setembro 2016

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Há muito tempo fora de catálogo, o único livro de Kurt Vonnegut para crianças, SUN MOON STAR, está voltando às livrarias americanas pela Seven Stories Press, que VB&M representa no Brasil. Originalmente lançado em 1980, o livro, uma visão originalíssima da Natividade, acaba de ganhar resenha elogiosa de Publishers Weekly, guia do mercado editorial nos EUA.

O livro de Vonnegut é de fato muito delicado, brilhante, merece todos os elogios. A história, contada pelos olhos do bebê, reflete a desorientação do Criador do Universo diante do real. Supostamente, é voltado para os leitores entre cinco e nove anos. Na verdade, é livro para todas as idades e religiões, inclusive para os ateus.

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Long out of print, Vonnegut’s only book for children—a 1980 interpretation of the Nativity story—returns in a new edition, again paired with graphic designer Chermayeff’s cutout shapes of stars, suns, and moons, set against deep blue backgrounds. The child is referred to only as It or the Creator of the Universe, and Vonnegut’s narrative dwells on the child’s disorientation having traded an existence in which “It had known all things and been all things” for the limitations of human flesh. Readers soon learn that the celestial objects the infant sees are actually people and things nearby, transformed by bleary, teary eyes and the novelty of sight itself. A crescent moon, for example, is actually “the forehead of Joseph,/ who would pretend to be the Creator’s father/ with all his heart.” Mary, the shepherds, the Wise Men, and Herod are all present or discussed, but it’s Vonnegut’s descriptions of the sheer newness of human experience (the child’s “fourth dream was simply green. It had never seen/ green/ before”) that make this an intriguing and memorable perspective on the Incarnation. Ages 5–9. (Nov.)

O Giro de Livraria na Travessa de Ipanema, há poucas horas, deu muita alegria. Gratificante ver muito bem expostos tantos livros com os quais nos envolvemos piscando para os clientes da livraria. Mas, pudera, todos livros lindos, importantes, alguns verdadeiramente seminais. Muito orgulho.

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Na vitrine já pronta para o Dia da Criança, brilha FLÁVIA E O BOLO DE CHOCOLATE, de Míriam Leitão (O ESTRANHO CASO DO SONO PERDIDO ainda vem aí). Bem na entrada, à esquerda, O ARROZ DE PALMA, de Chico Azevedo, e UMA PRAÇA EM ANTUÉRPIA, de Luize Valente; andam sempre juntos esses dois. Logo em seguida, na mesma estante, O ROMANCE INACABADO DE SOFIA STERN, de Ronaldo Wrobel. Um pouco mais para dentro da loja, mas na mesma parede, A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO, de Martha Batalha. Na mesa, belas pilhas de WELCOME TO COPACABANA, de Edney Silvestre, e A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO, de Alberto Mussa.

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Isso, de ficção brasileira. De estrangeira, estavam lá FABIÁN E O CAOS, de Pedro Juan Gutierrez, romance maravilhoso passado no início da revolução cubana, e QUANDO VOLTARÁ A SER COMO NUNCA FOI, de Joachim Meyerhoff.

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De não-ficção, mais uma bela pilha de TENENTES, a pesquisa competente e boa de ler de Pedro Dória sobre o movimento tenentista, e a presença já clássica de HISTÓRIA DO FUTURO, de Míriam Leitão.

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No fim de semana, Ancelmo Gois noticiou em sua coluna do Globo a contratação dos direitos de publicação de CIDADE LIVRE, de João Almino, pela Ikona, na Macedônia. O romance, um empreiteiro da fundação de Brasília contando ao filho sua história de corrupção, já está em inglês e francês. É um livro lindo.

O romance de João Almino “Cidade Livre” em que um construtor de Brasília conta ao filho sua história de corrupção nas obras de fundação da capital, vai sair em 2017 na Macedônia, pela editora Ikona. O livro já tem tradução francesa da Metailié e inglesa da Dalkey Archive Press.

Depois de CIDADE LIVRE veio ENIGMAS DA PRIMAVERA, lançado pela Record no ano passado e que também já saiu em inglês, sempre pela Dalkey Archive Press. Talvez por estar finalista do Prêmio São Paulo, ENIGMAS tem despertado interesse em várias casas no exterior nas últimas duas semanas. Muita gente lendo.

