Nosso Blog

Goia Mujalli não é escritora ou cliente da VB&M, mas artista, grande pintora, e amiga. Por isso, a vontade de compartilhar o texto de apresentação de sua obra assinado por Mario Gioia, curador da exposição que abre amanhã, 21 de junho, na Galeria Marcus Soska, no Shopping dos Antiquários, em Copacabana.

 IMG_5878

Resíduos de um ritmo

Nas telas de Resíduos de um ritmo, sua primeira individual na cidade, a carioca Goia Mujalli oferece ao observador uma série de embates contínuos da pintura contemporânea. Há o permanente e o transitório, o sedimentado e o índice, o certeiro e o ambíguo, o manual e o digital, o figurativo e o abstrato, entre variados duos que provocam fricções produtivas por meio do fazer artístico. Assim, a artista radicada em Londres habilmente lida com tensões próprias de um autor do presente e devolve para o mundo algo complexo, mas sem deixar de ser profundamente poético e com espaço para guardar enigmas.

Pode-se ter ideia do labor de Goia por meio, por exemplo, do maior trabalho presente na exposição. Ensaio de Balé (2015), com 200 cm x 190 cm, é uma impressão serigráfica sobre linho em que dois principais elementos dominam a composição. O da direita é o que mais instiga: é serial como um carimbo, possui um tom monocromático e atrita elementos dos campos digital e manual no seu ‘andamento’. A aproximação musical vem a calhar, pois a artista enfatiza com frequência esse caminho sinestésico, como ela afirma sobre Água-Viva (2016), outro de seus quadros apresentados hoje: “Em todo o meu trabalho tenho a vontade de criar repetições de uma mesma forma, sempre com um ritmo diferente em cada tela”. A composição de Ensaio de Balé ganha ainda mais interesse quando sabe-se que a forma algo circular que se repete vem da apropriação da imagem de uma bailarina, vista de cima. E esse movimento leva a forma a se desmanchar em algo mais gestual, informe, que predomina, então, no lado esquerdo da obra.

A qualidade vestigial da figura também transparece nos títulos de Resíduos de um ritmo. Há CabelosCéuNuvemPianoJanela. Em alguns deles, a imagem originária se esboça com mais reforço (como em JanelaPiano, por exemplo), mas as relações que se fundem e criam um outro corpo, a partir da mescla de procedimentos e materiais da serigrafia e da pintura (e, por que não, do desenho e da colagem), terminam por ostentar apenas fiapos e volumes tíbios do que poderia ser um figurativo mais estruturado. Goia, portanto, segue por uma vertente expandida do pictórico, que, apesar de tudo, fundamentalmente é pintura. “Vejo essas pinturas como espaços imersivos onde a essência de certos objetos podem existir. Pinturas com resíduos de gestos criando um ritmo através de outro espaço (onde serão expostas)”, relata a artista, a respeito de Nuvem (2016).

Nesse sentido, cabem alguns dados que ajudam a entender mais sobre o processo de Goia. Com mestrado fora do país em andamento sobre a linguagem – no Royal College of Art, em Londres – , ela traz referências importantes do pictórico internacional – podemos citar Laura Owens e Jacqueline Humphries – , porém a herança neoconcreta nacional ainda é patente em sua produção. E o legado de nomes como Lygia Pape (1927-2004) e Hélio Oiticica (1937-1980) vem menos de aproximações formais e mais de pensamentos e abordagens –  a imersão pretendida por Goia em suas obras, nesse ponto, é paradigmática. “A cor é a revelação primeira do mundo. Ela existe como luz, diluída nas aparências. (…) A cor passa, pois, a construir mundo, vontade suprema do artista, aspiração altamente humana” 1, diz Oiticica, no ano de 1960.

Na corporeidade da pintura, amálgama entre a escala generosa, a conferir fisicalidade e atestar o caráter fenomenológico do meio, e a especificidade de cada material, Goia esculpe em processos permeáveis a sua produção, não deixando de construir por vezes peças surpreendentes. É o caso de Cabelos (2015), óleo sobre tela de 167 cm x 167 cm. Com diagonais em vermelho, que rimam em pulsão com os ‘tufos’ alaranjados que pontuam marcadamente a superfície da tela, o conjunto reforça a temporalidade mais densa do óleo. Contudo, não deixa de criar novas relações profícuas com a agilidade sintética da acrílica e o dado mais gráfico da serigrafia. “Cada material proporciona uma duração diferente no processo”, frisa a artista.

Em Resíduos de um ritmo, Goia Mujalli desata amarras que fixam definições rijas nos escaninhos de cada suporte. Constrói um trajeto que se move por entre o visível e o apagado, o íntegro e o fragmentado, forjando atributos matéricos a partir do abstrato. Parece, então, criar em tintas vivas e não lineares uma sentença sobre questão do teórico Rudolf Arnheim (1904-2007), formulada em 1989: “O que tornou-se a abstração?” 2. Certamente a resposta da artista não vem de modo uno nem planificado.

Mario Gioia, junho de 2016

1. FAVARETTO, Celso; BRAGA, Paula. Hélio Oiticica – Estrutura Corpo Cor. São Paulo, Base 7/Fundação Edson Queiroz, 2016, p. 27

2. ARNHEIM, Rudolf. Ensayos para rescatar el arte. Madri, Cátedra, 1992, p. 29

Comentários ( 0 )

    Deixe um comentário

    O seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *