abril 2016

Crise, fuga e déficit de liderança: mistura explosiva no presidencialismo de coalizão

por Sérgio Abranches

O presidencialismo de coalizão requer habilidade na formação e na gestão das coalizões. Mas o problema enfrentado por nosso modelo político hoje, não se resume à má gestão da coalizão ou à incapacidade gestora da presidente. Há algumas condições funcionais subjacentes à crise política atual, que contextualizam a capacidade de gestão da coalizão. Destaco três dessas condições, entre várias outras: fragilidade da liderança presidencial; ausência de lideranças capazes de articular a coalizão e estabelecer uma relação cooperativa com o centro gestor que persiste sendo a presidência e ausência de lideranças agregadoras na oposição; hiperfragmentação da representação partidária. Nesse contexto, a gestão se torna impossível na prática, independentemente do custo que ela teria. Agregue-se a impopularidade da presidente, a crise econômica, associando inflação alta e desemprego crescente e se tem um quadro de crises gêmeas, econômico-política, que levam ao ciclo de fuga do centro político ocupado pela presidência.

A fragilidade da posição da presidente é notória. Essa fuga do centro, explica a debandada dos partidos da coalizão que se está assistindo. Há poucos meses fechados no apoio à presidente, agora abandonam o governo e declaram-se favoráveis ao impeachment. O que provocou a aceleração dessa fuga, tipo efeito manada, foi a proximidade do momento de decisão sobre o impeachment e o fato de que o vento do poder já não sopra na direção da presidência. O cálculo que se faz é que a presidente, mesmo livrando-se do impeachment será uma lame duck, uma carta desvalorizada no baralho do poder. A expectativa de que esse esvaziamento da presidente seria suprido, com vantagem, por Lula no Gabinete Civil, se desfez pela probabilidade de que ele não possa assumir e, se assumisse, teria sua capacidade de aglutinação e gestão política prejudicada pelos processos na Lava Jato. Nos eventos que a presidente vem promovendo no palácio do Planalto e naqueles promovidos por Lula nas praças e ruas, pode-se ver, nitidamente, que o PT está reduzido à sua militância e seus aliados de origem, até com algumas defecções. Está do tamanho que tinha quando não era capaz de chegar à presidência pelo voto. Perdeu as classes médias, sobretudo boa parte das novas classes médias, nascidas no último ciclo de crescimento da renda de base. Perdeu parte dos setores trabalhadores e parte dos beneficiários dos programas sociais. As pesquisas e as ruas têm indicado isso.

A política brasileira — e grande número das democracias do mundo — ressente-se da falta de líderes que reúnam legitimidade pessoal, capacidade de atração de lealdades, habilidade de negociação e persuasão. Esse déficit de liderança diminui drasticamente a possibilidade de moderação negociada dos conflitos e deságua no impasse. No caso do Brasil é mais grave, abre espaço para a polarização radicalizada, transformando o jogo político em um confronto fortemente emocional. Queimam-se pontes como se não fosse haver amanhã. O governo adotou uma atitude belicosa, criando incompatibilidades que se projetam para além do episódio do impeachment, dificultando o que chamam refundação do governo, se o impeachment não prosperar. A oferta da presidente de um pacto, sem vencidos e vencedores para o dia depois da última votação do Senado, soa como uma insincera inserção de marketing em completa desarmonia com o inteiro teor de seu discurso. A mesma atitude se vê na oposição, de fechamento de portas não só no presente, mas também no futuro, no dia depois.

A hiperfragmentação partidária agrava esse quadro. Há agentes de veto em demasia, tornando muito mais complexa e muito mais onerosa para o orçamento fiscal a gestão de uma coalizão. Ainda mais que o nosso sistema de apelo recorrente à constitucionalização das disputas acaba por requerer grandes coalizão. Tudo seria mais fácil com coalizões formatadas para ter a maioria simples ou a maioria qualificada para apreciação de leis complementares. Mas a necessidade de garantir a possibilidade de emendar a Constituição e de bloquear tentativas de emendas que desagradem ao governo, leva à grande coalizão. Portanto a coalizões heterogêneas, com escassa afinidade política e baixa comunalidade de princípios e valores entre os partidos da coalizão. No quadro de hiperfragmentação todas essas dificuldades e distorções são potencializadas.

