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Quem pensa que a ficção é descoberta tardia na vida de Edney Silvestre está muito enganado e vai se surpreender com a historinha desta postagem. Talvez por estar dedicado a reorganizar seus pertences, tendo se mudado de apartamento, talvez motivado por sua volta ao conto em 2016, com o maravilhoso (sem um pingo de exagero) WELCOME TO COPACABANA, que Carlos Andreazza vai lançar pela Record em abril, ontem Edney partilhou conosco essa capa da revista “Ficção: histórias para o prazer da leitura”, de julho de 1976, número no qual ele comparece em incrível companhia: Dalton Trevisan, José Louzeiro, Carlos Heitor Cony, João Silvério Trevisan, Ignácio de Loyola Brandão, Juan Rulfo e Pirandello. Para quem desconhece a revista, foi uma publicação marcante que durou de janeiro de 1976 a setembro de 1979, editada por outro time de sonhos: Cícero Sandroni, Eglê Malheiros, Fausto Cunha, Laura Sandroni e Salim Miguel. Tão importante naquela época para a produção brasileira de contos, que parecia então ser o gênero de vocação nacional, que em 2007 Miguel Sanches Neto antologizou-a para a Editora Leitura, de Belo Horizonte.

Diz Miguel: “com um projeto descentralizador, (a revista) uniu província e metrópole, fazendo um mapeamento da produção do país.” Misturava autores jovenzíssimos, como Edney, com gente já consagrada, como Cony, ou clássicos como Machado de Assis, ou ainda estrangeiros, como o mexicano Rulfo. O critério era o conto ser excepcional. Para o Miguel, deve ter sido uma luta compor a antologia.

Lástima o conto ter perdido no Brasil tanto espaço como manifestação literária da década de 70 para cá. Esperemos que o novo livro de Edney Silvestre possa contribuir um pouquinho para ultrapassar essa tendência, que não é só brasileira, mas internacional. Menos ainda que contos nacionais lemos a narrativa curta estrangeira, que tampouco é popular na Europa e nos Estados Unidos.

Em WELCOME TO COPACABANA, Edney evidencia mais claramente um talento seu quase único na literatura brasileira: a capacidade de recriar as vozes e as subjetividades de gente de todas as camadas sociais, do proletário ao burguês, do lumpen-proletariado à nossa tão característica lumpen-burguesia (conceito meu, Luciana), que de 2002 para cá passou a ocupar todos os recantos do poder no Brasil.

Temos grandes escritores que expressam a subjetividade do explorado e do trabalhador, como Luís Ruffato. Outros comunicam prioritariamente a crise do intelectual psicanalizado, ou da mulher oprimida pelo patriarcado. Edney transita por todas as almas, héteros e homos, homens e mulheres, velhos e crianças, ricos e pobres, marginais e bem-situados. No novo livro, tem o conto de um operador de propina em lua-de-mel com sua nova mulher personal trainer, na Itália, que a gente jura que conhece do noticiário, um cara entre Fernando Baiano e André Esteves, tão real que provoca o mesmo tipo de ânsia de vômito. Depois vem uma criança abandonada, seguida de um tipo já clássico dele, o imigrante brasileiro em situações insólitas nos EUA, a estrangeira em Copacabana _ o mundo. Em BOA-NOITE A TODOS, fomos dolorosamente apresentados à densa subjetividade de uma mulher de família tradicional do Rio de Janeiro em processo de perda de memória e identidade.

É uma ficção fincada tanto na literatura como na vida, o que é para pouquíssimos. Haja administração do tempo para saber dividido-lo tão bem entre leitura, escrita e experiência vivencial. Para dizer melhor que Marx: “Nada do que é humano me é estranho.”

Bateu uma vontade de ler esse conto de 1976 que a equipe da “Ficção” achou merecedor de publicação na revista. Vamos pedir para ele escanear e mandar? Será bom saber como e por quem da “Ficção” foi selecionado para figurar naquele número do remoto século XX, em tão boa companhia.

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