João Almino acaba de por o ponto final em um novo livro, ENTRE FACAS, ALGODÃO. Diferente de todos os outros. Aliás, os romances do João são sempre perturbadores em si e por se colocarem como ruptura em relação à obra anterior. Um romance de vingança passado no Nordeste. Carlos Andreazza, seu editor, está lendo.

http://blogs.oglobo.globo.com/ancelmo/post/cidade-livre-romance-de-joao-almino-sera-publicado-na-macedonia.html

O artigo de Evaristo de Miranda sobre a agricultura brasileira no Estadão de segunda-feira, 26 de setembro, como sempre chacoalha todas as nossas ideias, proporciona um ponto de vista totalmente diferente sobre a realidade. Continuamos pensando que as memórias de Evaristo sobre seu tempo no Sahel, pesquisando a agricultura e a pecuária da região, A GEOGRAFIA DA PELE, publicado pela Record, é um dos mais belos e importantes livros que a VB&M representou desde sua fundação há quatro anos.

Alimentar o mundo

Divida a produção de grãos de um país pelo seu número de habitantes. Se o resultado ficar abaixo de 250 kg/pessoa/ano, isso significa insegurança alimentar. Países nessa situação importam alimentos, obrigatoriamente. E são muitos os importadores de alimentos vegetais e animais em todos os continentes, sem exceção. O crescimento da população, da classe média e da renda, sobretudo nos países asiáticos, amplia anualmente a demanda por alimentos diversificados e de qualidade, como as proteínas de origem animal.

O mais vendido refrigerante do mundo define sua missão como a de “saciar a sede do planeta”. A missão do Brasil já pode ser: saciar a fome do planeta. E com os aplausos dos nutricionistas.

Em 2015 o Brasil produziu 207 milhões de toneladas de grãos para uma população de 206 milhões de habitantes. Ou seja, uma tonelada de grãos por habitante. Só a produção de grãos do Brasil é suficiente para alimentar quatro vezes sua população, ou mais de 850 milhões de pessoas. Além de grãos, o Brasil produz por ano cerca de 35 milhões de toneladas de tubérculos e raízes (mandioca, batata, inhame, batata doce, cará, etc.). Comida básica para mais de 100 milhões de pessoas.

A agricultura brasileira produz, ainda, mais de 40 milhões de toneladas de frutas, em cerca de 3 milhões de hectares. São 7 milhões de toneladas de banana, uma fruta por habitante por dia. O mesmo se dá com a laranja e outros citros, que totalizam 19 milhões de toneladas por ano. Cresce todo ano a produção de uva, abacate, goiaba, abacaxi, melancia, maçã, coco… Às frutas tropicais e temperadas se juntam 10 milhões de toneladas de hortaliças, cultivadas em 800 mil hectares e com uma diversidade impressionante, resultado do encontro da biodiversidade nativa com os aportes de verduras, legumes e temperos trazidos por portugueses, espanhóis, italianos, árabes, japoneses, teutônicos e por aí vai, longe.

À produção anual de alimentos se agrega cerca de 1 milhão de toneladas de castanhas, amêndoas, pinhões e nozes, além dos óleos comestíveis – da palma ao girassol – e de uma grande diversidade de palmitos. Não menos relevante é a produção de 34 milhões de toneladas de açúcar/ano, onipresente em todos os lares, restaurantes e bares. A produção vegetal do Brasil já alimenta mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, usando para isso apenas 8% do território nacional.

E a tudo isso se adiciona a produção animal. Em 2015 o País abateu 30,6 milhões de bovinos, 39,3 milhões de suínos e quase 6 bilhões de frangos. É muita carne. Coisa de 25 milhões de toneladas! O consumo médio de carne pelos brasileiros é da ordem de 120 kg/habitante/ano ou 2,5 kg por pessoa por semana. A estimativa de consumo médio de carne bovina é da ordem de 42 kg/habitante/ano; a de frango, de 45 kg; e a de suínos, de 17 kg; além do consumo de ovinos e caprinos (muito expressivo no Nordeste e no Sul), de coelhos, de outras aves (perus, angolas, codornas…), peixes, camarões e crustáceos (cada vez mais produzidos em fazendas) e outros animais.

O País produziu 35,2 bilhões de litros de leite (ante 31 bilhões de litros de etanol), 4,1 bilhões de dúzias de ovos e 38,5 milhões de toneladas de mel, em 2015. É leite, laticínios, ovos e mel para fazer muitos bolos, massas e doces nas casas do maior produtor de açúcar.

Em 50 anos, de importador de alimentos o Brasil tornou-se uma potência agrícola. Nesse período, o preço dos alimentos caiu pela metade e permitiu à maioria da população o acesso a uma alimentação saudável e diversificada e a erradicação da fome. Esse é o maior ganho social da modernização agrícola e beneficiou, sobretudo, a população urbana. O Brasil saiu do mapa dos países com insegurança alimentar.

