fevereiro 2016

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Matthieu Ricard, Christophe André e Alexandre Jollien.

Com incríveis 300 mil exemplares impressos somente na França, no topo das listas, TROIS AMIS EN QUÊTE DE SAGESSE (“Três amigos em busca da sabedoria”, mas o título brasileiro pela Alaúde pode ser outro) é um fenômeno de vendas e de crítica. Mais fenômeno ainda porque, sendo de alguma maneira auto-ajuda, menos se espera da mídia séria francesa uma recepção calorosa. O diferencial são os três autores – o filósofo Alexandre Jollien, o psiquiatra Christophe André e o monge budista e fotógrafo Matthieu Ricard –, queridos e muito respeitados pelos franceses. Realmente, essa fixação do mercado editorial de categorizar e rotular tudo às vezes é contraprodutiva para a compreensão da natureza da obra pelo leitor.

O Figaro faz uma comparação engraçada do livro com o cinema. Diz que juntar esses três autores em um volume só é como reunir no elenco de um filme as estrelas Depardieu, Belmondo e Delon. Le Point diz que TROIS AMIS EN QUÊTE DE SAGESSE traz as respostas que todo mundo quer: como superar os obstáculos da vida, recuperar a auto-estima, acabar com o sentimento de culpa e conquistar mais liberdade. Le Parisien pondera que a obra desses autores ajuda a respirar melhor – literalmente e figurativamente –, a combater a insônia leve e a lidar com as relações pessoais e profissionais.

Além da edição brasileira da Alaúde, sob a batuta de Ibraima Dafonte Tavares, o livro sairá em coreano, vietnamita e espanhol, neste idioma pela super editora Urano, que tem muito faro para o que é bom e popular. Tomara que saia logo.

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Nasci nos EUA, infelizmente não em Nova York, como meu pai, Raymond Moss, que é do logradouro do Queens, mas no longínquo Missouri. Felizmente, na mais tenra idade fui transferido para Manhattan, mais precisamente para a Lexington Avenue, o que me propiciou, vejam as voltas do destino, acabar no Rio de Janeiro, lugar onde eu adoro viver, apesar do calorão e de o Brasil estar se desmilinguindo. Mas ainda me sinto um pouco americano e, como tal, estou acompanhando as primárias dos partidos Democrata e Republicano com toda atenção, morrendo de medo de que meu segundo país caia nas mãos de Hillary Clinton, do Donald Trump, ou do Ted Cruz.

Não seria um desastre tão espetacular como o Brasil nas mãos de Dilma Roussef, mas ainda assim as proporções do cataclisma poderiam assustar o mundo, considerando que estamos falando de Estados Unidos. Por isso mergulhei de corpo e alma na campanha pela nomeação democrata à candidatura presidencial, leio todo o noticiário e torço loucamente pelo socialista e judeu como eu, Bernie Sanders. Na família, eu e minha irmã Bebel Sader, que me enviou o vídeo da campanha do Bernie, somos os mais engajados, mas ela não tem cidadania americana.

Todo esse nariz de cera para compartilhar com vocês uma notícia do jornalzinho The Forward, que achei bem engraçada e, tendo caráter literário, simpática ao blog da VB&M. É sobre um climão criado em 1983 entre o então prefeito de Burlington, maior cidade do estado de Vermont, Bernie Sanders, e o poeta beat Allen Ginsberg. Doidão, homossexual e socialista (gaúchos apelidariam o poeta de Além, e essa é uma piada para muito poucos, que não vou explicar, a fim de não ser preso pela polícia do Departamento de Politicamente Correto), Ginsberg foi lá manifestar apoio à governança do Sanders e conversar com ele sobre ideais utópicos. Tudo às mil maravilhas, como a foto do Forward demonstra.

