junho 2017

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No blog Angústia Criadora, Ney Anderson publica excelente crítica sobre PRESOS NO PARAÍSO, de Carlos Marcelo, em que destaca o som do vento na recriação da paisagem de Noronha, que nos faz sentir de volta à ilha ou, quem jamais foi lá, pela primeira vez imerso naquele ambiente poderoso. Fala também da música no livro, perfeita trilha sonora. Carlos Marcelo deveria por nas páginas de abertura todos os títulos de músicas mencionadas ao longo da narrativa de maneira que o leitor pudesse fazer uma playlist para acompanhar a leitura.

Fernando de Noronha entre mistérios e sombras

O Estado de Minas fez uma matéria linda sobre a chegada do acervo do escritor mineiro Autran Dourado, obra do catálogo de clássicos brasileiros da VBM, a Belo Horizonte. Obedecendo à vontade do autor, a UFMG tem o privilégio de acolher toda a biblioteca de Autran reproduzindo inclusive o ambiente do gabinete de trabalho do grande autor de A ÓPERA DOS MORTOS, A BARCA DOS HOMENS, SINOS DA AGONIA, UMA VIDA EM SEGREDO, entre muitos outros livros.

Nós temos o privilégio de reproduzir aqui um texto do curador da obra, o filho do autor, Lúcio Autran. É o adeus aos livros do pai, que tanto marcaram sua formação. De dar nó na garganta, pelo amor e pelo desencanto diante da falta de envolvimento dos brasileiros com sua própria literatura, mas também pela gratificação de ver o tão bem cuidado acervo nas mãos de quem saberá respeitar e valorizar a grande obra autraniana.

“E assim, de forma um pouco dolorosa, mas gratificante, foram-se os arquivos e a biblioteca de meu pai no rumo de seu desejo.

Dolorosa, porque foi nesse escritório, que agora se esvazia, que aprendi que o trabalho de um escritor deve ser respeitado, no sagrado silêncio que minha mãe nos impunha durante todas as manhãs, que era quando, religiosamente, ele escrevia. Ali, também descobri que esse ofício é árduo e exige disciplina – Apolo a serviço de Dioniso, como deve ser toda criação – pois, além de ser diário, era comum deparar-me com o plano de seus romances construídos, literalmente, a régua e compasso.

E foi ali também que aprendi a não acreditar no tão exaltado quanto execrado pelo velho Autran mito que ainda insiste nestes trópicos: o mito do “gênio analfabeto”.

Ali adquiri o prazer da leitura, pois se uma imagem ficou de meu passado era a de meus pais lendo e a casa e os corredores repletos de livros.

Quantas vezes o vi levantar-se, pegar um livro nessas estantes, hoje tão quase desertas, para uma consulta, ou mesmo pelo mero prazer do manuseio. Assim também foram inúmeras as vezes que, após conversar comigo sobre algum assunto, estender as mãos como quem dá a comunhão a um filho, mas com um livro, dizendo: “leia isso”. Foi assim com “Procura da Poesia”, do Drummond.

Me lembro, e quase choro, de uma vez em que eu, na natural prepotência de um pré-adolescente, tive um texto “furtado” por ele, e depois corrigido, carinhoso e divertido, após se “denunciar”: “não use vozerio, meu filho, vozeio é tão mais bonito” (e é), em seguida, meio brincando, meio à vera, pois ele não era dado a estimular precocidades (“quantos gênios não se tornaram perfeitos imbecis por causa dos pais?”, ele gostava de se perguntar, já respondendo), me disse, e mais tarde descobriria, com tristeza, que tinha razão: “não escreva, não, filho, que isso dá muito trabalho e frustração, num país de analfabetos de todas as classes”. Entretanto, na manhã seguinte, lá estava, sobre minha mesa, o livro “Aspectos do Romance”, do Forster, com a singela dedicatória: “para meu filho e amigo. Autran”. Livro que um dia, ah, arrependimento, emprestei para um filho da puta, cujo nome não me recordo, nem quero, e que jamais me foi devolvido. Esse, eternamente arderá no fogo de um ciclo do Inferno que nem Dante imaginou…

Mais tarde, para ficarmos no assunto, ele me deu um livro de entrevistas com vários escritores, entre eles Barthes, chamado: “Escrever… Para quê, para quem?”, mas com a grave advertência: “essa pergunta, filho, é para escritores europeus, nós, brasileiros, se a fizermos, nos matamos antes da resposta”. 

E ali, naquela biblioteca, li escondido – ou nem tanto – alguns romances mais “fesceninos”, e acabo de lembrar, entre o riso e o nó na garganta, foi ali que aprendi meus primeiros palavrões, num daqueles inúmeros… dicionários! Quanta transgressão!

Sim, dói muito, mas é também gratificante saber que seus arquivos, tão zelosamente organizados por sua companheira de vida inteira, amor tão real de quase imaginário, minha mãe, irão para mãos que saberão respeitar sua memória e literatura e valorizá-las, hoje bem menos faladas do que merecem.

Ali estará, junto com um ambiente reproduzindo seu escritório, tudo aquilo que se chama – e como ele gostava do termo – a “genética do texto”, à disposição de estudantes e estudiosos de sua obra.

E, para além de tudo isso, também é gratificante atender um desejo expresso tantas vezes por ele, quando vivo, de que gostaria que tudo fosse entregue aos cuidados da UFMG, talvez a universidade brasileira com mais teses escritas sobre sua vasta obra, e o fez também por testamento, do qual participei na feitura de seus termos, mas que, sinceramente, tem o valor de mera formalidade, o que interessou foi sua vontade manifestada de viva voz, e agora satisfeita por seus filhos. E assim foi feito.

E agradeço especialmente às minhas irmãs Ofélia Autran Dourado e Inês Autran Dourado, que, por morarem no Rio, ajudaram na concretização desse projeto que tanto significa para nós quatro, e puseram a “mão na massa” nessa empreitada.

Também agradeço aos professores Reinaldo Marques, da UFMF, e Henrique Mello, da FUNDEP, que financiou essa produção, pelo cuidado e pelo entusiasmo demonstrados na empreitada, que envolve, naturalmente, grande carga emocional. Também não posso deixar de mencionar o escritor e crítico Silviano Santiago pela amizade e delicadeza que sempre teve com os meus pais, enquanto vivos, e que permanece após as suas mortes, pessoa fundamental para que o desejo de meu pai se concretizasse.

Vai-se, assim, um pedaço de minha vida, mas fica a alegria de ter convivido com o homem, talvez uma personagem de si mesmo, um homem que, como escrevi quando de sua morte, conhecia os riscos, reais e imensos, de “brincar de Deus”, afinal, outro não é o ofício dos prosadores.

Por tudo isso, feita a sua vontade, repito aqui sua antiga dedicatória, embora saiba que você não a ouvirá:

“Mais uma vez, adeus, meu pai”.

E amigo.        

Lúcio Autran”

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Um estouro o lançamento de EM NOME DOS PAIS, de Matheus Leitão Netto, ontem, na Saraiva do Ibirapuera, em São Paulo. Na verdade, foi um lançamento em família, porque houve mesa de debate com Míriam Leitão e Vladimir Netto, que, mãe e irmão de Matheus, também têm livros recentes para expor, comentar e assinar.

Como Vladimir ilustrou na matéria do Bom Dia, Brasil, cujo link segue aqui, Matheus trouxe à baila o violento passado recente do país, que prendeu e torturou alguns de seus melhores filhos; ele fala do presente em LAVA JATO; e Míriam aponta para o que há para ser feito tanto em HISTÓRIA DO FUTURO como em A VERDADE É TEIMOSA. Mais de uma pessoa chorou durante as falas de cada um dos membros da família.

https://globoplay.globo.com/v/5959526

EM NOME DOS PAIS, de Matheus Leitão, lançamento da Intrínseca, continua nas listas e nesse fim de semana passado subiu para o 11º lugar tanto na Veja quanto no PublishNews. É a quarta semana de EM NOME DOS PAIS nas listas de mais vendidos.

Não surpreende. Trata-se de uma narrativa veemente sobre a história recente do Brasil, sobre traumas coletivos e subjetivos, responsabilidade social e individual e sobre a intensa necessidade e o incrível poder liberador do perdão.