Na política brasileira, sempre foi possível identificar, até visualmente, quando uma liderança está crescendo ou no ocaso, entrando no ostracismo, em datas-chave, como comemorações aniversárias, momentos de decisão, períodos de negociação e aconselhamento mais intensos. Nessas ocasiões identifica-se a direção para a qual se move o novo centro de atração da política. No momento, o afluxo crescente de políticos e lideranças ao palácio do Jaburu, sede da vicepresidência, mostra o crescimento da força de atração do vice Michel Temer. Essas romarias típicas da nossa política, desde o Império, porém mais acentuadamente na 1ª e na 2ª repúblicas, continuam sendo um bom sensor para identificar a direção da atração na política. Isso significa que a maioria dos políticos prevê a aprovação do impeachment em todas as suas etapas, um cenário provável, dado que cada etapa em que o processo é aprovado, detona um efeito manada para a etapa seguinte, na mesma direção. Basta observar como após a decisão da Comissão Especial, decidindo recomendar ao plenário a admissão da denúncia de crime de responsabilidade contra a presidente, cresceu quase instantaneamente o número de partidos e parlamentares manifestando-se favoráveis ao impeachment. Todavia, continua a haver muito jogo de cena e jogo duplo, como expliquei em artigo recente.

Mas não é apenas esse efeito de indução de decisões em sequência que explica a debandada e a decorrente adesão à tese do impeachment. Ela é estimulada pelos impulsos centrífugos decorrentes da proximidade das decisões para compor as chapas para as eleições municipais e do aumento da força de atração do vice-presidente, ao aumentar a probabilidade de que venha a exercer o mandato pelo período restante. As eleições municipais são o momento de maior proximidade entre os parlamentares e sua base eleitoral. Mais até que as eleições para a Câmara e o Senado. Nessas últimas, eles estabelecem proximidade artificial, de campanha, controlada por estratégias e mensagens cuidadosamente formatadas para convencer e vencer. Aproveitam-se da pouca memória eleitoral e reapresentam-se como o eleitor os quer ver. Mas, nas eleições municipais, a memória eleitoral é muito mais forte. O interesse local está muito mais diretamente ligado à vida cotidiana dos eleitores. Suas convicções pessoais e seu humor presente, além das necessidades locais ligadas às deficiências percebidas em seus municípios é que orientam suas escolhas eleitorais. E por que essas eleições são críticas para os parlamentares? Porque sua reeleição dois anos depois, dependerá da força obtida nas urnas pelas lideranças políticas locais que os apóiam, dos seus cabos eleitorais e dos eleitores-ponteiros, aqueles cuja opinião influencia os votos de sua cidade ou de seu grupo de vizinhança ou de trabalho. O que essas pessoas chave nos esquemas político-eleitorais de deputados e senadores estão dizendo, na sua maioria, é que não desejam a continuidade do governo. Os políticos ouvem com atenção essa voz dos eleitores. Vivemos, no período de preparação para a sucessão municipal e ao longo da campanha, o momento de maior aproximação entre parlamentares e o eleitorado. É quando se dá a maior representatividade do sistema de representação, cujo déficit de representatividade é notório. É essa proximidade com os eleitores que está levando os parlamentares a se afastarem da presidente, a votar pelo seu impeachment e a se aproximar do vice-presidente.

Mantidas as condições socioeconômicas deterioradas e o mau humor dos eleitores com o governo, a aprovação do impeachment é muito provável. O desfecho tende a ser desfavorável à presidente Dilma Rousseff. O ciclo de fuga, em aceleração, tende a fazer com que cada estágio de deliberação condicione fortemente o próximo, tornando pouco provável que o estágio seguinte reverta a decisão do anterior.

