Nosso Blog

2015-06-11_10.26.30

O AUTOR COMO LEITOR – MARCIA TIBURI

13 perguntas sobre livros e leituras

“Quem lê, assim como quem escreve, se constrói a si mesmo”

 

A gaúcha de Vacaria Marcia Tiburi, 45 anos revelados nessa entrevista (não que esconda a idade, mas, apesar da longa carreira, pensávamos que era mais jovem), é uma imensa filósofa e romancista. Por critérios meramente quantitativos _ o tempo desde que lançou seu primeiro livro filosófico, em 1995, e a quantidade de trabalhos publicados, mais de uma dezena _, ela é mais filósofa do que romancista. Mas a beleza de seus quatro romances – Magnólia, A mulher de costas, O manto e Era meu esse rosto (todos pelo Grupo Record) – não permite que se faça essa afirmação. Trabalhadora compulsiva e polemista corajosa, Marcia investe contra os conversadorismos da sociedade brasileira sem medo de se machucar. Neste momento, a autora revisa, corta, apara e apura seu próximo romance, O homem do guarda-roupa, a sair ainda em 2015 pela Record, se não for adiado para 2016 a fim de dar lugar a um livro de ensaios mais polêmico, que ela também finaliza com toda atenção ao detalhe, visando a interferir diretamente no debate político que se trava no Brasil.

Nessa entrevista à VB&M, Marcia Tiburi revelou claramente suas duas facetas: a filósofa e a romancista. Muitas de suas respostas são tão cheias de conteúdo, revelando sempre uma reflexão original e profunda sobre todas as coisas, na maior despretensão, que fica difícil para o editor pinçar a frase que servirá de título à matéria. Às perguntas mais de brincadeira, como quem seriam os escritores presentes a jantares idealizados, a Marcia-ficcionista  responde soltando a imaginação e, em vez de dizer simplesmente quem seriam os convidados, desenvolve toda uma trama e os diálogos da festa. Assim, entre considerações sobre a natureza da escrita e da leitura, ou sobre o oxímoro da íntima estranheza que torna verdadeiros os personagens da ficção, escolhemos uma frase que sintetiza a literatura, paixão comum de quem segue a VB&M: “Quem lê, assim como quem escreve, se constrói a si mesmo.”

Que livros encontraríamos em sua mesa de cabeceira neste momento?

Neste momento, estou especialmente preocupada com questões políticas. Retomei Massa e poder de Elias Canetti, que li há tempos, mas ainda estou no começo do recomeço. Outro que retomo é A partilha do sensível, de Jacques Rancière. Porque penso que é preciso estudar estética e política ao mesmo tempo. Por isso, também, Dialética negativa, de Theodor Adorno, que foi o livro de minha vida uns 20 anos atrás. Comecei o novo romance de Nei Lopes, Rio Negro, 50. Enquanto isso, A artista do corpo, de Don DeLillo, velha indicação de um amigo, espera por mim, ali, na pilha da cabeceira cujo tamanho me dá um pouco de vergonha, por isso paro por aqui.

Qual é o mais belo romance filosófico de todos os tempos?

Essa é uma pergunta muito difícil. Leio todos os romances como sendo filosóficos em alguma medida. Impossível ler Dostoievski ou Tolstói sem “filosofar”. Impossível ler Machado de Assis ou Clarice Lispector sem começar a refletir. Do que li, destacaria Em busca do tempo perdido. Porque esse romance é uma exposição da própria metateoria do romance.  Proust expõe a experiência do pensamento como busca na memória que é, ao mesmo tempo, um trabalho da imaginação, de construção da memória.  Quem escreve sabe que a experiência da imaginação é toda uma experiência intelectual. Quem escreve, sabe que a ficção é feita do casamento entre palavra e imagem, mas que a aliança está dada pela ideia, pela “grande questão” que um romance se propõe a apresentar, mesmo que não possa resolvê-la. Por isso, a experiência da leitura é uma experiência complexa, ela é pouco direta, não é didática. É infinitamente afetiva. Quem lê, assim como quem escreve, se constrói a si mesmo.

Qual foi o livro mais marcante em sua vida?

Há muitos. Mas um livro que li com extremo prazer, economizando cada capítulo e que não li por nenhuma obrigação, nem apenas por curiosidade, pois não pretendia estudar essa obra, foi Moby Dick. Gosto muito de Melville. Em Moby Dick, fiquei impressionada com o papel do Pequod, o navio. Eu sempre quis ser marinheira, então, viajei no livro. Assim: metonímia e metáfora.

Que leituras foram determinantes para compor a leitora e a escritora que você é hoje?

Não é fácil reconhecer as linhas que compõem o nosso desenho. Essa sua pergunta levou a montar uma imagem em minha cabeça. Montei um Frankenstein literário, um ser com a seguinte configuração:  pilhas de livros de filosofia platônica e aristotélica compondo pés e pernas; braços feitos de filosofia contemporânea, mãos com livros de filosofia feminista, tronco feito de literatura e poesia; na cabeça um livro de areia, como aquele do conto de Borges.

Na infância, quais foram suas leituras e personagens preferidos?

Eu não gostava de livros antes de quebrar o braço e ficar quieta lendo os contos de Grimm. Adorei histórias de fantasmagorias. Eu gostei desde cedo das coisas estranhas, dos livros com títulos gozados. Lembro do Mês de cães danados, de Moacyr Scliar, que eu li aos 10 anos, em 1980. Depois disso, só fui me encantar mesmo pelos livros de filosofia. Lembro de ler O Príncipe, de Maquiavel. Eu devia ter uns 13 anos. Óbvio que não entendi nada. Mas logo encontrei os livros dos filósofos alemães, Schopenhauer, Nietzsche, Marx. Fiquei encantada. Verdadeiramente dominada pela estranheza que senti. Sinto até hoje. Procuro isso nos livros e não é fácil lê-los justamente por isso.

