julho 2015

Para o blog da VB&M, o artigo rivotril de Eduardo Moreira. Recomendamos para quem está nervoso com a crise.

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Por Eduardo Moreira

Acalmem-se! O mundo não vai acabar! Por mais que relatórios econômicos, manchetes de jornais e programas de televisão tentem lhes convencer do contrário… Seus dias não merecem ser perdidos com um cenário que não irá se materializar. Acreditem, há razões de sobra para seguir adiante, otimistas, ousados e serenos.

Existe um mecanismo de preservação nos seres vivos chamado homeostase. É a capacidade de regular seu ambiente interno mediante múltiplos ajustes de equilíbrio, todos eles dinâmicos e inter relacionados. E é essa característica de se organizar naturalmente quando as coisas parecem caminhar para a direção errada que lhes da o nome de organismos. Curiosamente porém, na maioria dos casos, para a homeostase entrar em ação o desequilíbrio do organismo deve aumentar muito até que válvulas, gatilhos e outros mecanismos fisiológicos finalmente sejam acionados e o corpo volte a rumar para a direção do equilíbrio. As coisas costumam piorar antes de melhorar…

Com um país, desde que suas instituições sejam fortes, as crises funcionam de forma muito parecida. As coisas começam piorando marginalmente, a partir de um período de bonanza. Os que gozam do poder ignoram então os sinais de piora, e dobram a aposta no que vinham fazendo. Pequenas medidas paliativas e superficiais são implementadas mirando corrigir a manifestação dos desequilíbrios, e não os desequilíbrios em si. A percepção melhora, mas as causas dos desequilíbrios não. Pior, saem da mira dos governantes, e crescem sorrateiramente até surgirem muito maior adiante. E quando batem a porta para cobrar a conta que não foi assumida lá atrás, vem com aparência de monstros imbatíveis.

Quando as coisas chegam neste ponto, o processo de ajuste é dolorido. De certo, apenas sabe-se que ele acontecerá, queiram ou não, até que as coisas voltem a ser como eram. Só que ninguém gosta de sentir dor e, portanto, entram em ação mecanismos para abrevia-la. Se não em intensidade, pelo menos em tempo. Economistas, empresários e demais agentes econômicos desenham o caos. E, apesar de não terem esta intenção, fazem com que o cenário acelere-se em direção a ele. As taxas de juros sobem, a moeda se desvaloriza, as taxas de desemprego escalam, a inflação ganha corpo e os investimentos diminuem. Tudo numa velocidade enorme, para que a parte dolorida passe rápido. Até que no alto da montanha, na beira do precipício, prestes a cair, o vagão para. Para e começa a voltar para trás, na direção de onde veio.

As dividas passas a valer menos, porque a inflação come uma boa parte de seu valor. As commodities passam a valer mais, porque são negociadas em dólares. A terra para plantar, criar ou extrair, passa a custar menos, e a mão de obra fica também mais barata. As margens aumentam, e isto atrai investimentos, inclusive de estrangeiros que agora veem sua moeda valendo muito por aqui. A crise fez as empresas aprenderem a fazer mais com menos, e isto perdura por algum tempo, gerando eficiência na produção. E todo este ciclo faz a moeda voltar a se valorizar, os juros voltarem a cair, os investimentos voltarem a existir e a oferta de emprego aparecer novamente…

Economistas e analistas erram quase todas. Mas suas previsões catastróficas são essenciais para acionar os mecanismos de homeostase de uma nação e ajuda-la a voltar em direção ao equilíbrio. Os dias de bonanza sempre voltam. A única coisa que não volta é o tempo. Portanto deem um pouco menos de peso para o que os outros dizem e um pouco mais de peso para os momentos divertidos e prazerosos de seus dias. Lembrem-se que noticias como “A economia piorou um pouquinho” ou “Governo tem resultado na média dos últimos 10 anos” não vendem jornal nem propaganda…

Eduardo Moreira – Autor de Encantadores de Vidas, O Encontro, O Encantador da Montanha e Investir é para todos

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A agente Virginia Lopez-Ballesteros, cuja maravilhosa lista de autores de língua espanhola nós representamos para o Brasil, manda a notícia de que o filme EL REY DE LA HABANA, em processo de produção pela batuta do diretor maiorquino (de Maiorca) Agustí Villaronga, está quase pronto. Com Maykol Tortolo e Yordanka Salgado nos papeis principais, o filme será exibido nos festivais de Toronto e San Sebastian e estreia na Espanha no dia 25 de setembro. Depois seguirá para os festivais de Londres, Berlim e outros. Cuba fez de tudo para boicotar esse filme, baseado, como se sabe, no livro homônimo do escritor cubano Pedro Juan Gutierrez, mas em vão.

