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Só mesmo a chegada de um livro espetacular para tirar Nelsinho Villas-Boas do abatimento profundo em que se encontra com a situação política brasileira. Para tal, não teria livro melhor do que PRESOS NO PARAÍSO, de Carlos Marcelo, que está saindo do forno pelas habilidosas mãos de Raquel Cozer, na Tusquets/Planeta de Livros Brasil.

O romance de estreia do premiado jornalista é literatura policial em sua melhor forma. Ambientado em Fernando de Noronha, tem um quê de Agatha Christie, com a ação confinada a um espaço isolado do resto do mundo, tão típica na autora inglesa. A narrativa fluida alterna muito sutilmente entre a primeira e a terceira pessoas, e os protagonistas são cativantes, Tobias e o delegado Nelsão.

Nelsão, por sinal, de quem Nelsinho é grande fã, inclui nosso chefe de segurança nos agradecimentos da obra. Apesar de figura constante no meio literário, já tendo sido até capa de A CABEÇA DO CACHORRO, de Alexandra Horowitz, é a primeira vez que Nelsinho recebe agradecimentos formais num livro. Ficou emocionado.

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É com grande alegria que compartilhamos a notícia de que A CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA, de Lúcio Cardoso, grande clássico da literatura brasileira e obra maior do autor, foi o vencedor da edição deste ano do Best Translated Book Award, BTBA, que premia todos os anos o melhor romance e a melhor não ficção traduzidos para o inglês.

Para nós, da VB&M, dá uma satisfação imensa ver a consagração do autor no exterior, principalmente nos EUA, mercado tão difícil de se entrar. Lúcio é um exímio autor cuja obra não tem, até hoje, o reconhecimento merecido. Temos trabalhado muito em sua divulgação no Brasil e no exterior, buscando dar a ela a visibilidade concernente a tamanho clássico de nossa literatura. E o prêmio do BTBA não poderia vir mais a calhar.

Gostaríamos de fazer um agradecimento especial a Chad Post e Kaija Straumanis, da Open Letter Books, que acreditaram no poder da CRÔNICA antes de o romance ser conhecido lá fora e contrataram os melhores tradutores possíveis para verter ao inglês obra de tal magnitude: Margaret Jull Costa e Robert Patterson. A eles, nosso especial parabéns.

And the Winners of the 2017 Best Translated Book Awards Are…

Silviano Santiago e sua obra estão a mil! Em maio, chegará às livrarias italianas a edição de STELLA MANHATTAN da Baldini & Castoldi, charmosa editora independente que contratou também MIL ROSAS ROUBADAS e está fazendo um lindo trabalho com a obra do autor. A capa do livro está belíssima, super moderna, traduzindo perfeitamente a ideia de um romance que não poderia ser mais atual.

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Além do desembarque em território italiano, sairá também em maio a edição chilena de O FALSO MENTIROSO, na prestigiosa coleção do Prêmio José Donoso, maior honraria da literatura latino americana, da qual Silviano foi vencedor em 2015.

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Em terras tupiniquins, foi publicado ontem, no Instituto Cervantes, no Rio, TELQUELISMOS LATINO-AMERICANOS, de Jorge Wolff, trabalho de teoria crítica baseado no conceito desenvolvido por Silviano do entre-lugar dos trópicos, bastante conhecido dos estudiosos da literatura. Saiu pela novíssima editora carioca Papéis Selvagens.

Como uma empresa majoritariamente feminina, dirigida e tocada por mulheres e cujos membros homens valorizam e admiram a importância e competência de nosso trabalho, podemos dizer que a coluna de Miriam Leitão hoje, no Globo, nos representa.