À noite, houve um recital do poeta numa grande sala da prefeitura  e, como sempre a partir de 1976, ele foi acompanhado pelo guitarrista Steve Taylor, que é quem conta a história ao Forward. O prefeito fez a apresentação de Allen Ginsberg para o público, todo pimpão e orgulhoso como ficam os políticos em atividades culturais ou perto de artistas famosos. (Eu só fico assim quando saio puxando a Bebel ou a Anna Luiza Cardoso pelas ruas do Leblon; não dou a mínima para artistas famosos.)

Segundo Taylor, naquela época o Ginsberg estava com o costume de toda vez que fazia um recital experimentar junto ao público algum poema que estivesse escrevendo. Ele se animava e tascava o poema em progresso. Só que naquela ocasião o poema em construção era o “What you up to?” (ou “Você está a fim de quê?”), que pode ser lido ao final da edição de sua POESIA REUNIDA e que descreve graficamente o sexo anal. Foi a maior saia justa. O prefeito se levantou de sua cadeira no prédio de sua prefeitura, em meio a seus eleitores intelectuais, e saiu constrangido durante a leitura.

Aqui o relato do Taylor, que  deve ser um boa-gente bem gozado, contando que achou aquilo a maior sacanagem: “Que pesadelo para um político. O cara já é socialista, já deve estar cheio de problemas. E aí entra o Allen para ler sobre sexo anal (em um evento da prefeitura) Era um pouco a militância gay dele, mas também seu gosto de falar pornografia em público. O Ginsberg não deveria ter feito isso.”

Meio sem noção o poeta. Não se pode aprontar assim com os raros políticos do Bem. Mas ainda mais sem noção é o pessoalzinho do Forward. Não é que estão atrás do Bernie para que ele comente sobre o episódio? Querem o quê, criar um clima entre ele e os gays, cujo voto pode ir bem para a lacraia Hillary?

De resto, é interessante observar na foto que o Bernie parece o poeta, e o Ginsberg, o político engravatado. Mas diz o Taylor que ele comprou o terno na lojinha do Exército da Salvação só para visitar o prefeito socialista.

NVB

 

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ULTIMES é uma antologia de frases derradeiras de 80 figuras históricas, organizada pelo francês Phillip Nassif e publicada pela Allary. Na França, todo mundo amou, Livres Hebdo, Philosophie Magazin, vários jornais, que realçaram um aspecto quase filosófico do livro.

Ancelmo Gois noticiou hoje em sua coluna a publicação de ULTIMES (PALAVRAS FINAIS?) pela Autêntica em novembro, uma contratação que as muito sagazes Rejane Dias e Silvia Masini fizeram com a VB&M, para a Allary com a 2-Seas Agency, de Marleen Seegers. Meio complicadas essas relações do meio editorial, uma porção de camadas.

Para o leitor, o que importa é que o livro é uma joia. Nossa frase preferida não é a de Churcill em seu leito de morte, selecionada pelo Ancelmo, embora “I’m bored with it all” soe bem verdadeiro e se preste à tradução jocosa da notinha.

Nossa declaração derradeira favorita é, quem diria, de Luís XIV, o Rei-Sol. “Por que vocês estão todos chorando? Por acaso pensavam que eu era imortal?” Esse mau-humor pé na terra é muito gozado, ainda mais vindo de quem vem, e tem sua dose de humildade.

Duvido muito que veríamos numa figura como Lula uma indagação dessas, que, em sua arrogância, deve realmente se julgar imortal. Não seria dele essa frase porque Lula não tem esse pingo de humildade e menos ainda a calma diante da morte, um sujeito que amarela para comparecer à Justiça quando convocado.

Outro mérito do livro é nos levar a pensar em nossas palavras finais. Será que já é hora de ir preparando? Eu (Luciana) gostaria de encontrar uma mensagem de força para quem estiver a minha volta. Principalmente se eu morrer no Brasil, como espero que aconteça.