No Brasil, a notícia do filme há de alegrar especialmente o editor Marcelo Ferroni e sua equipe na Alfaguara. Há poucos meses, Marcelo contratou com a VB&M o novo romance de Pedro Juan Gutierrez, FABIÁN Y EL CAOS, uma de minhas mais comoventes leituras este ano, e aproveitou para renovar os dreitos de vários títulos do fundo de catálogo do autor já na Alfaguara e/ou Companhia das Letras, como O REI DE HAVANA.

O boicote de Cuba à produção do filme se deu sob várias formas mas a principal foi a proibição de filmar em Havana. Para o diretor, a proibição pareceu de início insuperável, porque a ambientação seria fundamental para o filme, e não se encontrava cenário em outro país que pudesse passar por Havana Velha. Como fazer fora de Havana um filme em que Havana é personagem, mais do que cenário? Finalmente, a equipe descobriu na República Dominicana um conjunto urbano bastante verossimilhante como ruas havanesas.

Estranho é que Cuba, tendo sido vítima por tantas décadas de um boicote americano, não soubesse que essa é uma tática que só funciona quando carrega algum elemento de justiça ou correção ética. Temer a arte é desprezível, querer punir um artista porque ele projeta uma visão crítica do regime é patético. Pronto, bem-feito, o filme está saindo da mesma maneira.

FABIÁN E O CAOS, o novo livro de PJG, é como toda sua obra duríssimo com a ditadura dos irmãos Castro. Pega os primeiros anos da revolução, que deveriam ter sido os melhores, e desvenda como o autoritarismo só funciona premiando os medícores; como o poder da mediocridade aplasta as personalidades mais frágeis, sensíveis, artísticas. No caso, Fabián, um jovem pianista que não consegue fazer carreira ou se mover pelos meandros burocráticos do mundo da música na Cuba revolucionária.

Como em todo seu trabalho autoficcional, PJG é personagem, mas secundário. Apesar de todas as diferenças de origem social e visão de mundo, Fabián e Pedro Juan são amigos, mas o segundo não consegue ajudar o primeiro a superar o caos objetivo e subjetivo que aniquila a todos, mas principalmente um talento como o do pianista. O título do livro é lindo, porque se trata da mais perfeita narrativa do caos.

(LVB)

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A coragem de Alison Entrekin: tradutora vai encarar GRANDE SERTÃO: VEREDAS, de Guimarães Rosa. Adoramos gente destemida.

Link para a matéria completa: http://www.revistapessoa.com/2015/07/o-nonada-no-mundo/

 

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Quem não é do meio talvez nem imagine, mas existe uma competição feroz entre as livrarias pelas noites de autógrafo de autores queridos e populares. Claro: um lançamento de um autor que trabalhe, digamos, na TV-Globo faz acorrer à livraria centenas de pessoas que compram o livro que está sendo lançado e, às vezes, muito mais. Um movimento na loja impossível de ser reproduzido sem uma noite de autógrafos. Imaginem então a disputa de um lançamento de Míriam Leitão, que atrai, além de muitos colegas e amigos, outro tanto de fontes de sua atividade jornalística, em geral nomes de grande prestígio, mais os parentes, mais os fãs.

Para o lançamento de HISTÓRIA DO FUTURO, em agosto, a Editora Intrínseca, que há muito tempo já mostrou a que veio em matéria de profissionalismo, foi salomonicamente sábia. Aproveitando que a autora tem bases profissionais e sociais em pelo menos três cidades, distribuiu as noites de autógrafo entre as livrarias Cultura, em Brasília, no Iguatemi; Travessa do Leblon, no Rio; e Saraiva, em São Paulo, no shopping Higienópolis.

Dessa maneira, a editora contará com o comprometimento de três cadeias livreiras importantíssimas e superabastecidas da obra, que contribuirão para a carreira de HISTÓRIA DO FUTURO. (Diga-se logo que o livro é mesmo fundamental para todo e cada brasileiro.)

