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O AUTOR COM LEITOR – MARCELO BACKES

13 perguntas sobre livros e leituras

 

Pelo tema do pacto com o diabo, Dilma deveria ler Doutor Fausto”

 

Marcelo Backes é um viajante. No momento em que postamos este blog, ele está embarcando para Istambul. Entre inúmeras atividades, Marcelo guia por vários países do mundo grupos de alunos _ que fazem com ele oficinas de imersão na obra de diversos autores clássicos _, em um projeto de viagens literárias desenvolvido com a Casa do Saber. Mas a vocação de viajante começou quando ele deixou para trás sua Campina das Missões, no interior do Rio Grande, para estudar Jornalismo e Literatura em Porto Alegre. Logo viu-se na Alemanha, tirando um doutorado sobre a poesia de Heine na Universidade de Friburgo (Freiburg). Ficou por lá oito anos, período em que veio a conhecer toda a Europa e que lhe rendeu a criação de Estilhaços Maisquememória, publicados pela Record. Depois de voltar ao Brasil, passou a dar palestras em universidades da Alemanha e da Áustria quase anualmente, parando em Berlim para residências literárias.

No últimos tempos, escreveu O último minuto e A casa cai, publicados pela Companhia das Letras, mais fincados no Brasil. O último minuto saiu ainda pela Del Vecchio na Itália, onde vem sendo aclamado pela crítica _ um forte romance sobre a crise existencial de um ex-técnico de futebol, e uma reflexão sobre o sentido das mudanças na sociedade brasileira. A casa cai traz à cena um personagem que já surgira em O último minuto, ex-seminarista que se apaixona pela viúva do pai e monta para ela uma cobertura no complexo da Selva de Pedra, no Leblon, um dos muitos imóveis do espólio paterno. A narrativa _ sobre pecado, culpa e expiação _ reflete esses temas também no plano do desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro, uma cidade cujas áreas para o investimento imobiliário foram abertas a ferro e fogo não contra o mato e a floresta, mas contra inteiras populações.

Backes é também tradutor. Já traduziu mais de 30 autores austríacos e alemães, incluindo aí Goethe, Schiller, Heine, Nietzche, Kafka e Arthur Schnitzler para várias edições premiadas. De Schnitizerl, está organizando toda a obra em um monumental projeto com a Record. Com tanto envolvimento com a Alemanha, só poderia sair dela a dica de leitura para a presidente Dilma Roussef: O Doutor Fausto, de Thomas Mann, pelo tema do pacto com o diabo.

Que livros se encontram agora sobre sua mesa de cabeceira?

Neste momento, o Corão em três línguas, a poesia de Hafez, um dos maiores poetas de todos os tempos, grandioso, genial, autor de algumas das mais belas metáforas da literatura universal;de Rumi, de Firdusi, e oRubaiya de Omar Khayyam. Tudo por conta de uma viagem de Istambul a Teerã que farei em breve.

Quais são seus romances urbanos favoritos? Romances em que a cidade onde se passa a história seja quase um personagem.

São tantos! Acho maravilhoso conhecer o Rio de Janeiro de novo pelas páginas de Dom Casmurro, passeio pelas ruas de Viena através das obras de Arthur Schnitzler, pelas de São Petersburgo nas páginas de Dostoiévski. Mas não sou exatamente fascinado pelos assim chamados romances de metrópole; John dos Passos e Joyce não estão entre meus escritores preferidos. Sou mais Proust e seu mundo anímico ou Guimarães Rosa e seu sertão, ou então Nabokov e seu interior americano. E prefiro (Robert) Musil a (Alfred) Döblin, embora reconheça a maravilha que é Berlim Alexanderplat.

Qual a cidade mais literária de todos os tempos?

No Brasil, indiscutivelmente é o Rio de Janeiro, que eu aliás homenageio no meu romance A casa cai. Na Europa são tantas: a Londres de Dickens, a Paris de Balzac, a São Petersburgo de Tolstói e Dostoiévski, a Dublin de Joyce

Há algum romance que, tendo o esporte como pano de fundo, o tenha apaixonado? Fora O último minuto, é claro.

Sinceramente, não; sou mais vinculado às coisas da alma aqui dentro do que do mundo lá fora (e o esporte é bem do mundo lá fora), o que aliás também pode ser percebido em O último minuto.

Qual o melhor texto de ficção sobre o futebol _ brasileiro ou não?

Gosto muito, por exemplo, de um conto, bem breve, chamado “Meia encarnada, dura de sangue” de Lourenço Cazarré.

Você conhece algum romance ou texto ficcional cuja tradução _ de e para qualquer idioma _ tenha se igualado ou superado o original?

Se eu tivesse lido Paulo Coelho em português ou em qualquer outra língua do mundo, a resposta seria fácil. Mas já li algumas de suas páginas em português e em alemão e garanto que traduzido ele é um pouco melhor. É muito difícil dizer isso acerca de uma obra de arte, de uma peça literária bem acabada. Às vezes há sonatas compostas para piano que ficam muito bem na flauta, mas o que mais acontece são emendas piores do que os sonetos.

Qual a mais importante obra literária do cânone mundial?

Eu acho que, no século XX, é Em busca do tempo perdido, de (Marcel) Proust, ou então O homem sem qualidades de Robert Musil, cujo título eu talvez traduzisse como “O homem sem propriedades”, ou então “O homem sem atributos”. Na tradição clássica, A divina comédia de Dante e o Fausto de Goethe; são obras de alcance insuperável, inclusive pela abrangência.

Quais são seus romances mais queridos? Não mais que três, por favor.

”  Em busca do tempo perdido, de Proust; Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa; e Doutor Fausto, de Thomas Mann.

Quais são os livros da literatura alemã mais importantes de serem conhecidos pelo leitor brasileiro?

O homem sem qualidades, de Robert Musil, e Doutor Fausto, de Thomas Mann _ se quiseres que eu cite algo volumoso. Michael Kohlhaas, de (Heinrich von) Kleist, e O tenente Gustl, de Arthur Schnitzler, se quiseres duas novelas breves e geniais.

Vão oferecer-lhe um jantar e dizem para você levar três escritores. Quem seriam e por quê?

Autores vivos? Para um jantar eu convidaria amigos e por serem amigos. Meus amigos escritores são quase todos alemães: eu convidaria Ingo Schulze, eu convidaria Sasa Stanisic, e aqui no Brasil eu convidaria Sérgio Faraco, de quem aliás sinto muita saudade. E teria a certeza de que não falaríamos de literatura durante o jantar.

Com qual escritor contemporâneo você gostaria de passar uma tarde conversando?

Com a escritora holandesa Franca Treuer; quem já a viu, não perguntaria por quê.

Qual escritor em atividade vem surpreendendo-o positivamente com seus últimos trabalhos?

E  Eu sempre me surpreendo com o que Ingo Schulze faz, com o que Sasa Stanisic faz.

Que livro a presidente Dilma Roussef precisa ler urgentemente?

Acho que o Doutor Fausto, de Thomas Mann, também pelo tema do pacto com o diabo, seria uma boa.

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