(LVB)

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A prestigiada publicação School Library Journal Review, que resenha lançamentos literários do mercado americano visando às bibliotecas de escola, instituições munidas de verbas próprias para seu abastecimento e atualização, comenta SNOWDEN, de Ted Rall, publicado por nossa cliente Seven Stories Press. Com total independência, recomenda fortemente a novela gráfica sobre um personagem que não causou poucos problemas ao governo Obama expondo a ganância por informação da NSA, a agência nacional de segurança dos EUA.

Foi seguinte o veredicto: “Escrito para adultos mas acessível para adolescentes e pré-adolescentes sofisticados, esse trabalho tem lugar em todas as bibliotecas e oferecerá foco e contexto – se não unanimidade – a todos interessados em temas sobre equívocos do governo.”

No Brasil, SNOWDEN saiu em ótima edição pela WMF, de Alexandre Martins Fontes, sob os cuidados de Luciana Veit. Agora o que falta são escolas públicas com bibliotecas munidas de verbas próprias para se abastecerem com os bons lançamentos do mercado editorial. O Ministério da Educação da Pátria Educadora se habilita?

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Rall, Ted (text & illus.). Snowden. Seven Stories. 2015. 224p. notes. ISBN 9781609806354. pap. $16.95; ebk. ISBN 9781609806361. GRAPHIC NOVELS

Supertechie hero, or supertechie villain? The life and work of 32-year-old Edward Snowden command attention, whether one supports his mission to expose the U.S. National Security Agency’s omnivorous appetite for data or whether one considers him traitorous for doing so. Cartoonist/reporter Rall (To Afghanistan and Back) is clearly in the first camp, while providing background about both sides and posing questions of universal interest: How much espionage is too much? What groups should be targeted? What kinds of checks and balances should be imposed? And how should dissent about such things be managed? Rall crunches a large amount of information into his narrative, documented in 14 pages of source notes in a presentation that is easy to follow and fascinating. Cartoony, full-color art supports the text-heavy account partly with illustrations and partly with examples, diagrams, attributed quotations, screen images, document excerpts, photos, and headlines. Seven Stories plans a discussion guide. ­VERDICT Written for adults but accessible to teens and sophisticated tweens, this work belongs in all libraries and will supply focus and background—if not unanimity—to everyone interested in government oversight issues.—M.C.

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Antonin Scalia morreu, e Nelsinho Villas-Boas Moss, como todos os americanos de bem e do bem, estão festejando. Nelsinho não é hipócrita e, quando morre algum malvado, ele festeja e explica por quê. Segundo Nelson, não há contradição em festejar a morte de um sujeito que era a favor da pena de morte. Luciana Villas-Boas concorda plenamente. A palavra fica com Nelsinho, que pode desenvolver melhor as posições de ambos, mãe e filho, e destrinchar no detalhe por que as contradições são de Scalia, chegando até o tema da morte desejável de malvados brasileiros.

“O juiz Antonin Scalia morreu aos 79 anos depois de completar quase três décadas na Suprema Corte dos EUA, tendo sido nomeado pelo presidente Ronald Reagan, em 1986. Eu, Nelsinho Villas-Boas, nem sonhava em nascer, mas não precisamos viver a história para conhecê-la, basta ler e ouvir nossos pais. Raymond acabara de se formar advogado e ralava em um escritório de Manhattan, sendo ele originalmente do Queens, que nem o juiz, e por isso conhecendo bem a mentalidade da figura. Minha mãe cobriu as primeiras decisões do Scalia para a Internacional do Jornal do Brasil, onde ela era subeditora.

Há quem diga que é contradição eu festejar a morte de um sujeito porque ele era a favor de pena de morte. Só que o juiz tinha uma lista de posições do Mal que não se esgotava no tema da cadeira elétrica. Catolicão e contraditório era ele: como alguém pode ser contra o aborto e apoiar a pena de morte? Outra, não menos importante: o cara caçava, assassinava patos e búfalos, espécies inocentes de qualquer crime. Quando morreu, ele estava em um resort do Texas para uma expedição de caça. Era contra o aborto, mas achava uma curtição atirar em seres vivos.