Se a Intrínseca contemplasse somente uma ou duas redes, as outras fariam um chororô espetacular. Agora resta ver quem vai convidar para o lançamento de BH, onde Míriam tem (muita) família.

Só para terminar, não pensem que ser poderoso ou da Globo é o único critério para a cobiça das livrarias. Livreiros experientes sabem que quase qualquer professor universitário tem capacidade de lotar uma loja; por isso essa é outra categoria profissional muito disputada. O professor, no entanto, precisa mostrar que é querido. Se for, abarrota uma livraria de alunos e ex-alunos.

(LVB)

 

Os convites para os lançamentos: Brasília: https://www.facebook.com/events/1617808598476326/
Rio de Janeiro: https://www.facebook.com/events/1471016283197780/
São Paulo: https://www.facebook.com/events/406938389499345/

PublishNews noticiou a abertura de inscrições da Revista Machado de Assis para avaliação de trechos de obras traduzidas para o inglês ou espanhol a saírem no número de outubro da publicação, que coincide com a feira de Frankfurt.  Para quem dispõe de alguma verba e sonha com publicação no exterior, vale a pena investir na tradução de um trecho do próprio livro.

 

Além de talvez emplacar o trecho na revista, o que sempre pode ajudar a disseminar a obra, autor que tiver um agente  vai facilitar um bocado o trabalho de representação. Como se sabe, é praticamente impossível conseguir um editor internacional para considerar um livro brasileiro sem acompanhar o original com uma boa amostra da tradução.

 

Muita gente não entende bem a função e a necessidade dessas amostras. Escritores têm dificuldades de pensar verbas, centros de custo, etc. Então expliquemos.

 

Editores internacionais com a veleidade de publicar literatura brasileira têm em sua grande maioria que enviar os livros para a análise de leitores de português externos à casa editorial. Há pouquíssimos editores internacionais contratados em gandes casas que leiam português _ alguns na Alemanha, alguns na Holanda, outros raros na Escandinávia. Pouquíssima gente. Mesmo quem lê espanhol não se sente apto a ler português.

 

Como é então o trabalho do agente? O trabalho é convencer o editor que vale a pena enviar a obra para leitura e análise externas. O parecer de leitura desse leitor externo será determinante para a contratação.

 

Infelizmente, os editores não dispoem de verbas infinitas para gastar em pareceres. É um importante dado do mundo real que os escritores, os criadores em geral, tendem a esquecer. Os editores só vão mandar para leitura livros dos quais tenham algum conhecimento, tenham lido pelo menos um trecho, que lhes pareceu excepcional e digno de uma avaliação externa.

 

A amostra de tradução é um investimento de risco. Pode não dar em nada. O editor pode considerar boa a amostra, mandar o livro para análise e receber um parecer negativo. Pode receber um parecer espetacular, mas por outras razões, falta de espaço na grande de lançamentos, por exemplo, rejeitar a obra da mesma maneira. Mas sem a amostra de tradução só pelo milagre da sorte se consegue um editor internacional.

(LVB)

 

O link para a matéria: http://publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=82712

Ancelmo Gois noticiou ontem e PublisherNews repercutiu: sairá pela Companhia das Letras o novo romance de Miguel Sanches Neto, A BÍBLIA DO CHE, uma história de mistério que envolve o Professor Pessoa, velho conhecido dos fãs do autor desde A PRIMEIRA MULHER. Primeira ficção a refletir a mais recente lama ético-político-ideológica brasileira, A BÍBLIA DO CHE é um livraço, à altura de A SEGUNDA PÁTRIA, mais um título para consolidar a reputação de Miguel como um dos quatro ou cinco grandes escritores em atividade no Brasil.

Pessoa agora é um misantropo cinquentão, que vive em um antigo consultório de dentista, no tradicional edifício Asa, de Curitiba. Não quer contato com gente de espécie alguma, nem mulheres, onanista convicto.

O passado começa a assombrá-lo e ele se vê contratado por um operador de propinas (pixulecos, diria o petista João Vaccari Neto) para encontrar a bíblia que Che Guevara usou (e anotou) quando, segundo a lenda urbana, rondou clandestinamente o Paraná, a caminho da Bolívia, em 1967. Isso porque o milionário operador, o gordo e bufante Jacinto, casou-se com uma linda assessora da Assembleia Legislativa, formada em Sociologia, que tem fixação no Che, e o marido quer agradá-la.