Com o crescimento da população e das demandas urbanas, o que teria acontecido na economia e na sociedade sem esse desenvolvimento da agricultura? Certamente, uma sucessão de crises intermináveis. Era para a sociedade brasileira agradecer todo dia aos agricultores por seu esforço de modernização e por tudo o que fazem pelo País. A Nação deve assumir a promoção e a defesa da agricultura e dos agricultores, com racionalidade e visando ao interesse nacional.

De 1990 a 2015 o total das exportações agrícolas superou US$ 1 trilhão e ajudou a garantir saldos comerciais positivos. A Ásia responde hoje por 45% das exportações do agronegócio brasileiro e a China, sozinha, por um quarto desse montante. Com a China, um parceiro estratégico para o futuro da agropecuária brasileira, criaram-se perspectivas novas e mútuas para indústrias de processamento, tradings e para investimentos em infraestrutura de transporte, armazenagem e indústrias de base.

A recém-concluída missão de prospecção e negócios de quase um mês por sete países da Ásia, liderada pelo ministro Blairo Maggi, buscou um novo patamar de inserção da agropecuária no comércio internacional. Acompanhado por uma equipe ministerial e por cerca de 35 empresários de 12 setores do agro, essa missão histórica percorreu China, Coreia do Sul, Hong Kong, Tailândia, Mianmar, Vietnã, Malásia e Índia. Alimentar o mundo é sinônimo de alimentar a Ásia. Isso exige empreendedorismo, inovação, coordenação público-privada e parcerias de curto e de longo prazos.

Mas o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, juntamente com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, tem uma meta ambiciosa: passar de uma participação decrescente de 6,9% no comércio agrícola internacional para 10%. E ser capaz, em breve, com tecnologia, sustentabilidade, competência e competitividade, de alimentar mais de 2 bilhões de pessoas.

http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,alimentar-o-mundo,10000078155

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O Segundo Caderno de O Globo dedicou primeira página de sua edição dominical aos 20 anos da morte de Renato Russo, o ícone roqueiro da Legião Urbana, e todas as manifestações artísticas a que a efeméride dá direito: o livro do próprio músico descoberto e saindo pela Companhia das Letras, filme, musical, álbuns dele ou sobre ele e a nova edição da biografia seminal assinada por Carlos Marcelo, O FILHO DA REVOLUÇÃO. Passaram-se sete anos desde o lançamento da edição original pela Ediouro, que teve três reimpressões, mas nenhuma atualização.

Agora pela Planeta, o livro não foi apenas revisto por Carlos Marcelo. Ele reescreveu o texto de olho em toda a releitura feita de Renato Russo ao longo dos anos, entrevistou mais gente, como Marisa Monte, e acrescentou um capítulo final sobre os últimos dias do músico. “Mesmo doente, Renato foi perfeccionista”, disse Carlos Marcelo ao Globo. Perfeccionista é Carlos Marcelo.

Indo para a gráfica de maneira a estar prontinho nas livraria à espera da criançada no dia 12 de outubro, O ESTRANHO SONO CASO DO SONO PERDIDO, de Míriam Leitão, lindamente editado por Ana Berger, da Rocco. Quarto livro infantil de Míriam Leitão (depois de A PERIGOSA VIDA DOS PASSARINHOS PEQUENOS; A MENINA DO NOME ENFEITADO; e FLÁVIA E O BOLO DE CHOCOLATE), é o favorito da agência.

A favor do SONO PERDIDO, vemos alguns fatores. O primeiro é que a autora, que sempre foi boa de diálogo, chegou à absoluta perfeição nesse livro. Mariana e sua avó conversam de uma maneira especialmente real e próxima da gente. O protagonismo da neta, que conduz a avó pela imaginação e pelos fatos da vida, é desconcertante e genial. Elas precisam encontrar, no mundo da imaginação, o sono perdido da avó, que, coitada, só adormece com remédios. Quando chega à casa da Mariana e se apronta para dormir no quarto dela, descobrindo que não trouxe o ansiolítico, é um deus nos acuda.

Também poder-se-ia dizer (sempre gostamos de mesóclise, mas agora ficamos encabuladas de usá-la, depois do presidente Temer, que compartilha nosso gosto) que Mariana e vovó compõem um original caso de auto-ficção na literatura infantil. Mariana é uma das netas de Míriam. Além disso, a avó, que desembarca com sua mala de rodinhas, a mochila do laptop e a bolsa onde carrega celulares, maquiagem e a carteira, é paradigmática dos dias de hoje. Basta ver os filmes que estão passando (de Aquarius a O vale do amor a 45 anos), só se fala da nova velhice.

