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O AUTOR COM LEITOR – JACQUES FUX

13 perguntas sobre livros e leituras

“Nesse mar de corrupção no Brasil, todos nos sentimos brochas”

Jacques Fux está entre os grandes destaques dessa nova geração de autores brasileiros que vem chamando a atenção de público e crítica. Formado em Matemática com doutorado e pós doutorado em Literatura, foi premiado em quase tudo o que publicou: sua brilhante tese Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO ganhou o prêmio Capes de Melhor Tese de Letras/Linguística em 2010 e Antiterapias, sua estreia na literatura propriamente dita, foi um dos vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013. Seu próximo livro, Brochadas, está para sair pela Rocco e promete arrancar boas risadas dos leitores_ essa é, por sinal, uma das fortes características de Jacques: fazer graça de si mesmo e do mundo no mais fino humor e ironia judaicos. Perguntado sobre a leitura que recomendaria a nossa excelentíssima presidente, não teve dúvidas: Brochadas. Afinal, quem não se sente brocha diante do Brasil_ e da Dilma_ atualmente? Mas além de piadas e gracejos sobre suas venturas e desventuras_ digo suas pois Jacques é sempre o centro de seus próprios personagens_ seus livros são permeados de referências literárias e filosóficas, de questionamentos sobre a estranheza da existência e os modos de construção de si a partir do outro. Entre reflexões existenciais e significações sociológicas, há as “bundinhas”, sempre as “bundinhas”…

Que livros estão atualmente em sua mesa de cabeceira?

Estou relendo os livros do grande Saul Bellow! O cara é bom demais!

Qual foi o último livro que arrancou de você uma boa gargalhada?

Na verdade, foi uma piada que li no último livro de Ruth Wisse, No Joke: Making Jewish Humor: “Estavam no deserto um italiano, um alemão e um judeu. Vagavam, e já sem esperança alguma de serem salvos, certos do iminente fim, começaram a devanear. O italiano disse: ‘eu estou com tanta sede, tanta sede, que daria tudo por uma taça de vinho’. O alemão suspirou e disse: ‘estou com tanta sede, mas tanta sede, que daria tudo por um copo de cerveja’. O judeu então disse: estou com tanta sede, mas tanta sede, que eu devo estar com certeza com diabetes’.” Também me diverti muito com o maravilhoso humor do Alberto Mussa em seu O senhor do lado esquerdo.

Entre os grandes autores judeus da literatura norte-americana, quem explora melhor o humor judaico?

Eu gosto muito do Philip Roth. Difícil não falar dele. A questão da Mãe, dos complexos, das neuras, dos medos, das paranoias… e também das famigeradas brochadas! Diariamente recebo emails de leitores americanos apontando várias referências que Roth faz aos meus textos. Fico mais que agradecido!

Quais são os melhores títulos de ficção e não ficção sobre a questão judaica? E sobre a Shoah?

E será mesmo que existe uma “questão judaica”? Será que a “grande questão” não é a incapacidade humana de conviver e aceitar o diferente? O estranho? O outro e o igual? Talvez A hora da estrela e o texto “Pertencer” (Nota da Edição: de A descoberta do mundo), ambos da Clarice Lispector, tratem delicadamente dessa questão. Eu me emociono profundamente com suas palavras. Sobre a Shoah, os livros do Primo Levi são fundamentais (numa entrevista ao vivo, o apresentador queria saber mais sobre a minha convivência com esse meu querido “primo”, o Levi, que cito várias vezes no Antiterapias. A minha ficha demorou para cair!). Tem um outro livro muito arrogante, ousado, enciclopédico, mas que apresenta um estudo ficcional, polêmico e rigoroso sobre a Shoah: As benevolentes, do Jonathan Littell.

Diga três livros que contribuíram para o escritor que você é hoje.

Grande sertão veredas, para chorar diante da possibilidade da beleza; Crime e castigo, para se admirar diante do encanto com sofrimento; Cartas a um jovem poeta (NE: de R.M. Rilke), para me proteger de escrever sobre temas banais e cair no lugar comum.

Quem são seus autores favoritos?

O Guimarães Rosa é oitavo Dan! Quase um Deus! Hahaha! Meus favoritos são: Marcel Proust, Jorge Luis Borges, Georges Perec, Italo Calvino, Isaac Bashevis Singer, Melville. E tantos outros.

Qual é o mais importante ensaio de sua experiência de leitor?

A terceira margem do Rio” (NE: de Pequenas estórias) do Rosa, “Os precursores de Kafka” (de Outras inquisições), do Borges, “O tradutor cleptomaníaco” (do livro húngaro sob o mesmo título, bravamente publicado no Brasil pela Editora 34), do (Deszo) Kosztolányi.

Quais são seus três personagens judeus prediletos e por quê?

O Alexander Portnoy, do Roth, por viver o tempo todo no banheiro dedicando-se à autoficção (ele claramente me copiou); o Sabbatai Tzvi (que realmente existiu), por sua brilhante loucura, por convencer muitos de que era o verdadeiro Messias e, logo depois, se converter largando mão dessa tarefa complicadíssima que seria mudar o mundo; e o Golem (não o Gollum, do Tolkien, não!), por sua magia cabalística e pelas inúmeras e infinitas histórias que ainda tem nos proporcionado.

Você já parou no meio de um livro? Qual e por quê?

Claro! Ou o livro estava chato demais, ou eu estava de saco cheio, pensando em largar tudo e ser jogador de squash! Lembro-me de ter começado e largado várias vezes O vermelho e o negro, do Stendhal (estava lendo uma tradução antiga bem ruim!).

Que tipo de leitor você foi na infância? Qual era seu livro favorito?

Leitor? Eu gostava mesmo era de jogar futebol, basquete e tênis! “E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil”, adorava ficar admirando as “bundinhas” drummondianas por aí!

Qual o melhor livro sobre matemática para um leigo?

Eu gosto muito de um cara chamado Raymond Smullyan. Alguns de seus livros foram traduzidos: O enigma de Sherazade, Alice no país dos enigmas, A dama ou o tigre?. Também Alice no país das maravilhas, do (Lewis) Carroll, é um livro fundamental, tanto para a matemática e lógica, quanto para as questões sexuais-analíticas –  junto com o Lolita (de Nabokov).

Qual leitura você mais recomendaria para a presidente Dilma Roussef? E para o povo brasileiro, atualmente?

Sem dúvida alguma eu recomendaria o meu próximo livro: Brochadas. Nesse mar surreal, e quase literário, de corrupção, preconceito e desencanto, acho que todos nós nos sentimos, por vezes, impotentes, prostrados e inteiramente brochas! (Mas brochas são esses perversos ladrões!)

Entrevista por Anna Luiza Cardoso

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