ o mundo. Em BOA-NOITE A TODOS, fomos dolorosamente apresentados à densa subjetividade de uma mulher de família tradicional do Rio de Janeiro em processo de perda de memória e identidade.

É uma ficção fincada tanto na literatura como na vida, o que é para pouquíssimos. Haja administração do tempo para saber dividido-lo tão bem entre leitura, escrita e experiência vivencial. Para dizer melhor que Marx: “Nada do que é humano me é estranho.”

Bateu uma vontade de ler esse conto de 1976 que a equipe da “Ficção” achou merecedor de publicação na revista. Vamos pedir para ele escanear e mandar? Será bom saber como e por quem da “Ficção” foi selecionado para figurar naquele número do remoto século XX, em tão boa companhia.

disfarce1-1024x768

Por Alison Entrekin

Começou com um email do Cristovão Tezza no qual brincou: “Ainda quero escrever um romance ‘inglês’ clássico. Penso nisso – linguagem clean, tempos precisos etc. Será que um brasileiro consegue?” Não consegui tirar a pergunta da cabeça. Sem saber, ele tinha tocado em algo que eu vinha sentindo faz tempo, mas que ainda não havia articulado muito bem para mim mesma. Vou tentar agora.

Toda vez que vou verter um texto brasileiro para o inglês, fico impressionada com a quantidade de coisas que são suprimidas no português, e lá vou eu fazer aquele trabalho de formiguinha, devolvendo para o texto as migalhas da gramática faltantes, numa série de preenchimentos obrigatórios para que o texto ganhe sentido em inglês. Faço os sujeitos ocultos mostrarem a cara, tiro pronomes oblíquos e complementos de verbos dos esconderijos, decido se os “seus” e “suas” são deste ou daquele personagem e, como na cena de um crime, vou forensicamente atribuindo partes de corpos (o braço, a cabeça) a seus donos (her arm, his head). E imagino que os tradutores trabalhando na outra direção vão apagando essas micropartículas lingüísticas tão essenciais em inglês que devem soar repetitivas demais – ou até desnecessárias – em português.

Também fico impressionada com a relativa liberdade que o brasileiro tem com os tempos verbais do passado. Em inglês, numa narrativa no passado, quando há menção de uma ação anterior ao tempo da narração, usamos o pretérito mais-que-perfeito – o passado do passado. Em português, nem sempre. Muitas vezes o pretérito perfeito fica no lugar do mais-que-perfeito. É engraçado que quase não reparo nisso durante a leitura do original e ao longo do processo de tradução, mas, invariavelmente, na hora de revisar a tradução em inglês, aquela anarquia de tempos verbais salta aos olhos, e lá vou eu – a formiguinha – botar ordem no passado.

Até aí, nenhuma novidade, traduzir de um idioma para outro é isso – o tradutor procura trazer à tona na tradução as coisas que são óbvias para leitores do original.

Nos primeiros anos de carreira, a sensação que eu tinha era de que tudo ia se desanuviando à medida que eu passava o texto para o inglês, e por muito tempo atribuí isso ao simples fato de eu não ser nativa da língua portuguesa e sim da língua inglesa. Faz sentido que as coisas pareçam mais em foco na língua nativa, não?

Mas, com o passar do tempo, nesta queda de braço diária com textos brasileiros, comecei a notar outras coisas que sempre pedem explicitação. Se eu tivesse que chutar, eu diria que – diferentemente do inglês, que tem um verbo para cada jeito de andar ou olhar – o português tem mais palavras e frases polivalentes, dificílimas de traduzir pelo leque de possíveis traduções. São várias, mas minha favorita é “disfarçar”, principalmente quando aparece sozinha sem nenhuma pista. Disfarçou. Como assim, “disfarçou”, sem mais nem menos? Para passar para o inglês, preciso saber o que a pessoa fez para fingir que não estava fazendo outra coisa. Sem uma palavra igualmente abrangente em inglês, vou à cata de mais informações, que às vezes nem estão no original.

Também dão trabalho os diminutivos e aumentativos, que encapsulam várias informações numa só palavra e transmitem ironia e humor de maneira ímpar. Recentemente, num fórum online de tradutores literários, alguns de nos ficamos discutindo uma única “inha” (de “professorinha”) durante um dia e meio! Às vezes, na descompactação necessária para transpor a idéia toda para o inglês, é difícil manter a graça do original – talvez porque a graça resida justamente no fato de as informações serem mais implícitas, menos na cara, quase uma inside joke. A primeira vez que me dei conta disso foi com a palavra “orelhudinho”, que me provocou um excesso de riso quando percebi a volta que teria que dar para dizer a mesma coisa em inglês. “Menino/homem pequeno de orelha grande” não tem a mesma graça.

