junho 2015

unnamed

O Autor como Leitor – Marco Lucchesi

13 perguntas sobre livros e leituras

“Na leitura, evito o proselitismo”

 

Se acontecesse uma eleição para consagrar o mais erudito intelectual brasileiro, Marco Lucchesi seria eleito com larga margem. Não seria uma eleição polêmica. No meio literário, todos sabem e se admiram dos mais de 20 idiomas que Marco domina e dos quais traduz, desde seus nativos português e italiano até o russo, o árabe, o romeno, o persa, passando pelas banalidades do alemão, inglês, francês, espanhol e tantos outros. Mas, ao contrário do que acontece com muitos eruditos, os saberes de Marco não ficam estéreis, presos dentro do cérebro poderoso desse intelectual, pensador da religião, filósofo, crítico literário, poeta e romancista _  e não só por suas traduções de autores raros como o persa Rúmi, o vanguardista russo Khliebnikov ou o fundamental historiador Gianbattista Vico .

Formado em História pela UFF, mestre e doutor em Literatura pela UFRJ, Marco Lucchesi enfrentou décadas a fio a mediocridade da universidade brasileira entregando-se apaixonadamente a seus alunos e hoje ensinando até a matemática. Uma entrega quase tão apaixonada quanto a seus escritos –  obra maior de mais de 15 títulos, vastamente premiada, que o levou à Academia Brasileira de Letras como o mais jovem entre os imortais e que lhe rendeu prêmios como o Machado de Assis, o Alceu Amoroso Lima, dois Jabuti, o romeno Marin Sarescu, o italiano do Ministero dei Beni Culturali, entre muitos outros. É jornalista, colaborador de O Globo e eventualmente de outras publicações, e editor, hoje como diretor da Revista Brasileira, da ABL, e redator-chefe de Tempos Brasileiros. Foi editor de obras raras e responsável por catálogos e fac-símiles na Biblioteca Nacional e da revistas Poesia Sempre e Mosaico Italiano.

Os últimos livros publicados de Marco Lucchesi foram o romance O bibliotecário do Imperador e a poesia de Clio, que saíram pela Biblioteca Azul, da Globo. Ele acaba de por o ponto final em uma coleção de textos, O carteiro imaterial, à qual tivemos acesso e da qual podemos dizer sem hesitação que se trata da mais perscrutante ensaística sobre a literatura enquanto afeto e sobre as misérias de uma contemporaneidade que não superou sequer as guerras religiosas, quanto mais os impérios.

Nessa entrevista, Marco confirma a centralidade de A divina comédia, de Dante, em sua formação intelectual e sentimental, mas também revela interessantes e inesperados aspectos de sua  personalidade de leitor. Sobre música, recomenda o Beethoven de Walter Riezler, enquanto de  Presto con fuoco, romance de Roberto Cotroneo, publicado no Brasil pela Record, diz ser a ficção que melhor compreendeu uma outra linguagem artística. Diz que lê biografias, sim, e só nesse momento não é modesto: gostaria que Pietro Citati _  biógrafo de Goethe, Proust e Kafka _ escrevesse a história de sua vida. Para ele, a poesia de Paul Celan é o conjunto literário mais difícil de verter para outro idioma. Defende que os brasileiros hoje precisam chegar ao Brasil por meio da obra de Gilberto Freyre e esclarece que, em matéria de leitura, só evita o proselitismo e a literatura que não conta com a inteligência e a sensibilidade do leitor.

O que você está lendo nesses últimos dias?

Nem sei por onde começar, digamos: uma biblioteca sobre filosofia da matemática, os poetas da Índia contemporânea e os clássicos da poesia paquistanesa, etc etc.

Quais são as três mais importantes obras da literatura universal?

A divina comédia, de Dante.  O Dom Quixote, de Cervantes.  Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa _ um andar superior, uma gramática nova, um paradigma fundamental.

Quem são seus escritores favoritos em atividade hoje  _ um poeta, um ensaísta, um ficcionista e um jornalista?

Na poesia, Ferreira Gullar.  No romance, Alberto Mussa e Ana Miranda.  No ensaio, José Murilo de Carvalho. No jornalismo, Arnaldo Bloch.