Matheus foi atrás primeiro do delator e depois do torturador de seus pais, Míriam Leitão e Marcelo Netto, durante a ditadura militar, quando eles militavam no que foi o PcdoB. Em EM NOME DOS PAIS, ele narra suas catárticas descobertas.

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Excelente a matéria na revista Época sobre NEVE NA MANHÃ DE SÃO PAULO, de José Roberto Walker. Não há dúvida de que a recepção da mídia ao romance de não-ficção de José Roberto tem sido uma das mais calorosas nos últimos tempos.

Pudera: o livro é uma leitura magnífica, envolvente, tocante como reflexão sobre a mentalidade patriarcal do brasileiro. Uma história de amor trágico provocado pelo ciúme e sentimento de posse de um escritor em seus quase 30 anos, já muito vivido, em relação a uma jovenzinha encantadora e brilhante, Maria de Lourdes, a Daisy, ou Miss Cyclone. Baseada numa pesquisa profunda e detalhada, a narrativa é também um hino de amor a São Paulo.

Epoca 1 Epoca 2

O programa de TV Closer, exibido pela Band Piauí, foi ao Salip, a feira literária do estado, com Eduardo Prazeres, autor da linda série fantástica A SAGA DE CRISPIM. Ótima a participação do Edu, entre os minutos 20 e 24 do link, visitando stands do Salip e dando dicas de leitura. Saíram ganhando DIAS PERFEITOS, de Raphael Montes, e toda a obra de Stephen King, com destaque para o ensaio SOBRE A ESCRITA. Mas a dica mais importante ele dá no fim da entrevista: “Leiam! Leiam! Leiam!”

(Outros que sabemos que também recomendariam o SOBRE A ESCRITA, grandes admiradores, são o próprio Raphael e o Miguel Sanches Neto, um autor cuja literatura, aliás, nada tem a ver com a de Stephen King.)

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Ancelmo Gois noticiou que a edição americana da Open Letter, de A MÃE DA MÃE DE SUA MÃE E SUAS FILHAS, de Maria José Silveira, está em pré-venda na Amazon. Livro nas livrarias somente em novembro, mas já recebemos o pdf pré-impressão do romance em inglês e podemos dizer que a tradução de Eric Becker está linda, perfeita. Na Open Letter, dirigida por Chad Post, a editora Kaija Straumanis, responsável pelo processo editorial, facilitou-nos o documento de modo que possamos ampliar as submissões da obra no ambiente internacional.

Maria José vai lançar HER MOTHER’S MOTHER’S MOTHER AND HER DAUGHTERS em turnê por universidades e livrarias americanas da Costa Leste em maio de 2018. A temática do romance, lançado originalmente no Brasil em 2002, não poderia estar mais na ordem do dia: o feminismo latino-americano _ “Latin feminism”_ desperta interesse como nunca se viu antes. A narrativa de Maria José conta a história do Brasil por um ângulo feminino, que revela o abuso e a opressão das mulheres desde a primeira índia engravidada por um português chegado à Bahia com Pedro Álvares Cabral. Uma após outra, 20 gerações de resistência e luta.

Anselmo - O Globo 10-7-17 (2)

Começamos o dia com o coração pesado pela morte de Jorge Bastos Moreno. Não só o admirávamos como escritor, talentoso jornalista e homem boníssimo que era, nós o tínhamos um pouco como padrinho.

A publicação pela Rocco de seu criativo A HISTÓRIA DE MORA: A SAGA DE ULYSSES GUIMARÃES foi o primeiríssimo contrato intermediado pela VB&M, datado de 15 de março de 2012 . As atividades da agência só começariam oficialmente em 2 de abril.

Afora o grupo firme e duro que veio da Editora Record (Beto Mussa, Chico Azevedo, Edney, João Almino, Luize Valente, Miguel Sanches, Míriam Leitão, Rafael Cardoso _ com Lúcio _, Ronaldo Wrobel e Sérgio Abranches), Moreno foi o primeiro escritor para além de nosso círculo a nos procurar para que o representássemos literariamente. A HISTÓRIA DE MORA, que vinha se desenvolvendo nas edições do Globo aos domingos, era seu primeiro projeto literário.