Na fase de edição, fico admirada com as perguntas dos editores de língua inglesa. Questionam cada detalhe dos livros – não só a escolha de palavras e a gramática, mas a lógica interna do texto. Devolvem os manuscritos com dúvidas do tipo: “Se está algemado, como é que vai alcançar a chave no criado-mudo?” Muitas vezes há uma explicação plausível. Neste caso, uma página antes há uma rápida menção de um certo jogo nas algemas, compradas num sex shop, e depois, de fato, se esticando e se contorcendo, o protagonista consegue pegar a chave. Mas se algum detalhe desse tipo não for tão explicito no texto, os editores sugerem que seja. Independentemente de serem – numa análise mais rigorosa – verossímeis ou não, são coisas que geralmente passam pelo autor, editor, revisor, leitores, tradutor etc. sem ninguém notar. Parece haver uma confiança maior por parte dos brasileiros que o leitor vai acompanhar, que vai preencher qualquer lacuna usando a imaginação e o raciocínio. Mas as editoras de língua inglesa – sobretudo as americanas – parecem ter uma etapa de revisão a mais, justamente para pegar qualquer deslize ou ambigüidade. Acho um luxo ter uma pessoa com olhos “virgens” para ler o texto e procurar possíveis defeitos, ao mesmo tempo que me pego pensando – naqueles devaneios a que sou dada – se a “suspensão voluntária da descrença” do Coleridge anda um pouco menos voluntária nos países de língua inglesa de hoje. Será?

Bom, se você já chegou à conclusão de que nós anglófonos somos um tanto pedantes, acho que somos, de certa forma. Pelo menos somos mais apegados às certas regras que os brasileiros — sem que isso contenha qualquer julgamento de valor. Aliás, eu acho que o brasileiro navega as entrelinhas com uma desenvoltura extraordinária.

Deixando de lado os textos para pensar um pouco na vida no Brasil, muitas coisas obedecem a uma série de subentendidos, em que nada é tão preto ou branco quanto pode parecer para alguém de fora – de modo que um brasileiro dificilmente vai tomar um “vamos combinar” ou um “passa lá em casa” ao pé da letra. E mesmo quando algo de concreto seja combinado, o horário pode ser bem elástico, principalmente na vida social. Ainda me divirto com o fato de ser possível marcar um encontro num bar para uma janela de tempo – entre tal e tal hora – em vez de um horário fixo. E, uma vez no bar, não é falta de educação dizer “me vê mais uma” omitindo o “por favor”, se a inflexão da voz for simpática, ou se a frase começar ou terminar com um “amigão”, ou coisa que o valha. Ou, se a voz não alcançar, um dedo indicador apontado para o copo vazio seguido por um dedão erguido[1] dá conta do recado, para citar apenas um de centenas de gestos que substituem ou acompanham as palavras, constituindo quase uma terceira dimensão da fala brasileira.

Se as coisas não são tão preto ou branco na vida no Brasil, porque seriam na literatura? Não estou dizendo que todos os autores brasileiros são superelípticos na maneira de escrever, nem que nós anglófonos não sejamos capazes de lidar com textos sofisticados ou sutis, mas, de forma geral, acredito que procuramos referentes mais fixos nos nossos textos. Comparado com a gente, creio que o brasileiro depende um pouco menos do que é explícito e tira o sentido das coisas de uma série de outras fontes. É um bom entendedor por excelência.

 


[1] Esse gesto específico é usado fora do Brasil também, mas o vocabulário de gestos brasileiros é imenso. Aposto que se eu falar “lotado” ou “sei lá” ou “fodeu”, um brasileiro já consegue visualizar o gesto que exprime aquilo.

[Reprodução do site Revista Pessoa: http://www.revistapessoa.com/2015/04/o-bom-entendedor/]

Miriam por Tomas Rangel_pb_round_2

“Escrever é o que eu gosto na vida. Criança, escrevia longos textos para mim mesma. Sim, fiz diários e os joguei fora, a tempo. Redações, eu tinha mania de fazer umas três, com estilos diferentes, para cada tema. Escolhia a melhor para entregar ao professor e oferecia as restantes a quem precisasse.

