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A agente Virginia Lopez-Ballesteros, cuja maravilhosa lista de autores de língua espanhola nós representamos para o Brasil, manda a notícia de que o filme EL REY DE LA HABANA, em processo de produção pela batuta do diretor maiorquino (de Maiorca) Agustí Villaronga, está quase pronto. Com Maykol Tortolo e Yordanka Salgado nos papeis principais, o filme será exibido nos festivais de Toronto e San Sebastian e estreia na Espanha no dia 25 de setembro. Depois seguirá para os festivais de Londres, Berlim e outros. Cuba fez de tudo para boicotar esse filme, baseado, como se sabe, no livro homônimo do escritor cubano Pedro Juan Gutierrez, mas em vão.

No Brasil, a notícia do filme há de alegrar especialmente o editor Marcelo Ferroni e sua equipe na Alfaguara. Há poucos meses, Marcelo contratou com a VB&M o novo romance de Pedro Juan Gutierrez, FABIÁN Y EL CAOS, uma de minhas mais comoventes leituras este ano, e aproveitou para renovar os dreitos de vários títulos do fundo de catálogo do autor já na Alfaguara e/ou Companhia das Letras, como O REI DE HAVANA.

O boicote de Cuba à produção do filme se deu sob várias formas mas a principal foi a proibição de filmar em Havana. Para o diretor, a proibição pareceu de início insuperável, porque a ambientação seria fundamental para o filme, e não se encontrava cenário em outro país que pudesse passar por Havana Velha. Como fazer fora de Havana um filme em que Havana é personagem, mais do que cenário? Finalmente, a equipe descobriu na República Dominicana um conjunto urbano bastante verossimilhante como ruas havanesas.

Estranho é que Cuba, tendo sido vítima por tantas décadas de um boicote americano, não soubesse que essa é uma tática que só funciona quando carrega algum elemento de justiça ou correção ética. Temer a arte é desprezível, querer punir um artista porque ele projeta uma visão crítica do regime é patético. Pronto, bem-feito, o filme está saindo da mesma maneira.

FABIÁN E O CAOS, o novo livro de PJG, é como toda sua obra duríssimo com a ditadura dos irmãos Castro. Pega os primeiros anos da revolução, que deveriam ter sido os melhores, e desvenda como o autoritarismo só funciona premiando os medícores; como o poder da mediocridade aplasta as personalidades mais frágeis, sensíveis, artísticas. No caso, Fabián, um jovem pianista que não consegue fazer carreira ou se mover pelos meandros burocráticos do mundo da música na Cuba revolucionária.

Como em todo seu trabalho autoficcional, PJG é personagem, mas secundário. Apesar de todas as diferenças de origem social e visão de mundo, Fabián e Pedro Juan são amigos, mas o segundo não consegue ajudar o primeiro a superar o caos objetivo e subjetivo que aniquila a todos, mas principalmente um talento como o do pianista. O título do livro é lindo, porque se trata da mais perfeita narrativa do caos.

(LVB)

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A coragem de Alison Entrekin: tradutora vai encarar GRANDE SERTÃO: VEREDAS, de Guimarães Rosa. Adoramos gente destemida.

Link para a matéria completa: http://www.revistapessoa.com/2015/07/o-nonada-no-mundo/

 

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Quem não é do meio talvez nem imagine, mas existe uma competição feroz entre as livrarias pelas noites de autógrafo de autores queridos e populares. Claro: um lançamento de um autor que trabalhe, digamos, na TV-Globo faz acorrer à livraria centenas de pessoas que compram o livro que está sendo lançado e, às vezes, muito mais. Um movimento na loja impossível de ser reproduzido sem uma noite de autógrafos. Imaginem então a disputa de um lançamento de Míriam Leitão, que atrai, além de muitos colegas e amigos, outro tanto de fontes de sua atividade jornalística, em geral nomes de grande prestígio, mais os parentes, mais os fãs.

Para o lançamento de HISTÓRIA DO FUTURO, em agosto, a Editora Intrínseca, que há muito tempo já mostrou a que veio em matéria de profissionalismo, foi salomonicamente sábia. Aproveitando que a autora tem bases profissionais e sociais em pelo menos três cidades, distribuiu as noites de autógrafo entre as livrarias Cultura, em Brasília, no Iguatemi; Travessa do Leblon, no Rio; e Saraiva, em São Paulo, no shopping Higienópolis.

Dessa maneira, a editora contará com o comprometimento de três cadeias livreiras importantíssimas e superabastecidas da obra, que contribuirão para a carreira de HISTÓRIA DO FUTURO. (Diga-se logo que o livro é mesmo fundamental para todo e cada brasileiro.)

Se a Intrínseca contemplasse somente uma ou duas redes, as outras fariam um chororô espetacular. Agora resta ver quem vai convidar para o lançamento de BH, onde Míriam tem (muita) família.

Só para terminar, não pensem que ser poderoso ou da Globo é o único critério para a cobiça das livrarias. Livreiros experientes sabem que quase qualquer professor universitário tem capacidade de lotar uma loja; por isso essa é outra categoria profissional muito disputada. O professor, no entanto, precisa mostrar que é querido. Se for, abarrota uma livraria de alunos e ex-alunos.

(LVB)

 

Os convites para os lançamentos: Brasília: https://www.facebook.com/events/1617808598476326/
Rio de Janeiro: https://www.facebook.com/events/1471016283197780/
São Paulo: https://www.facebook.com/events/406938389499345/

Eduardo Moreira reflete sobre a atitude do jovem profissional diante do ritmo de sua carreira.

 

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Um Waze para as carreiras

 

É incrível como alguns aplicativos podem gerar mudanças incríveis em nossos dias. Entram timidamente em nossas vidas propondo soluções para problemas que todos temos, e antes do que poderíamos imaginar nos tornamos quase que escravos de suas funcionalidades. Passa a ser difícil viver um momento glorioso sem poder compartilha-lo com os amigos através do facebook. O que dizer então de visitar um lugar lindo sem postar uma selfie no Instagram? Não tem a mesma graça. Receber uma lição de moral e não poder “twitta-la” para os amigos… Desesperador! E quanto a enviar uma mensagem pelo whatsapp e saber se já foi lida ou não? Nunca tivemos tanto poder para “cobrar” uma resposta do outro assim. Mas nem todas funcionalidades destes aplicativos são de ordem social. Algumas efetivamente trazem praticidade e eficácia para nossos dias. Como é o caso do Waze, o aplicativo que promete ter sempre a rota mais rápida para nos guiar no penoso trânsito das grandes metrópoles. E que na verdade oferece muito mais do que isso…

Ouvi recentemente, de um taxista, uma interessante colocação sobre qual seria o maior ganho que o Waze trouxe para a vida dos motoristas. E curiosamente não era o fato de trazer o melhor caminho para levar condutores de um ponto a outro da cidade. Segundo ele, o maior beneficio em usar este aplicativo era saber com grande acurácia o horário em que se chegará ao destino desejado. Além de permitir que o motorista se programe e adeque sua agenda para os trajetos que irá percorrer, o fato de saber que o horário previsto para chegada é o melhor que se pode fazer, retira como mágica a ansiedade do condutor. E ao retirar a ansiedade, permite que ele aproveite o caminho. Imediatamente imaginei como seria ter um Waze para as carreiras profissionais.

Ingressar em uma carreira significa percorrer uma trilha que promete levar do ponto A ao B. Da dependencia a independencia financeira. Do descaso ao respeito profissional. Do anonimato ao estrelato. E ao vislumbrarmos aonde queremos chegar, imediatamente surge um componente avassalador em nossas vidas: a ansiedade. Afinal não queremos apenas chegar ao destino final. Queremos chegar rápido! Mas o que é rápido? Um mês, um ano, dez anos? Ao não ter a resposta, rápido se transforma em agora. E a caminhada deixa se ser prazerosa e passa a ser agoniante, quase uma tortura. E numa atitude masoquista, raramente colocamos a culpa no “transito”. Achamos sempre que a culpa é do condutor, no caso nós mesmos.

Seria tão saudável saber que por mais esforço que fizéssemos, e por mais capazes que fossemos, seria impossível alcançar um objetivo profissional antes de uma data especifica. Afinal, existe um caminho que precisa ser percorrido. Carros que tem que ser ultrapassados. Sinais de transito que devem ser respeitados. Nos focaríamos apenas em fazer nosso melhor e em nos manter no melhor caminho. E tiraríamos de nós a ansiedade e a culpa de ainda não ter chegado lá. Curiosamente, ao tirar todo este peso das costas, o caminho ficaria mais divertido, prazeroso e fértil para o aprendizado. E ao promover essa mudança possivelmente receberíamos um aviso do Waze: “uma nova rota foi descoberta, seu tempo de percurso diminuiu”. Exatamente por deixar de ser uma preocupação…

Eduardo Moreira

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Ela é minha cabeça ao avesso, tudo que eu queria ser e não sou. Ela me completa. É papagaio de pirata, empoleirado no meu ombro, me censurando, e, doula paciente, ajudando nos partos mais dolorosos, ano após ano. Quando a chamo de “chata”, ela acha graça. “Mala sem alça”, praticamente chora. Porque, para nós, tradutoras literárias, são as atribuições mais elogiosas imagináveis. A gente se orgulha de ser cricri.