Que tipo de leitura lhe dá mais prazer _ poesia, ficção, filosofia? E o que você evita?

Mas fazem parte da mesma casa que habito. Preciso das três.  Evito proselitismo, a literatura fácil, para usar um termo abrangente, livros que não contem com a inteligência e sensibilidade do leitor.

Que tipo de leitor foi você quando criança? Quem eram seus personagens preferidos em sua meninice?

Adorava ler. Sabia desde então que a leitura era o encantamento superior. Italianos e brasileiros. Lobato e Collodi, Emilia e Pinocchio. Tistu de O menino do dedo verde. E depois tudo, absolutamente tudo, de Júlio Verne.

Se você tivesse que nomear um livro que fez o leitor e escritor que é hoje Marco Lucchesi, qual seria o título?

A divina comédia. E O Idiota de Dostoievski.

Sabemos que a música é imensamente importante em sua vida. Diga-nos um livro sobre música cuja leitura você considera relevante.

O livro Beethoven, de Walter Riezler.

E qual romance ou qualquer obra de ficção trata a música com maior beleza e compreensão de uma outra linguagem artística?

Presto con Fuoco, de Roberto Cotroneo.

Com que escritor você gostaria de passar uma tarde conversando? Pode ser um escritor já morto.

Machado de Assis.  Jorge de Lima.

Sendo obrigado a apontar a maior literatura nacional entre todas que contribuíram para o cânone, qual você escolheria? Por quê?

Num sentido histórico propriamente dito, a literatura greco-latina e a italiana. Hoje assiste-se a um descentramento,  rumo às literaturas do mundo árabe e do subcontinente indiano.

Qual livro de língua estrangeira, entre todas as suas leituras, você considera o mais difícil de verter para o português? O título não precisa constar da longa lista de livros que você efetivamente traduziu.

A poesia de Paul Celan, em geral.

Você eventualmente lê biografias? Quem você gostaria que escrevesse a sua?

Leio biografias com interesse. E memórias. Pietro Citati.

O Brasil está mergulhado numa imensa, infinita depressão. Qual leitura você recomenda aos brasileiros neste momento?

Livros fundamentais para se chegar ao Brasil. Sobretudo, e sempre, a trilogia de Gilberto Freyre, Casa-grande e senzala, Sobrados e mucambos, Ordem e Progresso.

2015-06-11_10.26.30

O AUTOR COMO LEITOR – MARCIA TIBURI

13 perguntas sobre livros e leituras

“Quem lê, assim como quem escreve, se constrói a si mesmo”

 

A gaúcha de Vacaria Marcia Tiburi, 45 anos revelados nessa entrevista (não que esconda a idade, mas, apesar da longa carreira, pensávamos que era mais jovem), é uma imensa filósofa e romancista. Por critérios meramente quantitativos _ o tempo desde que lançou seu primeiro livro filosófico, em 1995, e a quantidade de trabalhos publicados, mais de uma dezena _, ela é mais filósofa do que romancista. Mas a beleza de seus quatro romances – Magnólia, A mulher de costas, O manto e Era meu esse rosto (todos pelo Grupo Record) – não permite que se faça essa afirmação. Trabalhadora compulsiva e polemista corajosa, Marcia investe contra os conversadorismos da sociedade brasileira sem medo de se machucar. Neste momento, a autora revisa, corta, apara e apura seu próximo romance, O homem do guarda-roupa, a sair ainda em 2015 pela Record, se não for adiado para 2016 a fim de dar lugar a um livro de ensaios mais polêmico, que ela também finaliza com toda atenção ao detalhe, visando a interferir diretamente no debate político que se trava no Brasil.

Nessa entrevista à VB&M, Marcia Tiburi revelou claramente suas duas facetas: a filósofa e a romancista. Muitas de suas respostas são tão cheias de conteúdo, revelando sempre uma reflexão original e profunda sobre todas as coisas, na maior despretensão, que fica difícil para o editor pinçar a frase que servirá de título à matéria. Às perguntas mais de brincadeira, como quem seriam os escritores presentes a jantares idealizados, a Marcia-ficcionista  responde soltando a imaginação e, em vez de dizer simplesmente quem seriam os convidados, desenvolve toda uma trama e os diálogos da festa. Assim, entre considerações sobre a natureza da escrita e da leitura, ou sobre o oxímoro da íntima estranheza que torna verdadeiros os personagens da ficção, escolhemos uma frase que sintetiza a literatura, paixão comum de quem segue a VB&M: “Quem lê, assim como quem escreve, se constrói a si mesmo.”

