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Stoner tem uma trajetória editorial interessante. É desses fenômenos literários que ninguém explica o por que, só que ao revés. Originalmente publicado em 1965, foi praticamente ignorado por público e crítica por quase meio século, até ser pinçado aqui, elogiado ali e, pimba, virar febre na Europa. Nomes como Julian Barnes, Ian McEwan e Enrique Vila Matas assinaram o aval de seu sucesso e daí para ganhar o mundo foi um passo. Contrariando toda e qualquer expectativa, tornou-se um best-seller da melhor espécie, daqueles que se faz no boca a boca dos leitores e, sem qualquer alarde, alçou seu autor ao panteão dos grandes nomes da literatura do século XX. Nas palavras do próprio Williams, Stoner é um romance substancialmente bom, e talvez seja essa qualidade literária profunda mas plana, sem qualquer excepcionalidade, o cerne de sua força; assim como na vida, a beleza está na simplicidade da forma e do conteúdo.

Parece que vivemos um momento em que o interessante é o trágico. Não há espaço nos grandes meios de comunicação para boas notícias, só interessam as tragédias: humanas, naturais, passionais, políticas. Somente o lado ruim das coisas atrai o grande público, não havendo lugar para a exaltação de gestos positivos à exceção, talvez, dos campos dos esportes e das artes. Nesse contexto, um romance que trata de temas como pobreza, morte, casamento falido, estagnação profissional, alcoolismo e câncer poderia se valer de qualquer desses motes para atrair o leitor, o que de fato ocorre, mas Stoner vai muito além disso.

Embora os aspectos citados pareçam, num primeiro momento, de extrema relevância, tendem ao longo do livro a não afetar o protagonista William Stoner ao menos não de maneira efetiva no exercício de seu livre arbítrio. Stoner pode ser resumido como um filho de camponeses que ingressa na Universidade de Missouri para cursar a faculdade de Agricultura e acaba se apaixonando pelo mundo da literatura, fazendo a escolha de nunca mais voltar para a vida no campo ao lado de seus pais, optando por uma vida acadêmica de carreira e trabalhando até o último momento nessa mesma universidade. É nesse cenário que transcorre todo o desenvolvimento desse Bildungsroman.

O primeiro parágrafo do romance já traz todas essas informações, convidando o leitor a desbravar ao longo dessa comovente história o que são os dois dos principais aspectos do protagonista: sua generosidade e seu egoísmo, valores que num primeiro momento parecem antagônicos mas que estão presentes em Stoner de forma contundente e complementar.

Se tomarmos a generosidade de Stoner como ponto de partida para a análise de sua personalidade, teremos diversas passagens do livro em que ele se mostra não apenas interessado em ajudar os que estão à sua volta, como também voltado a deixá-los confortáveis nas situações em que estão. Esse fato é constatado, por exemplo, em sua relação com seus pais, logo no início do livro, quando fica clara sua disponibilidade em ajudá-los; seu interesse de ingressar em uma faculdade de agricultura para que pudesse aprender novos métodos de produção e auxiliar na fazenda. Essa generosidade perdura até o final da narrativa, tendo como exemplo último o empenho com os seus alunos, ao deixar todas as suas teses organizadas, quando soube de seu câncer através de seu médico:

“’Yes,’ stoner Said. ‘When would you want to operate?’

‘As soon as possible’, Jamison said relievedly. ‘Within the next two or three days.’

‘That soon,’ Stoner said, almost absently. Then he looked at Jamison steadily. ‘Let me ask you a few questions, Doctor. I must tell you that I want you to answer them frankly’

Jamison nodded.

‘If it is only a tumor – non-malignant, as you say-would a couple of weeks make any great difference?’

‘Well,’ Jamison said reluctantly, ‘there would be the pain; and-no, not a great deal of difference, I suppose.’

‘Good’, Stoner said. ‘And if it is as bad as you think it is-would a couple of weeks make a great difference then?’

After a long while Jamison said, almost bitterly, “No, I suppose not.’

‘Then’, Stoner said reasonably, ‘I’ll wait for a couple of weeks. There are few things I need to clear up-some work I need to do’” (Pages 257-258)  

 [A edição aqui é a da New York Review of Books]

 

Todavia, essa visível generosidade aparece ao longo do romance justificada por um egoísmo salutar exercido em razão de uma paixão: a literatura. É por esta, e talvez por saber apenas exercer (ou amar) esse ofício, que Stoner toma o rumo de suas decisões. Desse modo, em contraponto a seus atos generosos, é também pelo amor à literatura que Stoner abandona seus pais na fazenda, migrando para a cidade e nunca mais voltando, mesmo após a morte de seu pai, quando abandona sua mãe. Esse exercício do chamado egoísmo leva a um ponto relevante da narrativa, que é o exercício irrefutável do livre arbítrio pelo protagonista, pois todo o desenrolar de sua vida é consequência apenas de suas escolhas, principalmente, mas não somente, em razão de seu comportamento para que pudesse exercer livremente aquilo que ama, que é a literatura. É pela literatura que Stoner adia a sua operação, pois sabia que aquela seria sua última chance de exercer o seu ofício. Após a cirurgia, não haveria mais forças para um recomeço.

Essa obsessão acaba sendo escancarada ao final da narrativa, quando Stoner não possui mais forças para nada, permanecendo em sua cama e buscando dar sua própria contribuição para a literatura:

“His head turned. His bedside table was piled with books that he had not touched for a long time. He let his hand play over them a moment; he marveled at the thinness of the fingers, at the intricate articulation of the joints as he flexed them. He felt the strength within then, and let them pull a book from the jumble on the tabletop. It was his own book that he sought, and when the hand held it he smiled at familiar red cover that had for a long time been faded and scuffed.” (Page 277)

Talvez tenha sido esse amor pela literatura, combinado à construção de personagens ambíguos e incríveis, acrescidos de uma_ não menos importante_ escrita impecável, que tenha atraído tantos leitores famosos e anônimos para o até então desconhecido John Williams. O fato é que, ainda que tardios, todos os louvores e aplausos são justificados ao longo das páginas desse romance.

 

Por Felipe Rufino (colaborador)

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