São essas incoerências que me dão vontade de partir para cima de conservadores hipócritas que nem eu tenho feito, para constrangimento da minha mãe, contra todo homem sozinho andando na rua e falando no celular. Já disse que isso não é maneira de se portar em público, e nas meninas eu até aturo, mas marmanjo, não me passe pela frente com um celular no ouvido.

Esse Scalia bancava tanto de maluco radical que, ao ficar em minoria no julgamento do casamento gay, uma votação de 5 a 4, invocou-se com o juiz Anthony Kennedy e saiu gritando que iria “esconder a cabeça em um saco” se seu nome fosse um dia associado àquela decisão da Suprema Corte. Sim, porque eu não gosto de marmanjo falando no celular, mas não tenho nada de homofóbico e, embora ache esse papo de casamento de papel passado uma bobagem para todo mundo, o gay que quiser dar o mal passo tem todo o meu apoio; cada um sabe de si.

Menos ainda do que de gay, o Scalia gostava de mulher, não as deixava entrar em lugar nenhum, vetava todas as leis para lhes dar acesso a escolas, academias, clubes militares, o que fosse.  Eu, Nelsinho, tinha essa diferença fundamental com ele: gosto muito mais de mulher do que de homem. Por isso aprecio tanto meu emprego, gerencio um espaço em que funcionam a VB&M e a Bossa, sete moças lindas, mais a Maria José e a minha mãe.

Voltando ao saco onde o Scalia escondia ou não a cabeça: era cheio de malvadezas até a borda. Além de ter lutado contra a legalização do aborto, foi contra o Obamacare, que tentou muito melhorar a saúde nos EUA, cujo sistema é péssimo, como se sabe. Se você não souber, veja o filme do Michael Moore porque, apesar da reforma do Obama, o sistema continua uma bosta. A Bebel Sader, minha irmã, acabou de ver e só fala disso.

Sabe o que o Scalia respondeu quando lhe perguntaram sobre a garfada que o George Bush deu no Al Gore, na Flórida, nas eleições de 2000? “Sai dessa” (“Get over it”), disse o cínico.

Por isso tudo, podemos festejar a morte do sujeito, tipo de ausência que supre uma lacuna de equilíbrio e bom-senso. Não quero mal a ninguém, não desejo metástases ou sofrimentos de qualquer ordem a quem quer que seja. A morte é um fato da vida e, do jeito que vai o mundo, uma notícia até boa para muita gente. Só sou contra a pena de morte porque não acredito que caiba a um humano definir quando o outro vai morrer. Mas posso muito bem achar que tanto melhor quanto mais cedo morram aquelas pessoas que vieram ao mundo exclusivamente para causar males e sofrimentos.

Nesse sentido, depois de longa discussão com minha mãe sobre o efeito benéfico da morte do Lula, passei a fazer caninas orações diárias pela morte dele. Dele e da Dilma. Seria muito bom para o Brasil, que logo se arranjaria e retomaria o crescimento. O PT já não consegue mais fazer de Lula um mártir em hipótese alguma, seria mesmo a última pá de cal nessa Orcrim. Além do mais, a morte do Lula tem sentido diferente daquela, por exemplo, de um terrorista, que abatido aqui, acolá estão nascendo mais mil iguais a ele. Não, para o mal e nada para o bem, Lula é insubstituível, e o Brasil sem ele ficará muito melhor. Sem a burrice da Dilma nem se fala, dificilmente surgirá outra igual. Vejam: não desejo metástases, só que sumam, desapareçam, nos deixem em paz, que nem o Scalia está fazendo com os americanos, parando de idear maldades contra os seres comuns, pessoas ou outros animais.”