Às vezes escrevo para nada. Pelo prazer de ver as palavras se juntando às outras e formando frases que vão embrulhando ideias, desatando histórias, revelando sentimentos. Ainda escrevo para mim, como quando criança. Faço poesias, que escondo depois em arquivos, mostrando para um ou outro amigo. Abro o computador, numa hora vaga, em dia de ócio, e me deixo levar pelo som que as palavras têm, a música que eles carregam. Às vezes no meio de uma leitura muito árida, eu preciso do som das palavras livres.

Foi assim em uma tarde de sábado. Cansada de leituras pesadas que tinha feito, resolvi descansar e me deixar ficar em estado de preguiça, recostada num sofá. Abri o computador e a frase veio sem que eu esperasse por ela.

“O vulto que surgiu no quarto onde Larissa estava parecia tanto um fantasma que não podia ser”.

Parei. O que era aquilo? Palavras e mais palavras me atropelaram e eu retomei a escrita. Juntas, começaram a compor a cena de uma moça deitada em um pequeno quarto de uma fazenda e que vê algo no qual não acredita. Que não a assusta, mas a intriga. Ela, Larissa, carrega seus próprios pesares.

Continuei, meio espectadora do que eu mesma escrevia, duas mulheres se encontraram num cruzamento do tempo. Será um conto? A linhas tantas, abandonei tudo sem entender o que era. Havia escrito contos na adolescência, mas também tratara de jogar fora. Guardei só um. Aos 20 anos mandei para um concurso no Espírito Santo e recebi menção honrosa. Fui para o jornalismo, apaixonada pelo ofício. Abri o leque para exercer a profissão em todas as mídias, mas o maior dos amores sempre foi e será escrever. Se todas as janelas se fecharem, que essa permaneça aberta. Quero viver assim até o fim: catando palavras e com elas moldando o que queira.

Nos últimos anos, passei a escrever livros e ando feliz como um passarinho, porque com eles sonhei a vida inteira. Escrevi livro de não ficção e histórias infantis. Com a ajuda de Luciana, minha agente literária, publiquei três poesias na Itália. Mas aquele texto que surgiu do nada, me deixava inquieta. Continuei a buscá-lo nos intervalos da vida. Vinha uma ideia, eu escrevia. Estava ocupada em outro projeto grande – ainda estou – então aquelas cenas que vinham e cruzavam minha mente, eram perturbadoras. Não falava para ninguém o que escrevia naquelas horas. A fazenda, que no começo era só um quarto escuro, cresceu. Virou real, tinha muitos quartos, salas, janelões, pátios, cozinha, biblioteca e um enorme porão com mistérios. Eu a compus como uma colagem com pedaços de velhas lembranças e de lugares imaginados. Pessoas foram chegando, carregando dúvidas e fraturas da época da minha juventude, na ditadura. Mas o tempo da ação era o presente. O que era exatamente que eu escrevia? Melhor não contar para ninguém, decidi, e ele ficou, tão secreto quanto meus diários de menina.

– Que tanto você escreve? Perguntou Sérgio, meu marido.
– Uma coisa.

Chegaram mais personagens na história e um dia eu me revoltei. Estava ocupadíssima, com artigos para entregar, que invasão era aquela? Decidi que abandonaria o texto. O afastamento não durou muito. Uma noite, perdi o sono, abri os olhos no escuro e comecei a imaginar o que teria acontecido com aquelas pessoas que eu trancara no texto abandonado. A história, então, começou a se desdobrar. Uma família com uma divisão irreconciliável chegara à fazenda para uma comemoração: mãe, filhos, netos. Outra família chegara também com sua dor mais velha, carregavam as marcas da escravidão de quase dois séculos antes. Eles discutiam. Os irmãos divergiam. Em todos os tempos. Os conflitos eram privados mas, no pano de fundo, duas opressões públicas. De repente, imaginei uma cena e tomei um susto. Aconteceu isso? Me perguntei.

Levantei e fui escrever a cena que entrevira. Atravessei o resto da noite e vi a madrugada chegar, a manhã avançar, o dia se esgotar, escrevendo incansavelmente. As palavras chegaram todas juntas e fizeram fila ao meu lado, querendo ser escritas. A certa altura, abri novo documento e escrevi:

No escondido,
Escrevo.
Como num diário adolescente.
Roubo horas dos deveres
Me furto aos olhares
Dou desculpas
Minto.
Faço tudo pelo direito de ficarmos a sós.
E na história que me possui
Espalho dores minhas
Em bem distribuídos dotes.
Cada um carrega um fardo
Dos fardos meus
No escondido
Camuflo fraquezas
Ou as confesso abertamente.
Se não são minhas
Posso dizê-las
Sabendo que são de fato minhas
Mas que eu as deleguei
Furtivamente.
No escondido
Alegarei inocência
E aguardarei que cada um
Confesse um pecado
Dos pecados meus.

