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Já deveríamos ter festejado a entrada de A MÃE ETERNA, de Betty Milan, na lista de mais vendidos da Folha de S.Paulo, no sábado, dia 14 de maio. Na semana passada, chegamos a falar do livro na lista de nacionais da Livraria da Travessa e em 12º lugar no PublishNews. Mas na Folha A MÃE ETERNA comparece nos 10 +. Acima do título de Betty, nove livros de ficção estrangeira. Festejamos por se tratar de uma obra representada pela VB&M, mas também por outras razões mais largas, que podem ter repercussão no mercado editorial.

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Há quanto tempo não se vê um romance literário brasileiro na lista de mais vendidos? Que eu (Luciana) me lembre, o último foi FIM, de Fernanda Torres, em 2013, sem dúvida uma narrativa eficaz, mas cujas vendas foram obviamente arrastadas pela fama poderosa da autora como atriz. À exceção de FIM, há três anos, qual outro? Chocante, mas no Brasil é um feito chegar às listas um bom romance adulto (não se trata aqui de lançamentos para o público adolescente e jovem) de autor brasileiro sem outro reconhecimento que não pela atividade literária.

Quais as razões do sucesso? Obviamente, a própria extraordinária escrita de Betty e o tema da obra, um desafio existencial extremamente comum na vida real mas raro na ficção – a relação entre mãe e filha diante da velhice e da morte. Mas há algo mais para a popularidade de A MÃE ETERNA, se pararmos para lembrar dos livros lindos e impactantes, às vezes detentores de prêmios reluzentes, Jabutis, Oceanos e outros, que não alcançaram posição nem nas listas ampliadas das livrarias.

Para o romance de Betty, contou a aposta. O editor Carlos Andreazza, da Record, reconheceu o potencial do livro, fez uma tiragem de 8.000 exemplares, alta somente para títulos nacionais, mas já ambiciosa para amargos tempos dilmescos e pós-dilmescos, e ouviu e aceitou a proposta de plano de marketing da autora explorando o lançamento para o Dia das Mães. Mal se esgotou a primeira rodada, já nova tiragem estava engatilhada. A própria autora, sabedora da obra que havia criado, contratou uma assessoria de comunicação privada para se somar à da Record. Foi o suficiente.

Houvesse Andreazza ponderado as dificuldades do mercado e “a moderna facilidade de reimpressão e reposição de hoje em dia” para justificar uma tiragem de 5.000 em vez de 8.000, como acontecera com a mesma Betty em 2013 no lançamento de CARTA AO FILHO, um livro que ainda gera bons royalties autorais, a situação de  A MÃE ETERNA hoje seria outra. No caso de CARTA AO FILHO, a primeira tiragem esgotou-se rapidamente, e o pequeno hiato de abastecimento das livrarias foi bastante para diminuir muito a visibilidade do lançamento. Acontece com frequência em todas as editoras com a tiragem de 5.000.

A ficção brasileira padece da mesma crise que o Brasil: de confiança. Pior que o país, a falta de confiança da qual sofre é mais antiga. Se a credibilidade do Brasil começou a avacalhar-se mais profundamente há cerca de três anos, a ficção do autor brasileiro não é digna da fé dos editores há bem três décadas.

Que o exemplo de A MÃE ETERNA sirva para divulgar e ampliar a ideia de que o grande romance brasileiro, quando bem editado e lançado, tem tanto potencial de agradar ao leitor quanto a ficção de língua inglesa. Retomado o crescimento do país, minimamente recuperados o emprego e a renda, o leitor brasileiro poderá descobrir que a literatura criada em seu idioma fatalmente fala de suas descobertas e angústias, preocupações e alegrias, de maneira muito mais próxima, mais íntima, do que a ficção de outros países. Obviamente, nada contra o romance estrangeiro, não precisamos de um patamar norte-americano de provincianismo: somente a ideia de que o brasileiro, entre tantos desafios gigantescos, para ser plenamente feliz tem que resgatar do esquecimento sua própria literatura. Uma tarefa para os leitores e editores do Brasil.

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