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Uma resenha de OSTENDE: Summer Before the Dark (OSTENDE: o verão que antecedeu a escuridão), de Volker Weidermann, saiu no Forward, jornal digital que assinamos na VB&M e consideramos imperdível, focado em temas relacionados ao judaísmo e a Israel, com uma perspectiva extremamente aberta. VB&M representa OSTENDE para o Brasil em nome da Kiwi, a editora alemã Kiepenheuer & Witsch. Estrepitoso sucesso na Alemanha, 130 mil exemplares vendidos, OSTENDE foi lançado este mês nos Estados Unidos pela Pantheon, último trabalho de tradução da renomada editora Carol Janeway, recentemente falecida; a recepção crítica não poderia ser mais calorosa.

OSTENDE é um balneário belga onde, em julho de 1936, um grupo de intelectuais alemães perseguidos pelo governo se encontrou para suas últimas férias antes do cataclisma nazista. Estavam lá Stefan Zweig com sua Lotte Altman e Joseph Roth com a romancista Irmgard Keun; Arthur Koestler, autor de DARKNESS AT NOON (“Escuridão ao meio-dia”, ou O ZERO E O INFINITO, título brasileiro), que li na adolescência no auge de meu fundamentalismo bolchevique, certamente não entendi e deveria reler com urgência; o jornalista Egon Erwin Kisch, o comuna Willi Muezenberg, o dramaturgo Ernst Toller. O pequeno livro de Weidermann conta essas férias ominosas, às vésperas das Olimpíadas de Munique. (Algumas Olimpíadas era melhor que não acontecessem.)

O cerne da narrativa de OSTENDE é a relação de amizade entre o bem-sucedido e abonado Zweig e o genial mas irresponsável e alcoólatra Roth. Um tipo de relação simbiótica comum entre homens em que um segura as pontas e paga as dívidas do outro, mas também se compraz com a dependência e gratidão que lhe são oferecidas em troca, sem falar das contribuições intelectuais. Zweig é suficientemente conhecido do público brasileiro. O gigante literário Roth poderia sê-lo bem mais, até porque a Companhia das Letras já publicou seu lindíssimo JÓ, sobre Mendel Singer, pobre pai de família em um shtetl russo, releitura bíblica e homenagem a Zweig em sua extrema paciência com os desvios do autor, e a Mundaréu lançou o seminal A MARCHA DE RADETZKY.

Outro personagem interessantíssimo de OSTENDE é Irmgard Keun, de quem também representamos para a Kiwi o romance CHILD OF ALL NATIONS, publicado em inglês pela Penguin, inédito no Brasil, uma recriação de sua relação com Roth contada do ponto de vista de uma fictícia filha do casal. Os olhos e o coração da menina narram a história dessa família disfuncional e errante, pulando de país para país, sem passaporte, de uma atualidade aflitiva no atual momento histórico de refugiados por toda parte.

Um pouco mais sobre Keun, porque é difícil  figura humana mais rica e trajetória literária mais significativa. Nascida em 1905, com menos de 30 anos, ela era um imenso best seller na Alemanha de Weimar, com romances de forte carga feminista. Sem ser judia, logo passou a ser perseguida pelo regime de Hitler e fugiu para essa experiência do exílio relatada nos livros mencionados acima. Chegou a passar uma temporada nos EUA, mas só obteve visto temporário e, quando estourou a guerra, estava na Holanda. Conseguiu de um oficial nazista sabe-se lá como um passaporte com seu nome do meio mais o sobrenome do ex-marido e retornou para a Alemanha, onde viveu na clandestinidade até 1945. Ainda voltou à ativa, mas o alcoolismo pegou-a, atravessou décadas na pobreza e somente pouco antes da morte, as leitoras alemãs se deram conta de sua importância como romancista e como pensadora do feminismo e resgataram-na do ostracismo valorizando sua firmeza moral. Mas foi um período breve, pois, já bem passada dos 70 e com toda essa vida nas costas, Irmgard Keun estava cansada.

Quando Keun faleceu em 1982, Zweig e Roth estavam, como se sabe, muito para trás em sua vida. De OSTENDE eles rumaram para o encontro com a morte. Zweig suicidou-se no Brasil em 1942. Roth morreu de doenças decorrentes do alcoolismo, mas aparentemente o seu fim foi precipitado pelo suicídio de Ernst Toller. Toller faleceu a 22 e Roth a 27 de maio de 1939, meros cinco dias depois.