Como toda a obra infantil de Míriam, O ESTRANHO SONO CASO DO SONO PERDIDO vai ser um estouro. Já estamos apostando que mais um prêmio da carreira da super premiada Míriam Leitão há de ser o Christian Andersen.

capa_blogPronto, Sextante anunciou a biografia de Rogéria, assinada por Márcio Paschoal, para outubro, saindo pelo selo Estação Brasil, de Pascoal Soto. Agora podemos falar do livro, ROGÉRIA: MULHER E MAIS UM POUCO, um dos orgulhos da agência. A capa, que a equipe de Virginie Leite preparou, ficou deslumbrante. Uma das capas mais bonitas e impactantes que vimos este ano. Rogéria ajuda.

A narrativa é divertidíssima, repleta de fofocas envolvendo centenas de nomes do showbiz e da alta sociedade internacional e com um vivo panorama das artes cênicas brasileiras da década de 60 até hoje – o que era ser artista sob a ditadura militar. Artista e travesti, já imaginou? Mas o livro não é só isso.

Márcio e Rogéria contribuem com uma visão originalíssima e profundamente honesta da questão trans. Fica evidente que Rogéria nunca foi misógina, não tem inveja de mulher, não tem bronca com palavras como útero e vagina, a la transgêneros norte-americanos. (Acreditem que nos EUA os trans não apoiam o movimento pelo aborto Free Womb pela referência ao útero em seu nome.)

ROGÉRIA é uma visão brasileira do travestismo. Basta pensar que, com todo o preconceito do brasileiro, ela conquistou o Prêmio Mambembe em 1979 como melhor atriz. Sem nunca ter se submetido a mudança de sexo. Até hoje isso não aconteceria nos Estados Unidos.

Vender não-ficção para tradução não é fácil mas, dada a urgência e o interesse que a temática transgênero vem despertando, estamos apostando em ROGÉRIA no exterior e trataremos o livro como destaque em nosso catálogo para Frankfurt. Acreditamos que essa grande personagem da cultura brasileira dá uma contribuição fundamental ao debate e envidaremos esforços pela divulgação da obra. Raymond Moss deu o título de trabalho em inglês: ROGERIA: MORE THAN A WOMAN.

http://www.publishnews.com.br/materias/2016/09/08/augusto-cury-volta-a-lancar-livro-pela-editora

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Quando Raphael Montes, grande autor mas também propagandista-mor da literatura policial no Brasil, vier a conhecer Rosa Ribas e Sabine Hofmann, ele vai se apaixonar. Uma catalã e uma alemã se uniram para escrever uma trilogia policial de primeira, altamente envolvente, cujo terceiro título, AZUL MARINO, acaba de chegar às livrarias espanholas para fechar a série.

Representadas pela agente Ella Sher, nossa parceira nos dois sentidos (para fora e para dentro do Brasil), a catalã Ribas e a alemã Hofmann criaram uma jovem jornalista muito charmosa e lutadora, Ana Martí, para por meio dela contar histórias de crimes complicados e terríveis durante a era franquista (1939-1975). Mas outro mérito das duas autoras é recriar perfeitamente o opressivo ambiente histórico de uma ditadura, com um talento que talvez só quem tenha vivido sob um regime autoritário possa reconhecer plenamente.

Os outros títulos da série, que acontece na década de 50 do século passado, são EL GRAN FRÍO e DON DE LENGUAS. Este último, premiado com o Novelpol de 2013, o prêmio espanhol para romance, “novela”, policial, foi traduzido por grandes editoras para o francês, italiano, alemão, inglês, turco, polonês e japonês.

Tem que vir para o Brasil. Outro dia, conversando com Fátima Leone de Carvalho, da Livraria Argumento, tomei conhecimento do impacto sobre vendas que têm os comentários de Raphael Montes sobre literatura policial em O Globo. Ela lamentou que houvesse pouca literatura policial em oferta. Claramente, está se formando afinal um público para a literatura de mistério no Brasil. Falta que os editores produzam os livros.

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A escritora e jornalista Valeria Parrella, muito famosa e respeitada na Itália, com obra vasta já publicada, tem coluna literária na revista feminina Grazia e abriu espaço para A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO, de Martha Batalha. Ela diz lindamente que “os leitores que amam a literatura sul-americana reconhecerão um rumor de fundo ao qual convencionamos chamar ‘realismo mágico’”.