Que livros encontraríamos em sua mesa de cabeceira neste momento?

Neste momento, estou especialmente preocupada com questões políticas. Retomei Massa e poder de Elias Canetti, que li há tempos, mas ainda estou no começo do recomeço. Outro que retomo é A partilha do sensível, de Jacques Rancière. Porque penso que é preciso estudar estética e política ao mesmo tempo. Por isso, também, Dialética negativa, de Theodor Adorno, que foi o livro de minha vida uns 20 anos atrás. Comecei o novo romance de Nei Lopes, Rio Negro, 50. Enquanto isso, A artista do corpo, de Don DeLillo, velha indicação de um amigo, espera por mim, ali, na pilha da cabeceira cujo tamanho me dá um pouco de vergonha, por isso paro por aqui.

Qual é o mais belo romance filosófico de todos os tempos?

Essa é uma pergunta muito difícil. Leio todos os romances como sendo filosóficos em alguma medida. Impossível ler Dostoievski ou Tolstói sem “filosofar”. Impossível ler Machado de Assis ou Clarice Lispector sem começar a refletir. Do que li, destacaria Em busca do tempo perdido. Porque esse romance é uma exposição da própria metateoria do romance.  Proust expõe a experiência do pensamento como busca na memória que é, ao mesmo tempo, um trabalho da imaginação, de construção da memória.  Quem escreve sabe que a experiência da imaginação é toda uma experiência intelectual. Quem escreve, sabe que a ficção é feita do casamento entre palavra e imagem, mas que a aliança está dada pela ideia, pela “grande questão” que um romance se propõe a apresentar, mesmo que não possa resolvê-la. Por isso, a experiência da leitura é uma experiência complexa, ela é pouco direta, não é didática. É infinitamente afetiva. Quem lê, assim como quem escreve, se constrói a si mesmo.

Qual foi o livro mais marcante em sua vida?

Há muitos. Mas um livro que li com extremo prazer, economizando cada capítulo e que não li por nenhuma obrigação, nem apenas por curiosidade, pois não pretendia estudar essa obra, foi Moby Dick. Gosto muito de Melville. Em Moby Dick, fiquei impressionada com o papel do Pequod, o navio. Eu sempre quis ser marinheira, então, viajei no livro. Assim: metonímia e metáfora.

Que leituras foram determinantes para compor a leitora e a escritora que você é hoje?

Não é fácil reconhecer as linhas que compõem o nosso desenho. Essa sua pergunta levou a montar uma imagem em minha cabeça. Montei um Frankenstein literário, um ser com a seguinte configuração:  pilhas de livros de filosofia platônica e aristotélica compondo pés e pernas; braços feitos de filosofia contemporânea, mãos com livros de filosofia feminista, tronco feito de literatura e poesia; na cabeça um livro de areia, como aquele do conto de Borges.

Na infância, quais foram suas leituras e personagens preferidos?

Eu não gostava de livros antes de quebrar o braço e ficar quieta lendo os contos de Grimm. Adorei histórias de fantasmagorias. Eu gostei desde cedo das coisas estranhas, dos livros com títulos gozados. Lembro do Mês de cães danados, de Moacyr Scliar, que eu li aos 10 anos, em 1980. Depois disso, só fui me encantar mesmo pelos livros de filosofia. Lembro de ler O Príncipe, de Maquiavel. Eu devia ter uns 13 anos. Óbvio que não entendi nada. Mas logo encontrei os livros dos filósofos alemães, Schopenhauer, Nietzsche, Marx. Fiquei encantada. Verdadeiramente dominada pela estranheza que senti. Sinto até hoje. Procuro isso nos livros e não é fácil lê-los justamente por isso.

Quem é a maior escritora de todos os tempos?