Conheci minha advogada do diabo anos atrás, no curso de tradução da Associação Alumni, em São Paulo. A primeira vez que a vi, estava toda de preto, com unhas azul-cintilante, meia-calça roxa comprada em Londres (escutei ela contando para outra pessoa), e uma improvável queimadura solar vermelho-camarão encobrindo a brancura paulistana habitual. Um dia, ela me deu carona para a pensão onde eu dormia quando estava em São Paulo, decidimos então ir a um bar próximo para continuar o papo. A dose se repetiu nas noites de aula seguintes, e a conversa nunca mais teve fim. Vibrávamos com as mesmas coisas, geralmente de ordem linguística. Nos cafezinhos entre aulas, trocávamos artigos sobre teoria de tradução e nos divertíamos cotejando textos originais e traduzidos para achar pistas que entregavam a direção da tradução.

Um dia, resolvi traduzir alguns contos da escritora goiana Augusta Faro, para enviar para algumas publicações no exterior. Se quisesse ingressar no mercado editorial, imaginava, era preciso ter currículo, coisas traduzidas e publicadas, para depois conseguir, quem sabe, que alguém me pedisse a tradução de um livro. Pedi para a Daniela ser minha revisora/consultora. Deu muito certo. Eu mandava os contos para ela com as dúvidas assinaladas e ela devolvia com explicações, contextos e empurrões em outras direções. O que mais me encantava era a sua maneira de lançar luz sobre as partes mais encrencadas do texto sem insistir nesta ou naquela solução. É claro que, quando lhe ocorria alguma coisa óbvia, falava, mas a maior parte do tempo ela me contava uma historinha que me levava a enxergar aquilo de forma diferente, ou sugeria que eu investigasse tal sinônimo ou “algo nessa linha”.

Mas ela não parava por ali. Também olhava as coisas que não tinha pedido para olhar, e quando via algo que a incomodava, falava. Foi aí que descobri, com muita alegria, que ela era muito chata. As nossas conversas, sempre à noite, por ela ser uma criatura noturna (sem falar que as ligações interurbanas eram menos caras – ainda não existia o Skype), eram um verdadeiro cabo de guerra entre línguas e culturas. Discutíamos acepções, impressões e associações por horas a fio. Desligávamos só para beber água e ir ao banheiro, e em seguida retomávamos a conversa. Às vezes, ficávamos um tempão em silêncio, cada uma metida num dicionário de sinônimos. E aquilo era maravilhoso.

Era tão maravilhoso que fiquei esperta: quando ficava ligeiramente em dúvida sobre alguma coisa, mas não muito, eu passei a não grifar nada. Ela é tão obsessiva que, se eu grifava algo, era capaz de cismar sobre aquilo por dias a fio até chegar a alguma conclusão, ou cismar sem fim. Mas se eu não grifava, ela só chamava minha atenção àquilo que realmente a incomodava. E, como o taco dela é tão bom, eu queria aproveitar sua reação espontânea, em vez de eu ir lá plantar uma semente de dúvida numa mente já pra lá de surtada.

Depois vieram os livros. Não pude trabalhar com ela em todos, mas em todos os mais difíceis trabalhei (Cidade de Deus, O filho eterno, Perto do coração selvagem, entre outros). Quando é assim, e sei que vou alugá-la um monte, pago alguma coisa – sempre menos do que ela merece, mas proporcional ao que eu ganho. E quando sei que só vou alugá-la um pouquinho, lá vou eu pedir ajuda fiado, e a gente pendura na conta de um futuro hipotético em que todos os profissionais do livro ganham bem e as contas são acertadas da forma mais justa.

Quando ela viaja ou quando, às quintas-feiras, a faxineira dela está passando o aspirador e não dá para conversar, é um sofrimento. Mas, depois de tantos anos de convivência, se eu começar a elaborar minhas dúvidas para ela num email, às vezes consigo até escutar sua voz me dizendo para olhar em outra direção, e encontro a solução.