Era o dia dezesseis de dezembro de 2012, quando escrevi a poesia. Ainda levaria um ano escrevendo nos intervalos, nos escondidos, nas madrugadas. Entendi neste tempo que me preparara para escrever o livro durante muito tempo sem saber, em certas leituras que fiz. Em 2014, enfim pronto, revisto, impresso, eu me sentei para dar os primeiros autógrafos no livro “Tempos Extremos”, que lancei pela Intrínseca. Ele trata de dois passados mal curados: escravidão e ditadura. Eu o dediquei aos personagens. “Eles vieram do nada. Sem convite, sem aviso. Para eles escrevi. Em delírio e por deleite”.

Começou assim, numa hora vaga. E com aquela frase que me puxou para dentro da história. Era tudo ficção. Ou não?”

post

***

Crônica publicada originalmente no blog de Matheus Leitão: http://www.matheusleitao.com.br/7792-cronica-da-miriam-leitao-e-era-tudo-ficcao.html

 

orquideas

Ilustração: Tereza Bettinardi

Noemi Jaffe

No mesmo dia em que se concluía a revisão de Írisz: as orquídeas, romance meu que será lançado em maio, fiquei sabendo da morte de Armênio Guedes, que eu entrevistei um ano atrás justamente para compreender melhor o personagem Martim — brasileiro e, como Armênio, comunista dissidente.

Eu precisava entender o que significou, para a militância de esquerda brasileira, a invasão soviética na Hungria em 1956, um dos temas centrais da narrativa do romance. Sabia, em teoria, da ruptura que essa entrada dos russos em Budapeste tinha provocado. Mas queria conhecer a subjetividade dessa frustração, o alcance pessoal e concreto da dissidência.

Armênio me recebeu em sua casa, em São Paulo, onde passava os dias ouvindo música clássica, lendo e recebendo amigos e a família. Estava com 96 anos, reclamando muito de uma intervenção médica malsucedida e culpava o médico por sua audição deficitária e alguns outros problemas de saúde. Mas não era mau humorado. Tampouco carinhoso em excesso. Altivamente generoso, talvez. E isso, para mim, foi o mais importante, porque me ajudou a compor melhor a personalidade de Martim, que, como Armênio, é um homem rigoroso, mas não rígido; fraterno, mas não sentimental; simples, mas não simplista.

A dissidência de Guedes com relação a Prestes (de quem foi amigo e assistente) nunca representou renúncia a seus ideais de esquerda. Disse que, aos poucos, foi se tornando cada vez mais um gramsciano e me explicou, cuidadosa e dignamente, o que isso queria dizer, ao menos em seu caso. Me falou de todas as dificuldades por que passou o partido comunista no Brasil, seu período áureo e os tempos de censura e repressão. Me falou de seu irmão que, preso pela ditadura e com pavor da tortura, ameaçou estrangular quem o interrogava para poder ser morto a tiros e, assim, evitar ser torturado. Mas falava tudo isso com calma; sem nostalgia nem pesar, como cabe a uma consciência política que, mesmo depois dos 90 anos, continuava ativa e confiante. Gostava muito de Dilma, de Lula e de Fernando Henrique e dizia que o país nunca esteve tão bem, mesmo acompanhando todos os problemas que vinham acontecendo. Admirava muito Juscelino, que dizia ter sido um presidente verdadeiramente democrático, durante cujo mandato Armênio e o comunismo tiveram total liberdade de expressão.

Meu objetivo, ao encontrá-lo, além de estudar a história do comunismo no Brasil, suas divisões internas e sua continuidade, era, sobretudo, o de dar consistência particularizada a Martim, na medida de uma vida em ato e gesto e não em pensamento ou especulação. Armênio Guedes achava que o comunismo gramsciano levaria o país a um socialismo maduro e democrático. Foi nisso que ele acreditou e achava, quando eu o encontrei, que a evolução dos atuais governos estaria nos levando a esse caminho.