Outra pergunta dificílima. Penso em muitas escritoras, tais como Charlotte Brontë e seu Jane Eyre, em Virgínia Woolf e seu Orlando, que eu classificaria entre as mais geniais. Penso nas incríveis brasileiras, tais como Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Ana Miranda, Ligia Fagundes Teles, Rosiska de Oliveira, Nélida Piñon, apenas para citar algumas figuras clássicas ou que já têm uma obra consolidada, deixando toda uma nova geração de escritoras maravilhosas. E, de todas, fazendo uma cálculo, digamos assim, meio intuitivo, eu destacaria Simone de Beauvoir. Ela escreveu uma obra filosófica importante historicamente, assim como uma obra literária muito original.

Entre os ficcionistas contemporâneos, quem são seus favoritos?

Li muitos escritores brasileiros nos últimos tempos. Gosto muito de Evandro Affonso Ferreira. E leio Cristovão Tezza, com muito prazer. Gostei muito do que li de Jacques Fux, Carlos de Brito e Mello, Ana Paula Maia. Li vários escritores geniais. Uma escritora que me fascina é Zulmira Ribeiro Tavares. Eu queria escrever como ela.

Quem está produzindo uma obra filosófica relevante nos dias de hoje?

Há algumas figuras internacionais que estão atuando hoje: Judith Butler, Beatriz Preciado, Peter Sloterdijk, Giorgio Agamben, Jacques Rancière. Há muitos outros que são muito citados, mas não citarei os que não costumo ler. No Brasil, eu cito Charles Feitosa escrevendo algo especial porque é ousado, reúne a filosofia clássica com temas contemporâneos. Sempre se pode citar Marilena Chauí que é uma grande professora e tem vários livros na linha da história e da interpretação da filosofia tradicional.

Qual é a sua personagem feminina preferida? E masculina?

A donzela guerreira Diadorim é uma personagem inesquecível, meio homem, meio mulher. Brás Cubas, o escritor melancólico igualmente. E Madame Bovary. São os que primeiro me vem à mente. Cada um tem aquele índice de realidade impossível e, no entanto, totalmente convincente em alguma medida, porque se refere a algo nosso. A algo muito conhecido que se apresenta como muito estranho.

Você vai oferecer um jantar para três filósofos, quem são eles? Pode ser um jantar em alguma outra dimensão, com autores já mortos.

Chamaria Foucault, em primeiro lugar, porque ele foi um defensor dos prazeres. E devia ser um sujeito divertido, como dizem os brasileiros que o conheceram. E convidaria Arthur Schopenhauer e Mary Wollstonecraft. Eles não se conheceram. Foucault merecia estar presente no encontro dessas figuras, um machista como Schopenhauer e uma feminista como Wollstonecraft, dois sujeitos nada encaixados no tempo na virada do século 18 para o 19. Dizem que Schopenhauer era um bon vivant. Ela, infelizmente, morreu de complicações de parto (era a mãe de Mary Shelley). Ser feminista naquela época não devia ser nada fácil. Eu e ela conversaríamos sobre feminismo. Schopenhauer assistiria incomodado. Foucault riria. Parece um sonho.

Você vai oferecer um jantar para três ficcionistas, quem são eles? Com as mesmas amplas possibilidades dimensionais do jantar para os filósofos ;).

Não tenho dúvida que convidaria Thomas Bernhard. Tenho certeza que seríamos amigos. Convidaria também Kafka, apenas para poder olhar para ele. Tenho certeza que ficaria quieto. Eu e Thomas tentaríamos entrevistá-lo, mas ele disfarçaria até o fim, fingindo não entender as nossas perguntas. Quando a situação estivesse difícil, porque estaríamos constrangidos com a falsa surdez de Kafka, chegaria um sujeito atrasado que teria vindo por pura curiosidade. Ele nos contaria muitas histórias e, por fim, pediria que lêssemos alguma coisa nova para ele porque estava cego. Advinha quem era? Borges.

Qual obra filósofica ou ensaística mais influenciou sua visão de mundo?

Eu fiz um doutorado em filosofia sobre Theodor Adorno. Se há um livro que me fez pensar na questão do método em filosofia, esse livro foi a Dialética negativa, que se propõe como um antimétodo.  Não é um livro fácil. Até hoje me faz pensar coisas que nunca pensei antes.

Que livro você recomendaria à população brasileira neste momento? Um livro que todo mundo tem que ler agora. E para a presidente Dilma?