A história ceifa as esperanças e assim as pessoas. Por isso é importante ler sobre o nazismo enquanto o momento mais escuro da história da humanidade. Quem o viveu não acreditava possível chegar-se à luz novamente, a morte era a melhor opção. Quem resistiu pôde ver o despertar do pesadelo. (LVB)

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O editor André Conti, da Companhia das Letras, preparou uma capa espetacular para A BÍBLIA DO CHE, de Miguel Sanches Neto, aguardado lançamento de maio. O próprio André disse ao autor que amou o livro _ “forte, triste, engraçado e muito imprevisível”.

O foco da narrativa de Miguel é uma Bíblia que teria sido carregada e lida por Ernesto Che Guevara em suas andanças pelo Paraná, disfarçado de padre, em meados da década de 60, antes de seguir para a Bolívia. Uma assessora da Assembleia Legislativa, formada em Sociologia, gostosa e maluquinha, fixada na figura do Che, quer porque quer a Bíblia anotada e desaparecida, e os homens correm para atendê-la. Suposta viúva de um operador de propinas que teria morrido na explosão de um automóvel, moça de origem humilde, Francelina Paes, a Fran, acaba arrastando o protagonista, Carlos Eduardo Pessoa, nosso velho conhecido desde A PRIMEIRA MULHER, até a Bolívia, e o livro torna-se uma mistura de mistério político com “road novel”.

Difícil dizer no que Miguel revela maior excelência: se na composição de personagens densos e complexos, na originalidade da trama, nos diálogos verdadeiros, ou na linguagem perfeita para a história. Entre tantos aspectos patéticos da existência, o autor explora com habilidade e perspicácia o doentio caldeirão ideológico brasileiro.

O novo romance do Miguel é aguardado não só no Brasil. Na VB&M, temos sido assediadas por editoras que querem avaliar a obra a partir de alguma amostra de tradução. Estamos à espera do texto editado pelo André para prepará-la. O tema e o entrecho de A BÍBLIA DO CHE instiga internacionalmente.

Fosse no Rio essa paisagem de fim de tarde invernal, haveria sempre um americano, um paulista ou um brasileiro de qualquer outro lugar do país para perguntar: Não se trabalha nessa cidade? Como se as complexas cidades do século XXI _ e não vamos comparar os tamanhos do Rio de Janeiro e de New Port Beach _ não tivessem gente suficiente trabalhando e estudando nos mais variados turnos para encher as praias em seus momentos de lazer a qualquer hora do dia ou da noite. Sem falar nos turistas. Mas em New Port Beach, Califórnia, essa pergunta não ocorre, e talvez haja outras razões além do preconceito para as reações diferentes diante da vida praieira numa cidade e em outra.

O resultado do trabalho humano é visível em cada mínimo recorte da paisagem da Califórnia. É tudo muito rico. Para mim, até demais. Não gosto do jeito manicurado das cidadezinhas turísticas dos EUA. Me enjoa. Tive a mesma reação quando visitei Vail, nas montanhas do Colorado, ainda em 1986, ou quando fui a Carmel, em 1988. Mas todo mundo gosta e é claro que, para quem mora, mais ainda do que para quem visita, uma boa infraestrutura facilita muito a vida.
Em Orange County, o aeroporto é tão grande e tecnológico que pensamos ter aterrissado em Los Angeles, não em um distrito menor do estado da Califórnia. Dirigir é uma beleza, o asfalto perfeito. Excepcionalmente nos EUA, andar a pé também é ótimo em New Port Beach, cidade de calçadas, “walking city”, e o sistema de sinais de trânsito é tão avançado que, para um pedestre atravessar uma rua de mão dupla, primeiro param os carros de um sentido e depois do outro, de maneira a agilizar o tráfego e evitar engarrafamentos. Para onde se olha, é tudo tão limpo e escovado, ecologicamente correto, que dá até nervoso.

