O furto no aeroporto* Por Miriam Leitão

– Fui roubada.

Falei e me sentei na cadeira em frente à primeira mesa do posto da Polícia Civil do aeroporto de Congonhas, ainda confusa, tentando entender o fato e com uma sensação de ausência. A policial se levantou, chamou a chefe do posto.

Mulheres elegantes eram a maioria dos policiais. A chefe seria tomada por uma executiva em viagem. Maquiada, salto alto, blusa de seda, ela me perguntou:

– Onde foi?

– Perto do check-in da ponte aérea da Tam.

– O que foi que levaram?

– A mochila com meu iPad Pro. Aquele grande, modelo mais novo.

– Você viu quem foi?

– Não vi nada.

A delegada saiu correndo e me deu ordens para preencher o BO Fiquei respondendo as perguntas da burocracia feitas por um rapaz. Eu me sentia um autômato. O rapaz precisava repetir as perguntas.

Voltou logo depois, a delegada.

–Vamos rastrear. E analisem as imagens.

Entraram no serviço de busca, mas meus celulares apareciam no radar também.

– Desligue seus outros equipamentos — disse a delegada.

Em seguida no visor do aparelho da delegacia apareceu o sinal.

– Está por perto — disse.

E deu ordens para que policiais corressem.

O localizador mostrava o bairro, próximo ao aeroporto, onde estava meu aparelho.

Meu voo ia sair. Resolvi continuar preenchendo o BO, mesmo com o risco de perder a viagem.

– Como foi?

– Eu fiz o check-in antecipando meu voo e me sentei na fila de cadeiras que tem perto dos balcões, porque precisava fazer meu comentário na CBN.

– A que horas?

– Eu me sentei ao meio dia e vinte e seis minutos. Lembro porque decidi ficar ali mesmo. Estava quase na hora do comentário.

– Quanto tempo você ficou?

– A CBN ligou ao meio dia e trinta e seis. Fiz o comentário e, quando me levantei para embarcar, a mochila não estava.

– Onde você havia deixado a mochila?

– No chão, porque uma moça chegou e se sentou com tanta bagagem, que eu tirei minha mochila da cadeira para dar espaço.

– Como era a moça? Perguntou a delegada.

– Jovem, meio loura.

– Estava com uma mochila bem alta?

– Sim.

– Ela permaneceu lá. O normal, quando é cúmplice, é sair assim que acontece o furto — disse a delegada.

– RG? — perguntou o rapaz que digitava o boletim.

Eu disse o número, enquanto bebia a água que alguém trouxe para mim.

– Estranho.

– O que é estranho?

– Você nunca fez um BO

Pensei na minha sorte. Meu primeiro roubo.

Tudo preenchido, policiais na rua com rastreador, meu voo quase saindo. Me despedi, agradecendo a gentileza do tratamento.

– Mantenha o celular desligado — disse a delegada.

Corri para o embarque. Última chamada.

Me dei conta que dera ao meu marido a informação de que havia sido roubada e estava indo para a polícia. E não fiz novo contato. Agora tinha que manter o celular desligado para não confundir o rastreador, porque todos os meus equipamentos estavam na mesma identidade eletrônica.

Precisava de uma pessoa conhecida para pedir um favor. Vi uma que me cumprimentou educadamente. Era uma atriz. Não tive coragem de fazer o pedido. Entrei no ônibus e um homem me reconheceu e eu criei coragem.

– Posso te pedir um favor estranho?

– Qualquer um.

– Dá para você fazer uma ligação para o meu escritório. Não posso usar meu celular.

– Pois não, use-o — e me entregou o aparelho.

Liguei e falei com a minha secretária.

– Vou falar rápido. Estou usando o aparelho de um passageiro. Meus celulares ficarão desligados por ordem da polícia. Estou indo no voo marcado. Avise ao Sérgio que está tudo bem.

O voo me pareceu longo. Pensava apenas no furto. Refazendo as cenas mentalmente, para tentar ver se havia gravado alguma imagem esquecida. Eu me sentei, coloquei bolsa e mochila na cadeira ao lado, porque tinha duas cadeiras vazias. Chegou uma moça com uma mochila grande e uma pequena. Colocou tudo na cadeira e se sentou de forma bem desconfortável, na pontinha. Eu tirei minha bolsa de cima da cadeira ao lado, e puxei minha mochila para mais perto de mim e disse:

– Vamos dividir esse espaço. Ponha aqui uma de suas bagagens.

Ela fez diferente. Deixou as bagagens dela confortavelmente na cadeira, e se sentou ao lado da minha mochila, mas de novo, na ponta da cadeira. Parecia desconfortável. Para ser delicada, tirei a minha mochila e pus no chão. Ela ficou então dona das duas cadeiras e passou a digitar furiosamente o celular.

Tocou o meu celular e era a CBN. No começo do comentário a ligação caiu. Voltaram a ligar. Estava concentrada nisso. A mala de rodinha estava encostada na minha perna, a mochila encostada na mala. Assim que falei “até amanhã Sardenberg” me levantei para pegar as bagagens.

Vi o vazio. A mala estava lá, mas não a mochila. Até agora vejo o vazio. No primeiro momento, não acreditei. No segundo também não.

– Minha mochila desapareceu — disse para a moça das muitas bagagens. Ela me olhou com indiferença.

– É mesmo? Mochila?

Não se levantou, não demonstrou solidariedade. Parecia estar sendo informada de um fato banal.

Pensava nela, no voo para o Rio, arrependida de não ter falado direito sobre esse episódio.

A ida para São Paulo na véspera tinha sido tumultuada. O avião deu problema, chamaram a manutenção, que não conseguiu consertar a aeronave. Desembarcamos, voltamos ao saguão, entramos em outro avião. Muito tempo depois que havíamos embarcado, as portas permaneciam abertas e nada de decolar. Chamei o comissário.

– O que está acontecendo?

– Estamos esperando documentação.

– Que documentação?

– O plano de voo.

– Ah, bom, melhor ter mesmo — ri.

Agora, estava ali no voo de volta, me sentindo sem um plano de voo. Meu iPad Pro, novinho, com teclado na capa, tinha substituído com vantagens o notebook. Enquanto estive no avião da véspera com a porta aberta, tinha escrito a coluna e enviado para o jornal por 4G. Com ele fazia palestras, lia jornal, tinha uma coleção de livros, arquivos com dados econômicos. Sem ele, era silêncio, espera e ausência.

Em casa liguei para a delegacia. Eles haviam perdido o contato com o buscador e pediram para eu religar o meu celular, rastrear e informá-los.

Conseguimos localizar a rua e o quarteirão onde estava o iPad.

A polícia foi até lá.

– É um quarteirão cheio de prédios. Trezentos apartamentos — informou a delegada.

– Vão desistir?

– Não, continuamos investigando.

Eu desisti. Dei o comando de apagar minhas informações no aparelho: “Erase iPad”.

* Miriam Leitão é jornalista e escritora.