Todo mundo deveria ler e reler Vidas secas. É um livro tão triste e, ao mesmo tempo, tão esclarecedor sobre a miséria em todos os seus níveis. A miséria do sistema político-econômico, em sua versão sertaneja, rural, patriarcal. Mas há uma miséria que ali expõe todas as outras: é a miséria das palavras. Essa inanição que impede tudo, no extremo impede a democracia, na intimidade impede uma simples conversa. A questão do diálogo impossível, mas mais que isso, a conversa impossível porque a inanição é da linguagem. Num tempo de tanta truculência política, precisamos investir na sensibilização da política. Numa ético-política que seja ao mesmo tempo uma ético-poética. Por aí, do eleitor à presidente.

Eduardo Moreira reflete sobre a atitude do jovem profissional diante do ritmo de sua carreira.

 

wazeprofissional

 

 

Um Waze para as carreiras

 

É incrível como alguns aplicativos podem gerar mudanças incríveis em nossos dias. Entram timidamente em nossas vidas propondo soluções para problemas que todos temos, e antes do que poderíamos imaginar nos tornamos quase que escravos de suas funcionalidades. Passa a ser difícil viver um momento glorioso sem poder compartilha-lo com os amigos através do facebook. O que dizer então de visitar um lugar lindo sem postar uma selfie no Instagram? Não tem a mesma graça. Receber uma lição de moral e não poder “twitta-la” para os amigos… Desesperador! E quanto a enviar uma mensagem pelo whatsapp e saber se já foi lida ou não? Nunca tivemos tanto poder para “cobrar” uma resposta do outro assim. Mas nem todas funcionalidades destes aplicativos são de ordem social. Algumas efetivamente trazem praticidade e eficácia para nossos dias. Como é o caso do Waze, o aplicativo que promete ter sempre a rota mais rápida para nos guiar no penoso trânsito das grandes metrópoles. E que na verdade oferece muito mais do que isso…

Ouvi recentemente, de um taxista, uma interessante colocação sobre qual seria o maior ganho que o Waze trouxe para a vida dos motoristas. E curiosamente não era o fato de trazer o melhor caminho para levar condutores de um ponto a outro da cidade. Segundo ele, o maior beneficio em usar este aplicativo era saber com grande acurácia o horário em que se chegará ao destino desejado. Além de permitir que o motorista se programe e adeque sua agenda para os trajetos que irá percorrer, o fato de saber que o horário previsto para chegada é o melhor que se pode fazer, retira como mágica a ansiedade do condutor. E ao retirar a ansiedade, permite que ele aproveite o caminho. Imediatamente imaginei como seria ter um Waze para as carreiras profissionais.

Ingressar em uma carreira significa percorrer uma trilha que promete levar do ponto A ao B. Da dependencia a independencia financeira. Do descaso ao respeito profissional. Do anonimato ao estrelato. E ao vislumbrarmos aonde queremos chegar, imediatamente surge um componente avassalador em nossas vidas: a ansiedade. Afinal não queremos apenas chegar ao destino final. Queremos chegar rápido! Mas o que é rápido? Um mês, um ano, dez anos? Ao não ter a resposta, rápido se transforma em agora. E a caminhada deixa se ser prazerosa e passa a ser agoniante, quase uma tortura. E numa atitude masoquista, raramente colocamos a culpa no “transito”. Achamos sempre que a culpa é do condutor, no caso nós mesmos.

Seria tão saudável saber que por mais esforço que fizéssemos, e por mais capazes que fossemos, seria impossível alcançar um objetivo profissional antes de uma data especifica. Afinal, existe um caminho que precisa ser percorrido. Carros que tem que ser ultrapassados. Sinais de transito que devem ser respeitados. Nos focaríamos apenas em fazer nosso melhor e em nos manter no melhor caminho. E tiraríamos de nós a ansiedade e a culpa de ainda não ter chegado lá. Curiosamente, ao tirar todo este peso das costas, o caminho ficaria mais divertido, prazeroso e fértil para o aprendizado. E ao promover essa mudança possivelmente receberíamos um aviso do Waze: “uma nova rota foi descoberta, seu tempo de percurso diminuiu”. Exatamente por deixar de ser uma preocupação…

Eduardo Moreira