Quem é a maior escritora de todos os tempos?

Outra pergunta dificílima. Penso em muitas escritoras, tais como Charlotte Brontë e seu Jane Eyre, em Virgínia Woolf e seu Orlando, que eu classificaria entre as mais geniais. Penso nas incríveis brasileiras, tais como Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Ana Miranda, Ligia Fagundes Teles, Rosiska de Oliveira, Nélida Piñon, apenas para citar algumas figuras clássicas ou que já têm uma obra consolidada, deixando toda uma nova geração de escritoras maravilhosas. E, de todas, fazendo uma cálculo, digamos assim, meio intuitivo, eu destacaria Simone de Beauvoir. Ela escreveu uma obra filosófica importante historicamente, assim como uma obra literária muito original.

Entre os ficcionistas contemporâneos, quem são seus favoritos?

Li muitos escritores brasileiros nos últimos tempos. Gosto muito de Evandro Affonso Ferreira. E leio Cristovão Tezza, com muito prazer. Gostei muito do que li de Jacques Fux, Carlos de Brito e Mello, Ana Paula Maia. Li vários escritores geniais. Uma escritora que me fascina é Zulmira Ribeiro Tavares. Eu queria escrever como ela.

Quem está produzindo uma obra filosófica relevante nos dias de hoje?

Há algumas figuras internacionais que estão atuando hoje: Judith Butler, Beatriz Preciado, Peter Sloterdijk, Giorgio Agamben, Jacques Rancière. Há muitos outros que são muito citados, mas não citarei os que não costumo ler. No Brasil, eu cito Charles Feitosa escrevendo algo especial porque é ousado, reúne a filosofia clássica com temas contemporâneos. Sempre se pode citar Marilena Chauí que é uma grande professora e tem vários livros na linha da história e da interpretação da filosofia tradicional.

Qual é a sua personagem feminina preferida? E masculina?

A donzela guerreira Diadorim é uma personagem inesquecível, meio homem, meio mulher. Brás Cubas, o escritor melancólico igualmente. E Madame Bovary. São os que primeiro me vem à mente. Cada um tem aquele índice de realidade impossível e, no entanto, totalmente convincente em alguma medida, porque se refere a algo nosso. A algo muito conhecido que se apresenta como muito estranho.

Você vai oferecer um jantar para três filósofos, quem são eles? Pode ser um jantar em alguma outra dimensão, com autores já mortos.

Chamaria Foucault, em primeiro lugar, porque ele foi um defensor dos prazeres. E devia ser um sujeito divertido, como dizem os brasileiros que o conheceram. E convidaria Arthur Schopenhauer e Mary Wollstonecraft. Eles não se conheceram. Foucault merecia estar presente no encontro dessas figuras, um machista como Schopenhauer e uma feminista como Wollstonecraft, dois sujeitos nada encaixados no tempo na virada do século 18 para o 19. Dizem que Schopenhauer era um bon vivant. Ela, infelizmente, morreu de complicações de parto (era a mãe de Mary Shelley). Ser feminista naquela época não devia ser nada fácil. Eu e ela conversaríamos sobre feminismo. Schopenhauer assistiria incomodado. Foucault riria. Parece um sonho.

Você vai oferecer um jantar para três ficcionistas, quem são eles? Com as mesmas amplas possibilidades dimensionais do jantar para os filósofos ;).

Não tenho dúvida que convidaria Thomas Bernhard. Tenho certeza que seríamos amigos. Convidaria também Kafka, apenas para poder olhar para ele. Tenho certeza que ficaria quieto. Eu e Thomas tentaríamos entrevistá-lo, mas ele disfarçaria até o fim, fingindo não entender as nossas perguntas. Quando a situação estivesse difícil, porque estaríamos constrangidos com a falsa surdez de Kafka, chegaria um sujeito atrasado que teria vindo por pura curiosidade. Ele nos contaria muitas histórias e, por fim, pediria que lêssemos alguma coisa nova para ele porque estava cego. Advinha quem era? Borges.

Qual obra filósofica ou ensaística mais influenciou sua visão de mundo?

Eu fiz um doutorado em filosofia sobre Theodor Adorno. Se há um livro que me fez pensar na questão do método em filosofia, esse livro foi a Dialética negativa, que se propõe como um antimétodo.  Não é um livro fácil. Até hoje me faz pensar coisas que nunca pensei antes.

Que livro você recomendaria à população brasileira neste momento? Um livro que todo mundo tem que ler agora. E para a presidente Dilma?

Todo mundo deveria ler e reler Vidas secas. É um livro tão triste e, ao mesmo tempo, tão esclarecedor sobre a miséria em todos os seus níveis. A miséria do sistema político-econômico, em sua versão sertaneja, rural, patriarcal. Mas há uma miséria que ali expõe todas as outras: é a miséria das palavras. Essa inanição que impede tudo, no extremo impede a democracia, na intimidade impede uma simples conversa. A questão do diálogo impossível, mas mais que isso, a conversa impossível porque a inanição é da linguagem. Num tempo de tanta truculência política, precisamos investir na sensibilização da política. Numa ético-política que seja ao mesmo tempo uma ético-poética. Por aí, do eleitor à presidente.

Comentários ( 0 )

    Deixe um comentário

    O seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *