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Evangelia Avloniti

Nossa brilhante co-agente na Grécia, Evangelia Avloniti, divide conosco o artigo que escreveu para o Publishing Perspectives

http://publishingperspectives.com/2015/08/greek-publishings-summer-of-discontent/

sobre a situação do mercado editorial grego. “Greek Publishing’s Summer of Discontent”, algo como “o verão da desesperança do mercado editorial na Grécia”, é de certa maneira uma explicação e uma justificativa para os editores do país não estarem fazendo as remessas ao exterior dos royalties devidos, mas também descreve com grande nitidez um quadro terrível de desolação social.

Certamente, a situação grega é infinitamente pior do que a brasileira, e não só pela fragilidade estrutural da Grécia, se comparada com o potencial sócio-econômico do Brasil. Certamente, também os gregos são responsáveis e cavaram o próprio buraco financeiro, como fizemos os brasileiros _ mas só até certo ponto! Enquanto no Brasil não se pode apontar o dedo para ninguém de fora pela situação lamentável em que nos encontramos (a presidente Dilma insiste nessa atitude, mas há tempos ninguém dá crédito a suas explanações da crise em dilmês indecifrável), a Grécia foi em parte, mas de fato, vitimada pelo modo como se deu sua inserção na União Europeia _ e, aliás, continua sendo, pois sua derrocada tem sido muito benéfica para as potências regionais, principalmente a Alemanha. Certamente, o mercado editorial grego está muito mais desestruturado do que o brasileiro. Ainda assim, ou por isso mesmo, é relevante identificar os pontos em comum entre esse verão grego e o nosso inverno, além do calor excepcional para a estação nos dois países.

Desde o controle dos movimentos de capitais estabelecido em junho pelo Syriza, o partido de esquerda no poder, as cadeias produtivas de diversos setores foram implacavelmente quebradas na Grécia. No caso do mercado editorial, não se imprime mais nada porque não há papel nem maneira de comprá-lo, já que as contas bancárias foram bloqueadas, e as vendas das livrarias caíram entre 50% e 80%. Nem que quisessem, editores poderiam pagar royalties ao exterior, porque as remessas estão virtualmente proibidas pelo governo. Naturalmente, já começou o quebra-quebra das editoras, com a prestigiosa Script anunciando falência em pleno feriado bancário imposto pelo governo para impedir os saques de divisa.

No Brasil, a crise apanhou as editoras depois de um período de relativa bonança. Até o ano passado, compras governamentais garantiam bons resultados para a maioria das editoras. Se algumas delas, digamos, se viciaram nessa receita, o corte abrupto das compras não atingiu o mercado homogeneamente. Altamente capitalizadas, editoras como a Intrínseca e a Sextante, que nunca se dedicaram ao “canal governo”, não estão sentindo a crise de maneira aguda. Mesmo com a recessão já perfeitamente identificada, o setor livreiro ainda teve o maná dos livros de colorir no primeiro semestre.

Claro que a retração de movimento nas livrarias menos bem pensadas afeta e preocupa a todos, assim como juros altos doem no bolso de quem tem alguma dívida pendurada no banco. Por isso, a diminuição significativa do número de lançamentos, o esforço de redução de custos com dolorosas demissões em muitas casas e a restrição das contratações a livros de auto-ajuda; a títulos diretamente relacionados à crise, tanto de análise séria como de sátira; ou a obras de autores já colocados que a editora não queira perder de maneira alguma. Mesmo sem necessidade premente mas com desculpa para isso, algumas (poucas) editoras estão aderindo ao péssimo hábito de adiar ao máximo os pagamentos, ou simplesmente não cumprir seus compromissos, contribuindo para o ambiente de desconfiança, que só acentua a crise e deprime os agentes econômicos, piorando viciosamente o astral de todo mundo.

O que mais se aplica ao mercado brasileiro de tudo que traz de informação o artigo de nossa amiga Evangelia? É no mínimo curiosa, pelo que reflete de Brasil, a declaração da editora Chrysa Georgakopoulou diagnosticando a doença e morte de sua querida Scripta: “Livros nunca foram uma prioridade para os gregos. Sempre foram uns poucos que sustentaram o meio editorial grego em seu estado semi-comatoso.” Também a solução que a popular dublê de autora-editora, Soti Triantafillou, da Patakis, propõe: “estabilidade, uma moldura social que seja simpática aos negócios e alguma paz de espírito coletiva (para a sobrevivência).”  Nossa, Soti, a gente também quer!

Enquanto o Brasil decide se vale a pena ou não impedir Dilma, considerando a bandidagem política generalizada que há de permanecer até 2018, esperemos que não seja o intento da presidente e do PT conduzir a nau brasileira a um porto grego. Já entrou água demais em nosso barco, considerando o potencial e a riqueza de recursos de que dispomos. Quantas Grécias dão no Brasil, quantos ioles em nosso transatlântico? Mas, lembrem-se PT e Dilma, políticos em geral, quando naufraga, o transatlântico sofre muito mais do que o pequeno veleiro, e se vai embora primeiro o pessoal do porão, passageiros da primeira classe também não são poupados.

(LVB)

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