março 2017

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Planeta fez uma capa muito inspirada para PECADORA, de Nana Pauvolih, que já está em pré-venda. Grande campanha.

Nana escreveu um conto erótico, “Sussurros no paraíso”, para ser lido como e-book; Planeta disponibilizou um link para cadastro e envio do texto. Para ganhar o e-book, basta acessar http://bit.ly/Pecadora e enviar o seu comprovante de compra na pré-venda (em formato de imagem) preenchendo o formulário. O e-book será enviado por e-mail no dia 31/ de março.
http://bit.ly/Pecadora

Terapeutas sexuais serão convidados a falar nos lançamentos do romance. No Rio, já se sabe que haverá evento na Livraria da Travessa no Barra Shopping, dia 8 de abril, às 15h. Outros autógrafos em várias cidades ainda serão marcados.

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O site literário português Sapo publicou um comentário delicado e sensível sobre A MÃE ETERNA, de Betty Milan, que está chegando às livrarias em Portugal pela Random House. Diz a crítica Cláudia Oliveira: “Um livro intimista, cheio de sentimentos profundos de uma filha prestes a ver a sua mãe partir devido a uma doença e à velhice. Afinal são 98 anos”. Vale ler o texto de Cláudia, o livro também, obviamente.

http://amulherqueamalivros.blogs.sapo.pt/a-mae-eterna-betty-milan-355011

Entre as crônicas de Míriam Leitão para o Blog do Matheus, “A saída impossível” dá nó na garanta. Retorna ao cenário de A PERIGOSA VIDA DOS PASSARINHOS PEQUENOS, mas traz uma densa reflexão existencial.

A saída impossível

* Por Miriam Leitão

O beija-flor entrou na casa. Isso aconteceu outras vezes na reserva e eu apenas abro as janelas e o deixo voar para fora. Mas esse resolveu tentar uma saída impossível pelo vidro fixo que fica acima da janela da mesa de trabalho. Tentamos indicar o caminho certo, fui escrever em outro canto para sair de perto da janela, mas nada ajudava. O beija-flor continuava batendo a cabeça no mesmo vidro, ignorando todas as inúmeras possibilidades de ir embora.

Há muito tempo não vínhamos à reserva. Muito trabalho nos prendendo sempre na cidade, muitas viagens. Ao chegar, tomei um susto ao ver como a mata que plantamos ao longo dos anos havia crescido, a ponto de quase não notarmos mais diferença entre ela e o remanescente original. O verde em torno da casa está mais bonito que nunca. Chiquinha voltou a trabalhar conosco. Ela e o marido Sebastião. Eles tinham pedido para ir embora, atrás de um filho que entrara em um descaminho. Tudo resolvido com o rapaz, eles quiseram voltar.

Cheguei na quinta de noite e, na sexta, logo depois do comentário da CBN, fui caminhar com Chiquinha para ver o bosque em torno da casa, as hortas que ela espalhou em alguns pontos, as orquídeas que ela implantou em algumas árvores, as novas mudas que está produzindo.

Estava de volta ao trabalho, quando vi que o beija flor vivia sua prisão bem perto da liberdade:

– Desce um pouco rapaz, que a janela está aberta — repetia Sérgio.

Indiferente à comunicação humana, o passarinho batia a cabeça no vidro perigosamente. Virou o centro das nossas atenções. Chegaram Giovana e Silvana e ficamos os quatro tentando todos os meios possíveis para fazê-lo entender que havia muitas portas, muitas saídas, mas naquele ponto específico em que ele insistia em passar não havia a menor chance.

Olhava angustiada o beija flor. Até quando ele resistiria? Lembrei das vezes em que eu mesma tentei saídas impossíveis, achando que poderia atravessar portas trancadas. Seria simples, vejo agora, recuar um pouco, buscar novo ângulo e tentar outra direção para o mesmo objetivo. Faltava ao passarinho, faltou a mim, ver o ambiente inteiro, o contexto completo, para encontrar a melhor alternativa para o que buscava. Ele ficava fixado naquele ponto. Depois dava uma volta pela sala e voltava ao mesmo lugar. É da natureza de pássaros e de pessoas jogar-se às vezes contra um obstáculo intransponível, indiferentes ao fato de que existem várias formas de se chegar ao mesmo alvo. Ele era persistente, o beija flor, mas estava equivocado. E esse erro poderia ser fatal.