Não é a primeira vez que a crítica italiana fala de realismo mágico em relação a Martha Batalha e EURÍDICE. Curioso, porque no Brasil não vemos realismo mágico na narrativa de Martha. Ela não busca dar verossimilhança ao fantástico. Somente usa humor e ironia para realçar a estranheza de aspectos de um cotidiano, que nós, brasileiros, sabemos ser perfeitamente reais e comuns.

Um leitor italiano de A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO, amigo da agência, Giovanni Cannistrà, celebrou o retorno de Jorge Amado em linguagem feminina e feminista, mas com um humor que faltava à literatura brasileira contemporânea, seguida por ele desde a Sicília, onde vive, depois de ter morado no Brasil por várias décadas. Jorge Amado não é nem nunca foi visto como um nome do realismo mágico brasileiro.

Não como José J. Veiga, querido cliente da agência por intermédio de Gabriel Martins, herdeiro e proprietário da obra, ou como Murilo Rubião, dois imensos autores hoje no acervo da Companhia das Letras. (Aliás, três, quatro autores, Jorge Amado e Martha, todos de quem estamos falando são Companhia.)

De fato, para mim (LVB), a construção das frases de Martha ecoa mais García Márquez do que Jorge Amado. Creio que a influência do mestre colombiano do realismo fantástico foi mais forte sobre ela do que as histórias de Gabriela, Dona Flor e Tieta. Vejam só o primeiro parágrafo de A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO. Mas Martha é de fato engraçada como Jorge e não temos dúvida de que sua capacidade de ridicularizar o machismo configure o principal fator para o deslumbramento dos europeus com EURÍDICE. Aguardem e apostem: a acolhida dos franceses a EURÍDICE será ainda mais apaixonada do que a dos italianos e portugueses.

Quando Eurídice Gusmão se casou com Antenor Campelo as saudades que sentia da irmã já tinham se dissipado. Ela já era capaz de manter o sorriso quando ouvia algo engraçado, e podia ler duas páginas de um livro sem levantar a cabeça para pensar onde Guida estaria, naquele momento. É verdade que continuava a busca, conferindo nas ruas os rostos femininos, e uma vez teve a certeza de ter visto Guida num bonde rumo a Vila Isabel. Depois esta certeza passou, como todas as outras que teve até então.

Chega às livrarias francesas amanhã LES VERTUS DE L’ÉCHEC, de Charles Pépin, um livro que celebra as virtudes do fracasso, lançado pela Allary, cliente da 2-Seas e portanto, no Brasil, da VB&M. O livro é precioso, pura filosofia disfarçada de auto-ajuda.
Pépin é mais ou menos conhecido por estas plagas. Companhia das Letras lançou em 2014 O PLANETA DOS SÁBIOS, uma divertida históriacouverture-pepin-hd-tt-width-326-height-468-lazyload-0-crop-1-bgcolor-ffffff das ideias, ilustrada com humor pelo cartunista Jul, cobrindo 3 mil anos de filosofia. Em 2011, a Sulina lançara OS FILÓSOFOS NO DIVÃ, no qual Pépin põe Platão, Kant e Sartre em sessões de psicanálise com Freud; beleza de livro.

Em AS VIRTUDES DO FRACASSO, Pépin defende que não há história de sucesso sem uma série de derrotas que o antecedam. Demonstra sua tese com as trajetórias de personagens mais ou menos contemporâneos, como Rafael Nadal, J.K. Rowling, Steve Jobs, Charles De Gaulle ou Thomas Edison. Relê o percurso dessas figuras geniais à luz de Marco Aurélio, São Paulo, Freud, Bachelard e Sartre.

Pelo livro, percebemos que o fracasso é muito menos manifestação de fraqueza, falta ou erro do que o resultado de um lance de audácia, ou uma rica experiência. É curioso, mas se aprende a ter sucesso no fracasso, porque cada prova ou desafio, confrontando-nos com o real ou com nossos desejos mais íntimos, têm o potencial de nos tornar mais lúcidos e combativos. Mais vivos. Como diz o release da Allary, um pequeno tratado de sabedoria que põe o leitor na estrada do autêntico e verdadeiro sucesso.

O mais incrível disso tudo é que Charles Pépin, de 43 anos, com mais de dez livros publicados em 20 países, é professor de filosofia não na Sorbonne, mas na Maison d’éducation de la Légion d’Honneur da região de Saint Denis, isto é, para alunos do liceu francês, o equivalente da escola média brasileira. Já imaginou ter 15 anos e estudar filosofia com um professor desses numa escola pública?

http://www.allary-editions.fr/publication/les-vertus-de-lechec/