A nota do Ancelmo acabou revelando um dado interessante da trama, mas um spoiler. Jacinto trama a própria morte. O curioso é que eu (Luciana) li o livro há alguns meses e posso garantir: Miguel já o havia escrito quando começaram os rumores sobre o deputado paranaense José Janene ter tramado a própria morte.

Não é a primeira vez que constato esse poder da literatura. Em TEMPOS EXTREMOS, de Míriam Leitão, é assassinado um velho militar, torturador na época da ditadura, que está colaborando com a Comissão da Verdade. O livro já estava nas mãos da editora Lívia Almeida, na Intrínseca, quando foi encontrado morto Paulo Malhães, terrível torturador que estava _ na vida real _ colaborando com a Comissão da Verdade.

O que significa isso? Não tenho a menor ideia. Só posso crer que escrever ficção seja uma atividade aparentada com a bruxaria. A VB&M tem uma clientela de grandes bruxos brasileiros.

 

Mercado

A arte imita a vida

O Globo – 16/07/2015 – Por Ancelmo Gois

Em sua coluna, Ancelmo Gois adianta que Miguel Sanches Neto, autor do sucesso A segunda pátria (Intrínseca), vai lançar pela Companhia das Letras A Bíblia do Che, primeiro romance brasileiro que reflete, em parte, a trama da Lava-Jato. A história se passa em Curitiba, onde atua o juiz Sérgio Moro. E mais: fala de um operador de esquema de propinas que teria armado a própria morte. Como se sabe, na vida real, a CPI já pediu a exumação do corpo do deputado José Janene, um dos operadores do esquema de corrupção na Petrobras, por suspeita de que teria simulado sua morte, em 2010.

Stoner tem uma trajetória editorial interessante. É desses fenômenos literários que ninguém explica o por que, só que ao revés. Originalmente publicado em 1965, foi praticamente ignorado por público e crítica por quase meio século, até ser pinçado aqui, elogiado ali e, pimba, virar febre na Europa. Nomes como Julian Barnes, Ian McEwan e Enrique Vila Matas assinaram o aval de seu sucesso e daí para ganhar o mundo foi um passo. Contrariando toda e qualquer expectativa, tornou-se um best-seller da melhor espécie, daqueles que se faz no boca a boca dos leitores e, sem qualquer alarde, alçou seu autor ao panteão dos grandes nomes da literatura do século XX. Nas palavras do próprio Williams, Stoner é um romance substancialmente bom, e talvez seja essa qualidade literária profunda mas plana, sem qualquer excepcionalidade, o cerne de sua força; assim como na vida, a beleza está na simplicidade da forma e do conteúdo.

Parece que vivemos um momento em que o interessante é o trágico. Não há espaço nos grandes meios de comunicação para boas notícias, só interessam as tragédias: humanas, naturais, passionais, políticas. Somente o lado ruim das coisas atrai o grande público, não havendo lugar para a exaltação de gestos positivos à exceção, talvez, dos campos dos esportes e das artes. Nesse contexto, um romance que trata de temas como pobreza, morte, casamento falido, estagnação profissional, alcoolismo e câncer poderia se valer de qualquer desses motes para atrair o leitor, o que de fato ocorre, mas Stoner vai muito além disso.

Embora os aspectos citados pareçam, num primeiro momento, de extrema relevância, tendem ao longo do livro a não afetar o protagonista William Stoner ao menos não de maneira efetiva no exercício de seu livre arbítrio. Stoner pode ser resumido como um filho de camponeses que ingressa na Universidade de Missouri para cursar a faculdade de Agricultura e acaba se apaixonando pelo mundo da literatura, fazendo a escolha de nunca mais voltar para a vida no campo ao lado de seus pais, optando por uma vida acadêmica de carreira e trabalhando até o último momento nessa mesma universidade. É nesse cenário que transcorre todo o desenvolvimento desse Bildungsroman.

O primeiro parágrafo do romance já traz todas essas informações, convidando o leitor a desbravar ao longo dessa comovente história o que são os dois dos principais aspectos do protagonista: sua generosidade e seu egoísmo, valores que num primeiro momento parecem antagônicos mas que estão presentes em Stoner de forma contundente e complementar.

