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Entre as crônicas de Míriam Leitão para o Blog do Matheus, “A saída impossível” dá nó na garanta. Retorna ao cenário de A PERIGOSA VIDA DOS PASSARINHOS PEQUENOS, mas traz uma densa reflexão existencial.

A saída impossível

* Por Miriam Leitão

O beija-flor entrou na casa. Isso aconteceu outras vezes na reserva e eu apenas abro as janelas e o deixo voar para fora. Mas esse resolveu tentar uma saída impossível pelo vidro fixo que fica acima da janela da mesa de trabalho. Tentamos indicar o caminho certo, fui escrever em outro canto para sair de perto da janela, mas nada ajudava. O beija-flor continuava batendo a cabeça no mesmo vidro, ignorando todas as inúmeras possibilidades de ir embora.

Há muito tempo não vínhamos à reserva. Muito trabalho nos prendendo sempre na cidade, muitas viagens. Ao chegar, tomei um susto ao ver como a mata que plantamos ao longo dos anos havia crescido, a ponto de quase não notarmos mais diferença entre ela e o remanescente original. O verde em torno da casa está mais bonito que nunca. Chiquinha voltou a trabalhar conosco. Ela e o marido Sebastião. Eles tinham pedido para ir embora, atrás de um filho que entrara em um descaminho. Tudo resolvido com o rapaz, eles quiseram voltar.

Cheguei na quinta de noite e, na sexta, logo depois do comentário da CBN, fui caminhar com Chiquinha para ver o bosque em torno da casa, as hortas que ela espalhou em alguns pontos, as orquídeas que ela implantou em algumas árvores, as novas mudas que está produzindo.

Estava de volta ao trabalho, quando vi que o beija flor vivia sua prisão bem perto da liberdade:

– Desce um pouco rapaz, que a janela está aberta — repetia Sérgio.

Indiferente à comunicação humana, o passarinho batia a cabeça no vidro perigosamente. Virou o centro das nossas atenções. Chegaram Giovana e Silvana e ficamos os quatro tentando todos os meios possíveis para fazê-lo entender que havia muitas portas, muitas saídas, mas naquele ponto específico em que ele insistia em passar não havia a menor chance.

Olhava angustiada o beija flor. Até quando ele resistiria? Lembrei das vezes em que eu mesma tentei saídas impossíveis, achando que poderia atravessar portas trancadas. Seria simples, vejo agora, recuar um pouco, buscar novo ângulo e tentar outra direção para o mesmo objetivo. Faltava ao passarinho, faltou a mim, ver o ambiente inteiro, o contexto completo, para encontrar a melhor alternativa para o que buscava. Ele ficava fixado naquele ponto. Depois dava uma volta pela sala e voltava ao mesmo lugar. É da natureza de pássaros e de pessoas jogar-se às vezes contra um obstáculo intransponível, indiferentes ao fato de que existem várias formas de se chegar ao mesmo alvo. Ele era persistente, o beija flor, mas estava equivocado. E esse erro poderia ser fatal.

O pé direito da casa é alto. Impossível alcança-lo para direcioná-lo, compulsoriamente, para o ponto que era melhor para ele. Incapaz de resolver o problema, tentei trabalhar. Mas aquele contínuo bater de asas, o confronto entre ele e o vidro, a aflição do passarinho me tiravam a atenção.

– Vou trocar esses vidros fixos por coloridos. Assim nenhum pássaro vai se enganar mais — decidiu Sérgio.

Isso resolvia o problema dos futuros passarinhos que entrassem descuidados em nossa casa, mas e aquele? O que fazer com o beija flor preso em minha casa?

Nada a fazer, mergulhei no texto que escrevia e o Sérgio afundou ainda mais na sua leitura. Giovana e Silvana também voltaram para o trabalho. O pássaro ficou sozinho com o seu erro.

Um tempo depois, Sérgio fez um sinal de que eu ficasse parada e apontou para um canto. Era o beija flor. Caído. Sérgio jogou um pano sobre ele e o pegou delicadamente. Ele fincou suas unhas no tecido, informando, assim, estar vivo. Eu o tirei de lá com jeitinho. Fui para a porta da casa, sentei nos degraus com ele na mão. Vivo e fraco. Jogamos um pouco de água sobre a cabeça dele e depois perto do bico. Dentro das minhas mãos ele começou a se mexer e engoliu um pouco de água. Era gostoso o contato com ele, quase um carinho. Com cuidado fui até uma sombra e o depositei no chão. Ele ficou um tempo quieto. Eu me afastei desgostosa, achando que o pequeno estava condenado. Fora longo o tempo das tentativas fracassadas, demais as cabeçadas no vidro, cansativo o inútil bater de asas. Sérgio ficou vigiando e depois veio me contar:

– Ele já ganhou o mundo.

E assim foi a manhã da sexta. Na minha cabeça ficou a música: “Não se admire se um dia o beija flor invadir a porta da sua casa lhe der um beijo e partir”.

Agora a tarefa é encontrar a melhor forma de que o belo, leve, e alado visitante possa apenas me entregar o beijo e partir pelas portas e janelas abertas da casa que plantei em frente ao verde da Mata Atlântica.

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