junho 2016

Sérgio Abranches reflete neste artigo sobre o perturbador Brexit e as eleições espanholas. Que medo, esse mundo.

Absolutamente imperdíveis para quem ambiciona se não entender a contemporaneidade, pelo menos pensá-la com conceitos claros e alguma objetividade, esses artigos do Sérgio dão bem o tom do que será O COMPLEXO DE PROMETEU, seu ensaio seminal a sair no início do próximo ano.

 O voto no Reino Unido e na Espanha, sociedades divididas e perplexas

Sérgio Abranches

O referendo no Reino Unido e as eleições gerais na Espanha além de serem decisões históricas, são indicadores das contradições de nosso tempo. Eleições divididas, que nada resolvem, aumentam a incerteza e a perplexidade. Estão no limite de validade da democracia tal como a conhecemos. O desencanto dos cidadãos com a democracia pela qual não se sentem representados é um dos principais desafios civilizatórios do século XXI. Sem o regime de liberdades, os princípios republicanos da igualdade na lei e da fraternidade/solidariedade, não teremos como atravessar com sucesso essa longa transição que está mudando globalmente paradigmas econômicos, sociais, políticos, científicos e tecnológicos e os padrões comportamentais. Mas a democracia representativa assegura menos liberdade que no passado, já não acredita na igualdade na lei e perdeu a solidariedade. Ficou mais curta que a sociedade que com ela se descontenta.

O voto britânico a favor da saída da União Europeia foi um retrocesso na trajetória do próprio Reino Unido. A partir da Londres mestiça, cosmopolita, aberta, buscando ser inteligente, sustentável e democrática, que acaba de eleger um prefeito muçulmano, o Reino Unido caminhava para ser um país mais integrado às tendências transformadoras da fase avançada da globalização. Com a saída, retorna à trilha do isolamento que o separa do continente e das vanguardas da mudança global. Na Espanha, a divisão revela uma sociedade que ainda dá ligeira maioria para os lados esquerdo e direito de um sistema partidário analógico que perde representação e relevância. Mas, uma parte nada desprezível dos eleitores preferiu os novos da política que nasceram nas ruas mobilizadas pela indignação e pela esperança e se consolidaram nas redes sociais, reunindo a praça física e o espaço digital. Essa nova Espanha, jovem, cosmopolita e digital conquistou um terço das cadeiras.

A escolha dos britânicos foi recebida com um sentimento misto de sobriedade e preocupação. Só depois de apurados os votos incertos, revelando maioria mínima pela Brexit, todos se deram conta da gravidade e do alcance da escolha majoritária. Agora, o sistema político e a sociedade terão que buscar a melhor forma de dar consequência a uma decisão sobre a qual nenhum segmento, exceto os da extrema-direita nacionalista, tem convicções firmes. A opção pela saída da União Europeia já teve consequências. Reabriu o dissídio com a Escócia, que pode rumar para  a secessão. Os escoceses têm toda razão. É muito melhor ser uma nação independente e parte da federação europeia, do que um súdito menor do Reino Unido. A Irlanda do Norte pode seguir na mesma direção. Os dois países votaram majoritariamente pela permanência. As preferências dos dois se mostraram o avesso das preferências da Inglaterra e do País de Gales. Os dois principais perdedores do referendo britânico foram a Londres mestiça, um dos mais avançados exemplos de cidade cosmopolita e transcultural — como Toronto e Vancouver, no Canadá — em sintonia com as tendências do novo tempo; e a City, um dos centros do capital financeiro globalizado,  que exerce a hegemonia do sistema econômico global. O referendo é um flagrante das perturbações e confusões dessa grande transição global, na qual o mundo que conhecemos perde força e capacidade de mobilizar, empregar, representar e o mundo emergente, não está maduro ainda para oferecer respostas eficazes que acomodem os interesses repelidos pelas velhas estruturas, ou que delas se apartam.

A eleição espanhola reproduziu, com ligeiras alterações, a mesma divisão que deixou o país seis meses sem governo. As escolhas do eleitorado também expressam esse entrementes da transição, no qual velho e novo convivem desarmônicos e em trajetórias inversas. Os conservadores do PP, liderados por Mariano Rajoy, fizeram 39% das cadeiras do parlamento. Os socialistas do PSOE, liderados por Pedro Sánchez, conquistaram 24% dos postos parlamentares. Os dois representam a velha estrutura partidária, hegemônica desde que os Pactos de Moncloa, de 1977, estabeleceram as bases para a democracia na Espanha sob a monarquia parlamentarista. Juntos, controlam ainda 63% da representação parlamentar, mas não têm condições de formar uma coalizão de interesses da velha ordem. Sánchez diz, com razão, que a missão do PSOE é evitar um governo com Rajoy no comando. A terceira força, com 20% das cadeiras no parlamento, é o Podemos, vindo direto dos lados esquerdos das ruas indignadas. É liderado por Pablo Iglesias. A quarta força parlamentar é o Ciudadanos, ou Cs, partido liberal-conservador, expressão das novas classes médias, também nascido nas ruas. Fez pouco menos de 10% das cadeiras.

Uma coalizão dos velhos conservadores com os novos, ainda não teria a maioria. Seria necessário trazer para a aliança algumas legendas nanicas. Mas a maioria delas representa segmentos regionais, em grande medida avessos a Rajoy. Uma coalizão da velha esquerda, representada pelo PSOE, com o Podemos ainda precisaria do apoio de duas legendas da esquerda catalã, a ERC (Esquerra Republicana de Catalunya) e a CDC (Convergència Democràtica de Catalunya). Mas elas não confiam em Sánchez, do PSOE. Este, por sua vez, não confia em Iglesias, do Podemos. Por isso, na sua tentativa fracassada de formar um governo, antes dessas últimas eleições gerais, cometeu o erro fatal de preferir o Ciudadanos ao Podemos.

Então, é assim: Sánchez não confia em Rajoy, nem em Iglesias. Iglesias rejeita Rajoy e não confia no líder do Ciudadanos, Albert Rivera, que também não confia nele. As legendas menores, por sua vez, desconfiam de Rajoy e de Sánchez.

Esse confronto entre forças poentes e forças emergentes, de todos os matizes, tende mesmo ao impasse, dificultando o jogo político. A saída “óbvia” seria a grande coalizão, reunindo os dois partidos analógicos, até recentemente hegemônicos. Mas a desconfiança que nutrem pelos novos não supera as rivalidades que se cristalizaram ao longo de quase quatro décadas de adversariedade bipartidária. Eles continuam representando interesses antagônicos, todos incrustados na velha ordem. Os “novos” partidos digitais, que têm existência na ciberesfera, nas redes sociais, tão intensa quanto na sociedade, ainda representam interesses difusos e heterogêneos, de segmentos que estão sendo expulsos da economia em retração estrutural e de setores emergentes, que ainda não têm espaço próprio nas novas estruturas socioeconômicas em formação. Representam a mescla entrevista por Manuel Castells, quando fala nas redes de indignação e esperança. A indignação dos que estão sendo deslocados dos mercados e das posições que detinham na sociedade e na economia em ocaso. A esperança daqueles que nasceram digitais e que, embora vivendo as angústias do desemprego e o desconforto do desencaixe no mundo que se desarticula, esperam o amadurecimento da nova economia e que os novos partidos, de fato, sejam capazes de interpretar e representar seus interesses.

Dúvida britânica e dúvida espanhola. Dúvida global. Os cidadãos dessa transição não têm outra coisa a fazer, se não aprender a conviver com a incerteza e com o risco. Vivemos tempos incertos, de muita mudança, sinais contraditórios, risco de eventos inesperados e não-antecipáveis. Toda decisão coletiva, nesse intervalo entre uma era e outra, terá sempre mais consequências não-antecipadas do que resultados previsíveis. Daí ter muita razão o sociólogo Ulrich Beck ao caracterizar como sociedade de risco esse mundo globalizado, em transição, no qual o indivíduo confronta o cidadão e as ondas difusas de descontentamento varrem as praças intermitentemente para manifestar seu desconforto e desencanto, mas sempre apostando que é possível mudar, avançar e superar.

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Só mesmo diante da tarefa de escrever um discurso, valorizamos devidamente esse gênero. Mas tem gente que nasce sabendo. Kurt Vonnegut, autor que se tornou um clássico da literatura norte-americana com MATADOURO-5, é um exemplo. Ele foi um dos mais populares – e disputados – paraninfos na história das formaturas universitárias dos EUA. Seus discursos ficaram conhecidos pela leveza, pela graça e pela sabedoria.