Uma ponta de inveja também deve estar no fundo da minha rejeição a essa perfeição toda. Na condição de brasileira, meu complexo de vira-lata pessoal anda aguçado. Não dá mais para responder sobre zika. É humilhante. O Brasil em 13 anos andou 30 para trás, e o governo Dilma nos cobriu com um manto de desgraças que, por mais racionais que tentemos ser, é impossível não pensar que, além de estúpida e envolvida com a maior organização criminosa já formada no país, essa mulher é um pé frio extraordinário e histórico. Tudo que ela toca vira merda, Copa, Olimpíada, o que for. Merda séria, grande.
Olhando o vôlei das meninas em um fim de tarde de inverno na praia de New Port Beach, não consigo acompanhar as jogadas porque estou sempre imersa nos problemas do meu país, mas faço força para pensar mais positivamente, e me vem à mente que a independência e a competência da Lava-Jato, dos procuradores brasileiros, de tantos delegados e investigadores da Polícia Federal e também de boa parte da imprensa são motivo de orgulho nacional. Trabalho extraordinário, luta hercúlea.

Não dá para entender como a mesma sociedade que formou gente tão boa, corajosa e competente como Sergio Moro, Deltan Dallagnol, delegado Marlon Cajado; analistas políticos como Fernando Gabeira, Elio Gaspari e os editorialistas de O Estado de São Paulo; que essa mesma sociedade haja sido capaz de por e deixar no poder por 13 anos e meio uma gangue de estúpidos, grosseiros e irresponsáveis dispostos a destruir o país inteiro, a indústria, os hospitais, as escolas, as cidades, agora cobertas de lama, até o povo, deformado e paralisado pelo mosquito. Muita contradição. Mas enfim há esse lado sofisticado da sociedade brasileira, setores da Justiça e da imprensa independentes, empenhados e hábeis, que são a esperança. Dou as costas para a praia limpa da Califórnia acreditando que ainda vamos por a bandidagem para correr e pavimentar a nossa estrada para o futuro.

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Cumprindo à risca as atribuições de seu posto na VB&M, Nelson Villas-Boas abriu a dentadas e unhadas, mas com toda delicadeza, o pacote de livros enviado pela Sesi-SP Editora e descobriu novas edições da obra de Eduardo Alves da Costa: CEM GRAMAS DE BUDA e A SALA DO JOGO, volumes de contos em reedição, e o poema longo BALADA PARA OS ÚLTIMOS DIAS, trabalho mais recente do autor.
Eduardo é um escritor fundamental, niteroiense que passou a maior parte da vida em São Paulo, revelado, como Roberto Piva e Carlos Felipe Moisés, pela clássica ANTOLOGIA DOS NOVÍSSIMOS (1961), e autor do famoso poema NO CAMINHO COM MAIAKOVSKI_ que de tão bom foi equivocadamente mas muitas vezes tomado como criação do poeta russo. Infelizmente e injustamente, Eduardo andava meio esquecido, mas Rodrigo Faria e Silva, na Sesi, e Ibraíma Tavares, na Alaúde, que lançou no ano passado o romance TANGO, COM VIOLINO, estão trazendo-o de volta à cena literária.

Somente a sensibilidade de Rodrigo para publicar A BALADA PARA OS ÚLTIMOS DIAS, um poema épico de 130 páginas que fala da destruição do planeta entregue à sanha assassina da espécie humana. Diz o poeta: “Enfermo o homem, adoeceu a Terra.” Uma impactante, fortíssima, eloquente narrativa poética do fim dos tempos, que agora pode ser lida também com um foco nacional; é também e especificamente do Brasil que se fala.