No texto, Miriam se vale de toda a sua delicadeza e inteligência para acabar com Temer e seu ideário machista, chamando atenção a um fato importante: não foi gafe o que cometeu nosso assim chamado presidente. Antes fosse! Foi convicção, como ele mesmo disse, palavrinha maldita que parece agora ter virado moda. Ele tem convicção de que o papel da mulher é cuidar da casa e dos filhos e o do homem, trabalhar e dar sustento a eles. Pobres homens e mulheres esses de seu universo bitolado, dividido em castas intransponíveis e antiquadas. Temer parou no tempo, com sua máscara de Drácula passou ao largo das mudanças pelas quais o mundo vem passando e não percebeu que recatada e do lar, só mesmo a Marcela. Coitada. Até hoje, não entendeu que o lar, os filhos, o supermercado e o casamento são responsabilidades mútuas de um casal, seja este composto como for. Não entendeu que trabalhar, gerar renda, entender de economia, mecânica, física, liderança, design ou o que quer que seja são funções e aptidões humanas, não de gênero. Que homens e mulheres devem ter não só os mesmos direitos e deveres na sociedade, como as mesmas possibilidades, e que isso não acontecerá enquanto não se entender que homens e mulheres podem igual. Que a única grande diferença entre eles é que mulheres geram gente, e isso deveria ser valorizado ao invés de penalizado. Que enquanto as mulheres ganharem menos, enquanto a violência contra elas_ nós!_ for absurdamente maior e mais covarde, enquanto seus corpos forem mandados e desmandados por Dráculas e Diabos de colarinho branco e batina, nada vai mudar.

Mas nosso assim chamado presidente não entende nada disso. Para ele, deve ter feito mesmo uma baita homenagem à sua Rainha do Lar e a todas as rainhas dos lares brasileiros. Bom é ver que a homenagem não poderia ter sido mais refutada e que no que depender de nós, nosso assim chamado presidente deveria ser empurrado num carrinho de supermercado de volta ao inferno de seu mundinho limitado. E para o seu lugar, que tal chamarmos o Trudeau? Afinal, se os franceses fazem campanha para Obama ser presidente da França, podemos nós também pedir Trudeau aqui no Brasil.

Não foi gafe

POR MÍRIAM LEITÃO

Não foi gafe do presidente. Ele é assim. Estava convencido de que era uma homenagem às mulheres quando disse toda aquela coleção de frases feitas e velhas que confirmam o papel tradicional da mulher. Michel Temer, quando organizou seu ministério só com homens, ouviu críticas. Prometeu, então, procurar alguém “do mundo feminino”. Para ele, somos do outro mundo.

É preciso ter estado muito desatento nos últimos 50 anos para não ter visto a revolução passar. Mulheres mudaram tudo: valores, comportamentos, atitudes. Ainda lutam, ainda enfrentam bloqueios e desigualdades, mas estão virando a vida de ponta cabeça desde os anos 1960. Há precursoras antes disso. O livro seminal sobre o assunto é o “Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, publicado há exatamente 68 anos, cuja leitura ensina sobre a alteridade da mulher: ela é vista como o diferente, o outro, uma pessoa do outro mundo.

Ele sequer notou o que há de errado na frase “o quanto a mulher faz pela casa, o quanto faz pelo lar, o que faz pelos filhos”. Alguém ao seu lado, do grupo que tem se esforçado para dizer que ele foi mal interpretado, deveria informá-lo que isso reforça o detestável estereótipo da “rainha do lar”. As mulheres fazem muito hoje por muito mais: nas escolas, nos hospitais, nas redações de jornais, nas pesquisas científicas, nas companhias aéreas, nas construções, no mercado financeiro, na administração pública, na política, no Judiciário. Difícil é encontrar uma área onde as mulheres não estejam fazendo muito.

Colocando a educação dos filhos como tarefa da mulher, e não dos dois, em outra frase infeliz — “seguramente, isso quem faz não é o homem” — de novo, Temer reforçou o estereótipo. Ao contrário do que diz o presidente da República, isso é seguramente tarefa dos pais, dos dois, e não de uma pessoa só.