Bem que ela me disse que seu masterplan era me viciar. Já tentei me livrar dela, sem sucesso. Nas vezes que tentei tirar dúvidas com pessoas “normais”, tive que dar tanto contexto para que a pessoa compreendesse a dúvida, para depois ouvir um “acho que sim” ou “acho que não” ou “sei lá, nunca pensei nisso”, que desisti. Com ela, meia palavra basta. Às vezes nem isso. Às vezes basta grifar uma palavra ou frase e ela já sabe por que estou surtando, porque sabe como penso. E essa economia de tempo e palavras não tem preço. Adoro não ter que me explicar. Até chegamos a desenvolver uma espécie de taquigrafia para encurtar ainda mais as palavras necessárias para chegar a um entendimento. VDB, por exemplo, significa o “valor do bonitinho”, quando a graça ou fofura da palavra é tão ou mais importante que o significado. “Superornou” é o mais alto elogio. E um suspiro ao telefone pode ser uma de duas coisas: ou a tradução está péssima, ou ela nem sabe por onde começar a responder a dúvida. De qualquer maneira, significa que estou frita.

Alguns anos atrás, ela deixou de trabalhar como tradutora em tempo integral porque estava deprimida com o mercado e as baixas perspectivas. Por ser perfeccionista, ela não consegue entregar um texto perfeito em menos tempo do que o necessário, o que acaba esbarrando no prazo… e como ela é muito cricri, imagine quão perfeito tem que ser! Só que, de forma geral, o mercado não remunera pelo perfeccionismo e o tempo gasto para chegar lá, e sim por lauda, ou por palavra, o que realmente torna a sobrevivência do tradutor perfeccionista problemática (falo por experiência própria). Foi fazer outras coisas da vida, mas nunca conseguiu largar de vez a tradução. E eu continuo batendo na porta dela toda hora, por hábito, por vício, por amor. Porque ela estava lá na gênese de tudo. Porque sem ela não dá.

REPRODUÇÃO DO SITE REVISTA PESSOA: http://www.revistapessoa.com/2015/05/minha-mala-sem-alca/

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Em nome da Seven Stories Press, vamos começar a representação de um romance magnífico, que está mexendo com o mundo psicanalítico norte-americano e, se publicado no Brasil, vai chacoalhar o nosso também. É o novo livro da feminista Anne Roiphe, The Ballad of the Black and Blue Mind (daríamos o título de “A balada dos deprimidos”), uma narrativa que, tendo Nova York como pano de fundo, conta histórias de ladrões e cleptomaníacos, crianças infelizes, gente que se auto-mutila e que está perturbada quanto à própria sexualidade _ tudo sob o ponto de vista da dra. Estelle Berman, uma psiquiatra que vive e trabalha no Upper West Side.

A dra. Estelle é capaz de perceber sinais de seu próprio declínio, aceitando-o da maneira como observa as idiosincrasias de seus pacientes, uns mais queridinhos que outros. São gente como Justine, filha de um colega, estrela do cinema muito louca, que não consegue deixar de provocar os paparazzi, criando complicações para si; Edith Forman, poeta espaçosa cujos finos livros que publica têm a magreza que ela não consegue conquistar fisicamente; e Anna, uma universitária que se auto-mutila, filha de renomados professores. Há ainda Gerald, o filho de Estelle, que nunca criou com ela a intimidade que tinha com o falecido pai. E agora tem também o neto de Estelle, filho de Gerald, o primeiro a se tocar de que algo muito errado está se passando com a própria psiquiatra.

O romance ganhou uma resenha estrelada da Booklist, legítimo objeto de desejo dos escritores americanos. Diz a publicação: “(o romance) explora o arsenal completo das emoções, motivações e frustrações humanas através do mundo rarefeito daqueles cujo trabalho é decifrar o comportamento da espécie.” Finaliza afirmando que, com uma prosa pungentemente bela e incrivelmente sábia, Roiphe demonstra uma paixão brilhante e aguda pela investigação e pela compreensão da vida humana.

Ficcionista e ensaísta, Anne Roiphe já publicou dezoito livros, desde os romances Up the Sandbox e 1185 Park Avenue até volumes de memórias como Art and Madness e Epilogue. Fruitful foi finalista do National Book Award. Ela colabora frequentemente com The New York Times Magazine, Vogue, Elle; já teve colunas no The New York Observer e no The Jerusalem Post.

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Por Alison Entrekin

Começou com um email do Cristovão Tezza no qual brincou: “Ainda quero escrever um romance ‘inglês’ clássico. Penso nisso – linguagem clean, tempos precisos etc. Será que um brasileiro consegue?” Não consegui tirar a pergunta da cabeça. Sem saber, ele tinha tocado em algo que eu vinha sentindo faz tempo, mas que ainda não havia articulado muito bem para mim mesma. Vou tentar agora.

