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Uma resenha de OSTENDE: Summer Before the Dark (OSTENDE: o verão que antecedeu a escuridão), de Volker Weidermann, saiu no Forward, jornal digital que assinamos na VB&M e consideramos imperdível, focado em temas relacionados ao judaísmo e a Israel, com uma perspectiva extremamente aberta. VB&M representa OSTENDE para o Brasil em nome da Kiwi, a editora alemã Kiepenheuer & Witsch. Estrepitoso sucesso na Alemanha, 130 mil exemplares vendidos, OSTENDE foi lançado este mês nos Estados Unidos pela Pantheon, último trabalho de tradução da renomada editora Carol Janeway, recentemente falecida; a recepção crítica não poderia ser mais calorosa.

OSTENDE é um balneário belga onde, em julho de 1936, um grupo de intelectuais alemães perseguidos pelo governo se encontrou para suas últimas férias antes do cataclisma nazista. Estavam lá Stefan Zweig com sua Lotte Altman e Joseph Roth com a romancista Irmgard Keun; Arthur Koestler, autor de DARKNESS AT NOON (“Escuridão ao meio-dia”, ou O ZERO E O INFINITO, título brasileiro), que li na adolescência no auge de meu fundamentalismo bolchevique, certamente não entendi e deveria reler com urgência; o jornalista Egon Erwin Kisch, o comuna Willi Muezenberg, o dramaturgo Ernst Toller. O pequeno livro de Weidermann conta essas férias ominosas, às vésperas das Olimpíadas de Munique. (Algumas Olimpíadas era melhor que não acontecessem.)

O cerne da narrativa de OSTENDE é a relação de amizade entre o bem-sucedido e abonado Zweig e o genial mas irresponsável e alcoólatra Roth. Um tipo de relação simbiótica comum entre homens em que um segura as pontas e paga as dívidas do outro, mas também se compraz com a dependência e gratidão que lhe são oferecidas em troca, sem falar das contribuições intelectuais. Zweig é suficientemente conhecido do público brasileiro. O gigante literário Roth poderia sê-lo bem mais, até porque a Companhia das Letras já publicou seu lindíssimo JÓ, sobre Mendel Singer, pobre pai de família em um shtetl russo, releitura bíblica e homenagem a Zweig em sua extrema paciência com os desvios do autor, e a Mundaréu lançou o seminal A MARCHA DE RADETZKY.

Outro personagem interessantíssimo de OSTENDE é Irmgard Keun, de quem também representamos para a Kiwi o romance CHILD OF ALL NATIONS, publicado em inglês pela Penguin, inédito no Brasil, uma recriação de sua relação com Roth contada do ponto de vista de uma fictícia filha do casal. Os olhos e o coração da menina narram a história dessa família disfuncional e errante, pulando de país para país, sem passaporte, de uma atualidade aflitiva no atual momento histórico de refugiados por toda parte.

Um pouco mais sobre Keun, porque é difícil  figura humana mais rica e trajetória literária mais significativa. Nascida em 1905, com menos de 30 anos, ela era um imenso best seller na Alemanha de Weimar, com romances de forte carga feminista. Sem ser judia, logo passou a ser perseguida pelo regime de Hitler e fugiu para essa experiência do exílio relatada nos livros mencionados acima. Chegou a passar uma temporada nos EUA, mas só obteve visto temporário e, quando estourou a guerra, estava na Holanda. Conseguiu de um oficial nazista sabe-se lá como um passaporte com seu nome do meio mais o sobrenome do ex-marido e retornou para a Alemanha, onde viveu na clandestinidade até 1945. Ainda voltou à ativa, mas o alcoolismo pegou-a, atravessou décadas na pobreza e somente pouco antes da morte, as leitoras alemãs se deram conta de sua importância como romancista e como pensadora do feminismo e resgataram-na do ostracismo valorizando sua firmeza moral. Mas foi um período breve, pois, já bem passada dos 70 e com toda essa vida nas costas, Irmgard Keun estava cansada.

Quando Keun faleceu em 1982, Zweig e Roth estavam, como se sabe, muito para trás em sua vida. De OSTENDE eles rumaram para o encontro com a morte. Zweig suicidou-se no Brasil em 1942. Roth morreu de doenças decorrentes do alcoolismo, mas aparentemente o seu fim foi precipitado pelo suicídio de Ernst Toller. Toller faleceu a 22 e Roth a 27 de maio de 1939, meros cinco dias depois.

A história ceifa as esperanças e assim as pessoas. Por isso é importante ler sobre o nazismo enquanto o momento mais escuro da história da humanidade. Quem o viveu não acreditava possível chegar-se à luz novamente, a morte era a melhor opção. Quem resistiu pôde ver o despertar do pesadelo. (LVB)

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