O discurso parecia perdido já, sem qualquer chance de salvação, quando Temer lançou uma frase que parecia levar a alguma ideia atualizada. “Eu vou até tomar a liberdade de dizer que na economia também a mulher tem participação”. Seria hora de falar que as mulheres quebraram barreiras na economia brasileira sendo determinantes na direção das empresas, no marketing, no jornalismo econômico, como economistas. E em quanto ainda falta para corrigir-se a ofensiva desigualdade salarial. Ele poderia ter reduzido o dano do seu discurso desatualizado, mas completou o desastre sugerindo que a participação da mulher na economia é fazer as compras de supermercado.

Não é gafe. Esse é o horizonte do seu entendimento. É assim que ele vê a mulher e seu papel na sociedade. O presidente não foi informado de que hoje a tarefa de fazer as compras de supermercado tem sido cada vez mais assumida pelos maridos, e que em lares modernos não se diz mais que a função da mulher é ir às compras para abastecer a despensa. É dos dois.

O presidente sempre diz, e repetiu no discurso, ter aberto a primeira delegacia da mulher. E falou de outra iniciativa. “E sobremais, ainda estabeleci que uma das mulheres teria assento na reunião de líderes, para ter voz e voto”. Nada sobre o fato de que as mulheres deveriam ser líderes, e não ficar de ouvintes nesse colégio.

É difícil explicar o que há de errado com as frases ditas no Planalto, para quem não entendeu até o momento. Felizmente, a maioria do país entendeu. As mulheres estão no meio de travessia difícil em que muito foi conquistado e muito precisa ser conquistado. É um meio do caminho em que há motivo para orgulho, mas também para novos protestos. Ela tem mais escolaridade do que o homem e tem salários menores. Ainda é vítima de violência, mas já denuncia agressores. As desigualdades estão em toda a parte. A luta é contra a ideia de que às mulheres cabe apenas cuidar da casa, dos filhos, fazer as compras de supermercado. E foi exatamente esse estereótipo que se fortaleceu no dia da mulher no Palácio do Planalto.

Quando seu ministério foi organizado só com homens brancos, seus defensores diziam que ele havia escolhido pelo mérito. Ou seja, não havia visto competência que não fosse masculina. Tantas quedas de ministros depois, pode-se perguntar qual era mesmo o mérito dos senhores escolhidos.

O Publishers Market Place anunciou ontem a venda que fizemos para Ana Paula Costa, na Bertrand Brasil, em nome da Seven Stories Press, do mais recente livro de Noam Chomsky, REQUIEM PARA O SONHO AMERICANO, considerado pelo próprio autor seu opus magnum.

Chomsky é um dos pensadores mais influentes da contemporaneidade e, pela primeira vez, dedica um livro inteiro, organicamente desenvolvido, não um conjunto de ensaios, ao tema da desigualdade de renda e riqueza. A franqueza sem precedentes com que expõe suas ideias políticas, a amplitude e profundidade de seu pensamento e o didatismo com que analisa questões as mais complexas são impressionantes. REQUIEM PARA O SONHO AMERICANO há de ficar para a posteridade como uma de suas contribuições mais importantes e seminais para o pensamento político.

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Baseado em quatro horas de entrevistas feitas pelos editores do livro com o autor, REQUIEM PARA O SONHO AMERICANO é um ensaio produzido junto com o documentário long-form homônimo, que vem angariando os mais entusiasmados aplausos nos mais diversos festivais e sempre que é exibido nas universidades americanas. O trailer do documentário, disponível no Netflix, está causando furor.

https://www.youtube.com/watch?v=zI_Ik7OppEI

A Seven Stories Press publicará o livro nos EUA em maio de 2017. Por aqui, a tradução será iniciada assim que for entregue o manuscrito final, prometido para muito breve. Por ora, sairá também na Itália, Espanha, Grécia, Croácia, Turquia, Japão e China. Mas a lista está crescendo! De nossa parte, fechada a negociação no Brasil, o foco agora é a terrinha.