O pé direito da casa é alto. Impossível alcança-lo para direcioná-lo, compulsoriamente, para o ponto que era melhor para ele. Incapaz de resolver o problema, tentei trabalhar. Mas aquele contínuo bater de asas, o confronto entre ele e o vidro, a aflição do passarinho me tiravam a atenção.

– Vou trocar esses vidros fixos por coloridos. Assim nenhum pássaro vai se enganar mais — decidiu Sérgio.

Isso resolvia o problema dos futuros passarinhos que entrassem descuidados em nossa casa, mas e aquele? O que fazer com o beija flor preso em minha casa?

Nada a fazer, mergulhei no texto que escrevia e o Sérgio afundou ainda mais na sua leitura. Giovana e Silvana também voltaram para o trabalho. O pássaro ficou sozinho com o seu erro.

Um tempo depois, Sérgio fez um sinal de que eu ficasse parada e apontou para um canto. Era o beija flor. Caído. Sérgio jogou um pano sobre ele e o pegou delicadamente. Ele fincou suas unhas no tecido, informando, assim, estar vivo. Eu o tirei de lá com jeitinho. Fui para a porta da casa, sentei nos degraus com ele na mão. Vivo e fraco. Jogamos um pouco de água sobre a cabeça dele e depois perto do bico. Dentro das minhas mãos ele começou a se mexer e engoliu um pouco de água. Era gostoso o contato com ele, quase um carinho. Com cuidado fui até uma sombra e o depositei no chão. Ele ficou um tempo quieto. Eu me afastei desgostosa, achando que o pequeno estava condenado. Fora longo o tempo das tentativas fracassadas, demais as cabeçadas no vidro, cansativo o inútil bater de asas. Sérgio ficou vigiando e depois veio me contar:

– Ele já ganhou o mundo.

E assim foi a manhã da sexta. Na minha cabeça ficou a música: “Não se admire se um dia o beija flor invadir a porta da sua casa lhe der um beijo e partir”.

Agora a tarefa é encontrar a melhor forma de que o belo, leve, e alado visitante possa apenas me entregar o beijo e partir pelas portas e janelas abertas da casa que plantei em frente ao verde da Mata Atlântica.

Henning Adam, curador do programa Books at Berlinale, uma promoção do Festival de Berlim com a Frankfurt Book Fair, muito simpaticamente enviou-nos fotos de nossa participação defendendo O REMANESCENTE, de Rafael Cardoso, para produtores de cinema internacionais, principalmente europeus. Depois da apresentação do livro para uma plateia de umas 100 pessoas, agentes e/ou editores (éramos 12) passavam a uma área em que mesinhas altas com os nomes de cada empresa marcavam o lugar onde uma troca de ideias mais individualizada podia ocorrer.

Muita gente veio falar conosco sobre o trabalho de Rafael e sobre a VB&M em geral. Numa das fotos a conversa é com um grupo de agentes de cinema mexicanos. O México foi país-tema da Berlinale este ano. Mas o principal resultado da Berlinale até agora é claramente uma meia dúzia de produtores lendo o magistral romance de Rafael Cardoso sobre seu bisavô, o banqueiro judeu e socialista Hugo Simon, que morreu exilado de Hitler no Brasil.

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Querido autor Eduardo Prazeres lançou sua nova fantasia A FORTALEZA DE CRISPIM numa edição independente no Piauí. O lançamento teve grande repercussão por lá, e os links que postamos aqui são a prova.