Paulo Rocco logo identificou ali um livro importante para a história do Brasil e foi o primeiro a procurá-lo por meio de Eugênia Vieira, que então trabalhava em sua editora. Muito sensível, pouco apegado às coisas práticas, Moreno quis que a agência negociasse e formulasse o contrato de publicação de MORA com a editora.

MORA, para quem não sabe ou se lembra, era a mulher de Ulysses Guimarães, de quem Moreno sempre foi próximo, tendo atuado inclusive como seu assessor. Mora-Moreno, os nomes uniam, ligavam afetivamente e propiciavam jogos de palavras.

A trajetória de Ulysses, que precisa ser conhecida para a devida compreensão do Brasil, é contada por Moreno com inteligência e humor do ponto de vista de Mora, dando à narrativa um caráter literário. Vale ler MORA para atenuar saudades do Moreno.

 

jorge

(LVB)

Volta e meia gente de esquerda chama os outros de fascistas. Devem achar que qualquer conservador ou liberal pode ser chamado de fascista e cometem um erro conceitual grosseiro.

Fascismo é um conceito histórico já bastante configurado. Envolve pessoas e grupos que não aceitam oposição ou divergência de ideias e comportamentos, muitas vezes incorporando também exclusão étnica, e acreditam que podem chegar ao poder por meio da imposição do medo pelo uso de ameaças e agressões físicas no espaço público ou invadindo o domínio privado do outro. Medo imposto pelas “tropas de choque” do movimento. No Brasil, só vejo atuação desse tipo da parte do PT, MST e MSTU entre outros agrupamentos da esquerda corporativista. Muitos vídeos na internet documentam essa afirmação.

Fascismo tem que ter base social. Se não tiver, não é fascismo. O comportamento de petistas ameaçando nossa brilhante e queridíssima cliente Míriam Leitão, uma das pessoas mais respeitadoras do outro que já conhecemos, é rigorosamente equivalente às gangues nazistas da década de 30. Lembremos a origem do termo nazista: nacional + socialista. É mais fácil tomar um esquerdista por fascista do que um liberal. Sem dizer que os liberais representem necessariamente tudo que é certo, eles são sim o verdadeiros antípodas dos fascistas.

Vamos estudar História, pessoal. Quem ainda não leu a coluna da Míriam de hoje no Globo, pode fazê-lo aqui.

LVB

Bolívar Torres e Leonardo Lichote assinam excelente matéria, publicada n’O Globo no último sábado (10), sobre a Livraria e Edições Folha Seca, na rua do Ouvidor: goo.gl/Ru67Z1

Point de leitores, escritores, pensadores, todos boêmios, a Folha Seca funciona como um dos poucos espaços em que a cultura carioca ainda pode ser chamada assim: carioca. Num Rio de Janeiro em que o estar na rua e os encontros casuais são cada vez mais raros, o que acontece ali na Ouvidor é pura e simples resistência. Mas nada organizada! Encontro de quem vive, pensa e escreve o Rio com os pés na atualidade e a cabeça e o coração num momento pré cosmopolitização da cidade, quando o tempo não era cronometrado e o ir e vir eram apenas questão de estar. Afinal, por que não dar uma paradinha para uma gelada e um bom papo na ida ou na volta de qualquer lugar?

Foi o que aconteceu sábado, no lançamento de A HIPÓTESE HUMANA, do Alberto Mussa, belo exemplo de que o tempo é o que dele fazemos. Ao longo de uma tarde agradável, em meio a amigos e pessoas queridas, tomando uma cerveja gelada e um caldinho de ervilha, Beto assinou livros e tirou fotos com convidados e transeuntes que iam chegando e partindo, com planos ou não de chegar_ e ficar_ num lançamento. A mesa montada em frente à livraria, o autor com a caneta na mão direita e a tulipa na esquerda, vivemos ali uma daquelas tardes que me fazem sentir falta daqui todas as vezes em que vou embora. Com todos os seus problemas, que não admito serem enumerados por qualquer forasteiro, esse Rio reitera o amor que sinto por ser carioca.

 

Folha Seca