Como todo bom socialista, Armênio era um otimista. E, nesse otimismo, na dignidade simultaneamente orgulhosa e humilde de quem ajudou a construir a história da esquerda no Brasil, eu conheci um homem íntegro.

Espero que Martim também seja assim e que a memória de Armênio Guedes resista e seja honrada num personagem que é ficcional mas que, por isso mesmo, pode nos remeter à infinitude de detalhes do real.

* * *

Este artigo é uma reprodução do Blog da Companhia das Letras: http://www.blogdacompanhia.com.br/2015/03/infinitude-do-real/

2015-03-16_15.28.58

Por Alison Entekin

 

O começo de carreira do tradutor literário é complicado. Ninguém o conhece e construir uma clientela fiel leva tempo. E ainda assim é uma clientela diferente da do tradutor técnico ou jurídico, cujos clientes batem na sua porta com mais freqüência, pedindo traduções mais ou menos parecidas com as últimas. O cliente do tradutor literário, porém, não volta toda hora — mesmo quando o tradutor já tem um nome consolidado no mercado — porque a produção literária é mais espaçada e as traduções são apenas encomendadas quando há a possibilidade de publicação no exterior. Para ter o mesmo volume de trabalho que os outros, o tradutor literário independente tem que se virar, e muitas vezes precisa intercalar as traduções com outras atividades. Os trabalhos vêm pingando ao poucos, pelo boca a boca — o fulano que o indicou para beltrano, que repassou o contato para sicrano, que nunca o viu mais gordo. E é aí que mora o perigo.

Sem referências claras sobre o trabalho do tradutor, é natural que o cliente se sinta inseguro com relação à qualidade da tradução. Ele deve tirar dúvidas sim, e até fazer eventuais correções, mas — penso eu — se contratou alguém para fazer algo que ele mesmo não se sente apto a fazer, como é que vai dar pitacos editoriais sobre o texto final, principalmente sobre questões pertinentes à língua estrangeira? E, se é realmente necessário fazer tantas correções assim, eu diria que escolheu o tradutor errado.

O ideal é que se certifique da qualificação do tradutor antes de contratá-lo, pedindo mais informações da pessoa que o indicou, ou solicitando o currículo do tradutor e/ou exemplos de seu trabalho. Também pode pesquisar na internet. Mas, com freqüência, o cliente não se dá esse trabalho e liga logo para o tradutor, começando a conversa assim: “Quem me deu teu nome foi o beltrano… Você ainda está mexendo com tradução?” Assim mesmo: MEXENDO COM. Como se de uma hora para a outra a pessoa fosse parar de “mexer com” tradução e começar a “mexer com” outra coisa. Imagino que a pessoa que realmente “mexe com” tradução deva responder: “Sim, mandaí que eu faço. É sobre o quê mesmo?” Depois, quando o cliente estiver lendo a tradução e começar a duvidar de cada palavra usada,  ele vai xingar o tradutor sem nunca perceber que a culpa pode ser dele por ter contratado alguém que “mexe com” tradução. Esse é o cenário do cliente inseguro e o tradutor incompetente. Eu chamo este último de “mexe com”.

Mas existe outro cenário que é quase o contrário do descrito acima: o do tradutor competente e o cliente sabe-tudo. Este tipicamente morou alguns anos fora do país, o que o torna automaticamente um perito em tudo sobre a língua estrangeira. O sabe-tudo tem por certo que todo tradutor é um “mexe com”. Faz questão de ligar no telefone fixo do tradutor e insiste em falar em inglês (ou a língua que for) com quem quer que atenda, mesmo que seja a sogra ou um cuidador de idosos. Tem algo a dizer sobre cada aspecto da tradução e quer brigar sobre o uso correto de preposições (ele adora between e odeia in). O sabe-tudo não se aguenta, precisa mostrar que sabe mais que o tradutor, que é, afinal, uma espécie de processador de palavras, sem sensibilidade para perceber as nuances de seu texto. E o pobre tradutor só percebe com quem está lidando quando já é tarde demais.