A FORTALEZA DE CRISPIM é o segundo livro de uma trilogia baseada em antigo folclore da região, a lenda do Cabeça de Cuia. O primeiro foi CRISPIM E A SÉTIMA VIRGEM.
Nós adoramos as narrativas de Eduardo e o próprio conceito dos livros desenvolvidos a partir da lenda mais popular do Piauí. A obra de Eduardo tem selo da qualidade da Secretaria de Educação do estado e é amplamente lida e adotada, até estudada, não só no ensino médio mas até em cursos universitários.

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Veja as fotos do evento aqui.

Outros links:

http://clubebrasileirodetrensfantasmas.blogspot.com.br/2017/02/lenda-mais-popular-do-piaui-cabeca-de.html?spref=fb

http://manekonascimento.blogspot.com.br/2017/02/crispim.html?spref=fb

http://cidadeverde.com/videos/22354/escritor-faz-trilogia-sobre-lenda-do-cabeca-de-cuia

 

Para o Blog do Matheus, Sérgio Abranches escreveu um artigo explicando o novo populismo que aflige um grande número de democracias contemporâneas. Os temas do riquíssimo ensaio estão desdobrados em seu livro A ERA DO IMPREVISTO, que vem aí pela Companhia das Letras, em junho.

Sérgio faz uma equação interessante. Mostra que a esquerda tem uma visão distributiva e de justiça social, mas pensa de maneira totalmente anacrônica o desafio econômico, enquanto a direita tem propostas interessantes para a economia mas ainda acredita que a sociedade pode se reger pelo cada um por si. Apoiado na mentira, o populismo nada de braçada no espaço criado pelo conflito entre essas visões. Soluções até existem para muitos dos problemas atuais, mas as lideranças políticas globais não compreendem o desafio colocado pela e para a humanidade.

O novo populismo e o desafio democrático

* Por Sérgio Abranches

A democracia americana e várias democracias europeias estão sob a ameaça dos populistas. Diferentemente do velho e novo populismo latino-americano, a vertente que assalta as democracias mais maduras vem da direita nacionalista. O populismo, sob qualquer de suas formas nasce da insatisfação e do ressentimento. O terreno no qual prosperam as lideranças populistas é marcado pela frustração das oportunidades e pela desigualdade crescente. Elas exploram o sentimento de abandono ou destituição. Não são sentimentos gratuitos. Eles estão ancorados nas falhas sistêmicas dos mercados e das democracias. O mundo vive uma longa e radical transição. Os modelos político-econômicos que impulsionaram o século XX, com raízes nos séculos XVIII e XIX, não funcionam mais como antes.

As formas tradicionais de produção e circulação de mercadorias foram alteradas pela globalização, pelas mudanças tecnológicas, pelo desenvolvimento no mercado financeiro de novas modalidades de financiamento e pela instantaneidade da economia digitalizada.Tudo isso gera desigualdade e desemprego. Os novos padrões, alguns já emergentes, não são ainda capazes de gerar os empregos, a renda e o bem-estar necessários para atender às demandas da maioria. O que piora o quadro é que as democracias estão dominadas por oligarquias políticas e econômicas que não representam mais amplas parcelas da sociedade. Elas emergiram fora das jurisdições cobertas pelos partidos, sindicatos e grupos de interesses organizados e encontram-se desamparadas. São rejeitadas pelo mercado de trabalho e estão fora do alcance das redes de proteção social do estado.

O populismo, com suas ideias econômicas obsoletas, antiglobalização e protecionistas consegue entregar-lhes apenas momentos fugazes de euforia. Ao insustentável crescimento produzido pelas aventuras macroeconômicas dos populistas, de qualquer matiz, decorrem profundas distorções nos quadros fiscal e distributivo. Desde meados dos anos 1990, temos vivido ciclos econômicos de crescimento-crise recorrentes, associados a ciclos políticos de populismo-austeridade. O resultado dessa oscilação é o aumento das desigualdades, o crescimento do desemprego estrutural, a insatisfação e o ressentimento derivados da frustração das expectativas. A cada ciclo, faixas cada vez maiores da economia se mostram incapazes de recuperação. Foi o que aconteceu, por exemplo, com as atividades do chamado “cinturão da ferrugem”, nos Estados Unidos, área de mineração de carvão e de indústrias metal-mecânicas de baixa produtividade e sem competitividade. Em regiões como essas, não há futuro de retomada das indústrias tradicionais. Capital e trabalho terão que ser reciclados para outras atividades em sintonia com o movimento da transição tecnológica, econômica e social. Nesse interregno, viveremos perigoso quadro de agravamento de desigualdade e desconforto socioeconômico.