Toda vez que vou verter um texto brasileiro para o inglês, fico impressionada com a quantidade de coisas que são suprimidas no português, e lá vou eu fazer aquele trabalho de formiguinha, devolvendo para o texto as migalhas da gramática faltantes, numa série de preenchimentos obrigatórios para que o texto ganhe sentido em inglês. Faço os sujeitos ocultos mostrarem a cara, tiro pronomes oblíquos e complementos de verbos dos esconderijos, decido se os “seus” e “suas” são deste ou daquele personagem e, como na cena de um crime, vou forensicamente atribuindo partes de corpos (o braço, a cabeça) a seus donos (her arm, his head). E imagino que os tradutores trabalhando na outra direção vão apagando essas micropartículas lingüísticas tão essenciais em inglês que devem soar repetitivas demais – ou até desnecessárias – em português.

Também fico impressionada com a relativa liberdade que o brasileiro tem com os tempos verbais do passado. Em inglês, numa narrativa no passado, quando há menção de uma ação anterior ao tempo da narração, usamos o pretérito mais-que-perfeito – o passado do passado. Em português, nem sempre. Muitas vezes o pretérito perfeito fica no lugar do mais-que-perfeito. É engraçado que quase não reparo nisso durante a leitura do original e ao longo do processo de tradução, mas, invariavelmente, na hora de revisar a tradução em inglês, aquela anarquia de tempos verbais salta aos olhos, e lá vou eu – a formiguinha – botar ordem no passado.

Até aí, nenhuma novidade, traduzir de um idioma para outro é isso – o tradutor procura trazer à tona na tradução as coisas que são óbvias para leitores do original.

Nos primeiros anos de carreira, a sensação que eu tinha era de que tudo ia se desanuviando à medida que eu passava o texto para o inglês, e por muito tempo atribuí isso ao simples fato de eu não ser nativa da língua portuguesa e sim da língua inglesa. Faz sentido que as coisas pareçam mais em foco na língua nativa, não?

Mas, com o passar do tempo, nesta queda de braço diária com textos brasileiros, comecei a notar outras coisas que sempre pedem explicitação. Se eu tivesse que chutar, eu diria que – diferentemente do inglês, que tem um verbo para cada jeito de andar ou olhar – o português tem mais palavras e frases polivalentes, dificílimas de traduzir pelo leque de possíveis traduções. São várias, mas minha favorita é “disfarçar”, principalmente quando aparece sozinha sem nenhuma pista. Disfarçou. Como assim, “disfarçou”, sem mais nem menos? Para passar para o inglês, preciso saber o que a pessoa fez para fingir que não estava fazendo outra coisa. Sem uma palavra igualmente abrangente em inglês, vou à cata de mais informações, que às vezes nem estão no original.

Também dão trabalho os diminutivos e aumentativos, que encapsulam várias informações numa só palavra e transmitem ironia e humor de maneira ímpar. Recentemente, num fórum online de tradutores literários, alguns de nos ficamos discutindo uma única “inha” (de “professorinha”) durante um dia e meio! Às vezes, na descompactação necessária para transpor a idéia toda para o inglês, é difícil manter a graça do original – talvez porque a graça resida justamente no fato de as informações serem mais implícitas, menos na cara, quase uma inside joke. A primeira vez que me dei conta disso foi com a palavra “orelhudinho”, que me provocou um excesso de riso quando percebi a volta que teria que dar para dizer a mesma coisa em inglês. “Menino/homem pequeno de orelha grande” não tem a mesma graça.

Na fase de edição, fico admirada com as perguntas dos editores de língua inglesa. Questionam cada detalhe dos livros – não só a escolha de palavras e a gramática, mas a lógica interna do texto. Devolvem os manuscritos com dúvidas do tipo: “Se está algemado, como é que vai alcançar a chave no criado-mudo?” Muitas vezes há uma explicação plausível. Neste caso, uma página antes há uma rápida menção de um certo jogo nas algemas, compradas num sex shop, e depois, de fato, se esticando e se contorcendo, o protagonista consegue pegar a chave. Mas se algum detalhe desse tipo não for tão explicito no texto, os editores sugerem que seja. Independentemente de serem – numa análise mais rigorosa – verossímeis ou não, são coisas que geralmente passam pelo autor, editor, revisor, leitores, tradutor etc. sem ninguém notar. Parece haver uma confiança maior por parte dos brasileiros que o leitor vai acompanhar, que vai preencher qualquer lacuna usando a imaginação e o raciocínio. Mas as editoras de língua inglesa – sobretudo as americanas – parecem ter uma etapa de revisão a mais, justamente para pegar qualquer deslize ou ambigüidade. Acho um luxo ter uma pessoa com olhos “virgens” para ler o texto e procurar possíveis defeitos, ao mesmo tempo que me pego pensando – naqueles devaneios a que sou dada – se a “suspensão voluntária da descrença” do Coleridge anda um pouco menos voluntária nos países de língua inglesa de hoje. Será?