Foi mais ou menos assim que travei contato com o Ilustríssimo. Usava o nome de músicos famosos como cartão de visita e se declarava íntimo dos que ele chamava de “a intelectualidade brasileira”. A tradução que ele pediu era pequena, coisa de duas ou três páginas, um release de seu novo trabalho. Era uma época corrida para mim e combinamos que eu ia entregar no final da semana seguinte. Mas o Ilustríssimo não se continha e ligava diariamente para perguntar se eu já tinha lido o texto dele e o que eu achava. E, quando ligava, falava sem parar, me custando pelo menos meia hora de trabalho a cada ligação. Deixei de atender o celular quando via o número dele no visor. Mas o infeliz tinha o número do meu fixo e começou a ligar nele, cinco, seis, sete vezes por dia. Quando eu não atendia o fixo também, ele passou a ligar de números desconhecidos. Parei de atender qualquer ligação com o prefixo 21. Só não o mandei tomar banho por respeito à pessoa que tinha me indicado a ele. E eu nem tinha começado o trabalho. O pior ainda estava por vir.

Quando entreguei as duas ou três páginas da tradução, respirei aliviada, achando que estava finalmente livre do chato. Ledo engano. No dia seguinte descobri que eu — mero processador de palavras que sou — tinha feito uma lambança da tradução, sem perceber a genialidade de seu lindo release. E o Ilustríssimo queria discutir cada detalhe, por telefone. Estava disposto a brigar até a morte para provar que at age five é melhor que at the age of five, e nonetheless é melhor que nevertheless, entre outras coisas. Depois me disse, em inglês, que eram exemplos de como a minha tradução poderia ter sido crispier. Acho que quis dizer crisper, sem o segundo “i”, o que seria “mais conciso”, mas crispier com o “i” — “mais crocante” — era infinitamente melhor! Gaguejei no telefone, tentando abafar uma gargalhada enquanto imaginava a tradução no forno, ficando crispier.

Pensei numa resposta irônica, mas o prazer de esfregar crispier na cara dele não valia as horas e horas de trabalho que eu ia perder numa discussão. Além do mais, ele não tinha me pagado, e embora o dinheiro não fosse muito, estava determinada a receber cada centavo, pelo princípio. Ninguém merecia tanto aborrecimento de graça.

Pois o Ilustríssimo também não se achava merecedor de tanto aborrecimento. Mandou o texto traduzido para um amigo, nativo, como fez questão de frisar. O amigo o revisou, trocando seis por meia dúzia e meia dúzia por seis. Era de outro país, tinha outro jeito de falar e de escrever. Mudou tudo para o jeito dele. E o Ilustríssimo me enviou o texto “corrigido”. Ele não enxergava as mudanças como preferências pessoais — eram provas concretas da minha incompetência. Perguntei ao Ilustríssimo por que ele não tinha pedido para o amigo fazer a tradução. E a resposta foi que o amigo não era tradutor profissional. Meu deus, pensei, se não é profissional como é que você confiou nele para corrigir o texto da tradutora profissional que contratou? Mas essa lógica não passou por sua cabeça. Continuou querendo discutir pontuação, preposições e artigos, e os ritmos que os mesmos impunham ao texto, coisas que só ele — é claro — seria capaz de perceber. Finalmente, semanas depois, ele se deu por satisfeito com o texto filho-de-Frankenstein que tinha criado a partir de trechos da minha tradução e recortes do texto “corrigido” do amigo — com alguns floreios de autoria própria. A esta altura, eu já estava concordando com qualquer sugestão que fazia, para me ver livre dele. Fiz as últimas mudanças que ele tinha pedido e apertei “enviar”.

Cinco minutos depois, chega um email dele gritando:

— MALDIÇÃO! PELO AMOR DE DEUS TIRE ESTE NÚMERO DO MEU TEXTO JÁ!

Não entendi nada.

— Que número? —  devolvi.

— O NÚMERO 13 QUE APARECE AÍ!

Olhei para o anexo e foi quando percebi que o arquivo tinha exatamente 13 kb.

O Ilustríssimo foi um divisor de águas para mim. A partir de então, passei a cobrar 50% do valor da tradução adiantado, para que o cliente divida comigo o risco. Ele corre o risco de eu não entregar ou de entregar uma tradução insatisfatória. E eu corro o risco de ele não me pagar ou de descobrir que é um psicopata. O Ilustríssimo, por exemplo, pagou com 3 meses de atraso. Evito atender pessoas que perguntam se eu “mexo com” tradução ou revisar as traduções de outros.

Espero, com todo o meu coração, que os sabe-tudos e os “mexe cons” da vida se encontrem, porque foram feitos uns para os outros. E que os autores legais e respeitosos encontrem tradutores competentes e atenciosos. E que todas as traduções, literárias ou não, sejam um pouco mais crocantes, por que não?

Crônica retirada da Coluna de Alison Entrekin: http://www.revistapessoa.com/2015/03/por-traducoes-mais-crocantes/