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“Por que você não se sente mais cidadã do mundo do que brasileira? Seria inclusive uma visão mais próxima da realidade”, me pergunta Raymond, na tentativa de me levantar de mais uma depressão em que sou jogada por notícias do Brasil. Não concordo e não consigo. Sou brasileira, serei sempre, com muita vergonha e muita dor.

Casar/viver com estrangeiro tem esse preço. A nacionalidade pesa. Como uma pessoa direita cujo pai é ladrão sente vergonha da família de origem diante do cônjuge, a nacionalidade pesa de igual maneira na relação de um casal. Dá muita vergonha.

No meu caso, venho de um país onde os eleitores elegem uma Câmara em que 60% dos deputados são objeto de investigação por crimes variados (dado sempre repetido nos jornais dos EUA que estarrece, como devido, os americanos). De um país onde ingenuamente é posto no poder um bando que para ali se perpetuar está pronto a cometer qualquer ordem de crime, desde a destruição da maior empresa brasileira por meio da corrupção até assassinato. De um país em que boa parte da intelectualidade, para segurar suas prebendas, bolsinhas e financiamentos de filmecos e outras obras sem público (sempre sangrando o bolso do contribuinte), sobe a palanques para defender a máfia. Dá vergonha.

Uma gente tão tolinha que ainda vê “esquerda”, um conceito já inadequado, em um regime que em 14 anos não ofereceu educação da mais mínima qualidade para o povo, menos ainda serviços de saúde e saneamento; e que aprofundou o conluio entre o capital mais espúrio e a máquina do Estado criando um esquema de corrupção inédito até na história do Brasil. Dá muita vergonha de tanta estupidez, ainda mais quando são “intelectuais” que a proferem.

Dor maior é constatar e não poder camuflar que o brasileiro ainda não conseguiu entender o conceito de “império da lei” _ marco civilizatório mínimo. No Brasil, não se percebe que um brutamontes não pode conclamar as pessoas à desordem e à violência pela TV. No Brasil, gravações reveladoras dos mais tremendos crimes são motivo de repreensão aos investigadores que bravamente as obtiveram em vez de conduzirem à prisão dos criminosos. No Brasil, juízes da Suprema Corte mudam sem qualquer motivo a jurisdição da investigação de atos que, nos Estados Unidos, seriam entendidos como de lesa-pátria.

Outro conceito profundamente entranhado na psique do americano e que, vergonhosamente, passa longe da gente é “responsabilidade” _ individual e coletiva. Como fomos nós que concedemos o poder à Orcrim, o americano acredita que temos o que merecemos. Como quem não se beneficia da roubalheira e se opõe ao regime não se organiza para derrubá-lo _ nos EUA, ninguém tem dúvida de que um governante que traiu seu eleitor tem que ser removido do poder _, o americano diz que paremos de reclamar e aguentemos o peso de nossas escolhas.

Daí este texto. Meu marido americano disse que não ouviria mais uma lamentação a respeito do Brasil se eu não fizesse algo para mudar. Se nada mais houvesse a fazer, que escrevesse um artigo. Que seria hipocrisia da pior espécie se, por receio da condenação de pessoas do meu meio, eu, no estado de desalento em que me encontro, me calasse. Escrevi. Preciso do ouvido americano do marido para minha vergonha e minha dor.

lvb

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Luciana com a filha, Bebel Sader, em NY.

Comentários ( 2 )

  • Lilian Fontes diz:

    Amiga, compartilho com você essa dor. O texto toca nos pontos cruciais desse alarmante momento em que vive o país. E enquanto os políticos se confrontam, numa briga insana, o Brasil continua à deriva. Mas há esperança! Com tanta sujeira vindo à tona, com a sociedade reagindo, a maioria inclinada a lutar contra a corrupção como bandeira primordial independentemente de partido, quem sabe teremos um futuro mais digno, com mais transparência quanto aos impostos que pagamos. Beijos

  • Marcia Real diz:

    Luciana,

    Me sinto como você.
    Muito triste com tudo isso.

    No fundo, seus novos conterrâneos têm razão. A culpa é nossa, por anos de omissão, falta de participação política. Do condomínio ao país. Criticamos, reclamamos, mas não cobramos de forma efetiva as ações daqueles em quem depositamos nossa confiança para administrar o governo.

    Não se sinta só. Estamos juntas.

    Saudações de uma brasileira desesperançada.

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