A capa da Seven Stories Press.

A capa da Seven Stories Press.

Apostando que teria um sucesso nas mãos, a editora nova iorquina Seven Stories Press publicou em 2013 IF THIS ISN’T NICE, WHAT IS?_ The Graduation Speeches and Other Words to Live, o livro que reúne os discursos de paraninfo Vonnegut, organizados por Dan Wakefield. Depois de quase três anos e com mais de 25 mil exemplares vendidos, a editora está lançando agora a segunda edição com seis novos textos, e é aí que nós entramos. Após um breve leilão, a editora Rádio Londres comprou os direitos para o Brasil, e em breve teremos essas joias da oratória em português.

Inspirado por Jesus e Bertrand Russel, Vonnegut é otimista sem ser tolo, tem um texto dinâmico, da mais fina qualidade literária, e dá dicas preciosas aos jovens às vésperas de enfrentar a real – o duro mundo do trabalho. Estamos apostando que o livro será um sucesso para a Rádio Londres também, presente de formatura dos sonhos para qualquer formando.

Lara Berruezo

Anunciamos a entrada do publicitário e pesquisador José Roberto Walker para nossa lista VB&M de clientes revelando desde logo quem será o editor de seu sensacional romance NEVE NA MANHÃ DE S. PAULO, sobre o belo e trágico caso de amor entre Oswald de Andrade e a jovem Daisy, Miss Cyclone, uma normalista de 17 anos, única mulher a frequentar a notória garçonnière de reuniões intelectuais da grande geração modernista. O pano de fundo é o momento em que a aldeia paulistana transformava-se com a mirada para a grande metrópole de hoje.

Desde a cobertura da Ilustríssima da Folha de S.Paulo, em dezembro passado, sobre a descoberta que Walker fez do endereço preciso da garçonnière, o brilhante Flávio Moura, da Companhia das Letras, ficou de olho no livro. Sua leitura confirmou a joia rara de um romance de não-ficção especialíssimo, capaz de oferecer uma densa recriação da subjetividade da época, final da segunda década do século XX, descrevendo como o machismo e a discriminação sexual eram sentidos e sofridos por homens e mulheres. Embora o romance conte uma história rigorosamente factual, apenas com tratamento literário, não queremos aqui entrar em detalhes do entrecho, que não é assim tão conhecido do público leigo. Não queremos correr o risco de estragar qualquer surpresa.

Além da palpável textura amorosa do caso de Oswald e Miss Cyclone, com o preciso traçado psicológico dos personagens, NEVE NA MANHÃ DE S. PAULO faz uma recriação de época absolutamente extraordinária. Sou grata pela leitura porque, quando vou agora a São Paulo, vejo a cidade com um olhar muito diverso, mais nuançado, generoso, amoroso e histórico.

Depois do caderno da Ilustríssima sobre a garçonnière da Rua Líbero Badaró, a Folha voltou a falar do livro em deliciosa matéria publicada nessa quarta-feira, 22 de junho, na parte de Cotidiano, a propósito do frio intenso no inverno paulistano de 1918. Muita bem-vinda a chegada de José Roberto Walker à VB&M. Companhia lançará NEVE NA MANHÃ DE SÃO PAULO em março de 2017, ano de muitas efemérides ligadas ao romance, centenário da principal parte da narrativa.

Links para a matéria: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/06/1783228-sp-teve-neve-de-mentira-em-manha-fria-de-1918-caso-virou-folclore-local.shtml

PARIS-BREST é uma delícia. Misto de memórias de viagem, romance e livro de gastronomia, é, acima de tudo, um mergulho de seu autor, o jornalista Alexandre Staut, em suas paixões: gastronomia, literatura, encontros. Verdadeira ode ao bem viver, ao deliciar-se com os pequenos prazeres da vida e ao encontro consigo mesmo a partir das sensações e aprendizados propiciados pelo novo, PARIS-BREST nos transporta para um mundo quase paralelo de sabores, aromas e texturas, numa paisagem de aquarela à beira mar apetitosamente descrita a partir de seu ambience gastronômico.

A capa de PARIS-BREST aberta.

A capa de PARIS-BREST aberta.