O Publishers MarketPlace noticiou esta semana a venda de MERCADORES DE GENTE, último livro de Loretta Napolioni, para a Ítaca, em Portugal. Isabel Castro e Silva, que fundou a editora e cuida sozinha da bela lista que vem construindo, já publicou A FÊNIX ISLAMISTA, livro anterior de Loretta, com grande sucesso na terrinha. Além de excelente literatura adulta e livros infantis de altíssima qualidade, ela vem focando em obras que questionem e dialoguem com a atual e ainda seríssima crise dos refugiados que vive a Europa.

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Em Berlim, de onde escrevo, tenho acompanhado de perto o desenrolar da situação. E é triste. Além do drama inicial da fuga, da perigosa travessia para a Europa e dos imensos obstáculos enfrentados na chegada, há um momento posterior de adaptação a um novo país, uma nova cultura, uma nova língua, combinados a uma espera longa, dura, e a uma esperança profunda de que a vida volte a andar no trilho, qualquer que seja ele. Esse pensamento me assalta por aqui a toda hora, nessa cidade à parte da Alemanha, habitada por estrangeiros de dentro e fora do país que é a capital alemã, e me põe a refletir sobre a importância de se pensar e falar sobre o assunto. Em tempos sombrios como os que vivemos, em que a intolerância parece se disseminar como praga, precisamos pensar sobre o outro. Sobre nós e sobre os outros. Tirar os olhos de nossos próprios umbigos e nos colocar no lugar do outro. O egoísmo e o desrespeito humanos são estarrecedores…

E é por isso que livros como os de Loretta Napolioni são importantes. Com linguagem acessível, ambos A FÊNIX ISLÂMICA/ISLAMISTA e MERCADORES DE GENTE dão ao leitor um panorama didático sobre a profunda crise humana que vivemos. Porque muito além de europeia, a crise dos refugiados é sintoma de uma doença da espécie, que vemos em metástase por todo o planeta. Enquanto A FÊNIX ISLÂMICA/ISLAMISTA dá o beabá do surgimento do Estado Islâmico, MERCADORES DE GENTE relata a cruel realidade da bilionária indústria do sequestro e tráfico de pessoas desenvolvida e explorada por grupos europeus em parceria a jihadistas no Oriente Médio.

No Brasil, MERCADORES DE GENTE está chegando às livrarias pelas mãos de Ana Paula Costa, na Bertrand, editora responsável também pela edição brasileira da FÊNIX. Recebemos as provas de capa e miolo recentemente e podemos garantir que o trabalho está impecável.

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Cumprida a missão da venda, ficamos na expectativa dos lançamentos. Que os livros tão cuidadosamente trabalhados possam chegar a seus leitores e neles despertar as reflexões e questionamentos que nos suscitaram. Afinal, essa é, também, mais uma das funções da literatura lato sensu.

Chegaram à agência nossos exemplares de O REMANESCENTE, de Rafael Cardoso, que está saindo do forno no Brasil pela Companhia das Letras. O romance de não ficção, resultado de longa pesquisa e imersão de Rafael na história de sua família, narra o trágico exílio de Hugo Simon, bisavô do autor, sua esposa e filhas, da Europa para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.

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O nosso exemplar, recém chegado.

Além de grande narrativa, O REMANESCENTE é protagonizado por personagens tão interessantes e fascinantes que ao terminar a leitura não há como discordar de que suas histórias não poderiam deixar de ser contadas. Rafael tomou para si a responsabilidade com grande competência e o resultado é um livro espetacular.

Recém publicado na Alemanha pela S. Fischer Verlag, DAS VERMÄCHTNIS DER SEIDENRAUPEN está super bem exposto nas livrarias do país. Garanto isso por Berlim, de onde eu, Anna Luiza, escrevo e onde todas as livrarias contam com uma bela pilha do livro, e por Frankfurt.

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Fico ansiosa agora pela recepção dos leitores brasileiros à belíssima edição preparada pela Companhia das Letras. Há de ser das melhores!

