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O Autor como Leitor – Marco Lucchesi

13 perguntas sobre livros e leituras

“Na leitura, evito o proselitismo”

 

Se acontecesse uma eleição para consagrar o mais erudito intelectual brasileiro, Marco Lucchesi seria eleito com larga margem. Não seria uma eleição polêmica. No meio literário, todos sabem e se admiram dos mais de 20 idiomas que Marco domina e dos quais traduz, desde seus nativos português e italiano até o russo, o árabe, o romeno, o persa, passando pelas banalidades do alemão, inglês, francês, espanhol e tantos outros. Mas, ao contrário do que acontece com muitos eruditos, os saberes de Marco não ficam estéreis, presos dentro do cérebro poderoso desse intelectual, pensador da religião, filósofo, crítico literário, poeta e romancista _  e não só por suas traduções de autores raros como o persa Rúmi, o vanguardista russo Khliebnikov ou o fundamental historiador Gianbattista Vico .

Formado em História pela UFF, mestre e doutor em Literatura pela UFRJ, Marco Lucchesi enfrentou décadas a fio a mediocridade da universidade brasileira entregando-se apaixonadamente a seus alunos e hoje ensinando até a matemática. Uma entrega quase tão apaixonada quanto a seus escritos –  obra maior de mais de 15 títulos, vastamente premiada, que o levou à Academia Brasileira de Letras como o mais jovem entre os imortais e que lhe rendeu prêmios como o Machado de Assis, o Alceu Amoroso Lima, dois Jabuti, o romeno Marin Sarescu, o italiano do Ministero dei Beni Culturali, entre muitos outros. É jornalista, colaborador de O Globo e eventualmente de outras publicações, e editor, hoje como diretor da Revista Brasileira, da ABL, e redator-chefe de Tempos Brasileiros. Foi editor de obras raras e responsável por catálogos e fac-símiles na Biblioteca Nacional e da revistas Poesia Sempre e Mosaico Italiano.

Os últimos livros publicados de Marco Lucchesi foram o romance O bibliotecário do Imperador e a poesia de Clio, que saíram pela Biblioteca Azul, da Globo. Ele acaba de por o ponto final em uma coleção de textos, O carteiro imaterial, à qual tivemos acesso e da qual podemos dizer sem hesitação que se trata da mais perscrutante ensaística sobre a literatura enquanto afeto e sobre as misérias de uma contemporaneidade que não superou sequer as guerras religiosas, quanto mais os impérios.

Nessa entrevista, Marco confirma a centralidade de A divina comédia, de Dante, em sua formação intelectual e sentimental, mas também revela interessantes e inesperados aspectos de sua  personalidade de leitor. Sobre música, recomenda o Beethoven de Walter Riezler, enquanto de  Presto con fuoco, romance de Roberto Cotroneo, publicado no Brasil pela Record, diz ser a ficção que melhor compreendeu uma outra linguagem artística. Diz que lê biografias, sim, e só nesse momento não é modesto: gostaria que Pietro Citati _  biógrafo de Goethe, Proust e Kafka _ escrevesse a história de sua vida. Para ele, a poesia de Paul Celan é o conjunto literário mais difícil de verter para outro idioma. Defende que os brasileiros hoje precisam chegar ao Brasil por meio da obra de Gilberto Freyre e esclarece que, em matéria de leitura, só evita o proselitismo e a literatura que não conta com a inteligência e a sensibilidade do leitor.

O que você está lendo nesses últimos dias?

Nem sei por onde começar, digamos: uma biblioteca sobre filosofia da matemática, os poetas da Índia contemporânea e os clássicos da poesia paquistanesa, etc etc.

Quais são as três mais importantes obras da literatura universal?

A divina comédia, de Dante.  O Dom Quixote, de Cervantes.  Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa _ um andar superior, uma gramática nova, um paradigma fundamental.

Quem são seus escritores favoritos em atividade hoje  _ um poeta, um ensaísta, um ficcionista e um jornalista?

Na poesia, Ferreira Gullar.  No romance, Alberto Mussa e Ana Miranda.  No ensaio, José Murilo de Carvalho. No jornalismo, Arnaldo Bloch.

Que tipo de leitura lhe dá mais prazer _ poesia, ficção, filosofia? E o que você evita?

Mas fazem parte da mesma casa que habito. Preciso das três.  Evito proselitismo, a literatura fácil, para usar um termo abrangente, livros que não contem com a inteligência e sensibilidade do leitor.

Que tipo de leitor foi você quando criança? Quem eram seus personagens preferidos em sua meninice?

Adorava ler. Sabia desde então que a leitura era o encantamento superior. Italianos e brasileiros. Lobato e Collodi, Emilia e Pinocchio. Tistu de O menino do dedo verde. E depois tudo, absolutamente tudo, de Júlio Verne.

Se você tivesse que nomear um livro que fez o leitor e escritor que é hoje Marco Lucchesi, qual seria o título?

A divina comédia. E O Idiota de Dostoievski.

Sabemos que a música é imensamente importante em sua vida. Diga-nos um livro sobre música cuja leitura você considera relevante.

O livro Beethoven, de Walter Riezler.

E qual romance ou qualquer obra de ficção trata a música com maior beleza e compreensão de uma outra linguagem artística?

Presto con Fuoco, de Roberto Cotroneo.

Com que escritor você gostaria de passar uma tarde conversando? Pode ser um escritor já morto.

Machado de Assis.  Jorge de Lima.

Sendo obrigado a apontar a maior literatura nacional entre todas que contribuíram para o cânone, qual você escolheria? Por quê?

Num sentido histórico propriamente dito, a literatura greco-latina e a italiana. Hoje assiste-se a um descentramento,  rumo às literaturas do mundo árabe e do subcontinente indiano.

Qual livro de língua estrangeira, entre todas as suas leituras, você considera o mais difícil de verter para o português? O título não precisa constar da longa lista de livros que você efetivamente traduziu.

A poesia de Paul Celan, em geral.

Você eventualmente lê biografias? Quem você gostaria que escrevesse a sua?

Leio biografias com interesse. E memórias. Pietro Citati.

O Brasil está mergulhado numa imensa, infinita depressão. Qual leitura você recomenda aos brasileiros neste momento?

Livros fundamentais para se chegar ao Brasil. Sobretudo, e sempre, a trilogia de Gilberto Freyre, Casa-grande e senzala, Sobrados e mucambos, Ordem e Progresso.

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