De sua chegada a L’Aber Wrach, pequenina cidade na costa bretã, sem dominar o francês e tendo por conhecido apenas o amigo e a partir de então sócio Yann Danjou, ao momento em que decide retornar ao Brasil, deixando para trás as diversas cozinhas de restaurantes e casas francesas nas quais viveu um par de anos de encontros e aprendizados – que nós, leitores, percebemos absorvidos na voz do narrador que anos depois nos conta suas memórias –, Alexandre deixa de ser menino para se tornar adulto, aprende a lidar com a vida como particular e intransferível e a fazer escolhas que só a maturidade pode permitir. Verdadeiro romance de formação, como bem escreveu Humberto Weneck no texto de orelha do livro, a narrativa cresce com o autor desvendando o descobrimento de um homem e o surgimento de um grande cozinheiro. Um cozinheiro, não um chef, porque este é profissão e aquele, aptidão; e a profissão de Alexandre – gratos somos nós pelo que descoberto foi em L’Aber Wrach – é escrever.

Mas não é só de tudo isso de que é feito o livro. Todo salpicado de receitas recriadas e aprendidas na Bretanha, Normandia e Loire, várias vezes dá vontade de fechá-lo e correr para a cozinha. E se muitas vezes a preguiça prevalece, o que não falta é água na boca e um desejo profundo de se transportar para o momento idílico e saboroso em que o livro se encontra. Os pratos são tão recheados de aroma e sabor que – quase – nos saciamos com sua descrição. Os personagens são tão vivos e delineados que às vezes dubitamos serem reais ou fruto da mais fina imaginação. E as cozinhas e os restaurantes, as dificuldades e as conquistas de se construir algo seu são tão sensorialmente descritos que nos parece estarmos lá. Quando nos damos conta, estamos vivendo um pedaço de uma história que parece nosso e de que não sabemos em que ponto deixa de ser história para se tornar ficção.

Ainda bem que na arte da literatura isso não importa. O que importa é a experiência ofertada pelo livro. E esta, em PARIS-BREST, é nada menos do que uma delícia.

Goia Mujalli não é escritora ou cliente da VB&M, mas artista, grande pintora, e amiga. Por isso, a vontade de compartilhar o texto de apresentação de sua obra assinado por Mario Gioia, curador da exposição que abre amanhã, 21 de junho, na Galeria Marcus Soska, no Shopping dos Antiquários, em Copacabana.

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Resíduos de um ritmo

Nas telas de Resíduos de um ritmo, sua primeira individual na cidade, a carioca Goia Mujalli oferece ao observador uma série de embates contínuos da pintura contemporânea. Há o permanente e o transitório, o sedimentado e o índice, o certeiro e o ambíguo, o manual e o digital, o figurativo e o abstrato, entre variados duos que provocam fricções produtivas por meio do fazer artístico. Assim, a artista radicada em Londres habilmente lida com tensões próprias de um autor do presente e devolve para o mundo algo complexo, mas sem deixar de ser profundamente poético e com espaço para guardar enigmas.

Pode-se ter ideia do labor de Goia por meio, por exemplo, do maior trabalho presente na exposição. Ensaio de Balé (2015), com 200 cm x 190 cm, é uma impressão serigráfica sobre linho em que dois principais elementos dominam a composição. O da direita é o que mais instiga: é serial como um carimbo, possui um tom monocromático e atrita elementos dos campos digital e manual no seu ‘andamento’. A aproximação musical vem a calhar, pois a artista enfatiza com frequência esse caminho sinestésico, como ela afirma sobre Água-Viva (2016), outro de seus quadros apresentados hoje: “Em todo o meu trabalho tenho a vontade de criar repetições de uma mesma forma, sempre com um ritmo diferente em cada tela”. A composição de Ensaio de Balé ganha ainda mais interesse quando sabe-se que a forma algo circular que se repete vem da apropriação da imagem de uma bailarina, vista de cima. E esse movimento leva a forma a se desmanchar em algo mais gestual, informe, que predomina, então, no lado esquerdo da obra.

A qualidade vestigial da figura também transparece nos títulos de Resíduos de um ritmo. Há CabelosCéuNuvemPianoJanela. Em alguns deles, a imagem originária se esboça com mais reforço (como em JanelaPiano, por exemplo), mas as relações que se fundem e criam um outro corpo, a partir da mescla de procedimentos e materiais da serigrafia e da pintura (e, por que não, do desenho e da colagem), terminam por ostentar apenas fiapos e volumes tíbios do que poderia ser um figurativo mais estruturado. Goia, portanto, segue por uma vertente expandida do pictórico, que, apesar de tudo, fundamentalmente é pintura. “Vejo essas pinturas como espaços imersivos onde a essência de certos objetos podem existir. Pinturas com resíduos de gestos criando um ritmo através de outro espaço (onde serão expostas)”, relata a artista, a respeito de Nuvem (2016).

Nesse sentido, cabem alguns dados que ajudam a entender mais sobre o processo de Goia. Com mestrado fora do país em andamento sobre a linguagem – no Royal College of Art, em Londres – , ela traz referências importantes do pictórico internacional – podemos citar Laura Owens e Jacqueline Humphries – , porém a herança neoconcreta nacional ainda é patente em sua produção. E o legado de nomes como Lygia Pape (1927-2004) e Hélio Oiticica (1937-1980) vem menos de aproximações formais e mais de pensamentos e abordagens –  a imersão pretendida por Goia em suas obras, nesse ponto, é paradigmática. “A cor é a revelação primeira do mundo. Ela existe como luz, diluída nas aparências. (…) A cor passa, pois, a construir mundo, vontade suprema do artista, aspiração altamente humana” 1, diz Oiticica, no ano de 1960.

Na corporeidade da pintura, amálgama entre a escala generosa, a conferir fisicalidade e atestar o caráter fenomenológico do meio, e a especificidade de cada material, Goia esculpe em processos permeáveis a sua produção, não deixando de construir por vezes peças surpreendentes. É o caso de Cabelos (2015), óleo sobre tela de 167 cm x 167 cm. Com diagonais em vermelho, que rimam em pulsão com os ‘tufos’ alaranjados que pontuam marcadamente a superfície da tela, o conjunto reforça a temporalidade mais densa do óleo. Contudo, não deixa de criar novas relações profícuas com a agilidade sintética da acrílica e o dado mais gráfico da serigrafia. “Cada material proporciona uma duração diferente no processo”, frisa a artista.

Em Resíduos de um ritmo, Goia Mujalli desata amarras que fixam definições rijas nos escaninhos de cada suporte. Constrói um trajeto que se move por entre o visível e o apagado, o íntegro e o fragmentado, forjando atributos matéricos a partir do abstrato. Parece, então, criar em tintas vivas e não lineares uma sentença sobre questão do teórico Rudolf Arnheim (1904-2007), formulada em 1989: “O que tornou-se a abstração?” 2. Certamente a resposta da artista não vem de modo uno nem planificado.

Mario Gioia, junho de 2016

1. FAVARETTO, Celso; BRAGA, Paula. Hélio Oiticica – Estrutura Corpo Cor. São Paulo, Base 7/Fundação Edson Queiroz, 2016, p. 27

2. ARNHEIM, Rudolf. Ensayos para rescatar el arte. Madri, Cátedra, 1992, p. 29

Chegaram à VB&M os exemplares da agência de QUANDO FINALMENTE VOLTARÁ A SER COMO NUNCA FOI, de Joachim Meyerhoff, um dos mais notáveis e consagrados autores da literatura alemã contemporânea. Um autor respeitado literariamente e que conversa com o público de seu país às centenas de milhares de livros vendidos. A edição brasileira da Valentina, comandada por Rafael Goldkorn com direção editorial de Rosemary Alves, ficou maravilhosa.

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Trata-se de um romance de formação muito baseado na vida do próprio Meyehoff, talvez por isso seu maior sucesso. A história é narrada por um menino filho de um psiquiatra cuja família mora dentro de um hospício. Claro que a noção de normalidade do narrador não pode ser a mesma de outros garotos de sua idade.

Gozado é que para nós o título da edição da Valentina, traduzido literalmente do original alemão, tem um eco muito brasileiro, muito nosso. Quem tem mais de 40 anos se lembra que ao fim do governo Collor, estávamos todos no Brasil exaustos de ser tão canhestros, tão diferentes do resto do mundo, com aquela inflação galopante que fazia a vida da gente ser tão absurda, com aquela impossibilidade de usar cartão de crédito internacionalmente, com aquelas histórias de milicos torturadores e militantes da luta armada que queriam fazer do Brasil uma grande Cuba, com aquela democracia que não deslanchava. Vieram o Plano Real, os dois mandatos presidenciais de FHC, o primeiro do Lula, e de repente pareceu que estávamos entrando no Primeiro Mundo, que finalmente havíamos nos tornado normais. Mas quando começamos a acreditar, caíram sobre nossas cabeças mensalão, a devastação econômica deflagrada por cinco anos e meio de incompetência desonesta de Dilma Roussef, a tragédia da Petrobrás e do petrolão.

A maioria de nós continua a acreditar que em algum momento demos certo e tivemos sucesso. Não creio. A bonança da era Lula foi uma fantasia sem lastro, e a consequência está aí na nossa infraestrutura aos pedaços, sem escola, sem saúde, com quase 12 milhões de desempregados. Mas o fato é que regredimos a nossa anormal normalidade. Podemos dizer como no romance de Meyerhoff que tudo que queremos é voltar a ser como nunca fomos.

Evaristo de Miranda, autor de A GEOGRAFIA DA PELE, um dos mais belos livros brasileiros dos últimos tempos, que até teve excelente crítica mas muito aquém do merecido em termos de circulação e abrangência, escreveu no Estado de S. Paulo sobre os verdadeiros dilemas do Velho Chico.

Acesse aqui:

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A maior bola fora de análise política que me lembro de ter dado na vida foram minhas previsões sobre a carreira de Donald Trump nas primárias republicanas. Fui muito pela cabeça do Raymond Moss. Ele dizia: “Trump terá todos os votos do ‘trash white male’ (machão-branco-lumpen), mas só esses. Já não existem tantos ‘trash-white-males’ nos EUA.”

Eu acreditei e nem me abalei com suas primeiras vitórias. Imagine, Donald Trump, se conseguir a nomeação republicana, será aplastrado pelo  candidato democrata. Pois é, me dei mal.

Evidentemente, Trump ainda pode perder as eleições de novembro; esperemos que os EUA não sigam exemplos brasileiros de irresponsabilidade e estupidez políticas. Evidentemente também, ele já foi longe demais, muito além da nossa imaginação, pois as eleições presidenciais americanas serão aterradoramente disputadas.

Minha amiga Mirian Goldenberg diz que minha bola fora sobre Trump tira credibilidade de todas as minhas análises políticas inclusive sobre o Brasil, a respeito do que acertei tudo desde muito antes da segunda eleição de Dilma Roussef. Ela está tripudiando em cima de meu erro, mas as grandes amigas podem.

Como eu e todo o espectro de analistas políticos poderíamos ter pensado de maneira diferente? Os EUA são quase 50% negros e latinos, sistematicamente atacados por Trump. As mulheres e os gays americanos são sistematicamente agredidos pelo candidato. Como, com base em quê, aconteceu essa carreira meteórica?

Espaço publicitário neste blog de uma agência literária: só um livro responde a essa pergunta, que preocupa não só os EUA e o Brasil mas o mundo todo – a bio-gráfica TRUMP!, de Ted Rall, publicado nos EUA pela Seven Stories Press, que a VB&M representa para o mercado editorial brasileiro. Rall já é conhecido da gente por SNOWDEN, que saiu em novembro pela WMF. Tomara que seu trabalho fundamental continue sendo divulgado entre nós. Depois de SNOWDEN, ele já lançou BERNIE, mas o desafio mesmo é entender TRUMP!

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Neste blog, já escrevemos sobre estranhos casos em que ficção de autores da VB&M previram no detalhe acontecimentos da vida real. O ex-torturador disposto a contar o passado e em seguida assassinado no romance TEMPOS EXTREMOS, de Míriam Leitão, antecipou a morte de um delator da Comissão da Verdade. Um operador financeiro forja a própria morte em A BÍBLIA DO CHE, de Miguel Sanches Neto, de maneira muito semelhante ao que se fala sobre José Janene no escândalo do Petrolão. A BÍBLIA DO CHE ainda está por ser publicado no fim do mês, mas eu li a história escrita pelo Miguel muito antes das especulações sobre a pseudo-morte do Janene.