Se tomarmos a generosidade de Stoner como ponto de partida para a análise de sua personalidade, teremos diversas passagens do livro em que ele se mostra não apenas interessado em ajudar os que estão à sua volta, como também voltado a deixá-los confortáveis nas situações em que estão. Esse fato é constatado, por exemplo, em sua relação com seus pais, logo no início do livro, quando fica clara sua disponibilidade em ajudá-los; seu interesse de ingressar em uma faculdade de agricultura para que pudesse aprender novos métodos de produção e auxiliar na fazenda. Essa generosidade perdura até o final da narrativa, tendo como exemplo último o empenho com os seus alunos, ao deixar todas as suas teses organizadas, quando soube de seu câncer através de seu médico:

“’Yes,’ stoner Said. ‘When would you want to operate?’

‘As soon as possible’, Jamison said relievedly. ‘Within the next two or three days.’

‘That soon,’ Stoner said, almost absently. Then he looked at Jamison steadily. ‘Let me ask you a few questions, Doctor. I must tell you that I want you to answer them frankly’

Jamison nodded.

‘If it is only a tumor – non-malignant, as you say-would a couple of weeks make any great difference?’

‘Well,’ Jamison said reluctantly, ‘there would be the pain; and-no, not a great deal of difference, I suppose.’

‘Good’, Stoner said. ‘And if it is as bad as you think it is-would a couple of weeks make a great difference then?’

After a long while Jamison said, almost bitterly, “No, I suppose not.’

‘Then’, Stoner said reasonably, ‘I’ll wait for a couple of weeks. There are few things I need to clear up-some work I need to do’” (Pages 257-258)  

 [A edição aqui é a da New York Review of Books]

 

Todavia, essa visível generosidade aparece ao longo do romance justificada por um egoísmo salutar exercido em razão de uma paixão: a literatura. É por esta, e talvez por saber apenas exercer (ou amar) esse ofício, que Stoner toma o rumo de suas decisões. Desse modo, em contraponto a seus atos generosos, é também pelo amor à literatura que Stoner abandona seus pais na fazenda, migrando para a cidade e nunca mais voltando, mesmo após a morte de seu pai, quando abandona sua mãe. Esse exercício do chamado egoísmo leva a um ponto relevante da narrativa, que é o exercício irrefutável do livre arbítrio pelo protagonista, pois todo o desenrolar de sua vida é consequência apenas de suas escolhas, principalmente, mas não somente, em razão de seu comportamento para que pudesse exercer livremente aquilo que ama, que é a literatura. É pela literatura que Stoner adia a sua operação, pois sabia que aquela seria sua última chance de exercer o seu ofício. Após a cirurgia, não haveria mais forças para um recomeço.

Essa obsessão acaba sendo escancarada ao final da narrativa, quando Stoner não possui mais forças para nada, permanecendo em sua cama e buscando dar sua própria contribuição para a literatura:

“His head turned. His bedside table was piled with books that he had not touched for a long time. He let his hand play over them a moment; he marveled at the thinness of the fingers, at the intricate articulation of the joints as he flexed them. He felt the strength within then, and let them pull a book from the jumble on the tabletop. It was his own book that he sought, and when the hand held it he smiled at familiar red cover that had for a long time been faded and scuffed.” (Page 277)

Talvez tenha sido esse amor pela literatura, combinado à construção de personagens ambíguos e incríveis, acrescidos de uma_ não menos importante_ escrita impecável, que tenha atraído tantos leitores famosos e anônimos para o até então desconhecido John Williams. O fato é que, ainda que tardios, todos os louvores e aplausos são justificados ao longo das páginas desse romance.

 

Por Felipe Rufino (colaborador)

Uma lição que nós, brasileiros, temos a aprender com os americanos é a de recorrer sempre à Justiça quando percebemos que nossos direitos estão sendo atacados. Americanos não deixam mole. Correm atrás. Eventualmente, podem até não ganhar, suas reivindicações não serem atendidas em sua totalidade, mas dão trabalho, e a gritaria, manchando a imagem que empresários e/ou capitalistas pretendiam projetar, acabam dando algum resultado.

 

O nome disso é democracia, um sistema pelo qual o Judiciário é um poder forte e completamente independente do Executivo e do Legislativo, como já pregava Montesquieu 300 anos atrás, mas que entre nós infelizmente não é tão óbvio. O espúrio encontro em Portugal entre a presidente Dilma Roussef e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandovsky, foi uma prova de que estamos longe de respeitar plenamente a independência entre os poderes. Mas a intenção deste post não era nem de longe tratar da lama brasileira (parece que não consigo pensar em outra coisa), e sim da eterna briga da Amazon com o mundo do livro.

 

Nosso querido autor e cliente Edney Silvestre nos chamou a atenção para a matéria em O Globo nesta terça-feira, traduzida do New York Times, sobre a inédita união de livreiros,  autores e agentes americanos contra Amazon por meio de suas instituições, a American Bookseller Association, a Authors’Guild e a Authors United e ainda a Association of Authors’ Representatives. Liderado pelo autor best-seller Douglas Preston, da Hachette, o grupo tenta demonstrar ao DOJ (Department of Justice) que as práticas monopolistas da Amazon prejudicam até o consumidor final, o leitor, embora isso não esteja claro em um primeiro momento: a impressão que superficialmente se tem é que a varejista é muito boazinha e só quer praticar preços baixos. O ataque à toda ecologia do mundo editorial acabará custando caro para o leitor e para a literatura.

 

Só há um probleminha, provavelmente de tradução, na matéria de O Globo. No final, diz lá que a ABA representa 2.200 lojas, com 9.000 associados, citando em seguida autores importantes como Jennifer Egan e Richard Russo. Certamente, são os sindicatos de escritores que reúnem 9.000 associados. De resto, uma matéria relevante para quem está ligado de alguma maneira ao meio editorial e ao mercado do livro. (LVB)

 

Link para a matéria: http://m.oglobo.globo.com/cultura/comunidade-literaria-americana-acusa-amazon-de-violacoes-antitruste-leva-denuncias-justica-16751736


O fechamento da tradicional livraria Leonardo da Vinci, no Centro do Rio, foi o gancho para a Globonews/Jornal das 10 fazer uma reportagem sobre a crise do mercado editorial. No espaço reduzido de uma matéria de noticiário de TV, a reportagem conseguiu de alguma maneira distinguir as dificuldades de uma livraria como a Da Vinci, de perfil extremamente elitista, impossibilitada de competir com os grandes varejistas desde o fortalecimento do comércio eletrônico, da maneira como a profunda crise especificamente brasileira está batendo nos editores, que só se salvaram no primeiro semestre graças aos livros de colorir.

Com produção de Christina Cabo, a reportagem de Bernardo Menezes me ouviu (é Luciana escrevendo aqui), e a declaração saiu fazendo sentido, o que nem sempre acontece nessas lapadinhas de reportagens televisivas. Disse lá que os editores só estão querendo contratar e publicar livros que, creem eles, serão percebidos por uma grande massa de leitores como absolutamente fundamentais, indispensáveis. Nesse momento, ou durante a primeira metade do ano, editores acharam _ aparentemente, com razão _ que o fundamental para o leitor seria desestressar com livros de colorir.

Realmente, nenhuma crítica ao editor, é claro. Em um momento de crise em que o governo provoca uma economia adversa a todos os agentes na sociedade, o empresário tem que recorrer ao que está a sua mão para sobreviver, até publicar livros de não-ler. O que não deu para dizer é que no plano cultural, até porque é internacional, esse fenômeno do livro sem texto é patético. A humanidade está realmente regredindo.

O gozado, e só para terminar rapidamente o comentário, é o consumidor pagar preço de livro por esses blocos de colorir. Quem me conhece na intimidade brinca comigo pelo meu hábito de desenhar umas bonequinhas de perfil enquanto assisto palestras, às vezes até conversando, ouvindo o que o outro tem a dizer. Sempre disse que, sem me impedir de prestar atenção em outra coisas, minhas bonequinhas me desestressavam. Recomendo! Sem gastar um tostão em blocos de colorir, desestresso gastando apenas a tinta da Bic. Quem quiser pode colorir também.

http://g1.globo.com/globo-news/jornal-das-dez/videos/t/todos-os-videos/v/crise-no-mercado-editorial-obriga-livrarias-tradicionais-a-fechar-as-portas/4308913/