Restaria o recurso à judicialização. Este é o ponto mais delicado e menos previsível. Na votação do mandado de segurança impetrado pela presidente pedindo a sustação do procedimento de impeachment na Câmara, a maioria do plenário do STF optou pela cautela e pelo que denominam “reverência ao Poder Legislativo”. Isto é, a maioria preferiu o mínimo de intervenção sobre os procedimentos internos do Legislativo, cuidando apenas de que não descumpram a lei ou violem princípios constitucionais. Mas não foi uma decisão unânime. O presidente do STF, Ricardo Lewandowski, ficou vencido em duas decisões importantes e deu vários recados, mostrando disposição mais intervencionista, que pode se refletir no modo como conduzirá a presidência do Senado durante o processo. Menciono, em particular, duas frases dele bastante eloquentes a este respeito. “Situações excepcionais requerem medidas excepcionais”, disse ele ao convocar a sessão extraordinária para examinar especificamente os pedidos relativos ao processo de impeachment na Comissão Especial da Câmara. Mas é uma frase suficientemente geral, para servir de sinal sobre o seu posicionamento na presidência do processo no Senado. A segunda, é mais direta e incisiva. Ao justificar seu voto dissidente favorável a intervir na decisão do presidente da Câmara sobre a chamada nominal intercalada entre Norte e Sul na votação no plenário, disse ele que o impeachment “é um ato político sim”. “E quem é que disse que um ato político não é sindicável por parte do Judiciário? Não tenho nenhum problema. Como juiz da Suprema Corte do país, eu tenho legitimidade para rever os atos do Poder Legislativo.”

Como presidente do Senado, na condução do processo de impeachment, ele estará em um contexto político-organizacional muito distinto do plenário do Supremo Tribunal Federal. O padrão comportamental é distinto, muito menos reverencial, e o contexto está intoxicado pela polarização radicalizada. Essa polarização que está levando à ruptura da governança, à ruptura política e alimentando a progressão do processo de impeachment. Uma atitude mais intervencionista, cerceadora, na presidência do Senado, nesse ambiente radicalmente polarizado, tenderá a alimentar sérios conflitos, tornando imprevisível o clima para a decisão do plenário. O tumulto conflituado pode inspirar o recurso recorrente ao poder moderador do Judiciário, envolvendo-o seguidamente em um conflito político exacerbado. Estamos assistindo a um duro teste para a institucionalidade democrática e, até agora, ela tem resistido bastante bem, diante das circunstâncias. Mas estão ficando evidentes disfuncionalidades e insuficiências em nosso modelo político que estão a pedir reflexão ponderada para orientar uma reforma política mais bem focada e profunda.

0

MarcelNovaes

Nosso autor, Marcel Novaes.

A coluna Gente Boa, do Globo, deu uma nota sobre a aposta de Carlos Andreazza, editor da Record, na história e política dos EUA como tema editorial para o público brasileiro. Além de uma biografia de Ronald Reagan, o livro do autor da VBM Marcel Novaes sobre a Revolução Americana, O GRANDE EXPERIMENTO, maneira como Alexis de Tocqueville se referia à sociedade que se desenvolvia no outro lado do Atlântico Norte em oposição à Europa de tradições feudais.

O livro de Marcel é espetacular, e nós concordamos totalmente com Carlos Andreazza. É fundamental que o brasileiro compreenda mais profundamente a trajetória dos Estados Unidos, muito mal ensinada nas escolas e até nos cursos de História, em que figura em posição secundária aos processos europeus. A Revolução Americana e todas as propostas sociais que dela surgiram, resultando na potência que são hoje os EUA, precisam ser entendidas em seu caráter libertário, resultante de um movimento de iguais – os colonos – contra a metrópole britânica.

Ao contrário do que veio a se passar no Brasil, a resistência dos colonos nos EUA não foi dificultada pelo interesse de manter a ordem escravocrata. Entre nós, a cada vez que os movimentos contra Portugal ou contra o regime imperial se radicalizavam, os rebeldes davam para trás com medo de que se passasse no Brasil uma experiência como a haitiana em que a independência nacional se deu pela revolta dos negros e abolição do regime escravocrata. No que veio a ser os EUA, as regiões escravocratas do Sul tiveram que se subordinar às formulações das colônias do Norte, que praticamente desconheciam a escravatura negra.