Bom, se você já chegou à conclusão de que nós anglófonos somos um tanto pedantes, acho que somos, de certa forma. Pelo menos somos mais apegados às certas regras que os brasileiros — sem que isso contenha qualquer julgamento de valor. Aliás, eu acho que o brasileiro navega as entrelinhas com uma desenvoltura extraordinária.

Deixando de lado os textos para pensar um pouco na vida no Brasil, muitas coisas obedecem a uma série de subentendidos, em que nada é tão preto ou branco quanto pode parecer para alguém de fora – de modo que um brasileiro dificilmente vai tomar um “vamos combinar” ou um “passa lá em casa” ao pé da letra. E mesmo quando algo de concreto seja combinado, o horário pode ser bem elástico, principalmente na vida social. Ainda me divirto com o fato de ser possível marcar um encontro num bar para uma janela de tempo – entre tal e tal hora – em vez de um horário fixo. E, uma vez no bar, não é falta de educação dizer “me vê mais uma” omitindo o “por favor”, se a inflexão da voz for simpática, ou se a frase começar ou terminar com um “amigão”, ou coisa que o valha. Ou, se a voz não alcançar, um dedo indicador apontado para o copo vazio seguido por um dedão erguido[1] dá conta do recado, para citar apenas um de centenas de gestos que substituem ou acompanham as palavras, constituindo quase uma terceira dimensão da fala brasileira.

Se as coisas não são tão preto ou branco na vida no Brasil, porque seriam na literatura? Não estou dizendo que todos os autores brasileiros são superelípticos na maneira de escrever, nem que nós anglófonos não sejamos capazes de lidar com textos sofisticados ou sutis, mas, de forma geral, acredito que procuramos referentes mais fixos nos nossos textos. Comparado com a gente, creio que o brasileiro depende um pouco menos do que é explícito e tira o sentido das coisas de uma série de outras fontes. É um bom entendedor por excelência.

 


[1] Esse gesto específico é usado fora do Brasil também, mas o vocabulário de gestos brasileiros é imenso. Aposto que se eu falar “lotado” ou “sei lá” ou “fodeu”, um brasileiro já consegue visualizar o gesto que exprime aquilo.

[Reprodução do site Revista Pessoa: http://www.revistapessoa.com/2015/04/o-bom-entendedor/]

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EVENTO LEMBRA QUE LITERATURA NÃO É SINÔNIMO DE BEST-SELLER

BETTY MILAN

 

A abertura oficial de um evento em geral é aborrecida. A do Salão do Livro de Paris de 2015, no entanto, foi alvissareira, graças à intervenção do atual ministro da cultura, Juca Ferreira, que se valeu da ocasião para lembrar que a literatura explora e amplia as possibilidades da língua, revelando o seu tesouro. Noutras palavras, afirmou, em alto e bom som, que literatura não é sinônimo de best-seller, como quer o mercado. Só para ouvir isso, já teria valido a pena estar presente.

Juca Ferreira lembrou que, sendo a mais solitária das atividades, a literatura é a mais coletiva, pois, através da sua memória, o autor expressa a de todos. Em outros termos, a literatura está a serviço da pátria linguística. Terminou dizendo o que precisa ser dito e repetido: a cultura é decisiva para qualquer projeto de desenvolvimento sustentável, pois a paz requer a mudança das mentalidades.

Evocou a importância da relação entre a cultura francesa e a brasileira, que data de quando o Brasil ainda sonhava com a República porque, como diz Mario Quintana, o que devemos à França não é a cultura francesa, é a cultura universal.

A esse discurso contundente se seguiu uma mesa da qual participaram Renato Lessa, presidente da Biblioteca Nacional, Felipe Lindoso, do Itaú Cultural, Jefferson Assunção, do MinC, e o escritor Fernando Morais. Renato Lessa insistiu na importância da internacionalização da literatura brasileira e afirmou, oportunamente, que o programa de formação de tradutores da Biblioteca não será sazonal, pois ela é a guardiã do patrimônio bibliográfico brasileiro.