Que Edney Silvestre é um grande autor, não há dúvidas. Mas o que a belíssima resenha de Daniel Moutinho Souza, mestre em Literatura Comparada pela UFRJ, sobre BOA NOITE A TODOS deixa muito claro é a excelência de uma produção literária simples, no sentido de ser boa de ler, e ao mesmo tempo exímia em sua construção e versatilidade. Com uma obra que a cada ano se torna mais robusta, Edney tem grandes chances de ser alçado ao panteão da crítica universitária. E não sou eu que estou dizendo…

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RESENHA DO LIVRO BOA NOITE A TODOS,

de Daniel Moutinho Souza, Mestre em Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro

O quarto livro de ficção de Edney Silvestre, Boa noite a todos (2014), confirma o autor como exímio criador e desenvolvedor de personagens e sua versatilidade no emprego de técnicas narrativas.

O romance de estreia de Silvestre, Se eu fechar os olhos agora (2009), era um thriller meio aventura, meio policial, em que dois meninos investigavam um assassinato na cidade em que viviam no interior do estado do Rio de Janeiro. Tendo como ponto de partida o dia em que o cosmonauta soviético Yuri Gagarin foi ao espaço, o tema central era a perda da inocência num momento símbolo da história da humanidade. No livro seguinte, A felicidade é fácil (2011), o fundo político emoldurava a ação – neste caso, as negociatas de agências de publicidade no financiamento de campanhas eleitorais na Era Collor. O sequestro por engano de uma criança era apenas pretexto para um projeto literário mais ousado: o crime é narrado de diversos pontos de vista, cada qual iluminando um personagem ou conjunto de personagens que se formam vivamente na imaginação do leitor. O terceiro romance, Vidas provisórias (2013), mais uma vez inovava na abordagem da ação. O enredo retoma um personagem de cada um dos livros anteriores, os quais têm em comum a experiência do exílio: Paulo, um dos protagonistas de Se eu fechar os Olhos agora, e Bárbara, coadjuvante em A felicidade é fácil. Suas histórias são continuadas em capítulos alternados, até um encontro surpreendente na sequência final, que então integra os universos das primeiras obras em um só.

Boa noite a todos é um passo à frente nessa trajetória em todos os aspectos: narrativo, linguístico, estrutural. Ele começa como uma novela, com apenas uma personagem: Maggie, que, após uma vida de intensa atividade social, casamentos com três homens de nacionalidades diferentes, se vê envelhecida, empobrecida, abandonada, e entra num hotel de luxo carioca disposta a suicidar-se. A narração se dá com interrupções do fluxo de memória da personagem, em discurso indireto livre. Porém, devido a uma sequência de derrames cerebrais sofridos por Maggie, as lembranças se confundem, são incoerentes e incompletas, dando à novela o tom angustiado de quem tenta organizar os pensamentos, reconstituir sem sucesso sua própria biografia:

Diga que está bem, que o tempo está ótimo, que a temporada na Côte está mais febricitante do que nunca, diga que Monte Carlo ferve com o beautiful people de toda a Europa, diga, escreva, bastam duas linhas ou três, conte que havia muito tempo que Courchevel não via tanta gente linda e interessante e que… Courchevel? Côte d’Azur? Ninguém mais vai a esses lugares. Que coisa mais démodé. Tanto quanto a própria palavra démodé. Você não vai mais, Maggie. Porque não pode. Não tem como.
(SILVESTRE, 2014, p.11)

Em recordações que vão e voltam, incertas como se levadas pelas ondas do mar, conhecemos os maridos dela: o “dourado” Harry, seu grande amor, herdeiro de uma rede de lojas nos Estados Unidos, que a trocou por um rapaz; Henri, diretor de filmes western baratos, ruins e muito lucrativos na Europa; e PR, brasileiro arrivista cujos hábitos Maggie refinou e que terminou por lhe extrair a maior parte dos bens e o que lhe restava de autoestima.