Daí a beleza e a saúde da Revolução Americana. Temos muito que aprender nesse processo. O livro do Marcel lembrou-me uma frase fundamental para nós, brasileiros, que nos últimos anos descuidamos completamente de proteger nossos mais importantes bens: “A eterna vigilância é o preço a pagar pela liberdade”. Vamos saber mais sobre a história americana e dar menos bobeira na política brasileira.

Eleições americanas são aposta da editora Record

POR MARIA FORTUNA

11/04/2016 17:45

Ronald Reagan

Ronald Reagan | AP:Associated Press

As eleições americanas serão um campo editorial bastante explorado pela Record no segundo semestre. Além de uma biografia de Ronald Reagan, a editora lançará “O grande experimento”, livro de Marcel Novaes sobre a Revolução Americana. “Vai inaugurar uma frente de popularização agora da história internacional”, acredita o editor Carlos Andreazza.

A crise tem representado um custo para muitos autores. COMPLEXO DE PROMETEU, de Sergio Abranches, está atrasado. Pudera. Seus leitores da política o têm solicitado, e nos próximos 40 dias ele dará três seminários sobre o inviável presidencialismo de coalizão, um deles internacional. A próxima palestra será na Academia Brasileira de Letras. Seus ensaios no academa.edu:

Quem no mundo já venceu a corrupção? 20 de março de 2013 Sérgio Abranches
O centro do dilema político brasileiro não é o presidencialismo, é a coalizão
Clientelismo, petróleo e corrupção no presidencialismo de coalizão
Crises políticas no presidencialismo de coalizão
colocam-no entre os 0,5% mais lidos do site. A leitura vale muito. Nos artigos mais antigos, a presciência de Sergio é impressionante.

A política é um jogo de aparências que tem consequências concretas
Sérgio Abranches

A política é um jogo de aparências que tem consequências concretas Sérgio Abranches As aparências não enganam apenas, elas têm consequências concretas. Principalmente quando o jogo de aparências ocorre na política e na economia. Dou um exemplo do mercado financeiro. O noticiário parece — grifem mentalmente o verbo parecer — indicar, num determinado momento, que a maré está mais pró-impeachment. A bolsa sobe, o dólar cai. Em outro momento, a onda aponta na direção oposta, parece que não vai ter impeachment. A bolsa cai e o dólar sobe. Esses movimentos em direções opostas foram provocados por aparências, mas a queda ou subida da bolsa e do dólar produzem ganhos e perdas concretas e repercutem por toda a economia.

O mercado chama a isso de expectativas. Ou seja, uma estimativa do que pode vir a acontecer. Se o ambiente é de muita volatilidade, são muitas as ondas e as expectativas se alteram ao sabor de cada uma delas. Um jogo de aparências entre “comprados e vendidos”. A política assenta-se também em um jogo de aparências. São muitos jogadores com apostas diferentes. No caso do impeachment, há parlamentares com a cabeça feita. Provavelmente são mais numerosos entre os governistas — PT e PCdoB — do que na oposição. A maioria, porém, não sabe ainda como votará. Espera ter mais certeza sobre a direção do o vento das decisões. Mas esse jogo tem consequências concretas. Esconder o jogo, num teatro de dissimulações, em que nem mesmo os atores sabem o que é para valer e o que não é, faz parte de estratégias políticas em busca do maior ganho possível. O pacote de vantagens combina promessas de benefícios futuros a benefícios imediatos. O jogo é de aparências, mas é jogo e envolve ganhos e perdas concretos, tanto para os políticos que o estão jogando, quanto para a sociedade.

Tudo aparências. Lembro um verso do Eclesiastes, na transcriação de Haroldo de Campos: névoa de nadas, tudo névoa-nada. Essa névoa que esconde o verdadeiro jogo de cada um, até mesmo para o próprio jogador, é um recurso poderoso, seja na especulação financeira, seja no processo político. Não só o governo, nem somente os líderes pró-impeachment (e todos nós) desconhecem a probabilidade real do resultado da decisão na Câmara e no Senado. Deputados e senadores também não sabem como os outros votarão. A incerteza, mais que a virtude, está no meio ou no centro. O ambiente é tão volátil que um político que diz para si mesmo, diante do espelho, que votará de um jeito num dia, pode dizer para sua outra imagem no espelho, dias depois, que votará de outro jeito. Por isso, a ordem dos fatores altera o produto. Se a chamada nominal der a aparência de que a tendência é numa determinada direção, muitos parlamentares, ao votarem em seguida, mudarão seu voto para acompanhar essa tendência. E o que era aparência pode virar consequência, resultado final, confirmando a tendência.

Acompanho o comportamento do Legislativo brasileiro há décadas. Escrevi minha tese de mestrado sobre o processo legislativo, analisando padrões de voto e suas diferentes dimensões. Para entender o que se passava no Congresso, assisti a grande número de sessões, pelo menos duas por semana, durante seis meses. Vi de tudo. Votações importantíssimas, votações irrelevantes, brigas, sopapos. Fui descobrindo que quase nada do que acontecia às claras, no plenário, era verdade. Esse jogo de aparências sempre existiu. Como precisava saber o que, de fato, dividia os parlamentares em cada votação, li a ata de todos os debates sobre as medidas que constavam de minha amostra. Páginas e páginas de discursos, entremeados de apartes, apartes a apartes, apartes a apartes a apartes, insultos. Só não havia clareza sobre o que estava por trás de muitas votações. Quando a divisão era governo vs oposição, era mais fácil. Mas quando as divisões não se davam nessa fronteira mais bem marcada, só entrevistas com parlamentares e com a assessoria técnica, permitia detectar, em parte, o motivo real dos votos. E o Brasil ainda nem vivia a democracia reinstaurada pela Constituição de 1988. Quem já assistiu a uma sessão da Câmara é testemunha do tumulto que se forma em torno do microfone de pé, que fica em frente à mesa do presidente. Não é que os deputados não tenham microfone em suas mesas. Aquele burburinho é proposital, é parte do jogo. Mas, também, ali, a maioria do que acontece é jogo de cena, diante das câmeras.

Se tudo o que ocorre diante dos olhos da audiência é encenação, onde é que se dá o processo real de negociação, barganha, troca-troca, que definirá os votos? Ele se dá nos gabinetes, dentro e fora do Congresso, continua na reunião do “colégio de líderes”, estende-se pelos corredores da Câmara e do Senado, transborda no cafezinho e, na maioria das vezes, recebe os retoques finais, que alteram votos em escala ou na margem pelos cantos do plenário, longe das lentes da TV. Enquanto os parlamentares se engalfinham na comissão do impeachment e no plenário, o verdadeiro jogo está acontecendo fora. O governo oferece ministérios e cargos de segundo e terceiro escalão, negocia-se, conversa-se, especula-se, o governo retira a oferta. No dia seguinte, os balões de ensaio aparecem na imprensa: “governo só dará ministérios depois do voto”; “lideranças partidárias dizem que só aceitarão cargos depois do voto”. Qual a verdade, qual a aparência? Névoa de nadas, tudo névoa-nada. Ninguém sabe ao certo. Nem governo, nem oposição. Não há elementos para calcular probabilidades ou apontar tendências. Pesquisas de opinião? Quem garante que o que o parlamentar respondeu, corresponde ao voto que dará no dia? Ora parece uma coisa, ora outra. Todo mundo joga, não só os políticos. Os analistas também. Aprendi, desde o primeiro dia de faculdade, que análise de processos sociais e políticos sempre tem uma carga de subjetividade. Weber dizia que ela é compensada no entrejogo das intersubjetividades. Quanto numa determinada interpretação ou previsão sobre o momento político é análise, quanto é desejo? Quanto de dúvida ficou de fora, sem ser explicitada? Quanto há de incerteza. Névoa de nadas, tudo névoa-nada.

Brasília - Leitura final do relatório do parecer do Impeachment, deputados da oposição comemoram o resultado do parecer (Valter Campanato/Agência Brasil)

Brasília – Leitura final do relatório do parecer do Impeachment, deputados da oposição comemoram o resultado do parecer (Valter Campanato/Agência Brasil)

Nos últimos dias de grande atividade da agência relacionada com a feira de Londres, tenho alternado (eu, Luciana) ações e emails em favor de clientes e autores e em benefício da própria VBM com mensagens aos deputados ainda indecisos no processo de impeachment, pedindo o voto pela expulsão de Dilma Roussef da presidência. Foi a metodologia que desenvolvi para continuar trabalhando sem cessar por nossos clientes, mas dando ao mesmo tempo uma contribuição mínima à luta pela salvação do Brasil.

A defesa do impeachment é uma questão de princípio. A presidente Dilma cometeu crimes de responsabilidade e outros, como desvio de finalidade e obstrução da Justiça, traindo seu eleitorado. O impeachment é o instrumento constitucional que temos para esses casos e representa a defesa das instituições e da democracia, mas há outros motivos para lutar em seu favor.

A crise econômica já devastou suficientemente o país, afetando duramente o mercado editorial, que nos interessa diretamente. A única maneira de sair da crise é remover do poder a incompetente e desonesta equipe econômica que provocou a volta da inflação, o desemprego galopante e o retorno do processo de concentração da renda. A literatura brasileira não terá o menor futuro a permanecer esse governo criminoso.

Finalmente, é urgente arrancar as garras do PT da máquina do Estado. Com o controle da máquina, os petistas são capazes de qualquer ação: censurar, obstruir a Justiça, manipular orçamentos, manietar Judiciário e a mídia independente. De novo, o escritor livre e independente não terá o menor futuro sob o petismo.

Se a esquerda do bem terá que retomar do zero sua luta pelas plataformas sociais sob um governo de Michel Temer, a permanecer sob o petismo estaremos partindo de -10, -100. O petismo no Brasil – assim como foi o stalinismo na antiga União Soviética – representa a absoluta negação dos interesses populares, e o povo por décadas adiante há de abominar todo o vocabulário da esquerda: socialismo, sindicatos, etc. Os ideólogos do governo são stalinistas, inclusive e principalmente os que formularam o mentiroso slogan “contra o golpe”, e breve pesquisa no Google comprovará essa afirmação com links e posts recentes.

Aos autores e seguidores que concordam comigo, peço que também escrevam aos deputados indecisos. Já escrevi cartas personalizadas para os seguintes congressistas: Alexandre Molon (RJ/Rede_dep.alexandremolon@camara.leg.br), Altineu Cortes (RJ/PR _ dep.altineucortes@camara.leg.br), Brunny Gomes (MG/PTC _ brunny@camara.leg.br), Hermes Parcianello (PR/PMDB _dep.hermesparcianello@camara.leg.br), Lazaro Botelho (TO/PP _ dep.lazarobotelho@camara.leg.br), José Nunes (BA/PSD – dep.josenunes@camara.leg.br) e Paulo Feijó (RJ/PR _ dep.paulofeijo@camara.leg.br). Garanto que nos sentimos muito melhor quando investimos nosso tempo em uma ação política a favor da coletividade.

Voando para Londres, onde defenderá os autores VBM na feira do livro, Anna Luiza Cardoso ficou toda feliz ao visitar a Hudson do aeroporto de Guarulhos. Com HISTÓRIA DO FUTURO, de Míriam Leitão, DILMÊS, de Celso Arnaldo, e ALEX, de Marcos Eduardo Neves, VBM está super bem exposta na livraria/loja de conveniências.

guarulhos-em

Nossa aposta é que nesse processo de impeachment, aumentarão significativamente as vendas de HISTÓRIA DO FUTURO e DILMÊS. HISTÓRIA DO FUTURO continuará forte carreira por ainda mais tempo. Talvez a razão nem seja tão positiva: a reconstrução do país, depois da devastação econômica e moral perpetrada pelos últimos governos, será o tema central para todo brasileiro honesto e com um mínimo de patriotismo no coração.