Fernando Morais fechou a mesa dizendo que, para transportar a cultura de um país para o outro, a mais poderosa das instituições é a arte. Lembrou que os Estados Unidos conseguiram o prodígio de transformar os caubóis em heróis —a exemplo de John Wayne, que encarnou o maior dos genocídios cometido pelo país. Na mesma linha, evocou o último filme de Clint Eastwood, “Sniper Americano”, que consagra a brutalidade americana, sacralizando o assassinato.

Concluiu, falando da cultura como “soft power”, insistindo na ideia de que a cultura exerce influência sem violência, podendo portanto ser um instrumento de paz. Assim, a unificação da Angola se deve à língua portuguesa.

Quem participou do Salão do Livro de Paris em 1998, como eu, percebe que, desde então, muitas águas rolaram. Isso também se deve a uma organização mais afinada —com tradutores bem formados para acolher os escritores— e uma curadoria que não deixa nada a desejar.

BETTY MILAN é escritora e psicanalista, autora de “Carta ao Filho” (ed. Record)

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Ilustração: Tereza Bettinardi

Noemi Jaffe

No mesmo dia em que se concluía a revisão de Írisz: as orquídeas, romance meu que será lançado em maio, fiquei sabendo da morte de Armênio Guedes, que eu entrevistei um ano atrás justamente para compreender melhor o personagem Martim — brasileiro e, como Armênio, comunista dissidente.

Eu precisava entender o que significou, para a militância de esquerda brasileira, a invasão soviética na Hungria em 1956, um dos temas centrais da narrativa do romance. Sabia, em teoria, da ruptura que essa entrada dos russos em Budapeste tinha provocado. Mas queria conhecer a subjetividade dessa frustração, o alcance pessoal e concreto da dissidência.

Armênio me recebeu em sua casa, em São Paulo, onde passava os dias ouvindo música clássica, lendo e recebendo amigos e a família. Estava com 96 anos, reclamando muito de uma intervenção médica malsucedida e culpava o médico por sua audição deficitária e alguns outros problemas de saúde. Mas não era mau humorado. Tampouco carinhoso em excesso. Altivamente generoso, talvez. E isso, para mim, foi o mais importante, porque me ajudou a compor melhor a personalidade de Martim, que, como Armênio, é um homem rigoroso, mas não rígido; fraterno, mas não sentimental; simples, mas não simplista.

A dissidência de Guedes com relação a Prestes (de quem foi amigo e assistente) nunca representou renúncia a seus ideais de esquerda. Disse que, aos poucos, foi se tornando cada vez mais um gramsciano e me explicou, cuidadosa e dignamente, o que isso queria dizer, ao menos em seu caso. Me falou de todas as dificuldades por que passou o partido comunista no Brasil, seu período áureo e os tempos de censura e repressão. Me falou de seu irmão que, preso pela ditadura e com pavor da tortura, ameaçou estrangular quem o interrogava para poder ser morto a tiros e, assim, evitar ser torturado. Mas falava tudo isso com calma; sem nostalgia nem pesar, como cabe a uma consciência política que, mesmo depois dos 90 anos, continuava ativa e confiante. Gostava muito de Dilma, de Lula e de Fernando Henrique e dizia que o país nunca esteve tão bem, mesmo acompanhando todos os problemas que vinham acontecendo. Admirava muito Juscelino, que dizia ter sido um presidente verdadeiramente democrático, durante cujo mandato Armênio e o comunismo tiveram total liberdade de expressão.

Meu objetivo, ao encontrá-lo, além de estudar a história do comunismo no Brasil, suas divisões internas e sua continuidade, era, sobretudo, o de dar consistência particularizada a Martim, na medida de uma vida em ato e gesto e não em pensamento ou especulação. Armênio Guedes achava que o comunismo gramsciano levaria o país a um socialismo maduro e democrático. Foi nisso que ele acreditou e achava, quando eu o encontrei, que a evolução dos atuais governos estaria nos levando a esse caminho.

Como todo bom socialista, Armênio era um otimista. E, nesse otimismo, na dignidade simultaneamente orgulhosa e humilde de quem ajudou a construir a história da esquerda no Brasil, eu conheci um homem íntegro.

Espero que Martim também seja assim e que a memória de Armênio Guedes resista e seja honrada num personagem que é ficcional mas que, por isso mesmo, pode nos remeter à infinitude de detalhes do real.