A narrativa caótica de Maggie, conduzida discretamente – mas com firmeza – por um narrador em terceira pessoa, é recheada de citações a árias, filmes, canções populares e celebridades da segunda metade do século XX, principalmente Jackie Kennedy, com quem Maggie teria semelhanças físicas e de estilo. A maioria dessas imagens tematiza a proximidade da morte, como a referência constante a Beim Schlafenghen, poema de Hermann Hesse, musicado por Richard Strauss, e a presença de livros das poetisas suicidas Sylvia Plath e Florbela Espanca na mala da protagonista.

Trata-se de um verdadeiro quebra-cabeças: quanto mais perto do fim, mais nitidez adquire o desenho formado. À medida que o leitor (re)constrói os fragmentos da personagem, o suicídio de Maggie torna-se não apenas inevitável, como desejável, uma libertação para uma vida que conheceu grandes momentos, frequentou a alta sociedade e se encontra sem rumo e sem esperanças. Um retrato de uma aristocracia decadente moral e economicamente, como no Leite derramado de Chico Buarque, mas com resultado ainda mais contundente.

Ao final, Edney Silvestre explica, em ligeiro ensaio sobre “A construção dupla” de seu livro, que “antes mesmo de se completar como prosa, Boa noite a todos começou também a brotar como texto teatral” (Ibid., p.179). Com efeito, é difícil ler a novela e não a imaginar como um monólogo teatral: um único cenário e uma única personagem, cujo discurso se desenrola aos olhos do leitor. Apesar disso, Silvestre conta que não pensou no texto “como monólogo, mas, sim, como uma peça de uma única personagem” (Ibid., p.179); por outro lado, não explica o que considera como a diferença entre eles.

O autor demonstra versatilidade em um terreno no qual ainda não se aventurara: o drama. Repórter de televisão experiente, Edney Silvestre está ciente dos diferentes tratamentos à linguagem escrita e a que visa à oralidade. “A peça originada da novela, que acabou por levar a transformações do texto em prosa”, oferece um interessante complemento à novela. Por exemplo, a canção Beim Schlafenghen, que pontua a narração, intensifica o potencial dramático da despedida de Maggie ao funcionar como trilha sonora. Apesar da inevitável redundância entre os dois textos – em prosa e dramático –, Silvestre alcança um resultado original e interessante, assim como a criação do discurso errático de Maggie.

A “construção dupla” de Boa noite a todos é, na verdade, tripla: novela, peça em um ato e o ensaio que o encerra e explica a estratégia de composição da obra. Ele reflete sobre diferenças entre os textos em prosa e dramático contextualizando algumas referências intertextuais da novela. Apesar de pouco profundo, é um acréscimo interessante, na medida em que permite que o leitor desbrave o propósito do autor, como um making-of.

Em vista disso, apenas seria dispensável, nas páginas finais do volume, o “mosaico de Maggie”, seção que volta a explorar diversas referências culturais e intertextuais presentes ao longo do texto. Uma narração em forma de quebra-cabeças, caracterizada por idas e vindas de uma mente debilitada e caótica, poderia deixar essa tarefa a cargo do leitor, como peças adicionais do jogo. Mas não é nada que ameace os méritos da obra, em especial o de lançar um olhar generoso e piedoso sobre uma personalidade destroçada, abstendo-se de julgá-la quando opta por interromper sua história.

Como retrato da decadência econômica e moral de uma pretensa aristocracia carioca, a obra de Silvestre alcança momentos de excelência. Boa noite a todos, em suma, torna mais próximo o momento em que a crítica universitária se verá diante da obra de Edney Silvestre.
Dados da obra resenhada: SILVESTRE, Edney. Se eu fechar os olhos agora. Rio
de Janeiro: Record, 2009.

http://www.revlet.com.br/artigos/326.pdf

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O novo romance de Rafael Cardoso, O REMANESCENTE, é estupendo. Perfeitamente definido pelo conceito de nonfiction novel, criado por Truman Capote, é daqueles livros que só se larga, e a muito custo, ao terminar. Conta a história real, porém romanceada, de seu bisavô Hugo Simon, um judeu, banqueiro, socialista e colecionador de arte, figura importantíssima na República de Weimar e grande financiador da resistência ao nazismo, que fugiu da Alemanha para um trágico exílio no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.

A história da família é fascinante e Rafael fez um trabalho de pesquisa e reconstrução históricas espetacular, traduzido em forma de romance com acuidade e profundo talento narrativo. As personagens são densas, seus dramas, vivos; e as transformações por que vão passando ao longo da narrativa nos fazem sentir quase que na pele suas dores, angústias e pequenas alegrias.

O REMANESCENTE será publicado simultaneamente no Brasil e na Alemanha, por Companhia das Letras e Fischer, respectivamente, em outubro próximo, e a campanha pré lançamento da Fischer está a todo vapor. Recebemos ontem o catálogo da temporada da editora, com página dupla dedicada ao livro, que sairá com o título de “Das Vermächtnis der Seidenraupen” (“O legado dos bichos da seda”, em tradução livre). Haverá, também, edição holandesa, pela Niew Amsterdam, mas essa só em meados do ano que vem.

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PARIS-BREST é uma delícia. Misto de memórias de viagem, romance e livro de gastronomia, é, acima de tudo, um mergulho de seu autor, o jornalista Alexandre Staut, em suas paixões: gastronomia, literatura, encontros. Verdadeira ode ao bem viver, ao deliciar-se com os pequenos prazeres da vida e ao encontro consigo mesmo a partir das sensações e aprendizados propiciados pelo novo, PARIS-BREST nos transporta para um mundo quase paralelo de sabores, aromas e texturas, numa paisagem de aquarela à beira mar apetitosamente descrita a partir de seu ambience gastronômico.

A capa de PARIS-BREST aberta.

A capa de PARIS-BREST aberta.

De sua chegada a L’Aber Wrach, pequenina cidade na costa bretã, sem dominar o francês e tendo por conhecido apenas o amigo e a partir de então sócio Yann Danjou, ao momento em que decide retornar ao Brasil, deixando para trás as diversas cozinhas de restaurantes e casas francesas nas quais viveu um par de anos de encontros e aprendizados – que nós, leitores, percebemos absorvidos na voz do narrador que anos depois nos conta suas memórias –, Alexandre deixa de ser menino para se tornar adulto, aprende a lidar com a vida como particular e intransferível e a fazer escolhas que só a maturidade pode permitir. Verdadeiro romance de formação, como bem escreveu Humberto Weneck no texto de orelha do livro, a narrativa cresce com o autor desvendando o descobrimento de um homem e o surgimento de um grande cozinheiro. Um cozinheiro, não um chef, porque este é profissão e aquele, aptidão; e a profissão de Alexandre – gratos somos nós pelo que descoberto foi em L’Aber Wrach – é escrever.

Mas não é só de tudo isso de que é feito o livro. Todo salpicado de receitas recriadas e aprendidas na Bretanha, Normandia e Loire, várias vezes dá vontade de fechá-lo e correr para a cozinha. E se muitas vezes a preguiça prevalece, o que não falta é água na boca e um desejo profundo de se transportar para o momento idílico e saboroso em que o livro se encontra. Os pratos são tão recheados de aroma e sabor que – quase – nos saciamos com sua descrição. Os personagens são tão vivos e delineados que às vezes dubitamos serem reais ou fruto da mais fina imaginação. E as cozinhas e os restaurantes, as dificuldades e as conquistas de se construir algo seu são tão sensorialmente descritos que nos parece estarmos lá. Quando nos damos conta, estamos vivendo um pedaço de uma história que parece nosso e de que não sabemos em que ponto deixa de ser história para se tornar ficção.

Ainda bem que na arte da literatura isso não importa. O que importa é a experiência ofertada pelo livro. E esta, em PARIS-BREST, é nada menos do que uma delícia.