Sérgio Abranches

baumanZygmunt Bauman, nos deixou hoje. Ele foi o sociólogo e filósofo que melhor compreendeu os tempos que vivemos desde a dissolução da União Soviética. Tempos líquidos, como ele os caracterizou, com alguma dose de doçura e poesia. Mas a expressão poética, que se tornou viral, não empanou a visão crítica, muitas vezes ácida, desses tempos instáveis por natureza. Ele costumava agregar a essa fluidez dos tempos, sua característica essencial, de uma longa transição. Um interregno, ele dizia, seguindo os passos de Antonio Gramsci, para definir uma situação na qual os velhos modos de fazer as coisas já não funcionam, mas as formas de resolver os problemas de uma nova maneira efetiva ainda não existem ou não as conhecemos. Bauman mostrava que as organizações, as regras, o conhecimento tornam-se instáveis, liquefazem nesse interregno entre uma era histórica e outra. Nada está dado. A crise da ordem estabelecida é plenamente visível, a saída não está clara, as sementes em germinação da nova ordem são, muitas vezes, vistas com desconfiança e medo. São tempos de medo, ele disse.  E tempos de revoluções.

Em entrevista relativamente recente, de 2014, a Justo Barranco do Magazine Digital, Bauman explicou com argúcia e lucidez:

“As mudanças vão e vêm. Muita gente está convencida hoje de que já há alternativas, mas que são invisíveis porque ainda estão muito dispersas. […] E as mudanças podem já estar aqui. Minha tese, quando estudava, foi sobre os movimentos operários na Grã-Bretanha. Pesquisei nos arquivos do século xix e nos diários. Para minha surpresa, descobri que até 1875 não havia menção de que uma revolução industrial estava acontecendo, havia só informações dispersas. Que alguém havia construído uma fábrica, que o teto de uma fábrica desmoronou… Para nós era óbvio que estavam no coração de uma revolução, para eles não. É possível que quando entrevistes alguém dentro de vinte anos diga-lhe: quando entrevistei Bauman em Leeds estavam no meio de uma revolução e tu perguntavas a ele sobre a mudança.”

Em entrevista a Marcelo Lins, no programa Milênio, na Globonews, Bauman caracterizou de forma impecável o século XXI:

Este século é muito diferente do século 20. […] No “interregno”, não somos uma coisa nem outra. No estado de interregno, as formas como aprendemos a lidar com os desafios da realidade não funcionam mais. As instituições de ação coletiva, nosso sistema político, nosso sistema partidário, a forma de organizar a própria vida, as relações com as outras pessoas, todas essas formas aprendidas de sobrevivência no mundo não funcionam direito mais. Mas as novas formas, que substituiriam as antigas, ainda estão engatinhando. Não temos ainda uma visão de longo prazo e nossas ações consistem principalmente em reagir às crises mais recentes, mas as crises também estão mudando. Elas também são líquidas, vêm e vão […]

Bauman viveu intensamente essa transição, com o corpo e com a mente. Ele viu e viveu a ocupação nazista de sua Polônia natal, a formação da União Soviética, para onde escapou com a família da perseguição nazista aos judeus. Lutou contra eles, como instrutor para educação política do Primeiro Exército Polonês, sob controle dos soviéticos. Viu e viveu o auge e a dissolução da URSS. Viu e viveu as idas e vindas das sociedades da Europa Central em busca da recomposição e atualização de suas identidades societárias e políticas. Foi perseguido pelo Partido Comunista polonês, expulso da cátedra na universidade de Varsóvia, forçado a abrir mão de sua nacionalidade. Encontrou um novo lar acadêmico na universidade de Leeds. Hoje a Escola de sociologia e política social da universidade abriga o Bauman Institute, criado em 2010 em reconhecimento ao trabalho de seu professor emérito. O instituto tenta emular o espírito sociológico de Bauman em seus alunos, estimulando a conversação através das fronteiras entre do conhecimento, desconsiderando as divisões departamentais, com visão crítica e pluralista.

Bauman esteve entre os que perceberam com maior precisão as características da fase madura da Era Moderna. Seu livro Modernity and Ambivalence transformou-se em leitura obrigatória para se entender o apogeu e os sinais de declínio da modernidade. Nos anos 1990, dedicou-se a estudar a natureza fluida do interregno pós-moderno e suas manifestações extremadas, como o consumismo. Foi nesse processo que concebeu Tempos Líquidos, essa nossa época do efêmero e dos extremos, como a solidão do indivíduo, o terrorismo, o desemprego e o consumismo.

O que Bauman identificou como modernidade líquida foi essa fluidez das situações disruptivas que tanto nos angustia. Ele percebia que vivemos um tempo mutante no qual o que antes era concreto e dominado vai se desmanchando no ar, sem que as novas formas do concreto tenham amadurecido. Nessas situações de fluidez, experimentamos ainda mais fortemente a limitação da visão e a dificuldade de tomar consciência de que estamos sendo afetados pela história que se desenrola como um presente particular. Ainda estamos muito influenciados por ideias tradicionais e conceitos preconcebidos, imersos na situação vivida e com os olhos longe do horizonte do futuro.

Bauman poucos dias antes de morrer mostrava que mantinha essa lucidez premonitória sobre esse nosso presente e sobre nosso presente-futuro. Deixou-nos aos 91 anos, após viver o que se pode chamar de vida completa, ativa e cívica. Bauman não morreu antes de seu tempo. Morreu em sintonia com seu tempo e com a vida na plenitude de uma existência bem vivida. Ficamos tristes, mas que ventura e que privilégio termos tido entre nós mente tão brilhante.