O sociólogo Ulrich Beck define esse fenômeno como a sociedade do “indivíduo por contra própria”. A rede de proteção social não consegue atende-lo e tem dificuldade de se ajustar ao novo perfil demográfico e às limitações fiscais do estado. Passa a valer o princípio do indivíduo por contra própria que corresponde, na prática, à dura lei do “sua vida, seu risco”. As crises estruturais, portanto coletivas, passam a constituir risco pessoal, resultando em “sua vida, seu fracasso”. Apenas uma minoria de indivíduos adquire com a rapidez necessária a capacidade de combinar redes, construir alianças, fazer acordos, sempre por conta própria. Eles aprendem a viver e sobreviver numa atmosfera de risco permanente, na qual o conhecimento e as mudanças de vida são de curta duração e se multiplicam no tempo. Suas experiências de vida mudam rapidamente. Há mais liberdade para a experimentação mas, ao mesmo tempo, as pessoas devem enfrentar o desafio sem precedentes de lidar, em tempo praticamente real, com as consequências de suas ações e das ações dos outros. A grande maioria não tem essa desenvoltura e engrossa a massa de despossuídos e ressentidos.

Em todas as sociedades industrializadas contemporâneas, do Brasil a Portugal e Espanha, da Grécia aos Estados Unidos, da França ao Reino Unido, os jovens, com mais qualificação que seus pais, não conseguem entrar no mercado de trabalho. O desemprego entre os que têm entre 17 e 30 anos é, em geral, o dobro da média, às vezes quase o triplo. Na outra ponta, o ajustamento dos modelos previdenciários, desenhados para uma realidade que não existe mais, mesmo quando reformados para adequá-los à nova demografia, continuam a proteger indivíduos de uma estrutura ocupacional e contratual que está em dissolução. O sistema de welfare alemão data do período de Otto Von Bismarck. Foi criado em 1884. O americano nasceu no New Deal, nos anos 1930. O francês é dos anos 1940. O britânico também. Aqueles que circulam pelas formas emergentes ou transicionais de trabalho e vida não são alcançados nem pela rede de proteção social, nem pela previdência. Crescem, além disso, o desemprego e a desproteção na faixa de pessoas entre 50 e 65 anos. Forma-se, deste modo, a base eleitoral do novo populismo entre os mais jovens e os de idade madura. Essa situação precária de vida alimenta a aversão à política e aos políticos e o desencanto com a democracia representativa. Os populistas têm uma concepção instrumental da democracia. Eles a vêm como um meio para chegar ao poder, mas não a aceitam quando oferece um meio legítimo para retirá-los do poder.

O desafio democrático há muito deixou de ser uma questão apenas política. Não há como revigorar a crença na democracia sem desenhar novas políticas de redistribuição e proteção social, compatíveis com as demandas e limitações dessa transição. Os partidos de esquerda, socialistas, social-democratas, trabalhistas, têm a vocação redistributivista, mas sua visão econômica é ultrapassada. Os conservadores, liberais e neoliberais, têm perspectiva econômica atualizada, mas são avessos ao redistributivismo. Preferem o princípio “sua vida, seu risco”. O modelo da sociedade do indivíduo por conta própria é perfeitamente legítimo e moralmente justificável para eles. Portanto, o desafio democrático global é ainda mais complexo. Não pode ser resolvido com reformas. Ele requer um novo paradigma redistributivo, compatível com a nova realidade econômica e fiscal e com as novas demandas da sociedade da transição. Mas não há, hoje, no espectro político, lideranças capazes de entender esse desafio e propor novos modos para resolve-lo.