Nosso Blog

O Estado de Minas fez uma matéria linda sobre a chegada do acervo do escritor mineiro Autran Dourado, obra do catálogo de clássicos brasileiros da VBM, a Belo Horizonte. Obedecendo à vontade do autor, a UFMG tem o privilégio de acolher toda a biblioteca de Autran reproduzindo inclusive o ambiente do gabinete de trabalho do grande autor de A ÓPERA DOS MORTOS, A BARCA DOS HOMENS, SINOS DA AGONIA, UMA VIDA EM SEGREDO, entre muitos outros livros.

Nós temos o privilégio de reproduzir aqui um texto do curador da obra, o filho do autor, Lúcio Autran. É o adeus aos livros do pai, que tanto marcaram sua formação. De dar nó na garganta, pelo amor e pelo desencanto diante da falta de envolvimento dos brasileiros com sua própria literatura, mas também pela gratificação de ver o tão bem cuidado acervo nas mãos de quem saberá respeitar e valorizar a grande obra autraniana.

“E assim, de forma um pouco dolorosa, mas gratificante, foram-se os arquivos e a biblioteca de meu pai no rumo de seu desejo.

Dolorosa, porque foi nesse escritório, que agora se esvazia, que aprendi que o trabalho de um escritor deve ser respeitado, no sagrado silêncio que minha mãe nos impunha durante todas as manhãs, que era quando, religiosamente, ele escrevia. Ali, também descobri que esse ofício é árduo e exige disciplina – Apolo a serviço de Dioniso, como deve ser toda criação – pois, além de ser diário, era comum deparar-me com o plano de seus romances construídos, literalmente, a régua e compasso.

E foi ali também que aprendi a não acreditar no tão exaltado quanto execrado pelo velho Autran mito que ainda insiste nestes trópicos: o mito do “gênio analfabeto”.

Ali adquiri o prazer da leitura, pois se uma imagem ficou de meu passado era a de meus pais lendo e a casa e os corredores repletos de livros.

Quantas vezes o vi levantar-se, pegar um livro nessas estantes, hoje tão quase desertas, para uma consulta, ou mesmo pelo mero prazer do manuseio. Assim também foram inúmeras as vezes que, após conversar comigo sobre algum assunto, estender as mãos como quem dá a comunhão a um filho, mas com um livro, dizendo: “leia isso”. Foi assim com “Procura da Poesia”, do Drummond.

Me lembro, e quase choro, de uma vez em que eu, na natural prepotência de um pré-adolescente, tive um texto “furtado” por ele, e depois corrigido, carinhoso e divertido, após se “denunciar”: “não use vozerio, meu filho, vozeio é tão mais bonito” (e é), em seguida, meio brincando, meio à vera, pois ele não era dado a estimular precocidades (“quantos gênios não se tornaram perfeitos imbecis por causa dos pais?”, ele gostava de se perguntar, já respondendo), me disse, e mais tarde descobriria, com tristeza, que tinha razão: “não escreva, não, filho, que isso dá muito trabalho e frustração, num país de analfabetos de todas as classes”. Entretanto, na manhã seguinte, lá estava, sobre minha mesa, o livro “Aspectos do Romance”, do Forster, com a singela dedicatória: “para meu filho e amigo. Autran”. Livro que um dia, ah, arrependimento, emprestei para um filho da puta, cujo nome não me recordo, nem quero, e que jamais me foi devolvido. Esse, eternamente arderá no fogo de um ciclo do Inferno que nem Dante imaginou…

Mais tarde, para ficarmos no assunto, ele me deu um livro de entrevistas com vários escritores, entre eles Barthes, chamado: “Escrever… Para quê, para quem?”, mas com a grave advertência: “essa pergunta, filho, é para escritores europeus, nós, brasileiros, se a fizermos, nos matamos antes da resposta”. 

E ali, naquela biblioteca, li escondido – ou nem tanto – alguns romances mais “fesceninos”, e acabo de lembrar, entre o riso e o nó na garganta, foi ali que aprendi meus primeiros palavrões, num daqueles inúmeros… dicionários! Quanta transgressão!

Sim, dói muito, mas é também gratificante saber que seus arquivos, tão zelosamente organizados por sua companheira de vida inteira, amor tão real de quase imaginário, minha mãe, irão para mãos que saberão respeitar sua memória e literatura e valorizá-las, hoje bem menos faladas do que merecem.

Ali estará, junto com um ambiente reproduzindo seu escritório, tudo aquilo que se chama – e como ele gostava do termo – a “genética do texto”, à disposição de estudantes e estudiosos de sua obra.

E, para além de tudo isso, também é gratificante atender um desejo expresso tantas vezes por ele, quando vivo, de que gostaria que tudo fosse entregue aos cuidados da UFMG, talvez a universidade brasileira com mais teses escritas sobre sua vasta obra, e o fez também por testamento, do qual participei na feitura de seus termos, mas que, sinceramente, tem o valor de mera formalidade, o que interessou foi sua vontade manifestada de viva voz, e agora satisfeita por seus filhos. E assim foi feito.

E agradeço especialmente às minhas irmãs Ofélia Autran Dourado e Inês Autran Dourado, que, por morarem no Rio, ajudaram na concretização desse projeto que tanto significa para nós quatro, e puseram a “mão na massa” nessa empreitada.

Também agradeço aos professores Reinaldo Marques, da UFMF, e Henrique Mello, da FUNDEP, que financiou essa produção, pelo cuidado e pelo entusiasmo demonstrados na empreitada, que envolve, naturalmente, grande carga emocional. Também não posso deixar de mencionar o escritor e crítico Silviano Santiago pela amizade e delicadeza que sempre teve com os meus pais, enquanto vivos, e que permanece após as suas mortes, pessoa fundamental para que o desejo de meu pai se concretizasse.

Vai-se, assim, um pedaço de minha vida, mas fica a alegria de ter convivido com o homem, talvez uma personagem de si mesmo, um homem que, como escrevi quando de sua morte, conhecia os riscos, reais e imensos, de “brincar de Deus”, afinal, outro não é o ofício dos prosadores.

Por tudo isso, feita a sua vontade, repito aqui sua antiga dedicatória, embora saiba que você não a ouvirá:

“Mais uma vez, adeus, meu pai”.

E amigo.        

Lúcio Autran”

Clique aqui para ler a matéria completa.

Comentários ( 0 )

    Deixe um comentário

    O seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *