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Fosse no Rio essa paisagem de fim de tarde invernal, haveria sempre um americano, um paulista ou um brasileiro de qualquer outro lugar do país para perguntar: Não se trabalha nessa cidade? Como se as complexas cidades do século XXI _ e não vamos comparar os tamanhos do Rio de Janeiro e de New Port Beach _ não tivessem gente suficiente trabalhando e estudando nos mais variados turnos para encher as praias em seus momentos de lazer a qualquer hora do dia ou da noite. Sem falar nos turistas. Mas em New Port Beach, Califórnia, essa pergunta não ocorre, e talvez haja outras razões além do preconceito para as reações diferentes diante da vida praieira numa cidade e em outra.

O resultado do trabalho humano é visível em cada mínimo recorte da paisagem da Califórnia. É tudo muito rico. Para mim, até demais. Não gosto do jeito manicurado das cidadezinhas turísticas dos EUA. Me enjoa. Tive a mesma reação quando visitei Vail, nas montanhas do Colorado, ainda em 1986, ou quando fui a Carmel, em 1988. Mas todo mundo gosta e é claro que, para quem mora, mais ainda do que para quem visita, uma boa infraestrutura facilita muito a vida.
Em Orange County, o aeroporto é tão grande e tecnológico que pensamos ter aterrissado em Los Angeles, não em um distrito menor do estado da Califórnia. Dirigir é uma beleza, o asfalto perfeito. Excepcionalmente nos EUA, andar a pé também é ótimo em New Port Beach, cidade de calçadas, “walking city”, e o sistema de sinais de trânsito é tão avançado que, para um pedestre atravessar uma rua de mão dupla, primeiro param os carros de um sentido e depois do outro, de maneira a agilizar o tráfego e evitar engarrafamentos. Para onde se olha, é tudo tão limpo e escovado, ecologicamente correto, que dá até nervoso.

Uma ponta de inveja também deve estar no fundo da minha rejeição a essa perfeição toda. Na condição de brasileira, meu complexo de vira-lata pessoal anda aguçado. Não dá mais para responder sobre zika. É humilhante. O Brasil em 13 anos andou 30 para trás, e o governo Dilma nos cobriu com um manto de desgraças que, por mais racionais que tentemos ser, é impossível não pensar que, além de estúpida e envolvida com a maior organização criminosa já formada no país, essa mulher é um pé frio extraordinário e histórico. Tudo que ela toca vira merda, Copa, Olimpíada, o que for. Merda séria, grande.
Olhando o vôlei das meninas em um fim de tarde de inverno na praia de New Port Beach, não consigo acompanhar as jogadas porque estou sempre imersa nos problemas do meu país, mas faço força para pensar mais positivamente, e me vem à mente que a independência e a competência da Lava-Jato, dos procuradores brasileiros, de tantos delegados e investigadores da Polícia Federal e também de boa parte da imprensa são motivo de orgulho nacional. Trabalho extraordinário, luta hercúlea.

Não dá para entender como a mesma sociedade que formou gente tão boa, corajosa e competente como Sergio Moro, Deltan Dallagnol, delegado Marlon Cajado; analistas políticos como Fernando Gabeira, Elio Gaspari e os editorialistas de O Estado de São Paulo; que essa mesma sociedade haja sido capaz de por e deixar no poder por 13 anos e meio uma gangue de estúpidos, grosseiros e irresponsáveis dispostos a destruir o país inteiro, a indústria, os hospitais, as escolas, as cidades, agora cobertas de lama, até o povo, deformado e paralisado pelo mosquito. Muita contradição. Mas enfim há esse lado sofisticado da sociedade brasileira, setores da Justiça e da imprensa independentes, empenhados e hábeis, que são a esperança. Dou as costas para a praia limpa da Califórnia acreditando que ainda vamos por a bandidagem para correr e pavimentar a nossa estrada para o futuro.

Comentários ( 1 )

  • Linda diz:

    Muito bom Beto. Sem vocea jamais teoarmis estes momentos registrados. Espero que a ABES tenha como armazenar este acervo para no futuro relembramos o nosso passado. As coisas boas que estamos fazendo Uma abrae7o, Vitorio.

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