* * *

Este artigo é uma reprodução do Blog da Companhia das Letras: http://www.blogdacompanhia.com.br/2015/03/infinitude-do-real/

Uma mulher, com pouco mais de 30 anos andava, com passos firmes e curtos, em um enorme quintal. O vento balançava ligeiramente a saia rodada e atrapalhava seus cabelos finos e muito lisos. No céu, o sol não dava trégua. Havia algumas árvores nas beiradas do terreno, uma goiabeira grande e carregada oferecia sua sombra e frutos numa área lateral. A maior parte da terra, no entanto, era aberta, um descampado. Atrás dela alguns homens seguiam em silêncio carregando pás e enxadas. Ela olhava em volta, mirava o chão e, às vezes, encarava o céu. Investigava. A luz do dia fazia seus olhos ainda mais azuis; sua pele, mais branca.

Em silêncio ela andava; em silêncio os homens a seguiam. A mulher se distanciava da casa, depois voltava mais um pouco. Caminhava para a esquerda, voltava. Procurava. Atrás dela, os homens e suas ferramentas. Cada vez que parava, retomava o ritual de interrogar o céu, o entorno e o chão. Em um determinado ponto, parou decidida. Voltou, então, o rosto convicto para os homens e disse:

– Aqui. Podem cavar aqui. E desenhou um círculo imaginário.

Eles começaram. Não demorou muito e eles gritaram para a mulher que já voltara para o trabalho na casa.

– É aqui mesmo!

As crianças correram para ver. Ela veio conferir e baixou novo decreto

– É boa, podem continuar a cavar.

Assim foi feito o poço da casa. Ela conhecia a técnica e explicou aos trabalhadores como cumprir cada etapa da construção do poço. Enfatizou a segurança da tampa que afastava as crianças dos riscos. Ela trouxera o conhecimento talvez da fazenda em que passara sua infância.

Ninguém mais na casa se preocupou com o abastecimento incerto da empresa fornecedora de água da cidade. Nunca se tirou mais do que o poço poderia suprir. Ele estava sempre cheio. Mesmo assim os filhos eram orientados a escovar os dentes, ou tomar banho usando apenas o necessário. Uma parte da água usada era reutilizada em funções menos nobres. Ela criara a fartura e alertava sobre a escassez. O gasto a mais, ela se permitia apenas quando fazia a limpeza geral da cozinha. Então, ela se divertia com os pés descalços na água, como se o trabalho fosse uma brincadeira. Ou quando aguava a horta que plantou numa parte do quintal e que enchia a mesa de verduras e legumes. Seus banhos eram sempre frios e saía deles com ânimo juvenil.

O Brasil estava se urbanizando rapidamente, da forma improvisada de sempre, com serviços públicos precários. O desmatamento avançava na Zona da Mata, produzindo desequilíbrios. Nas estiagens, os vizinhos pediam baldes de água. Levavam. Ela sabia encontrar a água, previa sua chegada e temia sua força.

– Vai chover – decretava, às vezes, mesmo sem sombra alguma no céu.

Chovia.

– Está armando uma tempestade – dizia.

A tormenta caía com violência. Então, ela pedia baixinho:

– Jesus, misericórdia.

Se piorasse muito e raios cortassem os céus, ela aumentava o fervor da oração. Um dia, o marido programou um passeio numa cachoeira da vizinhança. Ela disse que tinha muito trabalho a fazer. Ficaria. Ele levou os filhos maiores e a irmã caçula da mulher. Ela orientou as crianças sobre os perigos das águas. Todos se cuidaram. A irmã se descuidou. Por um tempo, que pareceu longo demais, a moça forte e morena afundou nas águas. Foi resgatada com esforço.

– Não digam nada para a sua mãe quando chegarmos em casa. Deixem que eu sei como contar para não assustá-la – avisou o homem.

A moça ainda meio fraca seria a última a sair do carro para não assustar a irmã. As instruções foram seguidas. Crianças em silêncio, a moça, mais atrás, e o homem bem na frente.

– Onde está minha irmã? O que aconteceu com ela? – perguntou aflita a mulher tão logo viu o marido.

– Ela está bem, veja você mesma, mas quem te contou?

– Um pressentimento.

Assim eram ela e a água. Uma relação de respeito, medo, conhecimento e prenúncio. Ela sabia onde as águas moravam, temia seus excessos e sua ausência.

Era assim, a mulher. Com uma sabedoria que nem sei explicar. Nessa seca dei de me lembrar dela assim, do nada, tentando entender pelo menos um dos seus muitos mistérios. Estava linda, Mariana, minha mãe, andando no quintal, investigando céu, terra e ar atrás da água que nos abasteceria.