Pensando bem, a presença de ALEX com  destaque na prateleira também faz sentido se pensarmos a conjuntura atual. O livro de Marcos Eduardo não é mera biografia de um jogador de futebol famoso. Também traz importante reflexão sobre a ética na política em vários níveis. Alex, como se sabe, é o fundador do Bom-Senso Futebol Clube, movimento fundamental no combate à cartolagem vergonhosa do esporte nos planos nacional e internacional.

“Por que você não se sente mais cidadã do mundo do que brasileira? Seria inclusive uma visão mais próxima da realidade”, me pergunta Raymond, na tentativa de me levantar de mais uma depressão em que sou jogada por notícias do Brasil. Não concordo e não consigo. Sou brasileira, serei sempre, com muita vergonha e muita dor.

Casar/viver com estrangeiro tem esse preço. A nacionalidade pesa. Como uma pessoa direita cujo pai é ladrão sente vergonha da família de origem diante do cônjuge, a nacionalidade pesa de igual maneira na relação de um casal. Dá muita vergonha.

No meu caso, venho de um país onde os eleitores elegem uma Câmara em que 60% dos deputados são objeto de investigação por crimes variados (dado sempre repetido nos jornais dos EUA que estarrece, como devido, os americanos). De um país onde ingenuamente é posto no poder um bando que para ali se perpetuar está pronto a cometer qualquer ordem de crime, desde a destruição da maior empresa brasileira por meio da corrupção até assassinato. De um país em que boa parte da intelectualidade, para segurar suas prebendas, bolsinhas e financiamentos de filmecos e outras obras sem público (sempre sangrando o bolso do contribuinte), sobe a palanques para defender a máfia. Dá vergonha.

Uma gente tão tolinha que ainda vê “esquerda”, um conceito já inadequado, em um regime que em 14 anos não ofereceu educação da mais mínima qualidade para o povo, menos ainda serviços de saúde e saneamento; e que aprofundou o conluio entre o capital mais espúrio e a máquina do Estado criando um esquema de corrupção inédito até na história do Brasil. Dá muita vergonha de tanta estupidez, ainda mais quando são “intelectuais” que a proferem.

Dor maior é constatar e não poder camuflar que o brasileiro ainda não conseguiu entender o conceito de “império da lei” _ marco civilizatório mínimo. No Brasil, não se percebe que um brutamontes não pode conclamar as pessoas à desordem e à violência pela TV. No Brasil, gravações reveladoras dos mais tremendos crimes são motivo de repreensão aos investigadores que bravamente as obtiveram em vez de conduzirem à prisão dos criminosos. No Brasil, juízes da Suprema Corte mudam sem qualquer motivo a jurisdição da investigação de atos que, nos Estados Unidos, seriam entendidos como de lesa-pátria.

Outro conceito profundamente entranhado na psique do americano e que, vergonhosamente, passa longe da gente é “responsabilidade” _ individual e coletiva. Como fomos nós que concedemos o poder à Orcrim, o americano acredita que temos o que merecemos. Como quem não se beneficia da roubalheira e se opõe ao regime não se organiza para derrubá-lo _ nos EUA, ninguém tem dúvida de que um governante que traiu seu eleitor tem que ser removido do poder _, o americano diz que paremos de reclamar e aguentemos o peso de nossas escolhas.

Daí este texto. Meu marido americano disse que não ouviria mais uma lamentação a respeito do Brasil se eu não fizesse algo para mudar. Se nada mais houvesse a fazer, que escrevesse um artigo. Que seria hipocrisia da pior espécie se, por receio da condenação de pessoas do meu meio, eu, no estado de desalento em que me encontro, me calasse. Escrevi. Preciso do ouvido americano do marido para minha vergonha e minha dor.

lvb

photo

Luciana com a filha, Bebel Sader, em NY.