* Por Miriam Leitão

 O passado me olhou de longe, quando cheguei para pegar o trem da Central. Era apenas uma sombra. Desviei o olhar. No sacolejo do vagão, fui vivendo a alegria do programa com os amigos naquela manhã, em pleno dia de semana. O tempo era o presente e estávamos a caminho de Deodoro. Na plataforma da estação, cheia de militares armados, o passado mandou breve lembrança. Era assim, mas era diferente e os inimigos hoje são outros.

A Vila é a Vila e sempre se parecerá com ela mesmo. Me assustei apenas quando o passado gritou do meu lado um refrão agressivo. Um grupo de militares passou correndo e cantando. O som do que repetiam em cadência militar parecia um eco de uma vida já vivida.

“Ei, você que tá me olhando.

Eu não gosto de você.

Sou osso duro de roer.

Se continuar me olhando.

Vou aí socar você.

Você pensa que é esperto.

Você pensa que é esperto…”

A cantoria continuou, mas eles passaram e gravei no meu celular um trecho, que ouço para ter certeza de que ainda cantam o que cantavam. O passado me olhou de novo, mais frontal e próximo. A conversa com os amigos o afastou. Estávamos indo ver o hipismo, só que tínhamos saído tão cedo de casa, com medo de perder a hora, que chegamos cedo demais no Centro Olímpico de Deodoro. Eu propus andarmos um pouco. Reconhecia o terreno. Precisava andar. A vontade ficou imperiosa. Os mesmos prédios. Os regimentos. Os veículos militares passando. A sede do Comando Militar. Um dia, subi aquelas escadarias correndo, atrás de mais carimbos e assinaturas em documento do qual tinha urgência. Consegui. O expediente fechando e a porta que poderia se abrir se eu fosse rápida. Se perdesse aquele dia, último de expediente antes do recesso de Natal e Ano Novo, a prisão se prolongaria. Aquela lenta agonia de mais de ano fora tão dolorosa, que um dia a mais parecia intolerável para todos, principalmente para os amigos e o meu então marido que viviam o inferno da prisão política.

O passado chegou mais perto e quase me tocou, enquanto andava. Eu, em silêncio, os amigos conversando sobre assuntos diversos, fui me afastando, naquela caminhada, rumo a algum ponto do qual fugira nos anos todos em que jamais voltara a Deodoro. Uma amiga veio junto e perguntou o que eu estava sentindo. O olhar se dividiu, disse. Metade vê o passado, metade, o presente. O celular tocou. Era a CBN e os dias de hoje ocuparam todos os espaços.

– Bom dia Milton, bom dia ouvintes. Estou na Vila Militar Marechal Deodoro. Vim ver o hipismo da Olimpíada. 

E depois entrei no comentário sobre a renegociação da dívida dos estados, respondendo à pergunta do âncora do programa. Milton Jung terminou dizendo que o assunto, a dívida dos estados, voltaria a ser tema de comentário. Sim, voltaria. Tudo sempre volta, pensei.

O tempo parece uma linha de trem de muitas estações, em que se anda numa e noutra direção, parando nas plataformas já visitadas. Viajava para frente e para trás, como se não houvesse barreira. Olhava em volta as estações do tempo, todas presentes, e fui tendo uma sensação de estar em um trem que reduzia a velocidade, como se tudo estivesse ficando em câmera lenta.

Perguntei a um militar onde era o Regimento Sampaio. Ele apontou uma luz bem longe e mandou andar naquela direção. Apressei o passo instintivamente. E o passado se aproximava a cada passo, o presente foi virando a estação que eu deixava para trás. Três dos amigos também ficaram parados conversando animados e apenas uma amiga veio comigo. Ela falava algo, mas eu não ouvia. Só via o passado se aproximando, como se fosse uma bolha que começava a me engolir. Velhas lembranças das visitas que fazia ao local de sofrimento e medo. Eu apenas visitava, mas via que o preso definhava aos poucos. As pequenas maldades que faziam voltavam à mente em forma de mosaico. Quanto mais me aproximava, mais via o que se espalhava por todos os lados. Cheguei ao Regimento Sampaio e o olhei de frente. Naquele momento, o passado encobriu tudo. Fez uma bolha e me capturou. Não havia mais presente. Quarenta e três anos sumiram. Eu estava de novo em 1973. Minhas mãos tremiam e o ar ficou espesso. Fiquei presa por alguns minutos naquela estação do tempo.

Fiz o caminho de volta até o Centro Olímpico, me libertando aos poucos da bolha. O presente me olhou confiante e convidativo. O sol brilhava bonito naquela manhã de Deodoro.