Sabiamente, Nelsinho sugere a reprodução aqui de alguns trechos para que os seguidores da VB&M tenham ideia do grau de realização estética de que estamos falando:

Nem de fome nem de loucura
morreu Van Gogh:
Mataram-no os corvos
a esvoejar sobre os trigais.
Lançou-lhes o Pintor uma pergunta
E se puseram todos a crocitar:
Nunca mais! Nunca mais!
E em linguagem cifrada,
qual agouro desfraldado sobre
o amarelo da tela derradeira,
ficaram, à sua maneira, a parolar
sobre futuras ocorrências fatais.
……………..
Não foi a brincar que Nietzche
anunciou a morte de Deus.
Se olharmos bem, Deus já não há,
ao menos cá, neste lado da Eternidade.
Não só o matamos nós, a patadas,
como o deixamos a sangrar, à luz
do dia, pasto de moscas e zombaria.

E vago o trono, posto Deus a nu,
sentamos lá o traseiro humano.
Deus morto, Deus posto, como se dizia
no tempo em que abatíamos os deuses
quando nos apetecia.
………………

Não só assassinamos Deus como
de seu Filho Divino fizemos um produto,
vendido a poder de reclame
retalhado nos balcões feito salame.

Nenhum ação na Bolsa de Valores
ou em outro qualquer museu
de horrores _ e estou seguro
quando vos digo isto _ subiu
tanto quanto as da indústria
e do comércio de Cristo. Um ramo
de vertiginoso progresso, de espantoso
incremento, fundado em capital
insignificante: singela Bíblia
e o mais vulgar atrevimento.
………………………………….

Não sabemos, ao certo, quando decidiu
o homem transformar a Terra num deserto.
Mas as sementes dos ingentes
esforços para aniquilá-la, que hoje
se tornam tão patentes, foram lançadas
à mente humana pela serpente ainda
no Paraíso. A expulsão, a malfadada
Queda que nos lançou como cadente
seta às plagas deste planeta,
já nos encontrou modificados; prediletos
filhos abastardados pela autoexclusão
da Luz, que não só iluminava
nossas almas, inocentes e calmas,
como as mantinha aquém da linha
divisória entre o ser e o não ser.

Sergio Abranches publica novo artigo no blog de Matheus Leitão tocando em temas importantes de seu próximo livro, O COMPLEXO DE PROMETEU, que ele promete finalizar até a virada do mês: “Refugiados, imigrantes, casais transculturais: o lado mais complexo da globalização”. No artigo, Sergio fala de um jantar em Toronto em que ele e Míriam formavam o único casal unicultural, oriundos não só do mesmo país, mas até do mesmo estado, Minas Gerais; todos os outros misturavam nacionalidades.

Unida a um americano, eu (Luciana) conheço bem essa situação. Quando estamos na Europa, Raymond e eu dificilmente convivemos com casais de idêntica origem nacional. Em um jantar que Ray ofereceu a amigos em Crans, na Suíça, estavam nosso vizinho muito querido, o suíço-francês Phillipe, casado com a ugandense Jane; um sociólogo e professor kwaitiano casado com uma russa; um músico sul-africano judeu, dono de uma escola de idiomas numa cidade vizinha, casado com uma americana. Eu cheguei em casa para a sobremesa com nossa nova cliente Silvia Boadella, suíça-alemã casada com inglês, autora de um romance magnífico, A PELE DA ALMA, do qual espero poder falar e dar boas notícias em breve.

Nos EUA e no Brasil, países continentais, esse fenômeno é um pouco menos evidente, mas na Europa é quase a regra. O irmão de Phillipe, Daniel Bonvin, primeiro trombonista da Filarmônica de Munique, casou-se com a macedônia Valentina. A misturada trouxe um bônus inesperado: numa cidade pequenina como Crans, onde boa parte da população é muito feia devido às uniões endogâmicas de tantas gerações, os filhos de Jane/Phillipe e Valentina/Dany são estonteantemente bonitos. Valeu a pena ir buscar um pool genético lá longe.

Enfim, um aspecto positivo da globalização. Por enquanto, vamos curtindo essa provinha de O COMPLEXO DE PROMETEU, que vem aí para explicar tudo. (LVB)