Hoje podemos falar de a vida imitando a arte não com mortes, mas com um nascimento. No dia 21, será lançado no Rio de Janeiro pela Tordesilhas o romance do autor português Jorge Reis-Sá, A DEFINIÇÃO DO AMOR, que conta a história de um marido e pai apaixonado e angustiado refletindo à beira do leito da mulher grávida e em coma, à espera do nascimento do filho. Em Portugal, o romance de Jorge saiu em 2015 e encontrou uma crítica maravilhosa. Pois neste 8 de junho os jornais portugueses noticiam que no Hospital de S. José, em Lisboa, os médicos de Obstetrícia e da Unidade de Neurocríticos realizaram o parto de um bebê nascido de uma mãe há quatro meses em morte cerebral. Nunca em Portugal se tinha conseguido nada semelhante.

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A Guerra & Paz, de Manuel Fonseca, ótima editora portuguesa de A DEFINIÇÃO DO AMOR, emitiu um comunicado à mídia e presenteou os médicos do Hospital de S. José com exemplares do romance de Jorge. No Rio de Janeiro, o lançamento do livro terá a presença de Antônio Cícero, Eucanaã Ferraz e Alice Sant’Anna lendo trechos da obra e debatendo o fazer literário. Será a saudação dos poetas ao triunfo da vida sobre a morte para além da literatura.

LVB

 
A VIDA IMITA A ARTE
Um romance, A definição do Amor, de Jorge Reis-Sá, antecipou o milagre do Hospital de S. José
 
Ontem aconteceu o que, à falta de outro termo, poderíamos chamar um pequeno milagre. Foi no Hospital S. José, em Lisboa. Os médicos de Obstetrícia e da Unidade de Neurocríticos daquele Hospital realizaram o parto de um bebé, que nasceu de uma mãe há quatro meses em morte cerebral. Nunca em Portugal se tinha conseguido nada semelhante.
Ou melhor, já tinha acontecido, se considerarmos que a arte tem alguma coisa a ver com a vida. Um romance de Jorge Reis-Sá, A Definição do Amor, trata exactamente este tema. Um homem, marido e pai, reflecte, angustia-se, espera e vive, semanas em cima de semanas, à beira de uma cama onde a mulher, que amou e ama, está em coma, grávida. Pensa, sofre, e espera o nascimento de um filho, o mesmo milagre que, agora, na vida real, sempre pronta a imitar a arte, os médicos do Hospital S. José conseguiram realizar.
Um extraordinário romance, A Definição do Amor, foi publicado pela Guerra e Paz em Abril de 2015. Um romance que a editora acaba, agora, de enviar, aos médicos do Hospital de S. José, saudando este triunfo da vida sobre a morte, que não é afinal um exclusivo da arte.
 
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No almoço de hoje da VB&M, com a presença de Ronaldo Wrobel, autor de O ROMANCE INACABADO DE SOFIA STERN, comentávamos uma resenha incompreensível que saiu no 2º Caderno do Globo de sábado. Anna Luiza, Lara, Ronaldo, Bebel Sader e Luciana: ninguém entendeu nada do que estava escrito e largou a leitura do texto no terceiro parágrafo. Imagine comprar o livro, cujo título e teor ninguém sequer lembrava: nem pensar.

Um dia os jornais brasileiros hão de entender que chamar professor de Departamento de Letras para fazer crítica literária não dá certo. O jornal perde.

Só no Brasil, acadêmico de Literatura pontifica em suplemento de livro de grandes jornais, que supostamente querem falar com um público que ultrapassa o leitor especialista. No suplemento do New York Times, dificilmente encontramos um artigo que não seja perfeitamente legível, além de preciso e relevante, sempre voltado para um bom leitor, mas não especializado na identificação de intertextualidades ou dialogismos ou polifonias ou qualquer outro conceito da moda dos departamentos de Letras. Resenha boa é resenha simples, que discorre sobre a obra com clareza e erudição, se possível também com elegância e generosidade, permitindo que o leitor defina se a leitura do livro lhe interessa ou não.

Dito isso, a resenha de A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO, de Martha Batalha, uma curta notinha publicada na revista Vida Simples, é um exemplo de texto que cumpre seu objetivo. Verdade que o título da revista – excelente – inspirou este post.

vida simples